A jornada até o diagnóstico da doença celíaca ainda é longa para milhares de brasileiros. Muitas pessoas convivem durante anos com sintomas como diarreia, distensão abdominal, anemia, fadiga, dores articulares, aftas recorrentes e alterações neurológicas sem receber uma explicação adequada.
O resultado é um atraso diagnóstico que pode comprometer a qualidade de vida, aumentar o risco de complicações e prolongar o sofrimento dos pacientes.
Um estudo brasileiro publicado em 2025 trouxe uma questão importante para discussão: qual é o papel do nutricionista no processo de identificação da doença celíaca?
Os resultados mostraram que a maioria dos pacientes recebeu o diagnóstico tardiamente e que poucos tiveram acompanhamento nutricional durante a investigação clínica.
A pesquisa reforça que o nutricionista pode desempenhar um papel estratégico na identificação precoce de sinais de alerta, no encaminhamento para avaliação médica e na educação alimentar dos pacientes.
O nutricionista pode ajudar no diagnóstico da doença celíaca?
A doença celíaca é uma condição autoimune desencadeada pela ingestão de glúten em indivíduos geneticamente predispostos.
Embora o diagnóstico definitivo dependa de exames médicos, sorológicos e, em muitos casos, biópsia intestinal, o nutricionista pode ser um dos primeiros profissionais a identificar padrões alimentares, sintomas recorrentes e sinais de má absorção compatíveis com a doença.
O estudo brasileiro publicado no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences concluiu que ampliar a participação do nutricionista e fortalecer a abordagem multiprofissional podem contribuir para reduzir o tempo até o diagnóstico e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
A pesquisa também evidenciou que muitos indivíduos passam anos convivendo com sintomas sem investigação adequada.
O que o estudo brasileiro descobriu?
A pesquisa avaliou 105 pessoas com doença celíaca vinculadas à Associação dos Celíacos de Brasília (ACELBRA-DF) entre abril e maio de 2024.
Principais resultados
| Indicador | Resultado |
| Participantes avaliados | 105 |
| Mulheres | 96,3% |
| Diagnóstico após 8 anos ou mais de sintomas | 67% |
| Diagnóstico entre 1 e 4 anos de sintomas | 29,2% |
| Acompanhamento gastroenterológico durante diagnóstico | 94,4% |
| Acompanhamento nutricional durante diagnóstico | 53,9% |
| Celíacos sem acompanhamento nutricional | 46,1% |
O dado mais preocupante foi que 67% dos participantes receberam o diagnóstico somente após oito anos ou mais do início dos sintomas.
Esse resultado reforça um problema amplamente documentado na literatura científica internacional: a doença celíaca continua subdiagnosticada e frequentemente confundida com outras condições gastrointestinais ou sistêmicas.
Por que o diagnóstico da doença celíaca costuma demorar?
Sintomas muito variados
A doença celíaca não afeta apenas o intestino. Ela pode causar manifestações gastrointestinais, nutricionais, neurológicas, dermatológicas, ósseas e reprodutivas.
Segundo o estudo brasileiro, os sintomas mais frequentes foram:
| Sintoma | Frequência |
| Distensão abdominal | 82,0% |
| Diarreia | 66,3% |
| Dor abdominal | 63,6% |
| Constipação | 46,1% |
| Irritabilidade | 47,2% |
| Memória ruim | 40,4% |
| Cefaleia | 52,8% |
| Perda de peso | 37,1% |
| Anemia | 29,2% |
| Osteoporose | 3,4% |
Formas silenciosas dificultam a identificação
Diversos pacientes apresentam poucos sintomas digestivos ou nenhum sintoma gastrointestinal.
Em muitos casos, a primeira manifestação pode ser:
- anemia persistente;
- osteopenia;
- osteoporose;
- infertilidade;
- aftas recorrentes;
- alterações neurológicas;
- alterações hepáticas;
- dermatite herpetiforme.
Esse cenário torna essencial o olhar atento de diferentes profissionais de saúde.
Como o nutricionista pode identificar sinais de alerta?
O nutricionista não fecha o diagnóstico da doença celíaca.Entretanto, durante a anamnese alimentar e nutricional, ele pode observar:
Sinais clínicos
- perda de peso sem explicação;
- anemia recorrente;
- deficiência de ferro;
- deficiência de vitamina B12;
- deficiência de ácido fólico;
- osteopenia;
- osteoporose;
- fadiga crônica.
Sintomas gastrointestinais
- distensão abdominal;
- diarreia;
- constipação;
- refluxo;
- dor abdominal;
- gases excessivos.
Manifestações extraintestinais
- dermatite herpetiforme;
- aftas recorrentes;
- enxaquecas;
- alterações de humor;
- infertilidade;
- atraso de crescimento em crianças.
Diante desses achados, o nutricionista pode recomendar investigação médica especializada.
Quais exames confirmam a doença celíaca?
