Mulheres com doença celíaca podem entrar na menopausa mais cedo, ter risco somado de osteoporose por causa da má absorção intestinal, confundir sinais de tireoide autoimune, dor crônica e resistência à insulina com “só menopausa” e, em alguns casos, ainda enfrentar dúvidas sobre a absorção de hormônios por via oral.
Esse cruzamento importa porque a doença celíaca afeta cerca de 1% da população em muitos estudos internacionais, mas continua subdiagnosticada e pode se apresentar fora do padrão gastrointestinal clássico, inclusive em mulheres na meia-idade.
Por isso, diagnóstico diferencial e acompanhamento profissional fazem toda a diferença nessa fase.
Depois do primeiro artigo do Eu Celíaca sobre menopausa e doença celíaca, esta nova etapa da série aprofunda o tema com a visão do Dr. Mario Grieco, médico, pesquisador e estudioso de longevidade, em uma conversa que cruza evidência científica, raciocínio clínico e dúvidas muito reais de consultório.
Convidado especial
Dr. Mario Grieco é médico especialista em Clínica Médica, com atuação em Tratamento Natural Medicinal e fellowship em Internal Medicine nos Estados Unidos. Ao longo de 20 anos vivendo nos EUA, obteve certificação ECFMG e consolidou experiência clínica nessa abordagem. Também construiu trajetória executiva de destaque no setor farmacêutico, com passagens pela presidência de Bristol-Myers Squibb, Pharmacia Upjohn, Monsanto, Pfizer e Moksha8. Foi reconhecido entre os líderes mais influentes da América Latina pelo Longevity Leaders International e recebeu o Colar Cândido Fontoura do Mérito Industrial Farmacêutico. Atualmente realiza pesquisa clínica na USP e na University of Florida, além de ser autor dos livros Você Presidente, Você Vendedor, Alta Performance e Transformação.
Um perfil profissional que ajuda a explicar por que sua abordagem para menopausa na mulher celíaca vai além do manejo hormonal isolado.
“A mulher celíaca que entra na perimenopausa ou na menopausa não traz apenas uma questão hormonal. Muitas vezes, ela chega com um histórico de má absorção, de deficiência nutricional, de doença autoimune associada, de dor crônica, de intestino instável e até de tentativas frustradas de tratamento em outras especialidades. Se o médico olhar só para o estrogênio, perde a parte mais importante da consulta. É justamente essa paciente que precisa de uma leitura clínica mais integrada, porque os sintomas podem parecer comuns, mas a fisiologia por trás deles nem sempre é a mesma.”
Por que a menopausa na mulher celíaca pode ser diferente?
A menopausa natural costuma ocorrer entre 45 e 55 anos, enquanto a menopausa precoce acontece entre 40 e 44 anos, e a menopausa prematura antes dos 40.
Em mulheres com doença celíaca não tratada, revisões e estudos observacionais descrevem associação com menarca tardia, amenorreia, menopausa precoce e período reprodutivo mais curto.
Uma revisão clássica sobre alterações reprodutivas na doença celíaca descreve que infertilidade feminina, amenorreia e menopausa precoce podem ser manifestações da doença, especialmente quando o diagnóstico demora.
A relevância clínica dessa associação vai além da cronologia. Em um estudo citado no artigo original, a frequência de doença tireoidiana autoimune foi de 15,4% em pacientes celíacos versus 7,5% nos controles, praticamente o dobro, com concentração nas décadas que coincidem com a transição menopausal.
Além disso, um consenso recorrente nas revisões é que o diagnóstico e o tratamento precoces da doença celíaca podem reduzir parte do impacto reprodutivo e nutricional acumulado ao longo dos anos.
“Existe uma tendência de tratar menopausa e doença celíaca como capítulos separados da vida da paciente, quando, na verdade, eles podem se somar. A doença celíaca não tratada ou mal controlada pode encurtar o período reprodutivo, piorar carências nutricionais e aumentar a vulnerabilidade óssea justamente no momento em que o estrogênio começa a cair. Então não é apenas dizer que a paciente menopausou cedo ou que os sintomas ficaram mais fortes. É entender por que isso aconteceu e o que ainda dá para corrigir.”
