Durante anos, o paciente celíaco foi ensinado a temer o prato. E, em parte, com razão.
Para quem tem doença celíaca, o glúten não é “só um ingrediente”. É um gatilho imunológico capaz de lesar o intestino, perpetuar inflamação, piorar deficiências nutricionais e abrir caminho para complicações sérias.
O problema é que, em alguns pacientes, esse estado permanente de vigilância deixa de ser apenas tratamento e começa a se transformar em sofrimento alimentar. É exatamente aqui que entra um tema ainda pouco discutido fora dos consultórios especializados: o Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo, o TARE.
Um estudo com 289 adultos com doenças digestivas orgânicas encontrou triagem positiva para TARE em 53,7% da amostra total. Entre os pacientes com doença celíaca, o número foi de 48,7%. O dado assusta.
Mas o que ele realmente significa? Significa que quase metade dos celíacos avaliados apresentou um padrão de restrição ou evitação alimentar suficientemente intenso para acender alerta clínico.
Isso não quer dizer, automaticamente, que metade dos celíacos tenha diagnóstico fechado de TARE. Os próprios autores alertam que a ferramenta utilizada no estudo, a NIAS, provavelmente superestima a prevalência em doenças gastrointestinais complexas, porque muitos itens da escala se confundem com sintomas e medos reais dessas doenças. Ainda assim, a mensagem central é poderosa: muitos celíacos podem estar sofrendo mais com a comida do que a medicina reconhece.
O que é Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE)?
O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo, conhecido internacionalmente como ARFID, é um transtorno alimentar marcado por restrição ou evitação importante de alimentos.
Diferentemente da anorexia e da bulimia, ele não é centrado em magreza, peso ou imagem corporal.
No TARE, a restrição costuma surgir por outros motivos, como:
- medo intenso das consequências de comer
- aversão a textura, cheiro ou sabor
- falta de interesse em comer
- lista cada vez menor de alimentos considerados “seguros”
- sofrimento importante relacionado à alimentação
O próprio estudo descreve o ARFID como uma dificuldade em atender às necessidades nutricionais por hipersensibilidade sensorial, falta de interesse em comer ou medo das consequências aversivas da alimentação, associada a desfechos médicos e psicossociais negativos. Em linguagem simples: a pessoa não para de comer porque quer emagrecer. Ela para, restringe ou evita porque comer se tornou uma ameaça.
TARE e doença celíaca: por que essa combinação merece tanta atenção?
Porque a doença celíaca cria um terreno perfeito para medo alimentar. O paciente aprende cedo que um erro pequeno pode causar uma crise grande.Ele descobre que:
- um rótulo pode enganar
- a contaminação cruzada pode acontecer sem ser vista
- comer fora de casa pode ser arriscado
- um alimento “sem glúten” pode nem sempre parecer confiável
- sintomas podem voltar depois de um único descuido
Esse contexto muda a relação com a comida. Em muitos casos, muda demais.
O estudo mostra que a modificação alimentar é comum em doenças digestivas orgânicas e que a evitação alimentar pode se tornar problemática ou até perigosa para alguns pacientes. Na prática, o que começa como proteção legítima pode evoluir para:
- medo crescente de comer
- redução excessiva da variedade alimentar
- sofrimento em situações sociais
- sensação de que quase nada é seguro
- perda de prazer em se alimentar
- piora da qualidade de vida

O que o estudo realmente mostrou sobre TARE em celíacos?
O estudo avaliou adultos com quatro doenças digestivas orgânicas: acalasia, doença celíaca, doença inflamatória intestinal e esofagite eosinofílica.
Os resultados de triagem positiva para TARE foram:
- 78,4% em acalasia
- 48,7% em doença celíaca
- 53,0% em doença inflamatória intestinal
- 42,9% em esofagite eosinofílica

No grupo todo, 53,7% tiveram triagem positiva. Além disso, os pacientes com mais sintomas compatíveis com TARE apresentaram:
- mais ansiedade
- mais depressão
- pior qualidade de vida relacionada à saúde
- pior funcionamento social
Esse ponto é decisivo. Não estamos falando apenas de “manha”, “excesso de zelo” ou “perfil controlador”. Estamos falando de sofrimento real, com impacto psicológico e funcional mensurável.
