Quando sintomas neurológicos, intestinais e fadiga se misturam, a investigação precisa ir além do óbvio.
Dormência. Formigamento. Fadiga intensa. Confusão mental. Alterações intestinais. Dor. Fraqueza. Dificuldade de equilíbrio. Sintomas neurológicos que vêm e vão.
Para algumas pessoas, o caminho até o diagnóstico de esclerose múltipla é longo. Para outras, a doença celíaca também demora anos para ser descoberta porque nem sempre aparece com diarreia ou emagrecimento. Muitas vezes, ela se manifesta com anemia, fadiga, alterações neurológicas, dor, constipação, ansiedade ou deficiência de vitaminas.
É aí que surge uma pergunta importante: existe relação entre doença celíaca e esclerose múltipla?
A resposta da ciência ainda não é simples. Existem estudos que sugerem associação entre as duas doenças, especialmente por compartilharem mecanismos autoimunes e sintomas neurológicos. Mas também há revisões mais recentes que não confirmam aumento claro de doença celíaca em pessoas com esclerose múltipla.
O que já está bem estabelecido é que, quando a pessoa tem doença celíaca, o glúten precisa ser totalmente retirado da dieta. E, quando há sintomas neurológicos ou intestinais persistentes, a investigação não deve parar cedo demais.
Doença celíaca e esclerose múltipla têm relação?
Doença celíaca e esclerose múltipla são doenças imunomediadas, mas a relação direta entre elas ainda é debatida. Um estudo espanhol encontrou doença celíaca em 11,1% dos pacientes com esclerose múltipla avaliados, além de 32% em familiares de primeiro grau.
Porém, uma revisão sistemática e meta-análise de 2022, reunindo 16 estudos e mais de 30 mil pessoas, concluiu que a doença celíaca não parece ser prevalente em pacientes com esclerose múltipla.
Na prática, a ciência não sustenta retirar glúten de todos os pacientes com esclerose múltipla, mas sustenta investigar doença celíaca quando há sintomas digestivos, anemia, baixa B12, histórico familiar ou sinais neurológicos compatíveis.
O que é esclerose múltipla?
A esclerose múltipla (EM) é uma doença inflamatória, imunomediada, desmielinizante e neurodegenerativa do sistema nervoso central. Ela afeta cérebro, medula espinhal e nervos ópticos.
No PCDT brasileiro atualizado em 2024, o Ministério da Saúde descreve a EM como doença que envolve substância branca e cinzenta do sistema nervoso central, com etiologia ainda não totalmente compreendida e interação entre fatores genéticos e ambientais.
Na EM, o sistema imune ataca a mielina, camada que protege os neurônios e permite a condução adequada dos impulsos nervosos. Quando essa proteção é danificada, surgem sintomas neurológicos que podem ocorrer em surtos ou evoluir de forma progressiva.
Segundo o Ministério da Saúde, estima-se que a esclerose múltipla afete aproximadamente 40 mil brasileiros, sendo mais frequente em mulheres e geralmente diagnosticada entre 20 e 40 anos.
O que é doença celíaca?
A doença celíaca é uma doença autoimune sistêmica desencadeada pela ingestão de glúten em pessoas geneticamente predispostas. O glúten está presente no trigo, centeio, cevada e derivados.
Quando uma pessoa celíaca consome glúten, o sistema imunológico reage contra, atacando o intestino delgado, causando inflamação e lesão das vilosidades intestinais, estruturas responsáveis pela absorção de nutrientes.
O único tratamento reconhecido é a dieta sem glúten rigorosa e permanente. A ESPGHAN reforça que a doença celíaca é uma condição crônica imunomediada cujo tratamento consiste na adesão estrita e por toda a vida à dieta sem glúten.
Por que essas duas doenças são comparadas?
Doença celíaca e esclerose múltipla entram frequentemente na mesma conversa por três motivos:
|
Ponto em comum |
Doença celíaca |
Esclerose múltipla |
|
Natureza imunológica |
autoimune desencadeada pelo glúten | imunomediada contra sistema nervoso central |
|
Sintomas neurológicos |
neuropatia, ataxia, fadiga, brain fog | dormência, fraqueza, visão alterada, fadiga |
|
Sintomas intestinais |
diarreia, constipação, distensão, dor | constipação, disfunção intestinal e urinária podem ocorrer |
|
Fadiga |
muito comum | muito comum |
|
Deficiência de B12/D |
pode ocorrer por má absorção | pode confundir sintomas e deve ser investigada |
A sobreposição de sintomas pode atrasar diagnósticos. Uma pessoa com doença celíaca não diagnosticada pode apresentar sintomas neurológicos. Uma pessoa com EM pode ter sintomas intestinais por disfunção neurológica. E uma pessoa pode, mais raramente, ter as duas condições.