Importante: uma apresentação de congresso recente descreveu maior frequência de distúrbios menopausais em mulheres com doença celíaca, inclusive menopausa prematura, esse material está para ser publicado em periódico revisado por pares. Por isso, ele deve ser tratado como achado preliminar, e não como consenso estabelecido.
Sintomas da menopausa na mulher celíaca: o que pode ser “só menopausa” — ou não
Na prática, o desafio clínico está em diferenciar o que decorre da queda hormonal do que pode estar sendo agravado por doença celíaca ativa, má absorção, deficiência nutricional ou comorbidades autoimunes. Em vez de resumir a queixa à frase “isso é da menopausa”, vale cruzar sintomas, mecanismos possíveis e exames que ajudam a separar essas hipóteses.
| Sintoma ou queixa | Pode ser menopausa? | Pode ter relação com DC não controlada? | Comorbidade associada | O que investigar primeiro | Pesquisa de referência |
| Fogachos e suores noturnos | Sim. São sintomas clássicos vasomotores ligados à queda de estrogênio. | Não são manifestação típica isolada da DC, mas outras condições podem coexistir e amplificar o mal-estar. | Tireoide hiperativa também causa calorões | Avaliação clínica global; se houver indicação de tratamento, discutir terapia hormonal e alternativas não hormonais. | Fisiopatologia dos fogachos — Sanar Med |
| Fadiga persistente | Sim. Pode ocorrer na transição menopausal. | Pode refletir anemia por deficiência de ferro, B12 ou folato por má absorção; mais da metade dos pacientes celíacos pode apresentar deficiência de ferro ao diagnóstico em algumas séries. | Hipotireoidismo | Hemograma, ferritina, ferro, saturação de transferrina, B12, folato, TSH. | Anemia e B12 na DC — PMC8537360 / BeyondCeliac |
| Dor articular, muscular ou generalizada | Pode acontecer, mas é inespecífica. | Pode refletir artralgia associada, dor crônica musculoesquelética, neuropatia relacionada ao glúten, deficiência de vitamina D ou fibromialgia como diagnóstico diferencial. | Fibromialgia e dor (ver seção específica) | Vitamina D, cálcio, magnésio, B12, TSH; revisão da adesão à dieta sem glúten e da história de exposição acidental. | Meta-análise de manifestações articulares (Poddighe et al., 2025) |
| Alterações de humor, ansiedade e irritabilidade | Sim. São frequentes no climatério. |
Podem coexistir com inflamação crônica, carências nutricionais e doença tireoidiana autoimune. | Disfunção tireoidiana autoimune | TSH, anti-TPO, hemograma, ferritina, B12, folato; revisão de sono e sintomas vasomotores. | Tireoidopatia autoimune e DC — PMC9605329 |
| Constipação, gases, distensão ou mudança do trânsito intestinal | Sim. Alterações hormonais podem lentificar o trânsito em parte das mulheres. | Na DC, constipação também pode aparecer como manifestação não clássica, além de ser preciso pensar em síndrome do intestino irritável, ingestão inadequada de fibras e hipotireoidismo. | Síndrome do intestino irritável | Revisão alimentar, hidratação, rastreio de deficiência nutricional, avaliação de controle da DC e da função tireoidiana. | SII e DC Shiha et al. Sundelin et al. Irvine et al. |
| Pele seca, coceira e queda de cabelo | Sim. A queda hormonal, estrogênio, pode contribuir. | Hipotireoidismo autoimune, dermatite herpetiforme e deficiências nutricionais entram no diagnóstico diferencial. | Hipotireoidismo, dermatite herpetiforme e alopécia. | TSH, anti-TPO, ferritina, B12, folato, zinco, magnésio e avaliação dermatológica quando necessário. | Tireoidopatia autoimune — BeyondCeliac Thyroid |
| Perda óssea acelerada | Sim. É esperada após a queda do estrogênio. | A DC soma risco por má absorção de cálcio e vitamina D, mesmo em mulheres já tratadas. | Osteoporose | DXA, 25-OH vitamina D, cálcio, fósforo, magnésio, PTH; discutir periodicidade do exame. | BMD na DC — Nutrition Journal / PMC3378976 |
“A tabela é importante porque tira a paciente e o médico de uma armadilha muito comum, que é resumir tudo à menopausa. Quando se olha sintoma por sintoma, fica claro que fadiga pode ser anemia, dor pode ser deficiência nutricional ou doença ativa, constipação pode ter componente tireoidiano, e perda óssea pode estar sendo acelerada por dois mecanismos ao mesmo tempo. O objetivo não é complicar a consulta, e sim evitar simplificações que atrasam diagnóstico e tratamento.”
