A relação entre doença celíaca e doença autoimune da tireoide é uma das associações mais importantes dentro das doenças autoimunes. E, ainda assim, muita gente só descobre essa conexão depois de anos tratando cansaço, anemia, queda de cabelo, constipação, oscilação de peso, infertilidade ou alterações de humor como problemas separados.
Hoje já se sabe que pessoas com doença celíaca têm maior risco de outras doenças autoimunes, incluindo tireoidite de Hashimoto e doença de Graves. O PCDT brasileiro de doença celíaca, atualizado pelo Ministério da Saúde, inclusive orienta dosar TSH e T4 no diagnóstico e investigar Hashimoto quando houver alteração da função tireoidiana.
A mensagem central é simples: se você tem doença celíaca, a tireoide merece atenção. E se você tem doença autoimune da tireoide, especialmente Hashimoto ou Graves, a possibilidade de doença celíaca também deve ser lembrada, principalmente se houver anemia, sintomas intestinais, osteopenia, infertilidade ou dificuldade para controlar a levotiroxina.
Qual é a relação entre doença celíaca e doenças autoimunes da tireoide?
A doença celíaca é uma doença autoimune desencadeada pelo glúten em pessoas geneticamente predispostas. Já as doenças autoimunes da tireoide acontecem quando o sistema imunológico passa a atacar a glândula tireoide.
As duas principais são:
| Doença autoimune da tireoide | O que costuma causar |
| Tireoidite de Hashimoto | Hipotireoidismo, com redução da produção hormonal |
| Doença de Graves | Hipertireoidismo, com excesso de hormônios tireoidianos |
Essa associação não é casual. A doença celíaca e as doenças autoimunes da tireoide compartilham predisposição genética, terreno imunológico comum e maior tendência ao agrupamento de autoimunidades no mesmo paciente ou na mesma família. Revisões científicas descrevem a doença autoimune da tireoide como uma das condições autoimunes mais frequentemente associadas à doença celíaca.
A associação entre doença celíaca e doenças autoimunes da tireoide é bem documentada. Uma meta-análise , com 13 estudos, 15.629 pessoas com doença celíaca e 79.342 controles, encontrou risco cerca de 3 vezes maior de doença tireoidiana em pacientes celíacos. O risco de doença autoimune tireoidiana em pacientes eutireoidianos foi mais de 4 vezes maior, e o risco de hipotireoidismo também foi significativamente aumentado.
No caminho inverso, uma meta-análise, com 6.024 pacientes com doença autoimune da tireoide, encontrou prevalência de doença celíaca confirmada por biópsia de 1,6%. A prevalência foi maior em crianças com doença autoimune da tireoide, chegando a 6,2%, e também foi maior em pacientes com hipertireoidismo 2,6% do que em hipotireoidismo 1,4%. Os autores resumem esse achado como cerca de 1 em cada 62 pacientes com doença autoimune da tireoide tendo doença celíaca confirmada por biópsia.
Um estudo brasileiro com pacientes com tireoidite autoimune encontrou 9,3% de positividade sorológica para doença celíaca e concluiu que sintomas como diarreia ou anemia não devem ser usados como únicos critérios para investigar doença celíaca nesse grupo, porque muitos pacientes podem ser pouco sintomáticos.
Sintomas de tireoidite em pacientes celíacos: onde confunde?
A maior dificuldade é que os sintomas de doença celíaca e tireoide podem se misturar.
