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Escala de Marsh na doença celíaca: o que significa no laudo da biópsia?

escala de Marsh doença celíaca

Receber o laudo da biópsia com termos como “Marsh 1”, “Marsh 3a”, “atrofia vilositária”, “hiperplasia de criptas” ou “aumento de linfócitos intraepiteliais” pode assustar.

Muita gente sai da endoscopia achando que o exame “deu normal”, mas depois recebe o resultado da anatomia patológica com uma classificação que parece impossível de entender. E, na doença celíaca, esse detalhe importa muito: a lesão pode ser microscópica, irregular e não aparecer a olho nu durante a endoscopia.

A escala de Marsh é uma forma de descrever, no microscópio, o grau de alteração da mucosa do intestino delgado. Ela não deve ser interpretada sozinha, nem define se uma pessoa é “mais celíaca” ou “menos celíaca”. O laudo precisa ser analisado junto com sintomas, anticorpos, consumo de glúten, número de biópsias coletadas e avaliação médica.

Este artigo explica o que é a classificação de Marsh, o que significam Marsh 0, 1, 2, 3a, 3b e 3c, quando o resultado sugere doença celíaca e por que alguns laudos exigem investigação mais cuidadosa.

 

 

O que é a escala de Marsh?

A escala de Marsh é uma classificação histológica usada para descrever alterações na mucosa do intestino delgado, especialmente no duodeno, em pessoas investigadas para doença celíaca.

Ela nasceu a partir do trabalho de Michael Marsh, publicado em 1992, que propôs um modelo para entender o espectro de alterações intestinais relacionadas à sensibilidade ao glúten. Depois, a classificação foi modificada por Oberhuber e outros autores, dando origem ao sistema conhecido como Marsh-Oberhuber, que ainda aparece em muitos laudos.

Na prática, a escala ajuda o patologista a organizar três achados principais:

  • aumento de linfócitos intraepiteliais, ou LIEs;
  • hiperplasia de criptas;
  • atrofia das vilosidades intestinais.

Esses achados mostram como a mucosa do intestino está no momento da biópsia.

 

 

Antes de tudo: o que são vilosidades, criptas e linfócitos intraepiteliais?

Para entender o laudo, é útil visualizar o intestino por dentro.

A mucosa do intestino delgado tem pequenas projeções chamadas vilosidades. Elas aumentam a área de contato com os alimentos e ajudam na absorção de nutrientes.

Entre essas vilosidades ficam as criptas, que são estruturas glandulares responsáveis pela renovação das células intestinais.

Já os linfócitos intraepiteliais são células de defesa presentes no revestimento intestinal. Eles fazem parte do sistema imune da mucosa. Na doença celíaca, a exposição ao glúten pode aumentar esses linfócitos e, em estágios mais avançados, causar encurtamento ou desaparecimento das vilosidades.

 

 

A escala de Marsh confirma doença celíaca?

A escala de Marsh ajuda muito, mas não deve ser usada isoladamente. O diagnóstico da doença celíaca depende da integração entre:

  • história clínica;
  • sintomas intestinais e extraintestinais;
  • exames de sangue, como anti-transglutaminase IgA e antiendomísio;
  • IgA total;
  • biópsia duodenal;
  • consumo de glúten antes dos exames;
  • HLA-DQ2/DQ8 em situações específicas;
  • exclusão de outras causas de lesão intestinal.

No Brasil, o PCDT de Doença Celíaca do Ministério da Saúde reforça que testes sorológicos acompanhados de biópsia duodenal ainda são essenciais para confirmar o diagnóstico. O mesmo protocolo descreve que o diagnóstico histológico envolve atrofia das vilosidades associada ao aumento de linfócitos intraepiteliais.

Em termos práticos: Marsh 3, quando aparece junto com sorologia positiva e quadro compatível, é um achado muito forte para doença celíaca. Já Marsh 1 e Marsh 2 exigem mais cuidado, porque podem acontecer em outras condições.