Ossos: o ponto mais crítico da menopausa na mulher celíaca
Esse talvez seja o eixo mais sensível dessa combinação.
Revisões sistemáticas mostram prevalência relevante de osteopenia e osteoporose em adultos com doença celíaca, mesmo antes da menopausa, por efeito combinado de inflamação e má absorção de cálcio e vitamina D.
Em mulheres que já entram no climatério com esse histórico, a queda do estrogênio se soma a um terreno ósseo potencialmente fragilizado.
A dieta sem glúten melhora a densidade mineral óssea em muitos casos, mas essa recuperação nem sempre normaliza completamente o risco. Por isso, faz sentido discutir densitometria óssea já no diagnóstico de doença celíaca em mulheres adultas e reavaliá-la com mais atenção na perimenopausa, sobretudo quando houve anos de atraso diagnóstico.
“Na prática clínica, costumo pedir a densitometria óssea já no momento do diagnóstico de doença celíaca em mulheres adultas, e não apenas depois da menopausa. Em pacientes celíacas que estão entrando na perimenopausa, prefiro repetir o exame com maior frequência do que o padrão geral, justamente porque os dois fatores de risco — má absorção e queda de estrogênio — se somam. Quando essa paciente fratura, muitas vezes o problema começou anos antes do primeiro DXA.”
Diagnóstico diferencial: tireoide autoimune, o “gêmeo disfarçado” da menopausa
A doença tireoidiana autoimune tem prevalência maior em pessoas com doença celíaca do que na população geral. Em estudo caso-controle, a frequência foi de 15,4% em pacientes celíacos contra 7,5% nos controles, com maior diferença nas décadas em que muitas mulheres atravessam a perimenopausa e a menopausa.
O impacto prático é grande porque hipotireoidismo e menopausa compartilham sintomas como fadiga, ganho de peso, pele seca, constipação, queda de cabelo e alteração de humor. Sem rastreio laboratorial, é fácil atribuir tudo “à idade” e perder uma doença tratável.
“É muito comum uma paciente chegar ao consultório atribuindo tudo à menopausa, quando na verdade a tireoide está desregulada. Por isso, em pacientes celíacas nessa faixa etária, TSH e anti-TPO entram como rotina na minha avaliação, não como exceção — principalmente se os sintomas forem mais intensos do que o esperado, surgirem junto com constipação, pele seca, queda de cabelo ou não melhorarem com o manejo padrão da menopausa. Toda mulher celíaca na faixa dos 40-55 anos deveria ter avaliação de função tireoidiana como parte do check-up de rotina, especialmente se os sintomas menopausais parecerem desproporcionais ou não responderem bem ao tratamento habitual.”
Dor crônica, artralgia, fibromialgia e neuropatia: o que realmente sabemos hoje
A dor crônica é uma das manifestações extraintestinais mais subestimadas da doença celíaca. Embora muitas mulheres atribuam dores articulares, musculares ou generalizadas exclusivamente ao envelhecimento ou à menopausa, a literatura científica mostra que a própria doença celíaca pode contribuir para diferentes tipos de dor, mesmo na ausência de uma doença reumatológica diagnosticada.