| Sintoma | Mais típico de doença celíaca | Mais típico de tireoide | Pode ocorrer nas duas |
| Fadiga | Sim | Sim | Sim |
| Anemia | Sim | Pode coexistir | Sim |
| Constipação | Pode ocorrer | Muito comum no hipotireoidismo | Sim |
| Diarreia | Mais comum na DC ativa | Pode ocorrer no hipertireoidismo | Sim |
| Queda de cabelo | Pode ocorrer por carências | Comum no hipotireoidismo | Sim |
| Ganho de peso | Menos típico | Comum no hipotireoidismo | Sim |
Perda de peso |
Pode ocorrer na DC ativa | Comum no hipertireoidismo | Sim |
| Palpitações | Menos típico | Comum no hipertireoidismo/Graves | Mais sugestivo de tireoide |
| Intolerância ao frio | Pode ocorrer por anemia | Comum no hipotireoidismo | Sim |
Infertilidade/abortos |
Pode ocorrer | Pode ocorrer | Sim |
| Alterações de humor | Sim | Sim | Sim |
Sinais que devem acender alerta em celíacos
Investigue tireoide se, mesmo com dieta sem glúten bem conduzida, houver:
- cansaço persistente;
- queda de cabelo intensa;
- pele seca;
- ganho de peso inexplicado;
- constipação importante;
- intolerância ao frio;
- sonolência;
- depressão ou lentificação mental;
- palpitações;
- tremores;
- perda de peso sem explicação;
- irregularidade menstrual;
- dificuldade para engravidar.
Protocolos de rastreio: o que checar e quando?
O PCDT brasileiro orienta que, no diagnóstico da doença celíaca, sejam solicitados exames como hemograma, ferritina, vitamina B12, glicemia, cálcio, fósforo, densitometria óssea, transaminases, TSH e T4. O protocolo também recomenda acompanhamento médico e nutricional a cada 3 a 6 meses no primeiro ano e, após estabilização, anualmente.
Fluxo prático para o paciente celíaco
Diagnóstico de doença celíaca confirmado
↓Solicitar TSH e T4 livre
↓Se alterado: investigar doença tireoidiana
↓Se suspeita de autoimunidade: considerar anti-TPO e anti-Tg
↓Se normal, mas houver sintomas: repetir conforme avaliação médica
↓Seguimento periódico, especialmente se houver histórico familiar ou outra doença autoimune
Uma revisão sistemática de diretrizes publicada em 2025 mostrou que ainda há variação entre protocolos internacionais sobre quando rastrear tireoide em pacientes com doença celíaca, especialmente em crianças assintomáticas. Ainda assim, há consenso de que as duas doenças se associam e podem ser detectadas por rastreamento sorológico ao longo do tempo.
O glúten afeta a tireoide?
Aqui é preciso separar bem três situações.
1. Quem tem doença celíaca e Hashimoto
Nesse caso, a dieta sem glúten não é opcional. É o tratamento da doença celíaca. Ao controlar a inflamação intestinal e melhorar a absorção de nutrientes, a dieta pode ajudar indiretamente no controle da tireoide, inclusive na absorção da levotiroxina.
Estudos citados em pesquisa brasileira mostram que pacientes com hipotireoidismo e doença celíaca podem precisar de doses maiores de levotiroxina antes do tratamento da doença celíaca, com redução da dose após dieta sem glúten e melhora da absorção intestinal.
2. Quem tem Hashimoto, mas não tem doença celíaca
A evidência é mais limitada. Uma meta-análise de 2023 avaliou dieta sem glúten em pacientes com Hashimoto sem diagnóstico de doença celíaca. Os resultados sugeriram possíveis efeitos em TSH, FT4 e anticorpos, mas os autores ressaltaram que as evidências ainda são insuficientes para recomendar dieta sem glúten para todos os pacientes com Hashimoto sem doença celíaca.
3. Quem suspeita de doença celíaca
Não retire o glúten antes dos exames. Isso pode reduzir anticorpos, melhorar parcialmente a mucosa intestinal e dificultar o diagnóstico.
Doença de Graves e doença celíaca
A doença de Graves é uma doença autoimune da tireoide que costuma causar hipertireoidismo.
Os sintomas mais comuns incluem:
- palpitações;
- taquicardia;
- tremores;
- perda de peso;
- ansiedade intensa;
- intolerância ao calor;
- suor excessivo;
- fraqueza muscular;
- alterações menstruais;
- aumento da tireoide;
- alterações nos olhos em alguns casos.
Em pessoas celíacas, Graves pode ser confundida com doença celíaca ativa porque também pode causar perda de peso, evacuações frequentes, fraqueza e ansiedade.