A deficiência de vitamina D é frequentemente observada tanto em pacientes com doença celíaca não tratada quanto em pessoas com esclerose múltipla. Embora a suplementação não cure nenhuma das duas doenças, níveis adequados de vitamina D são considerados importantes para saúde óssea, imunológica e neurológica.
O que dizem os principais estudos?
A literatura científica não é uniforme. Por isso, é importante separar estudos pequenos, estudos observacionais e revisões sistemáticas.
|
Estudo |
Metodologia |
Objetivo |
Resultado principal |
Leitura prática |
|
Rodrigo et al., 2011 |
Estudo com 72 pacientes com EM, 126 familiares e 123 controles | Avaliar prevalência de doença celíaca em pessoas com EM | Encontrou doença celíaca em 8 de 72 pacientes com EM, ou 11,1%, e em 23 de 126 familiares, ou 32% | Sugere possível associação em subgrupo, mas é estudo pequeno |
|
Olfati et al., 2022 |
Revisão sistemática e meta-análise com 16 estudos e 31.418 pacientes | Avaliar se doença celíaca é prevalente em EM | Concluiu que a prevalência agrupada de DC em pacientes com EM foi próxima de zero | Enfraquece hipótese de associação universal |
|
Thomsen et al., 2019 |
Revisão sistemática sobre glúten e EM | Avaliar papel do glúten na EM | Concluiu que ainda não há evidência suficiente para afirmar que o glúten tenha papel causal na EM | Não sustenta dieta sem glúten para todos com EM |
|
Temperley et al., 2023 |
Estudo sobre ingestão de glúten/laticínios e atividade da EM | Avaliar associação entre dieta e atividade da doença | Não encontrou associação significativa entre ingestão de glúten ou laticínios e atividade da EM ou qualidade de vida | Reforça que retirada de glúten deve ser individualizada |
|
PCDT Brasil, 2024 |
Diretriz nacional | Definir diagnóstico e tratamento da EM no SUS | Estabelece critérios diagnósticos, exames, terapias modificadoras da doença e acompanhamento | A dieta não substitui tratamento neurológico |
Fontes: Rodrigo et al.; Olfati et al.; Thomsen et al.; Temperley et al.; Ministério da Saúde.
Quem tem esclerose múltipla pode comer glúten?
Se a pessoa tem esclerose múltipla, mas não tem doença celíaca, alergia ao trigo ou sensibilidade ao glúten diagnosticada, não há evidência suficiente para recomendar dieta sem glúten obrigatória.
A revisão sistemática sobre glúten e esclerose múltipla concluiu que ainda não há evidência suficiente para afirmar se o glúten desempenha papel na EM.
Além disso, um estudo de 2023 não encontrou associação significativa entre ingestão estimada de glúten e atividade da doença ou qualidade de vida em pessoas com EM.
Mas existe uma exceção importante: se a pessoa com EM também tem doença celíaca, a dieta sem glúten deixa de ser opcional e passa a ser tratamento obrigatório.
Quando investigar doença celíaca em pacientes com esclerose múltipla?
A triagem não precisa ser universal para todos os pacientes com EM, mas pode fazer muito sentido quando existem sinais clínicos associados.
|
Sinal de alerta |
Por que investigar doença celíaca |
|
anemia sem causa clara |
pode indicar má absorção de ferro |
|
baixa vitamina B12 ou folato |
pode contribuir para sintomas neurológicos |
|
osteopenia ou osteoporose precoce |
pode indicar má absorção de cálcio/vitamina D |
|
diarreia ou constipação persistente |
pode ser manifestação intestinal da DC |
|
perda de peso inexplicada |
sinal clássico possível |
|
aftas recorrentes |
manifestação extraintestinal |
|
dermatite herpetiforme |
manifestação cutânea da DC |
|
histórico familiar de doença celíaca |
aumenta risco |
|
ataxia, neuropatia ou brain fog |
podem ocorrer em doenças relacionadas ao glúten |
O ponto central é: sintomas neurológicos não excluem doença intestinal. E sintomas intestinais em uma pessoa com EM não devem ser automaticamente atribuídos apenas à esclerose múltipla.
Quais exames podem ser solicitados?
|
Exame |
O que avalia |
|
Anti-transglutaminase tecidual IgA |
principal exame sorológico para triagem |
|
IgA total |
verifica deficiência de IgA, que pode falsear resultados |
|
Antiendomísio IgA |
exame de alta especificidade |
|
HLA-DQ2/DQ8 |
útil para excluir doença celíaca em alguns casos |
|
Endoscopia com biópsia duodenal |
confirma lesão intestinal quando indicada |
|
Ferro, ferritina, B12, folato, vitamina D |
avaliam consequências nutricionais |
|
Densitometria óssea |
avalia impacto ósseo em casos selecionados |
Importante: não retire o glúten antes de investigar doença celíaca. A retirada prévia pode alterar exames e dificultar o diagnóstico.