A evidência mais robusta até o momento foi publicada em 2025 em uma revisão sistemática com meta-análise que reuniu 27 estudos e 6.901 pacientes com doença celíaca. Os pesquisadores encontraram uma prevalência combinada de 10,7% de queixas articulares, confirmando que artralgia representa uma manifestação extraintestinal relativamente frequente da doença, independentemente da idade, sexo ou região geográfica.
Mas nem toda dor na paciente celíaca tem a mesma origem. Hoje sabe-se que diferentes mecanismos podem coexistir:
- artralgia inflamatória relacionada à atividade imunológica;
- dor muscular decorrente de inflamação sistêmica ou deficiência de micronutrientes;
- dor óssea secundária à osteopenia, osteoporose ou osteomalácia;
- neuropatia relacionada ao glúten, caracterizada por dor em queimação, formigamento ou sensação de choque;
- sensibilização central, mecanismo também descrito na fibromialgia e em outras síndromes dolorosas crônicas.
Outro fator frequentemente negligenciado é o papel das deficiências nutricionais.
Uma meta-análise publicada em 2025 mostrou que pacientes com doença celíaca apresentam maior probabilidade de deficiência de ferro, ferritina, ácido fólico, vitamina D e zinco, alterações capazes de contribuir para fadiga, fraqueza muscular, dor musculoesquelética e pior recuperação funcional.
A fibromialgia merece atenção especial porque compartilha sintomas importantes com a doença celíaca, como dor difusa, fadiga intensa, distúrbios do sono, alterações cognitivas (“brain fog”) e sintomas intestinais.
Entretanto, as evidências atuais não demonstram que uma doença cause a outra. O que os estudos sugerem é que existe uma sobreposição clínica em parte dos pacientes, exigindo investigação cuidadosa antes de atribuir toda dor à menopausa ou à fibromialgia.
Em um estudo espanhol, até 15% dos pacientes com doença celíaca preenchiam critérios clínicos para fibromialgia. Em outra direção, estudos encontraram doença celíaca em cerca de 1% a 3% dos pacientes com fibromialgia, mostrando que há interseção, mas não uma relação de causa e efeito universal.
Da mesma forma, mulheres celíacas também podem apresentar neuropatia relacionada ao glúten, enxaqueca e outras manifestações neurológicas dolorosas, reforçando que a doença celíaca deve ser entendida como uma condição autoimune sistêmica e não apenas intestinal, com manifestações gastrointestinais e extraintestinais.
Na prática clínica, esses mecanismos raramente ocorrem de forma isolada. A queda do estrogênio pode potencializar vulnerabilidades já existentes da doença celíaca, enquanto a má absorção, as deficiências nutricionais e a inflamação sistêmica podem intensificar sintomas frequentemente atribuídos apenas à menopausa.
“Quando uma mulher celíaca chega ao meu consultório com dor crônica, eu procuro entender primeiro qual é o tipo de dor. Nem toda dor é fibromialgia, nem toda dor vem da menopausa e nem toda dor significa exposição ao glúten. Muitas vezes existem vários mecanismos acontecendo ao mesmo tempo: inflamação residual, deficiência de vitamina D, anemia, neuropatia, perda óssea e até sensibilização do sistema nervoso. O desafio é justamente separar esses componentes para tratar a causa predominante, e não apenas aliviar o sintoma.”
Fogachos: por que acontecem e uma novidade de 2026 que muda o jogo para quem não pode fazer TRH
Os fogachos (ondas de calor) resultam de uma instabilidade no núcleo pré-óptico do hipotálamo, provocada pela queda do estrogênio.
Antes da menopausa, existe um equilíbrio entre o estrogênio e a neurocinina B, substância que ajuda a regular o centro termorregulador do cérebro; quando o estrogênio cai, esse equilíbrio se desorganiza e o cérebro passa a interpretar variações normais de temperatura como calor excessivo — daí o calorão repentino, a vermelhidão e o suor, inclusive à noite.
Isso é particularmente relevante para mulheres celíacas. Quando houver suspeita de má absorção intestinal persistente, pode ser razoável discutir com o médico se a terapia hormonal por via oral continua sendo a melhor opção.