Atenção: quem tem Graves não deve usar iodo, algas, suplementos “para tireoide” ou fórmulas manipuladas por conta própria. O excesso de iodo pode piorar alguns quadros tireoidianos e deve ser avaliado por endocrinologista.
Suplementos em doença celíaca + tireoide: o que faz sentido investigar?
Doença celíaca pode prejudicar a absorção de nutrientes. Hashimoto e Graves também podem coexistir com carências ou demandas específicas. Mas isso não significa que todos devem suplementar tudo.
| Nutriente | Quando rastrear | Quando considerar suplementar | Risco do excesso |
| Ferro/ferritina | Anemia, fadiga, queda de cabelo | Deficiência confirmada | Náuseas, constipação, sobrecarga se usado sem indicação |
Vitamina D |
Osteopenia, osteoporose, baixa exposição solar | Níveis baixos | Hipercalcemia em excesso |
| B12/folato | Fadiga, anemia, sintomas neurológicos | Deficiência confirmada | Pode mascarar outras deficiências se usado isoladamente |
| Zinco | Queda de cabelo, baixa imunidade, dieta restrita | Deficiência ou suspeita clínica | Pode reduzir cobre |
Selênio |
Discussão em Hashimoto, baixa ingestão | Apenas com orientação | Excesso pode causar toxicidade |
| Iodo | Suspeita de deficiência ou excesso | Com avaliação médica | Pode piorar Hashimoto ou Graves em alguns casos |
| Cálcio | Osteopenia, osteoporose, baixa ingestão | Deficiência ou risco ósseo | Cálculo renal, interação com levotiroxina |
Regra prática: suplemento não é tratamento de doença celíaca nem de Hashimoto. Suplemento corrige deficiência. E deficiência se confirma com exame e contexto clínico.
Eixo intestino, microbiota e tireoide
O intestino e a tireoide conversam mais do que parece.
Pesquisas sobre o eixo intestino–tireoide discutem mecanismos como:
- aumento da permeabilidade intestinal;
- ativação imunológica;
- citocinas inflamatórias;
- desequilíbrio entre respostas Th17 e Treg;
- disbiose intestinal;
- mimetismo molecular;
- alteração na absorção de micronutrientes.
A meta-análise sobre dieta sem glúten em Hashimoto descreve hipóteses envolvendo permeabilidade intestinal, microbiota, inflamação sistêmica e susceptibilidade genética compartilhada entre Hashimoto, doença celíaca e condições relacionadas ao glúten. Mas os autores deixam claro que ainda faltam estudos maiores e melhor desenhados para transformar essas hipóteses em recomendações universais.
Isso é importante porque muita desinformação nasce exatamente aqui: pegar mecanismos plausíveis e vender como certeza clínica.
Abordagem integrativa: o que é razoável e o que é exagero?
Uma abordagem integrativa baseada em evidência não significa trocar medicina por promessa. Significa olhar o paciente inteiro, sem abandonar diagnóstico correto, exames e tratamento médico.
Hashimoto sem doença celíaca
Pode fazer sentido avaliar:
- qualidade da alimentação;
- sono;
- estresse;
- atividade física;
- vitamina D;
- ferro/ferritina;
- B12;
- uso correto da levotiroxina;
- interação com cálcio, ferro, café e suplementos;
- presença de sintomas gastrointestinais que indiquem investigação de doença celíaca.
Mas não há evidência suficiente para prescrever dieta sem glúten para todo paciente com Hashimoto sem doença celíaca.
Hashimoto com doença celíaca
A lógica muda. Aqui, a dieta sem glúten é obrigatória. O foco integrativo deve ser:
- dieta sem glúten segura;
- prevenção de contaminação cruzada;
- correção de deficiências;
- melhora da absorção intestinal;
- ajuste adequado da levotiroxina;
- acompanhamento com gastro, endócrino e nutrição;
- cuidado com saúde mental e qualidade de vida.
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FAQ – Perguntas Frequentes
Quem tem Hashimoto precisa cortar glúten?
