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ESPGHAN 2026: o congresso de Lille discutiu trocar o EMA por um segundo TGA — o que isso muda no diagnóstico da doença celíaca

ESPGHAN

Direto da pauta internacional: o que foi discutido no maior congresso de gastroenterologia pediátrica do mundo, na semana passada, e por que isso pode redesenhar o caminho até o diagnóstico — primeiro nos adultos, agora possivelmente nas crianças.

Entre os dias 24 e 27 de junho de 2026, Lille, na França, recebeu a 58ª Reunião Anual da ESPGHAN (European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition) — o encontro científico mais importante do ano para quem estuda doenças digestivas em crianças. E um dos temas mais comentados nas sessões científicas foi um ponto extremamente prático: será que ainda precisamos do EMA para confirmar o diagnóstico de doença celíaca sem biópsia?

A pergunta parece técnica, mas o impacto é enorme. Hoje, esse exame é uma das poucas barreiras que ainda exigem um laboratório bem treinado para liberar uma criança da endoscopia. Se ele puder ser substituído por um teste mais simples, milhares de crianças no mundo — e no Brasil — podem ter um caminho diagnóstico mais rápido, mais barato e mais acessível.

Importante deixar claro desde já: o que foi discutido em Lille é uma apresentação de dados de pesquisa em congresso, não uma diretriz oficial já revisada. A ESPGHAN só atualiza sua diretriz de diagnóstico depois de um processo formal de revisão — o que pode levar alguns anos.

Mas esse tipo de discussão é exatamente o que historicamente antecede as próximas atualizações. Por isso, vale a pena entender agora.

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O que foi discutido sobre a doença celíaca em Lille

O critério atual da ESPGHAN para diagnosticar doença celíaca sem biópsia em crianças exige dois exames de sangue: o TGA-IgA (anti-transglutaminase) acima de 10 vezes o limite superior da normalidade, confirmado por um segundo exame, o EMA (anti-endomísio), feito em uma segunda amostra de sangue.

O problema é que o EMA, apesar de ser bastante específico, tem limitações conhecidas: depende muito da experiência de quem analisa a lâmina no microscópio, está disponível em menos laboratórios e exige mais tempo e estrutura técnica do que um exame automatizado.

Nas sessões sobre doença celíaca do congresso, foi apresentada e discutida a possibilidade de substituir o EMA por uma segunda dosagem de TGA — mantendo a lógica de confirmar o resultado numa segunda amostra, mas usando um teste padronizado, automatizado e muito mais disponível nos laboratórios.

Os dados apresentados vieram de um estudo multicêntrico europeu com 828 crianças que tinham TGA inicial igual ou maior que 10 vezes o limite da normalidade. O achado central: houve forte concordância entre o TGA inicial, a segunda dosagem de TGA e o EMA, com resultados discordantes em apenas cerca de 4% dos casos.

Como esse foi um achado apresentado e debatido durante o congresso — e não, até o momento, um artigo publicado e revisado por pares — tratamos esse número com a cautela que o jornalismo científico exige: é um dado relevante, mas que ainda deve passar pelo processo formal de publicação antes de virar referência definitiva.

Os três cenários testados — e por que eles importam

Durante a discussão, diferentes estratégias diagnósticas foram simuladas para entender o que aconteceria na prática:

Estratégia O que aconteceu Resultado prático
EMA clássico (modelo atual) Alta acurácia mantida Praticamente nenhum falso positivo
TGA repetido, corte baixo (>1x ULN) Sensibilidade aumentou Risco de falso positivo de cerca de 0,1%
TGA repetido, corte rígido (≥10x ULN) Nenhum falso positivo identificado Menos crianças elegíveis para diagnóstico sem biópsia — mais endoscopias necessárias

Ou seja: existe um equilíbrio entre simplificar o exame e manter a segurança do diagnóstico. Quanto mais rígido o corte escolhido para o TGA repetido, mais seguro — mas menos crianças deixam de precisar de endoscopia.