 

 

Tabela: o que significa cada grau da escala de Marsh?

Classificação  O que aparece na biópsia  Como interpretar
Marsh 0 Mucosa sem alterações relevantes Pode ser normal. Também pode ocorrer em pessoa já sem glúten ou em amostra inadequada.
Marsh 1 Aumento de linfócitos intraepiteliais, com vilosidades preservadas Não confirma doença celíaca sozinho. Precisa de sorologia, sintomas, consumo de glúten e exclusão de outras causas.
Marsh 2 Aumento de linfócitos + hiperplasia de criptas, sem atrofia vilositária Pode sugerir fase inicial ou potencial, mas é incomum e não fecha diagnóstico isoladamente.
Marsh 3a Atrofia vilositária leve/parcial, com inflamação  Achado compatível com doença celíaca quando o contexto clínico e sorológico apoia.
Marsh 3b Atrofia vilositária moderada/subtotal Achado forte de enteropatia celíaca em contexto adequado.
Marsh 3c  Atrofia vilositária intensa/total Achado de atrofia importante. Deve ser interpretado com sorologia, sintomas e exclusão de outras enteropatias.
Marsh 4 Atrofia total com hipoplasia de criptas Categoria histórica, rara e menos usada na prática atual. Exige avaliação especializada.

 

 

O que significa Marsh 0?

Marsh 0 significa que a mucosa analisada não mostrou alterações histológicas relevantes.

Em uma pessoa sem doença celíaca, isso pode ser simplesmente normal. Mas, em uma pessoa com forte suspeita clínica, Marsh 0 precisa ser interpretado com cuidado.

Algumas situações podem levar a um resultado aparentemente normal:

  • a pessoa retirou o glúten antes da biópsia;
  • foram coletados poucos fragmentos;
  • não houve amostras do bulbo duodenal;
  • a lesão era irregular e não foi capturada;
  • houve problema de orientação ou preparo da amostra;
  • a suspeita clínica era baixa e os sintomas têm outra causa.

Por isso, uma biópsia normal não deve ser vista isoladamente como “fim da investigação” quando há anticorpos positivos ou forte suspeita clínica.

 

 

O que significa Marsh 1?

Marsh 1 indica aumento de linfócitos intraepiteliais, mas com vilosidades preservadas.

Esse achado também pode aparecer como “duodenite linfocítica” ou “linfocitose intraepitelial”. Ele chama atenção, mas não é específico de doença celíaca.

A diretriz do American College of Gastroenterology destaca que a infiltração linfocítica, definida como 25 ou mais linfócitos intraepiteliais por 100 células epiteliais, pode ser encontrada na população geral e não pertence, na maioria dos casos, ao espectro da doença celíaca. Mesmo assim, quando há sintomas, anticorpos positivos ou fatores de risco, a investigação deve continuar.

Outras causas possíveis de Marsh 1 incluem:

  • infecção por Helicobacter pylori;
  • uso de anti-inflamatórios não esteroidais;
  • supercrescimento bacteriano no intestino delgado;
  • doença inflamatória intestinal;
  • infecções intestinais, como giardíase;
  • doenças autoimunes;
  • sensibilidade ao trigo ou ao glúten não celíaca;
  • medicamentos;
  • outras enteropatias.

 

 

O que significa Marsh 2?

Marsh 2 indica aumento de linfócitos intraepiteliais associado à hiperplasia de criptas, mas ainda sem atrofia das vilosidades.

É um achado menos comum e também não deve ser interpretado isoladamente. Pode aparecer em alguns casos de doença celíaca inicial, doença celíaca potencial ou dermatite herpetiforme, mas precisa ser correlacionado com anticorpos, sintomas, genética e exclusão de outras causas.

A ACG observa que uma dieta sem glúten pode ser considerada em pessoas sintomáticas com linfocitose duodenal ou lesão Marsh II quando há anticorpos relacionados à doença celíaca elevados, especialmente antiendomísio. Isso mostra que Marsh 2 pode ter valor em contexto adequado, mas não é um “sim” automático.