Nesses casos, a disponibilidade de uma alternativa não hormonal eficaz para os fogachos passa a representar uma informação clínica importante.
Novidade recente: em 22 de junho de 2026, a Anvisa aprovou o fezolinetanto (nome comercial Veoza®), primeiro medicamento não hormonal dessa classe autorizado no Brasil especificamente para sintomas vasomotores moderados a intensos da menopausa.
O fármaco age como antagonista seletivo do receptor de neurocinina 3 (NK3), atuando diretamente no hipotálamo, sem interferir na via estrogênica — ou seja, sem ser um hormônio.
A aprovação se baseou em estudos de fase 3 que reuniram mais de 3 mil participantes, com melhora relatada já nas primeiras semanas de uso.
Essa pode ser uma opção especialmente interessante para mulheres celíacas com contraindicação à TRH – terapia de reposição hormonal, com má absorção documentada, ou que simplesmente prefiram não usar hormônio — mas a decisão deve ser sempre individualizada com o médico.
“Em geral, a terapia hormonal continua sendo minha primeira escolha quando não há contraindicação, porque atua em várias frentes além dos fogachos, inclusive na proteção óssea, algo especialmente relevante para a paciente celíaca. Mas em pacientes com contraindicação, com absorção intestinal comprometida, ou que simplesmente preferem não usar hormônio, uma opção não hormonal como o fezolinetanto passa a ser uma alternativa real de discutir, sempre pesando custo, acesso, perfil clínico e benefício individual.”
Importante: até a publicação deste artigo, o medicamento havia sido aprovado pela Anvisa mas ainda dependia da definição de preço pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos) para chegar às farmácias brasileiras — ou seja, aprovado, mas ainda sem data de disponibilidade comercial confirmada. Vale checar a informação mais atualizada antes de publicar, pois isso muda rápido.
Terapia de reposição hormonal (TRH) na mulher celíaca: um detalhe que poucos médicos consideram
Aqui está um ponto pouco discutido nos conteúdos sobre menopausa em geral: mulheres com problemas de má absorção intestinal — como é o caso da doença celíaca ainda em processo de cicatrização da mucosa, ou com exposições acidentais ao glúten — podem simplesmente não absorver o suficiente de um hormônio administrado por via oral para obter o efeito desejado.
Uma revisão sistemática recente comparando as vias oral e transdérmica de TRH concluiu que ambas são parecidas em relação à densidade óssea, metabolismo de glicose e perfil lipídico, mas que a via transdérmica tem risco comprovadamente menor de tromboembolismo venoso, por não passar pelo metabolismo hepático de primeira passagem que a via oral exige.
Para a mulher celíaca, isso ganha uma camada extra de relevância: se o intestino já está comprometido, a via transdérmica (adesivo, gel) pode ser preferível também do ponto de vista de absorção — evitando a variável adicional da má absorção intestinal na equação da dose eficaz.
“Se a paciente tem história de má absorção, sintomas digestivos persistentes, exposição recorrente ao glúten ou doença ainda em fase de controle, faz sentido discutir com mais cuidado se a via oral é realmente a melhor escolha. Às vezes, a questão não é só qual hormônio usar, mas como entregar esse hormônio ao organismo de maneira mais estável. É exatamente nesse tipo de detalhe que uma consulta personalizada muda o resultado do tratamento.”
Um alerta prático e genuinamente brasileiro: glúten em medicamentos
Desde 2022, a Resolução RDC 770/2022 da Anvisa (que substituiu a antiga RDC 137/2003) exige que medicamentos que contenham glúten como excipiente tragam a frase de alerta: “Atenção, portadores de Doença Celíaca ou Síndrome Celíaca: contém glúten”, tanto na bula quanto na embalagem secundária. Muitos comprimidos usam amido (inclusive de trigo) como excipiente — por isso, toda mulher celíaca que inicia TRH deveria pedir ao médico ou farmacêutico para confirmar a ausência de glúten na formulação escolhida, e não presumir que “é remédio, não é comida, então não tem glúten”.