Os casos em que a interpretação fica mais delicada são os de queda significativa do TGA na segunda amostra ou EMA negativo. Inclusive, houve relato de uma criança inicialmente classificada como não celíaca que, depois, evoluiu para diagnóstico confirmado — um sinal de que, nesses casos-limite, a doença ainda pode estar em desenvolvimento no momento do primeiro exame.

 

 

Linha do tempo: como o diagnóstico sem biópsia evoluiu até aqui

Para entender por que essa discussão de 2026 é relevante, ajuda olhar o caminho percorrido até aqui — porque essa não é a primeira vez que o critério muda.

Ano Marco O que mudou
1969 Critérios de Interlaken Biópsia era obrigatória e repetida: antes da dieta, depois da retirada do glúten e após um desafio com glúten
1990 Primeira revisão Uma única biópsia, somada à resposta clínica à dieta sem glúten, passou a ser suficiente; desafio com glúten dispensado em crianças com mais de 2 anos
2012 ESPGHAN cria a 1ª via sem biópsia Crianças sintomáticas com TGA ≥10x ULN, EMA positivo numa 2ª amostra, HLA DQ2/DQ8 e consentimento da família passaram a poder ser diagnosticadas sem endoscopia
2017 Estudo ProCeDE valida o modelo Confirmado prospectivamente em 33 centros de 21 países; mostrou que a tipagem HLA não era necessária para precisão diagnóstica
2020 Atualização ESPGHAN — critério vigente hoje Simplificação: TGA ≥10x ULN + EMA positivo em 2ª amostra, sem exigir sintomas nem HLA
2022 ESPGHAN publica diretriz de seguimento Foco no manejo e acompanhamento pós-diagnóstico — não no teste confirmatório em si
2025 Atualização da ESsCD para adultos Pela 1ª vez, adultos (até 45 anos) ganham via sem biópsia — mas a confirmação já é feita por uma 2ª dosagem de TGA, e não mais por EMA

2026
Discussão na ESPGHAN, em Lille Pesquisa testa se a pediatria pode seguir o mesmo caminho de simplificação já adotado para adultos em 2025

 

 

Por que essa discussão é importante

O ponto mais interessante dessa linha do tempo é este: a simplificação que está sendo discutida para crianças em 2026 já é realidade para adultos desde 2025.

As diretrizes europeias para adultos (ESsCD) já substituíram o EMA por uma segunda dosagem de TGA como teste confirmatório no diagnóstico sem biópsia.

Isso muda a forma de ler a notícia: não é uma ideia nova e isolada — é a pediatria testando se pode adotar uma simplificação que os adultos já têm. E há um motivo prático muito forte para isso: levantamentos com mais de cem hospitais pediátricos ao redor do mundo mostram que a aplicação correta do EMA na prática clínica diária ainda é inconsistente, o que sugere que um teste mais simples e padronizado, como o TGA repetido, poderia reduzir erros de execução — não só burocracia.

No contexto brasileiro, isso é particularmente relevante: o acesso ao EMA é mais restrito fora dos grandes centros, o que já dificulta a aplicação do modelo atual em parte do país. Se a segunda dosagem de TGA vier a ser validada e adotada, o exame de confirmação passaria a depender de uma tecnologia já presente na maioria dos laboratórios — e não de um teste pouco disponível e dependente de quem o analisa.

 

 

O que isso altera nos exames e no diagnóstico?

  Hoje muda O que continua igual
Exame inicial Nada muda — continua TGA-IgA ≥10x ULN TGA-IgA continua sendo o exame de entrada
Exame de confirmação Em discussão: pode passar a ser uma 2ª dosagem de TGA em vez de EMA Continua sendo necessária uma segunda amostra de sangue
HLA Continua sem ser exigido
Biópsia Continua sendo a via padrão para quem não atende aos critérios sorológicos Endoscopia continua indicada para títulos baixos ou intermediários de TGA
Diretriz oficial Ainda não mudou — é uma discussão de pesquisa, não diretriz revisada Critério de 2020 continua sendo o vigente para crianças

Mensagem prática: nada muda hoje, na prática clínica. Os médicos continuam seguindo o critério de 2020 (TGA + EMA) para crianças. O que muda é o horizonte: essa pesquisa é um forte candidato a embasar a próxima revisão da diretriz pediátrica.