 

 

O que significa Marsh 3?

Marsh 3 é o estágio em que aparece atrofia das vilosidades.

Esse é o achado histológico mais clássico da doença celíaca. Na classificação de Marsh-Oberhuber, o Marsh 3 foi subdividido em:

  • Marsh 3a: atrofia leve ou parcial;
  • Marsh 3b: atrofia moderada ou subtotal;
  • Marsh 3c: atrofia intensa ou total.

Em muitas conversas clínicas, o paciente ouve que “Marsh 3 confirma doença celíaca”. A ideia está próxima, mas precisa de precisão: Marsh 3 é altamente sugestivo quando aparece em uma pessoa que estava consumindo glúten, com sorologia compatível e sem outra causa melhor para a atrofia vilositária.

A atrofia das vilosidades também pode ocorrer em outras doenças, por isso o laudo não deve ser lido fora do contexto.

 

 

Marsh 3a é menos grave que Marsh 3c?

Do ponto de vista anatômico, Marsh 3a descreve menor grau de atrofia vilositária que Marsh 3c. Mas isso não significa que a pessoa com Marsh 3a tem uma “doença celíaca leve” ou que possa fazer uma dieta menos rigorosa.

A doença celíaca é a mesma. O tratamento é o mesmo: dieta sem glúten rigorosa e permanente, com controle de contaminação cruzada.

O grau de Marsh descreve o estado da mucosa naquele momento. Ele não deve ser usado para liberar consumo ocasional de glúten, nem para comparar sofrimento entre pacientes.

Uma pessoa com Marsh 1 pode ter muitos sintomas. Outra com Marsh 3 pode ter poucos ou nenhum sintoma. A relação entre sintomas, anticorpos e histologia nem sempre é linear.

 

 

Marsh 4 ainda é usado?

Marsh 4 é uma categoria histórica, descrita como atrofia total das vilosidades com hipoplasia de criptas. Na prática atual, ela é pouco usada e deve acender alerta para avaliação especializada, especialmente quando há curso clínico atípico, má resposta à dieta ou suspeita de outras enteropatias.

O próprio PCDT brasileiro destaca que a histologia atual da biópsia do intestino delgado pode ser classificada segundo Marsh tipo 0, 1, 2 ou 3, sem subdivisão, ou segundo Corazza e Villanacci. Isso reflete uma tendência de simplificação para melhorar a reprodutibilidade entre patologistas.

 

 

Marsh-Oberhuber, Marsh simplificada e Corazza-Villanacci: por que existem várias classificações?

A classificação original de Marsh foi modificada ao longo dos anos para tentar melhorar a comunicação entre patologistas e médicos.

A versão Marsh-Oberhuber subdividiu o Marsh 3 em 3a, 3b e 3c. Depois, Corazza e Villanacci propuseram uma classificação mais simples:

Corazza-Villanacci |  Equivalência aproximada   Interpretação prática
Grau A  Marsh 1 e Marsh 2  Lesões não atróficas
Grau B1  Marsh 3a e 3b  Atrofia vilositária parcial/subtotal
Grau B2  Marsh 3c  Atrofia vilositária total

O PCDT brasileiro cita essa correspondência e também registra que a subdivisão de Marsh 3 foi contestada por Marsh e colaboradores em 2015, por possível baixa utilidade prática e reprodutibilidade.

Para o paciente, o ponto mais importante é: a classificação ajuda a descrever o tecido, mas quem interpreta o significado clínico é o médico, junto com o restante da investigação.

 

 

A escala de Marsh mede a gravidade da doença celíaca?

Não exatamente.