“É um cuidado simples, mas que costuma passar despercebido até por profissionais de saúde. Sempre verifico a bula da formulação prescrita com a paciente celíaca, olhando a lista de excipientes, e oriento que ela confira também com o farmacêutico no momento da compra. O mesmo princípio ativo pode ter formulações diferentes entre fabricantes, e isso muda completamente a segurança prática daquela prescrição.”
Resistência à insulina e risco cardiometabólico: o combo que merece atenção redobrada
A transição menopausal está associada a maior risco cardiometabólico, e mulheres que entram em menopausa precoce ou prematura têm risco aumentado de doença cardiovascular a longo prazo em comparação a quem entra na menopausa depois dos 45 anos — o que reforça a importância de rastreio metabólico (perfil lipídico, glicemia, resistência insulínica) logo no início da transição, e não só depois que sintomas aparecem.
A menopausa também tem sido associada a inflamação crônica de baixo grau, e a proteína C-reativa aparece entre os biomarcadores mais frequentemente estudados nesse contexto. Em pacientes com fadiga, dor, ganho de gordura abdominal, histórico de resistência à insulina ou sintomas desproporcionais, pode fazer sentido discutir PCR ou PCR-ultrassensível, homocisteína, ferritina interpretada em contexto, glicemia, hemoglobina glicada e perfil lipídico.
A homocisteína merece atenção especial porque pode se elevar em cenários de deficiência de folato, vitamina B12 e vitamina B6, um raciocínio particularmente relevante em doença celíaca com má absorção ou dieta pouco equilibrada.
Já a ferritina precisa ser lida com cuidado porque pode refletir tanto estoque de ferro quanto atividade inflamatória.
“Quando falo em inflamação, não estou dizendo que existe um exame único que ‘mede’ a doença celíaca ou a menopausa. O que existe é um conjunto de pistas clínicas e laboratoriais. PCR, homocisteína, ferritina bem interpretada, glicemia, perfil lipídico e avaliação nutricional ajudam a entender se essa paciente está só atravessando a menopausa ou se está acumulando também inflamação de baixo grau, deficiência de vitaminas e risco metabólico maior. Essa diferença muda conduta. Costumo pedir perfil lipídico completo e avaliação de resistência insulínica já no início da perimenopausa, não apenas quando a paciente já apresenta sintomas metabólicos. Em pacientes celíacas, esse rastreio ganha ainda mais peso, porque o histórico de inflamação crônica intestinal pode se somar ao próprio impacto metabólico da queda de estrogênio.”
Dicas práticas: o que observar — para pacientes e para médicos
Para quem já é celíaca e está entrando na perimenopausa ou menopausa
- Não terceirize tudo para “é a idade”. Fadiga, dor, alteração de humor e até irregularidade menstrual podem ter mais de uma causa ao mesmo tempo — vale investigar em vez de assumir.
- Peça (ou repita) a densitometria óssea se ainda não fez, especialmente se o diagnóstico de celíaca veio na vida adulta ou se houve anos de exposição ao glúten antes do diagnóstico.
- Leve o histórico de má absorção para a consulta de ginecologia/endocrinologia, não só para o gastroenterologista — muitos profissionais de outras especialidades não pensam automaticamente em ajustar a via de TRH por causa da doença celíaca.
- Pergunte sobre a via de administração se for iniciar reposição hormonal — oral x transdérmica — principalmente se a doença ainda não estiver 100% controlada.
- Verifique excipientes com glúten em qualquer medicamento novo, incluindo TRH, suplementos e o próprio tratamento para fogachos.
- Não assuma que dor generalizada é “só dor normal da menopausa” sem antes confirmar que a dieta sem glúten está sendo seguida à risca e que não há exposição acidental recorrente.
- Peça rastreio de tireoide (TSH + anti-TPO) e de anemia/B12/ferro/folato como parte do check-up de rotina nessa fase, não apenas quando surgir sintoma.
- Converse sobre biomarcadores inflamatórios e metabólicos quando houver fadiga, ganho de peso central, dor persistente ou histórico de resistência à insulina.