O detalhe que ninguém pode ignorar: esse estudo não fecha diagnóstico sozinho
Esse é o ponto que protege o artigo de simplificações. O estudo usou a NIAS, uma ferramenta breve de triagem para ARFID/TARE.
Indivíduos com escore total acima de 23, ou escore acima de 12 em subescalas específicas, eram classificados como ARFID+.
Mas os próprios autores reconhecem que, em doenças digestivas orgânicas, a NIAS pode inflar a prevalência. Por quê? Porque sintomas como medo de sintomas gastrointestinais, perda de apetite, saciedade precoce e evitação por medo de passar mal podem existir como parte da própria doença digestiva, sem necessariamente configurarem um transtorno alimentar consolidado.
Os autores chegam a dizer que a NIAS “provavelmente superestima” as taxas de TARE nesse grupo e que não deve ser usada isoladamente como indicador universal de evitação alimentar patológica em doenças digestivas.
Traduzindo: o estudo não diz que metade dos celíacos tem diagnóstico psiquiátrico fechado. O estudo diz que quase metade mostrou sinais suficientes para merecer discussão clínica séria. E isso já é enorme.
Como perceber quando o cuidado com o glúten deixou de ser só cuidado?
Essa é a pergunta mais importante do artigo. Na doença celíaca, restringir glúten é obrigatório. Isso não é transtorno. É tratamento.
O alerta aparece quando a restrição:
- vai muito além do glúten
- reduz drasticamente o número de alimentos aceitos
- empobrece a dieta
- provoca perda de peso
- aumenta ansiedade antes das refeições
- afasta a pessoa de restaurantes, festas e viagens
- transforma a alimentação em tensão permanente
O paciente com TARE em contexto digestivo pode se limitar a poucos “alimentos seguros”, consumidos em quantidades muito pequenas, comer isolado para evitar julgamentos e viver com ansiedade intensa sobre reintrodução alimentar. Esse retrato merece atenção imediata.

Sinais de alerta para TARE em quem tem doença celíaca
Se você é celíaca ou cuida de alguém com doença celíaca, observe estes sinais:
- medo extremo de comer fora de casa
- cardápio cada vez mais curto
- recusa progressiva de alimentos industrializados, mesmo certificados
- sensação de que “quase nada é seguro”
- ansiedade intensa antes de comer
- perda de peso sem intenção
- carências nutricionais recorrentes
- sofrimento social em aniversários, viagens ou encontros
- necessidade de controle absoluto para conseguir se alimentar
- prazer de comer substituído por tensão ou culpa
Um item isolado não fecha nada. Mas um padrão persistente, sim, merece avaliação.
Por que isso pode ser tão perigoso?
Porque um celíaco pode tirar o glúten e, ainda assim, continuar adoecendo. Não mais por ingestão de glúten apenas, mas pela relação destruída com a comida.
O estudo enfatiza que a evitação alimentar está associada a piores desfechos psicossociais e lembra que a desnutrição ligada ao ARFID pode agravar queixas gastrointestinais, elevar risco de outras complicações médicas e até aumentar mortalidade. Em outras palavras:quando o medo de comer toma conta, o prato deixa de ser só um lugar de cuidado. Vira também um lugar de sofrimento.
TARE e doença celíaca: o que fazer se você se reconheceu aqui?
Primeiro: não se culpe.
Muitos pacientes chegaram a esse ponto depois de anos de dor, contaminações, diagnósticos tardios, desinformação e sensação de insegurança constante.
Segundo: não normalize.
Alimentação não deveria ser uma guerra diária.
Terceiro: procure ajuda qualificada.
O melhor cenário é uma equipe que entenda, ao mesmo tempo:
- a gravidade real da doença celíaca
- a necessidade de dieta sem glúten rigorosa
- o risco de deficiências nutricionais
- e a diferença entre adaptação saudável e restrição patológica
O próprio estudo orienta que, diante de evitação alimentar importante, o paciente pode se beneficiar de encaminhamento para nutricionista e/ou psicólogo com treinamento especializado em gastroenterologia.