Ela mede alterações histológicas da mucosa intestinal no momento da biópsia. Isso não é a mesma coisa que medir “gravidade da pessoa”, risco individual, intensidade de sintomas ou liberdade para flexibilizar dieta.A doença celíaca pode ser:

  • sintomática ou assintomática;
  • intestinal ou extraintestinal;
  • com anticorpos altos ou baixos;
  • com Marsh leve ou com atrofia importante;
  • com anemia, osteopenia, fadiga, infertilidade, sintomas neurológicos ou sem sintomas claros.

Por isso, duas pessoas com o mesmo Marsh podem ter histórias muito diferentes.

 

 

A escala de Marsh tem relação com sintomas?

Pode haver relação com má absorção em alguns casos, mas não existe uma correspondência perfeita.

Em teoria, quanto maior a atrofia das vilosidades, menor pode ser a capacidade de absorção de nutrientes. Isso pode favorecer anemia, deficiência de vitaminas, perda de peso, diarreia ou osteopenia.

Mas, na prática, a doença celíaca é muito variável. Há pessoas com atrofia importante e poucos sintomas. E há pessoas com alterações iniciais, mas que se sentem muito mal.

Por isso, sintomas não substituem exames. E o laudo da biópsia não substitui a avaliação clínica.

 

 

Quais achados o laudo da biópsia deveria trazer?

Um bom laudo anatomopatológico para suspeita de doença celíaca deve ser mais específico do que “duodenite” ou “sem alterações significativas”.

Idealmente, ele deve informar:

  • número de fragmentos analisados;
  • se houve amostra do bulbo duodenal;
  • se houve amostras da segunda porção do duodeno;
  • arquitetura das vilosidades;
  • relação vilosidade/cripta;
  • presença ou ausência de hiperplasia de criptas;
  • contagem ou estimativa de linfócitos intraepiteliais;
  • presença ou ausência de atrofia vilositária;
  • classificação histológica, como Marsh, Marsh-Oberhuber ou Corazza-Villanacci;
  • observações sobre orientação ou qualidade da amostra, se houver.

A revisão “How to diagnose coeliac disease in 2026?” reforça que a orientação correta da biópsia é essencial para a avaliação histológica e que o laudo deve destacar trofismo vilositário, relação vilosidade/cripta, número de linfócitos intraepiteliais, estruturas glandulares, lâmina própria e graduação Marsh-Oberhuber.

 

 

Tabela: termos comuns no laudo e o que significam

Termo no laudo  Significado provável Comentário
Linfócitos intraepiteliais aumentados Mais células de defesa no revestimento intestinal Pode ocorrer na doença celíaca, mas também em outras condições.
Hiperplasia de criptas Alongamento ou aumento das criptas intestinais Sugere resposta regenerativa/inflamatória da mucosa.
Atrofia vilositária Encurtamento ou perda das vilosidades Achado importante na doença celíaca, especialmente quando há sorologia positiva.
Marsh 1 Linfócitos aumentados, vilosidades preservadas Não confirma doença celíaca sozinho.
Marsh 2 Linfócitos aumentados + hiperplasia de criptas Precisa de forte correlação clínica e sorológica.
Marsh 3a Atrofia leve/parcial Compatível com doença celíaca em contexto adequado.
Marsh 3b Atrofia moderada/subtotal Achado forte quando há sorologia e quadro compatíveis.
Marsh 3c Atrofia intensa/total Achado de atrofia importante; exige interpretação completa.
Duodenite inespecífica Inflamação sem causa definida no laudo Pode exigir revisão clínica, sorologia e, às vezes, revisão da lâmina.

 

 

Quantas biópsias são necessárias para avaliar Marsh corretamente?

A qualidade da biópsia influencia diretamente a chance de diagnosticar corretamente a doença celíaca.

As lesões podem ser irregulares. Uma área do duodeno pode estar alterada e outra não. Por isso, coletar poucos fragmentos aumenta o risco de falso negativo.

O PCDT brasileiro recomenda ao menos seis fragmentos da mucosa intestinal, incluindo dois do bulbo duodenal e quatro da segunda porção do duodeno.