O que fazer na prática: checklist para levar à consulta
- ☐ Densitometria óssea (DXA) — se ainda não fez, ou já faz tempo
- ☐ Hemograma, perfil de vitamina D, saturação de transferrina, cálcio, ferro, ferritina, folato, B12 e avaliação mineral conforme contexto
- ☐ TSH e anticorpos antitireoidianos (anti-TPO)
- ☐ Perfil lipídico e glicêmico / avaliação de resistência insulínica
- ☐ PCR/PCR-us, homocisteína e leitura contextualizada da ferritina em quadros selecionados.
- ☐ Conversa sobre via de administração da TRH (oral x transdérmica), se indicada
- ☐ Checagem de excipientes com glúten em qualquer medicamento e suplemento prescrito
- ☐ Investigação de dor generalizada persistente — descartar causa celíaca ativa antes de rotular como fibromialgia e outras condições
- ☐ Conversa sobre opções não hormonais para fogachos, se houver contraindicação à TRH
- ☐ Revisão da adesão real à dieta sem glúten e dos exames de seguimento da doença celíaca.
Para o médico que atende mulheres na faixa dos 40-55 anos
- Considere doença celíaca ainda não diagnosticada como diagnóstico diferencial em mulheres na perimenopausa com sintomas “atípicos” que não respondem bem ao manejo padrão — a doença pode se manifestar pela primeira vez em qualquer idade, e o tempo médio até o diagnóstico costuma ser de anos.
- A ferramenta de rastreio inicial é o anti-transglutaminase IgA (tTG-IgA) associado à dosagem de IgA total (para excluir deficiência seletiva de IgA, que pode gerar falso-negativo) — não é necessário biópsia para o rastreio inicial, apenas para confirmação diagnóstica.
- A paciente precisa estar consumindo glúten no momento do exame para que o teste sorológico seja confiável — se ela já retirou o glúten “por conta própria”, o resultado pode vir falso-negativo.
- Considere o rastreio mesmo sem sintomas gastrointestinais evidentes, especialmente diante de: anemia ferropriva inexplicada ou refratária à reposição oral, deficiência de B12/folato, osteopenia/osteoporose precoce ou desproporcional à idade, doença tireoidiana autoimune já diagnosticada, infertilidade ou histórico de abortos de repetição, menopausa antes dos 45 anos, ou histórico familiar de primeiro grau com a doença celíaca.
- Doença autoimune da tireoide, diabetes tipo 1 e outras condições autoimunes aumentam o risco de doença celíaca associada — pacientes com esse histórico merecem rastreio mesmo assintomáticas do ponto de vista digestivo.
- Se a paciente já é celíaca conhecida, use a consulta de climatério/menopausa para revisar: adesão real à dieta sem glúten, exames de deficiência nutricional, densitometria óssea e via de TRH — não apenas o manejo hormonal isolado.
Exames para a mulher celíaca na perimenopausa ou menopausa
- Risco ósseo e mineralização: DXA, 25-OH vitamina D, cálcio, fósforo, magnésio e PTH; em algumas situações, vale discutir vitamina K e marcadores adicionais conforme o contexto clínico.
- Carências nutricionais e fadiga: Hemograma, ferritina, ferro sérico, saturação de transferrina, vitamina B12, folato e, se houver suspeita de má absorção persistente, outros micronutrientes individualizados.
- Tireoide autoimune e sintomas confundíveis com menopausa: TSH e anti-TPO como ponto de partida, principalmente diante de fadiga desproporcional, queda de cabelo, pele seca, constipação e ganho de peso.
- Inflamação e risco metabólico: PCR/PCR-us, homocisteína, ferritina com leitura contextualizada, glicemia, hemoglobina glicada, perfil lipídico e, em situações selecionadas, avaliação de resistência insulínica.
- Controle da doença celíaca: Sorologia específica e revisão da adesão à dieta sem glúten continuam centrais no seguimento, conforme diretrizes e melhores práticas de monitoramento.