Como é feito o diagnóstico da esclerose múltipla?
O diagnóstico da EM é feito pelo neurologista, com base na história clínica, exame neurológico e demonstração de lesões disseminadas no tempo e no espaço. O PCDT brasileiro exige relatório médico completo, exames de neuroimagem e uso dos Critérios de McDonald de 2017 para comprovação diagnóstica.
|
Exame |
Função no diagnóstico da EM |
|
Ressonância magnética de encéfalo e medula |
identifica placas de desmielinização |
|
Punção lombar |
pesquisa bandas oligoclonais no líquor |
|
Potenciais evocados |
avaliam condução nervosa |
|
Exames de sangue |
excluem doenças que imitam EM, como deficiência de B12, lúpus e infecções |
|
Avaliação neurológica |
documenta sinais e déficits clínicos |
Doenças que podem se confundir com esclerose múltipla
A EM exige diagnóstico diferencial cuidadoso. Algumas condições podem causar sintomas parecidos.
|
Condição |
Por que confunde |
|
deficiência de vitamina B12 |
formigamento, fraqueza, alteração de marcha |
|
neuromielite óptica |
neurite óptica e lesões medulares |
|
lúpus |
manifestações neurológicas e autoimunes |
|
doença celíaca com manifestações neurológicas |
neuropatia, ataxia, fadiga, brain fog |
|
enxaqueca com aura |
sintomas visuais e sensitivos |
|
AVC ou AIT |
sintomas neurológicos súbitos |
|
infecções |
podem causar lesões e inflamação |
|
fibromialgia |
fadiga, dor e queixas cognitivas |
Por isso, exames laboratoriais e de imagem são essenciais. No caso da doença celíaca, investigar B12, ferro, vitamina D e anticorpos específicos pode evitar que sintomas sejam atribuídos a uma única causa.
Dieta anti-inflamatória na esclerose múltipla: o que faz sentido?
Nenhuma dieta substitui o tratamento neurológico da EM. Mas padrões alimentares anti-inflamatórios podem apoiar saúde metabólica, microbiota, energia, controle de peso e bem-estar.
O material analisado sobre dieta anti-inflamatória na EM destaca convergência em torno de um padrão próximo ao mediterrâneo: mais vegetais, frutas, azeite de oliva, leguminosas, peixes ricos em ômega-3, castanhas e alimentos minimamente processados, com redução de açúcar, ultraprocessados, gorduras trans e excesso de gordura saturada.
|
Priorizar |
Reduzir |
|
frutas, verduras e legumes coloridos |
refrigerantes e bebidas açucaradas |
|
azeite de oliva extravirgem |
ultraprocessados |
|
sardinha, salmão, atum, cavala |
frituras frequentes |
|
feijão, lentilha, grão-de-bico |
gordura trans |
|
castanhas, nozes, sementes |
excesso de açúcar |
|
arroz integral e aveia sem contaminação |
embutidos e fast food |
Para celíacos, qualquer alimento com glúten deve ser excluído. Para pessoas com EM sem doença celíaca, a retirada do glúten deve ser discutida individualmente com médico e nutricionista.
Atenção celíacos
Se você tem doença celíaca e sintomas neurológicos, não normalize.
Formigamento, falta de equilíbrio, fadiga extrema, confusão mental, neuropatia, dor e alteração de marcha podem ter muitas causas. Algumas são neurológicas. Outras podem ser nutricionais. Outras podem estar relacionadas à exposição contínua ao glúten.
A dieta sem glúten precisa ser rigorosa, sem contaminação cruzada, porque pequenas exposições podem manter inflamação ativa.
E se você tem esclerose múltipla e sintomas intestinais persistentes, anemia, baixa B12, osteopenia ou histórico familiar de doença celíaca, vale conversar com seu médico sobre rastreamento.
O objetivo não é transformar todo sintoma em doença celíaca.
É não deixar uma doença tratável passar despercebida.
Leia mais no Eu Celíaca
FAQ – Perguntas frequentes
Quem tem esclerose múltipla pode comer glúten?
Pode, se não tiver doença celíaca, alergia ao trigo ou sensibilidade ao glúten. A ciência ainda não sustenta dieta sem glúten obrigatória para todos com esclerose múltipla.
Doença celíaca pode afetar o cérebro?