A diretriz da ACG recomenda múltiplas biópsias, incluindo 1 ou 2 fragmentos do bulbo e pelo menos 4 do duodeno pós-bulbar. A ACG também cita dados de 132.352 pacientes mostrando que a probabilidade de novo diagnóstico de doença celíaca foi maior quando 4 ou mais fragmentos foram enviados para análise: 1,8% versus 0,7% quando menos de 4 fragmentos foram submetidos.

A revisão de 2026 acrescenta outro dado importante: um estudo britânico mostrou que 12,4% dos pacientes recém-diagnosticados com doença celíaca haviam feito pelo menos uma gastroscopia não diagnóstica nos cinco anos anteriores, sem biópsias duodenais coletadas. Isso ajuda a explicar por que uma endoscopia sem biópsia, ou com biópsia insuficiente, pode atrasar o diagnóstico.

 

 

O que é doença celíaca com lesão apenas no bulbo?

Algumas pessoas têm lesão restrita ao bulbo duodenal, a primeira parte do duodeno.

A revisão de 2026 cita um estudo internacional com 2.016 pacientes, no qual 137 tinham doença celíaca “ultra-curta”, com atrofia vilositária limitada ao D1, ou bulbo duodenal. Esses pacientes tinham sintomas semelhantes aos de pessoas com envolvimento da segunda porção do duodeno, mas títulos mais baixos de anti-transglutaminase IgA.

Isso reforça por que a coleta do bulbo importa. Se o bulbo não for biopsiado, algumas pessoas podem ser classificadas de forma errada e ter o diagnóstico atrasado.

 

 

Marsh 1 ou Marsh 2 podem ser doença celíaca?

Podem, mas não automaticamente.Marsh 1 e Marsh 2 são lesões não atróficas. Elas podem ocorrer em fase inicial, doença celíaca potencial, dermatite herpetiforme ou em paciente com baixa ingestão de glúten antes da biópsia. Mas também podem ocorrer em muitas outras condições.

Por isso, a pergunta correta não é apenas “deu Marsh 1?”.

A pergunta é:

  • a pessoa estava comendo glúten antes dos exames?
  • o anti-transglutaminase IgA estava positivo?
  • o antiendomísio estava positivo?
  • a IgA total foi medida?
  • há HLA-DQ2 ou DQ8?
  • existem sintomas compatíveis?
  • há histórico familiar?
  • foram excluídas outras causas de inflamação duodenal?
  • a coleta foi adequada?

Sem esse conjunto, o risco de erro é alto.

 

 

Quais outras doenças podem parecer doença celíaca na biópsia?

Algumas condições podem causar aumento de linfócitos, inflamação ou até atrofia vilositária sem serem doença celíaca.

Entre os diagnósticos diferenciais estão:

  • infecção por Helicobacter pylori;
  • giardíase;
  • supercrescimento bacteriano do intestino delgado;
  • doença de Crohn;
  • enteropatia autoimune;
  • imunodeficiência comum variável;
  • uso de medicamentos, como anti-inflamatórios e alguns anti-hipertensivos;
  • sprue tropical;
  • alergias alimentares em alguns contextos;
  • outras enteropatias.

É por isso que o laudo de Marsh não deve ser usado como diagnóstico isolado.

 

 

Se meu laudo veio Marsh 3, posso começar dieta sem glúten?

Você deve levar o resultado ao médico que solicitou a investigação.

Em muitos casos, Marsh 3 com sorologia positiva e história compatível confirma doença celíaca. Mas é importante que o médico confira se a biópsia foi feita enquanto você consumia glúten, se a sorologia foi adequada, se a IgA total foi avaliada e se não há outro diagnóstico mais provável.

Depois do diagnóstico confirmado, a dieta sem glúten deve ser rigorosa e permanente.

O que não é indicado é começar a dieta por conta própria antes de completar os exames, porque isso pode normalizar anticorpos, favorecer cicatrização da mucosa e dificultar a confirmação diagnóstica.

 

 

A escala de Marsh serve para acompanhar a recuperação intestinal?