O que esse estudo muda na prática?
Ele muda o olhar. Mostra que o profissional não pode analisar o paciente celíaco apenas por exames, biópsia, sorologia ou adesão à dieta. É preciso olhar também para a forma como ele come, teme, evita e sofre.
Nem toda restrição é transtorno, ainda mais Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE).
Mas nem todo sofrimento alimentar pode continuar sendo chamado apenas de “adesão correta”. Esse território intermediário existe. E, pelo que este estudo sugere, ele pode ser muito mais comum do que se imaginava.
Perguntas frequentes FAQ
1. Todo celíaco com medo de contaminação tem TARE?
Não. O medo pode ser uma resposta coerente ao risco real. O problema começa quando esse medo se torna excessivo, empobrece a dieta, aumenta o sofrimento e compromete a vida.
2. Quase metade dos celíacos tem mesmo TARE?
O estudo encontrou triagem positiva em 48,7% dos celíacos, mas os próprios autores alertam que a ferramenta utilizada pode superestimar a prevalência. Portanto, o dado é um alerta, não um diagnóstico automático.
3. TARE é a mesma coisa que anorexia?
Não. No TARE, a restrição não gira em torno de corpo ou magreza, mas de medo, aversão ou falta de interesse em comer.
4. Dieta sem glúten pode piorar a relação com a comida?
Pode, especialmente quando o paciente vive em hipervigilância, sem orientação suficiente e com medo recorrente de sintomas.
5. Quem devo procurar?
Idealmente, gastroenterologista, nutricionista com experiência em doença celíaca e profissional de saúde mental que compreenda transtornos alimentares.
Conclusão
O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE) ainda é pouco conhecido do público. Mas o sofrimento que ele descreve é muito familiar para muitos celíacos.
Um estudo recente mostrou que quase metade dos pacientes com doença celíaca avaliados apresentou triagem positiva para esse padrão. E, mesmo que a ferramenta usada superestime a prevalência, a mensagem continua impossível de ignorar: existe um grupo real de celíacos cuja relação com a comida foi gravemente abalada.
Se comer virou medo, se a lista de alimentos encolheu, se o isolamento aumentou e se o corpo já não está sendo nutrido como deveria, isso precisa sair da invisibilidade.
Porque, para o celíaco, não basta tirar o glúten. Também é preciso impedir que o medo destrua o prazer da comida, o convívio com as pessoas e aproveitar a vida.
Referências científicas
- Fink M, Simons M, Tomasino K, Pandit A, Taft T. When Is Patient Behavior Indicative of Avoidant Restrictive Food Intake Disorder (ARFID) Vs Reasonable Response to Digestive Disease? Clin Gastroenterol Hepatol. 2022 Jun;20(6):1241-1250. doi: 10.1016/j.cgh.2021.07.045. Epub 2021 Aug 5. PMID: 34364999; PMCID: PMC8816975.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas neste artigo não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada. Caso você suspeite de doença celíaca, sensibilidade ao glúten ou qualquer condição relacionada, procure um gastroenterologista ou outro especialista qualificado. Nunca retire o glúten da alimentação antes de realizar os exames diagnósticos — isso pode invalidar os resultados sorológicos e dificultar o diagnóstico. Produtos mencionados neste artigo não constituem endosso comercial. Sempre consulte seu médico, gastroenterologista, ginecologista, endocrinologista ou nutricionista antes de iniciar qualquer medicamento, suplementação, terapia hormonal ou mudança no protocolo de tratamento. Cada paciente é único, e as condutas devem ser individualizadas por profissionais habilitados e especializados. O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Todo o conteúdo é produzido de forma independente, com base em fontes científicas verificadas, com o único objetivo de apoiar a comunidade celíaca. Andréa Farias é celíaca diagnosticada desde 2012, jornalista, pesquisadora e fundadora do Eu Celíaca. A autora compartilha sua experiência pessoal como celíaca, pesquisa baseada em fontes científicas, experiência na indústria farmacêutica e relacionamento direto com médicos, pesquisadores e farmacêuticos.
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