Sim. A doença celíaca pode ter manifestações neurológicas, como neuropatia, ataxia, fadiga, brain fog e alterações por deficiência de vitaminas.
Quais são os primeiros sinais de esclerose múltipla?
Podem incluir visão borrada, neurite óptica, formigamento, dormência, fraqueza, perda de equilíbrio, fadiga intensa e alterações urinárias ou intestinais.
Qual doença pode ser confundida com esclerose múltipla?
Deficiência de vitamina B12, neuromielite óptica, lúpus, infecções, AVC, enxaqueca com aura e manifestações neurológicas da doença celíaca podem entrar no diagnóstico diferencial.
O glúten pode piorar esclerose múltipla?
A evidência ainda é inconclusiva. Estudos não confirmam que o glúten piore a EM em todos os pacientes, mas pessoas com doença celíaca devem excluir glúten completamente.
Quais são os sintomas neurológicos da doença celíaca?
Podem ocorrer neuropatia periférica, ataxia, dores, formigamento, fadiga, confusão mental e alterações cognitivas, especialmente quando há má absorção ou exposição contínua ao glúten.
Esclerose múltipla tem cura?
Ainda não há cura, mas existem terapias modificadoras da doença que reduzem surtos, lesões e progressão em muitos pacientes.
Como é feito o diagnóstico da esclerose múltipla?
Com avaliação neurológica, ressonância magnética, critérios de McDonald, exames de líquor, potenciais evocados e exclusão de doenças que imitam EM.
Conclusão
A relação entre doença celíaca e esclerose múltipla não deve ser tratada com simplismo.
Não há evidência suficiente para dizer que o glúten causa esclerose múltipla ou que toda pessoa com EM precisa retirar glúten.
Mas também não é correto ignorar que as duas doenças podem compartilhar sintomas, envolver mecanismos imunológicos e, em alguns pacientes, coexistir.
A mensagem mais importante é prática: pessoas com EM e sinais de má absorção devem ser avaliadas para doença celíaca. Pessoas celíacas com sintomas neurológicos devem ser investigadas com seriedade. E nenhuma dieta deve substituir diagnóstico, acompanhamento médico e tratamento adequado.
Quando intestino, imunidade e sistema nervoso entram na mesma conversa, a resposta raramente é simples. Mas investigar melhor pode mudar a vida do paciente.
Referências científicas e fontes
1. Rodrigo L, Hernández-Lahoz C, Fuentes D, et al. Prevalence of celiac disease in multiple sclerosis. BMC Neurology. 2011.
2. Olfati H, et al. Is Celiac Disease (CD) Prevalent in Patients with Multiple Sclerosis (MS): A Systematic Review and Meta-Analysis. Multiple Sclerosis International. 2022.
3. Thomsen HL, et al. The role of gluten in multiple sclerosis: A systematic review. Multiple Sclerosis and Related Disorders. 2019.
4. Temperley IA, et al. Dairy and gluten in disease activity in multiple sclerosis. Multiple Sclerosis Journal Experimental, Translational and Clinical. 2023.
5. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Esclerose Múltipla. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 08, de 12 de setembro de 2024.
6. Luque V, et al. Gluten-free diet for pediatric patients with coeliac disease: A position paper from ESPGHAN. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition. 2024.
7. National Multiple Sclerosis Society. Dietary Studies in Multiple Sclerosis.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas neste artigo não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada.
Produtos mencionados neste artigo não constituem endosso comercial. Tão pouco há endosso político/partidário. Consulte sempre o rótulo para identificar a isenção de glúten.
Caso você suspeite de doença celíaca, sensibilidade ao glúten ou qualquer condição relacionada, procure um profissional especialista qualificado, mesmo antes de iniciar qualquer medicamento, suplementação ou mudança no protocolo de tratamento. Cada paciente é único, e as condutas devem ser individualizadas por profissionais habilitados e especializados. Nunca retire o glúten da alimentação antes de realizar os exames diagnósticos — isso pode invalidar os resultados sorológicos e dificultar o diagnóstico.
O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Todo o conteúdo é produzido de forma independente, com base em fontes científicas verificadas, com o único objetivo de apoiar a comunidade celíaca.
Andréa Farias é celíaca diagnosticada desde 2012, empreendedora, jornalista, pesquisadora e fundadora do Eu Celíaca. A autora compartilha sua experiência pessoal como celíaca, pesquisas baseada em fontes científicas, experiência na indústria farmacêutica e relacionamento direto com médicos, nutricionistas, pesquisadores e farmacêuticos.
Eu Celíaca©. Todos os direitos reservados. Reprodução parcial ou total permitida somente com citação da fonte e link para o conteúdo original.