Pode servir, especialmente em casos selecionados.

Depois da retirada rigorosa do glúten, espera-se melhora clínica, queda dos anticorpos e recuperação progressiva da mucosa. Em alguns pacientes, especialmente adultos, essa recuperação pode demorar. Em outros, sintomas e sorologia melhoram, mas a mucosa ainda não cicatrizou completamente.

A biópsia de controle não é obrigatória para todos no mesmo prazo. Ela pode ser considerada em situações como:

  • sintomas persistentes apesar da dieta;
  • anticorpos que não normalizam;
  • suspeita de contaminação cruzada recorrente;
  • deficiências nutricionais persistentes;
  • dúvida diagnóstica inicial;
  • suspeita de doença celíaca não responsiva;
  • avaliação de cicatrização em adultos, conforme decisão médica.

 

 

Tabela: como interpretar Marsh junto com anticorpos

Resultado da biópsia  Sorologia Interpretação possível
Marsh 0 negativa Doença celíaca improvável se havia consumo adequado de glúten e baixa suspeita clínica.
Marsh 0 positiva Reavaliar coleta, consumo de glúten, laboratório, HLA e possibilidade de doença celíaca potencial.
Marsh 1 negativa Doença celíaca menos provável; investigar outras causas de linfocitose.
Marsh 1 positiva Pode representar doença celíaca inicial/potencial, mas exige correlação clínica.
Marsh 2 positiva Pode apoiar diagnóstico em contexto adequado, principalmente com EMA positivo e HLA compatível.
Marsh 3 positiva Forte compatibilidade com doença celíaca.
Marsh 3 negativa Avaliar IgA total, dieta com glúten, sorologia IgG, HLA e outras causas de atrofia vilositária.

 

 

Atenção, celíacos e pessoas em investigação

Marsh não é “grau de celíaco”.

Uma pessoa com Marsh 3a não pode comer “um pouco de glúten” porque a atrofia foi leve. Uma pessoa com Marsh 0 em dieta sem glúten não está “curada”. E uma pessoa com Marsh 1 não deve ser diagnosticada ou descartada apenas por esse número.

A classificação de Marsh descreve a mucosa no momento da biópsia. O diagnóstico depende do conjunto.

 

 

Perguntas para levar ao médico sobre o laudo

Se você recebeu um laudo com classificação de Marsh, pode perguntar:

  1. Eu estava consumindo glúten suficiente antes da biópsia?
  2. Quantos fragmentos foram coletados?
  3. Houve biópsia do bulbo duodenal?
  4. Houve biópsia da segunda porção do duodeno?
  5. O laudo descreve linfócitos intraepiteliais?
  6. O laudo descreve atrofia de vilosidades?
  7. O resultado foi classificado como Marsh, Marsh-Oberhuber ou Corazza-Villanacci?
  8. Meus anticorpos combinam com a biópsia?
  9. Minha IgA total foi avaliada?
  10. Existe necessidade de HLA-DQ2/DQ8 ou revisão da lâmina?

 

 

FAQ

O que é a classificação de Marsh?

É uma classificação histológica usada para descrever alterações microscópicas na mucosa do intestino delgado, principalmente em biópsias feitas para investigar doença celíaca.

O que é o escore de Marsh?

É outra forma de se referir ao grau ou tipo de Marsh descrito no laudo. Ele pode variar de Marsh 0 a Marsh 3 nas classificações mais usadas atualmente, com subdivisões 3a, 3b e 3c na versão Marsh-Oberhuber.

Qual é o grau de Marsh na doença celíaca?

Não existe um único grau. A doença celíaca pode aparecer com diferentes graus histológicos. Marsh 3, com atrofia vilositária, é o achado clássico em contexto adequado. Marsh 1 e 2 exigem interpretação cuidadosa.

O que significa Marsh 3a?