 

 

É bom ou ruim?

A resposta honesta é: depende de qual versão for adotada — e isso é o tipo de nuance que costuma se perder quando uma notícia científica vira manchete.

O que pode ser positivo:

  • Um teste mais acessível, padronizado e menos dependente da experiência de quem analisa a amostra;- Potencial de ampliar o acesso ao diagnóstico sem biópsia em regiões com pouco acesso ao EMA — caso do Brasil fora dos grandes centros;
  • Menos endoscopias desnecessárias em crianças com perfil clássico (TGA muito alto e persistente).

O que exige cautela:

  • Com o corte de TGA repetido mais baixo (>1x ULN), o risco de falso positivo, embora pequeno (cerca de 0,1%), existe — e diagnosticar uma criança sem celíaca como celíaca significa uma dieta sem glúten para a vida toda, sem necessidade;
  • Com o corte mais rígido (≥10x ULN), a segurança aumenta, mas menos crianças se livram da endoscopia — ou seja, simplificar para um lado pode significar perder simplificação no outro;
  • Casos de queda do TGA na segunda amostra ou EMA negativo continuam sendo zona de incerteza, em que nenhum modelo, sozinho, resolve o problema;
  • A diretriz pediátrica vigente ainda não mudou — tratar essa discussão como “diagnóstico definitivo já mudou” seria informação incorreta.

Em resumo: é uma simplificação promissora, mas o desafio passa a ser escolher o corte certo — o que prioriza sensibilidade pode aumentar (ainda que minimamente) o risco de erro, e o que prioriza segurança reduz o ganho de simplificação.

 

 

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Contempla adultos, crianças, ou os dois?

Esse é um ponto que gera bastante confusão, porque as diretrizes para adultos e para crianças evoluem em ritmos diferentes — e em 2026 elas estão em momentos diferentes da mesma discussão.

  Adultos Crianças
Diagnóstico sem biópsia existe? Sim, desde 2025 (ESsCD) Sim, desde 2012 (ESPGHAN), atualizado em 2020
Faixa de idade Até 45 anos Toda a infância e adolescência
Teste de confirmação vigente 2ª dosagem de TGA EMA em 2ª amostra
O que está em discussão agora Já implementado Substituir o EMA por 2ª dosagem de TGA, seguindo o caminho dos adultos
Status em 2026 Diretriz oficial Pesquisa em discussão, ainda não incorporada à diretriz

Ou seja: os adultos já vivem essa simplificação. As crianças, não — ainda. A notícia de Lille é sobre a pediatria tentando alcançar o que a medicina de adultos já adota.

 

 

O que isso significa na prática, hoje, para quem está investigando doença celíaca?

  1. Nada muda na investigação de quem está com exames em andamento agora — o critério de 2020 continua sendo o oficial para crianças.
  2. Se o seu filho ou filha tiver TGA muito alto (≥10x o limite), o médico ainda vai pedir EMA em uma segunda amostra, conforme a diretriz vigente.
  3. Não interrompa, adie ou tente “simplificar” exames por conta própria com base nessa discussão — ela ainda não é uma diretriz adotada.
  4. Para adultos, a via sem biópsia com confirmação por segunda dosagem de TGA já é uma realidade nas diretrizes europeias mais recentes — vale conversar com o gastroenterologista sobre isso, caso se aplique ao seu caso.
  5. Acompanhe as próximas publicações da ESPGHAN: é esse tipo de estudo, depois de publicado e revisado por pares, que historicamente embasa atualizações de diretriz.
  6. Se você é celíaco ou tem filhos em investigação, guarde os resultados de TGA em ordem cronológica — a tendência (subida, queda, estabilidade) está se tornando tão importante quanto o valor isolado.   