Não necessariamente. Se a pessoa tem doença celíaca confirmada, sim: a dieta sem glúten é obrigatória. Se tem Hashimoto sem doença celíaca, a retirada de glúten não é recomendação universal e deve ser individualizada.
Doença celíaca pode causar hipotireoidismo?
Ela não “causa” diretamente em todos os pacientes, mas as duas doenças compartilham risco autoimune. Pessoas com doença celíaca têm maior risco de doença autoimune da tireoide.
Quem tem tireoidite de Hashimoto deve investigar doença celíaca?
Deve conversar com o médico, especialmente se houver anemia, sintomas intestinais, osteopenia, infertilidade, baixa ferritina, deficiência de vitaminas ou necessidade alta de levotiroxina.
Qual exame vê Hashimoto?
Geralmente TSH e T4 livre avaliam a função da tireoide. Anti-TPO e anti-Tg ajudam a investigar autoimunidade tireoidiana.
Qual emoção afeta a tireoide?
Estresse pode piorar percepção de sintomas, sono, ansiedade e qualidade de vida, mas não deve ser tratado como “causa emocional” simplista de Hashimoto ou Graves. São doenças autoimunes reais e precisam de avaliação médica.
A tireoide afeta o intestino?
Sim. Hipotireoidismo pode causar constipação e digestão lenta. Hipertireoidismo pode aumentar o ritmo intestinal. Por isso, sintomas intestinais em celíacos nem sempre são apenas “glúten”.
Probiótico trata Hashimoto?
Não há evidência suficiente para considerar probiótico tratamento de Hashimoto. Pode haver interesse científico no eixo intestino–microbiota–tireoide, mas a indicação deve ser individualizada.
Conclusão
Doença celíaca e doença autoimune da tireoide caminham juntas com frequência suficiente para que uma nunca seja ignorada na presença da outra.
Para o paciente, isso significa uma mensagem prática: se você é celíaco e continua cansado, com queda de cabelo, alteração de peso, constipação, palpitações, frio excessivo, ansiedade ou irregularidade menstrual, não atribua tudo automaticamente ao glúten. A tireoide pode estar envolvida.
E se você tem Hashimoto ou Graves e convive com anemia, sintomas intestinais, osteopenia, infertilidade ou dificuldade para ajustar levotiroxina, a doença celíaca também merece entrar na investigação.
O melhor cuidado não é cortar glúten por moda, nem tomar suplemento por conta própria. É fazer o caminho certo: diagnóstico, exames adequados, acompanhamento médico, nutrição especializada e tratamento individualizado.
Referências científicas e fontes
- PCDT Doença Celíaca, Ministério da Saúde/CONITEC, 2025. Serviços e Informações do Brasil
- D’Ambrosio et al. Revisão sistemática de diretrizes sobre rastreamento de doença celíaca em crianças com doença tireoidiana e vice-versa, 2025.
- Piticchio et al. Meta-análise sobre dieta sem glúten em tireoidite de Hashimoto sem doença celíaca, 2023.
- Ventura et al. Estudo brasileiro sobre prevalência de doença celíaca em pacientes com tireoidite autoimune.
- Increased Incidence of Thyroid Disease in Patients with Celiac Disease: A Systematic Review and Meta-Analysis
- Prevalence of Celiac Disease in Patients with Autoimmune Thyroid Disease: A Meta-Analysis
- Increased Incidence of Thyroid Disease in Patients with Celiac Disease: A Systematic Review and Meta-Analysis | PLOS One
- Prevalence of Celiac Disease in Patients with Autoimmune Thyroid Disease: A Meta-Analysis – PubMed
Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas neste artigo não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada. Caso você suspeite de doença celíaca, sensibilidade ao glúten ou qualquer condição relacionada, procure um gastroenterologista ou outro especialista qualificado. Nunca retire o glúten da alimentação antes de realizar os exames diagnósticos — isso pode invalidar os resultados sorológicos e dificultar o diagnóstico.
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Cada paciente é único, e as condutas devem ser individualizadas por profissionais habilitados e especializados.
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