Marsh 3a significa atrofia vilositária leve ou parcial, geralmente associada a aumento de linfócitos e alterações de criptas. Em uma pessoa com sorologia positiva e consumo de glúten, é compatível com doença celíaca.

O que significa Marsh 3b?

Marsh 3b indica atrofia vilositária moderada ou subtotal. É um achado forte para enteropatia celíaca quando aparece junto com exames de sangue e quadro clínico compatíveis.

O que significa Marsh 3c?

Marsh 3c indica atrofia vilositária intensa ou total. Deve ser interpretado com sorologia, sintomas, consumo de glúten e exclusão de outras causas de atrofia.

Marsh 1 é doença celíaca?

Não necessariamente. Marsh 1 significa aumento de linfócitos intraepiteliais, mas pode ocorrer por várias causas. Pode fazer parte da investigação da doença celíaca se houver anticorpos positivos, sintomas ou fatores de risco, mas não fecha diagnóstico sozinho.

Marsh 2 é doença celíaca?

Também não sozinho. Marsh 2 pode ser compatível com doença celíaca em contexto adequado, especialmente com anticorpos positivos, mas precisa de avaliação médica e exclusão de outras causas.

Marsh 0 exclui doença celíaca?

Nem sempre. Se a pessoa já tinha retirado o glúten, se houve poucas biópsias ou se a lesão era irregular, o resultado pode não excluir completamente. A interpretação depende do contexto.

A escala de Marsh mostra se a doença celíaca é grave?

Ela mostra o grau de alteração da mucosa no momento da biópsia, mas não mede sozinha a gravidade clínica, a intensidade dos sintomas ou o risco individual de complicações.

A biópsia precisa ser repetida para ver se Marsh melhorou?

Nem sempre. A decisão depende da idade, sintomas, evolução dos anticorpos, estado nutricional, adesão à dieta e avaliação médica. Em alguns adultos ou casos persistentes, a biópsia de controle pode ser considerada.

 

 

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Conclusão

A escala de Marsh é uma ferramenta importante para interpretar a biópsia duodenal na investigação da doença celíaca. Ela descreve o que o patologista viu no microscópio: linfócitos aumentados, alteração de criptas e grau de atrofia das vilosidades.

Mas o número de Marsh não deve ser lido sozinho. Ele não define “graus de celíaco”, não substitui os anticorpos, não dispensa avaliação médica e não autoriza flexibilizar a dieta.

O diagnóstico correto depende do conjunto: sintomas, sorologia, consumo de glúten, biópsias bem coletadas, laudo bem descrito e interpretação clínica.

Se o seu laudo veio com Marsh 1, 2, 3a, 3b ou 3c, não tente interpretar sozinho. Leve o resultado ao médico e peça para correlacionar com seus exames de sangue, sua história e a forma como a biópsia foi coletada.

 

Referências Científicas e Fontes

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Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas neste artigo não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada.  Caso você suspeite de doença celíaca, sensibilidade ao glúten ou qualquer condição relacionada, procure um gastroenterologista ou outro especialista qualificado. Nunca retire o glúten da alimentação antes de realizar os exames diagnósticos — isso pode invalidar os resultados sorológicos e dificultar o diagnóstico.

Produtos mencionados neste artigo não constituem endosso comercial. Sempre consulte seu médico, gastroenterologista, ginecologista, endocrinologista ou nutricionista antes de iniciar qualquer medicamento, suplementação, terapia hormonal ou mudança no protocolo de tratamento.

Cada paciente é único, e as condutas devem ser individualizadas por profissionais habilitados e especializados.

O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Todo o conteúdo é produzido de forma independente, com base em fontes científicas verificadas, com o único objetivo de apoiar a comunidade celíaca. Andréa Farias é celíaca diagnosticada desde 2012, jornalista, pesquisadora e fundadora do Eu Celíaca. A autora compartilha sua experiência pessoal como celíaca, pesquisas baseada em fontes científicas, experiência na indústria farmacêutica e relacionamento direto com médicos, pesquisadores e farmacêuticos.

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