- Diagnóstico diferencial da dor crônica: Quando houver artralgia, rigidez ou dor persistente, deve-se pensar em medir a deficiência de vitamina D, B12, magnésio, bem como a atividade da doença, hipotireoidismo e avaliação reumatológica conforme a história clínica.
“O erro mais comum é compartimentalizar a paciente: o ginecologista olha os hormônios, o gastroenterologista olha o intestino, o endocrinologista olha a tireoide, e ninguém fecha o raciocínio. A mulher celíaca na menopausa precisa justamente do oposto. Ela precisa de integração. Quando isso acontece, sintomas que pareciam confusos começam a fazer sentido e a resposta ao tratamento costuma melhorar muito.”
Dr. Mário Grieco está disponível para consultas pelo link, ou pelo whatsapp 11 97194-2673.
FAQ – Perguntas frequentes
A mulher pode descobrir doença celíaca só depois dos 40 ou 50 anos?
Sim. A doença celíaca pode se manifestar em qualquer idade, inclusive com sintomas mais sutis ou extraintestinais, o que faz com que parte dos casos só seja reconhecida na vida adulta.
Toda dor na menopausa é hormonal?
Não. Em mulheres com doença celíaca, dor articular, dor muscular, fadiga dolorosa e dor difusa também podem refletir deficiência nutricional, atividade inflamatória, hipotireoidismo, osteopenia, osteoporose ou outro quadro musculoesquelético.
Fibromialgia é doença celíaca?
Não. São condições diferentes, embora possam compartilhar dor, fadiga e queixas intestinais em parte dos casos.
Quais os riscos da resistência insulínica na menopausa para quem é celíaca?
A queda do estrogênio já aumenta o risco cardiometabólico na menopausa, e isso pode ganhar complexidade adicional quando há inflamação, ganho de peso central, sedentarismo ou histórico de má absorção e doença celíaca mal controlada.
A reposição hormonal funciona igual em mulher celíaca?
Pode haver diferença prática em situações de má absorção intestinal ativa, razão pela qual a via transdérmica pode ser discutida em casos selecionados.
A menopausa pode piorar sintomas intestinais em quem já tem doença celíaca?
Pode coincidir com piora de constipação, gases, distensão e desconforto abdominal, mas isso não significa automaticamente reativação da doença celíaca. O mais prudente é revisar dieta, ingestão de fibras, hidratação, controle da doença e causas associadas, como hipotireoidismo e síndrome do intestino irritável.
Faz sentido pedir biomarcadores inflamatórios?
Em pacientes selecionadas, sim. PCR, homocisteína e ferritina interpretada com critério podem ajudar a qualificar o contexto inflamatório, carencial e metabólico, mas não substituem os exames específicos para diagnóstico e seguimento da doença celíaca.
A terapia hormonal oral funciona igual em toda mulher celíaca?
Não necessariamente. Se houver suspeita de má absorção intestinal ativa, vale discutir com o médico se a via transdérmica pode ser mais adequada, além de revisar segurança, perfil trombótico e objetivos do tratamento.
Conclusão
A menopausa da mulher celíaca não deve ser lida como simples variação do climatério comum. Quando sintomas hormonais se sobrepõem a risco ósseo, dor crônica, tireoide autoimune, biomarcadores inflamatórios, vulnerabilidade carencial e dúvidas sobre absorção de medicamentos, a melhor resposta não é banalizar a queixa, e sim qualificar a investigação.
Esse é o ponto central desta conversa com o Dr. Mario: a paciente não precisa escolher entre “é menopausa” e “é doença celíaca”.
Em muitos casos, é justamente a soma das duas condições que explica por que ela está pior do que esperava — e por que merece uma abordagem mais completa, baseada em pesquisa, escuta clínica e personalização real do cuidado.
Esse olhar integrado evita atrasos diagnósticos, reduz tratamentos inadequados e permite uma abordagem mais personalizada da mulher celíaca durante a transição menopausal.
Se você ainda não leu, veja também nosso primeiro artigo sobre menopausa e doença celíaca.
Referências Científicas e Fontes
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