 

 

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Conclusão

O congresso ESPGHAN 2026, em Lille, não trouxe uma nova diretriz — trouxe uma pergunta de pesquisa muito concreta: o EMA, hoje obrigatório no diagnóstico sem biópsia em crianças, pode ser substituído por um segundo TGA, como já acontece com adultos desde 2025?

Os dados apresentados sugerem que sim, em boa parte dos casos — mas o equilíbrio entre simplificar o exame e manter a segurança do diagnóstico ainda está sendo calibrado. Por enquanto, o critério vigente para crianças continua sendo o de 2020 (TGA + EMA).

O que muda, de fato, é a direção: depois de adultos e crianças seguirem caminhos diferentes por anos, a pediatria pode estar se aproximando da mesma simplificação que os adultos já têm.

Para quem cobre, pesquisa ou vive a doença celíaca, vale acompanhar de perto a publicação formal desses dados — é esse tipo de estudo apresentado em congresso que, historicamente, antecede a próxima atualização da diretriz pediátrica.    

 

 

Referências Científicas e Fontes

  1. ESPGHAN. 58th Annual Meeting of ESPGHAN — Lille, France, 24-27 June 2026
  2. Husby S, Koletzko S, Korponay-Szabó I, et al. European Society Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition Guidelines for Diagnosing Coeliac Disease 2020. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition. 2020;70(1):141-156.
  3. Werkstetter KJ, et al. Estudo ProCeDE — Accuracy in Diagnosis of Celiac Disease Without Biopsies in Clinical Practice. Gastroenterology. 2017.
  4. Al-Toma A, et al. European Society for the Study of Coeliac Disease 2025 Updated Guidelines on the Diagnosis and Management of Coeliac Disease in Adults. Part 1: Diagnostic Approach. United European Gastroenterology Journal. 2025.
  5. Exploring Tissue Transglutaminase Antibodies as a Confirmatory Tool for Diagnosing Coeliac Disease in Children. Diagnostics (MDPI). Publicado em 19 de abril de 2026.
  6. Litwin A, et al. Celiac disease diagnosis in clinical practice: ESPGHAN quality of care survey from 129 pediatric hospitals across 28 countries. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition. 2025.

Nota da redação: os dados sobre o estudo multicêntrico com 828 crianças foram apresentados e discutidos durante as sessões científicas do congresso ESPGHAN 2026, em Lille. Até o fechamento desta pauta, não localizamos a publicação formal, revisada por pares, desse estudo específico — algo comum em achados apresentados em congresso, que costumam ser formalizados em artigo posteriormente. Recomendamos verificar o caderno oficial de resumos da ESPGHAN (publicado pela JPGN Reports) quando disponível, para atualizar esta referência com o link definitivo.  

 

Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas neste artigo não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada.

Caso você suspeite de doença celíaca, sensibilidade ao glúten ou qualquer condição relacionada, procure um gastroenterologista ou outro especialista qualificado. Nunca retire o glúten da alimentação antes de realizar os exames diagnósticos — isso pode invalidar os resultados sorológicos e dificultar o diagnóstico.

Produtos mencionados neste artigo não constituem endosso comercial. Sempre consulte seu médico, gastroenterologista, ginecologista, endocrinologista ou nutricionista antes de iniciar qualquer medicamento, suplementação, terapia hormonal ou mudança no protocolo de tratamento.

Cada paciente é único, e as condutas devem ser individualizadas por profissionais habilitados e especializados.

O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Todo o conteúdo é produzido de forma independente, com base em fontes científicas verificadas, com o único objetivo de apoiar a comunidade celíaca. Andréa Farias é celíaca diagnosticada desde 2012, jornalista, pesquisadora e fundadora do Eu Celíaca.    

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