Segundo as diretrizes da American College of Gastroenterology (ACG) e da ESPGHAN, o diagnóstico deve ser realizado enquanto o paciente ainda consome glúten.
Principais exames
| Exame | Finalidade |
| Anti-transglutaminase IgA | Principal exame de triagem |
| IgA total | Detectar deficiência de IgA |
| Anti-endomísio IgA | Alta especificidade |
| Anti-gliadina deamidada IgG | Útil em deficiência de IgA |
| HLA-DQ2 e HLA-DQ8 | Avaliação genética |
| Endoscopia com biópsia duodenal | Padrão ouro em muitos casos |
No estudo brasileiro, os exames mais utilizados foram:
| Exame | Frequência |
| Endoscopia com biópsia | 91,6% |
| Anti-transglutaminase | 84,3% |
| Anti-endomísio IgA | 53,9% |
| Hemoglobina | 50,6% |
O problema da retirada precoce do glúten
Um dos maiores desafios identificados pelos pesquisadores foi a retirada do glúten antes da conclusão da investigação diagnóstica.
Muitos pacientes iniciam dieta sem glúten por conta própria após orientação informal ou informações encontradas na internet.
Isso pode normalizar os exames e dificultar a confirmação da doença.As diretrizes internacionais recomendam que a dieta sem glúten só seja iniciada após avaliação médica adequada.
O papel do nutricionista após o diagnóstico
Depois da confirmação diagnóstica, o nutricionista torna-se um dos profissionais mais importantes da equipe.
Suas funções incluem:
- educação alimentar;
- prevenção de contaminação cruzada;
- correção de deficiências nutricionais;
- avaliação da recuperação nutricional;
- monitoramento do ganho de peso saudável;
- orientação sobre leitura de rótulos;
- acompanhamento da adesão à dieta.
Estudos mostram que pacientes acompanhados por nutricionistas especializados apresentam melhor adesão à dieta sem glúten e menor risco de complicações.
Atenção Celíacos
Se você apresenta sintomas digestivos persistentes, anemia sem causa aparente, aftas recorrentes, osteopenia precoce ou histórico familiar de doença celíaca, não retire o glúten da alimentação antes da investigação médica.
O diagnóstico correto depende da realização dos exames enquanto o organismo ainda está exposto ao glúten. Nutricionistas, gastroenterologistas e outros profissionais da saúde podem trabalhar juntos para reduzir o atraso diagnóstico e evitar anos de sofrimento desnecessário.
Leia mais no Eu Celíaca
- O que é doença celíaca e quais são os sintomas?
- Dermatite herpetiforme: quando a pele denuncia a doença celíaca
- Idade do diagnóstico da doença celíaca e risco de doenças autoimunes
- A importância da biópsia intestinal no diagnóstico da doença celíaca
- Exames para doença celíaca: quando fazer e como interpretar
FAQ – Perguntas Frequentes
O nutricionista pode diagnosticar doença celíaca?
Não. O diagnóstico deve ser confirmado por médico, utilizando exames laboratoriais e, quando indicado, biópsia intestinal.
O nutricionista pode suspeitar da doença?
Sim. A avaliação nutricional pode identificar sinais e sintomas compatíveis com a doença celíaca e motivar o encaminhamento para investigação.
Posso retirar o glúten antes dos exames?
Não é recomendado. A retirada do glúten pode causar resultados falso-negativos.
Quais são os sintomas mais comuns?
Distensão abdominal, diarreia, dor abdominal, constipação, anemia, fadiga e perda de peso.
Quem tem doença celíaca precisa de nutricionista?
Sim. O acompanhamento nutricional é considerado parte fundamental do tratamento.
Quanto tempo demora para diagnosticar a doença celíaca?
O estudo brasileiro mostrou que 67% dos participantes receberam o diagnóstico apenas após oito anos ou mais de sintomas.
A doença celíaca pode ocorrer sem sintomas intestinais?
Sim. Muitas pessoas apresentam apenas manifestações extraintestinais.
O nutricionista ajuda após o diagnóstico?
Sim. Ele auxilia na implementação segura da dieta sem glúten e na recuperação nutricional.
Conclusão
O estudo brasileiro publicado em 2025 reforça um problema conhecido pela comunidade científica: o diagnóstico da doença celíaca ainda ocorre tardiamente para muitos pacientes.Ao mesmo tempo, os resultados mostram uma oportunidade importante.
O nutricionista pode atuar como um elo estratégico na identificação precoce de sinais clínicos, contribuindo para o encaminhamento adequado e para a construção de uma abordagem multiprofissional mais eficiente.
Quanto mais cedo a doença celíaca for identificada, menores serão os riscos de complicações, deficiências nutricionais e impacto na qualidade de vida.
O trabalho integrado entre nutricionistas, gastroenterologistas, clínicos e demais profissionais de saúde continua sendo uma das ferramentas mais importantes para mudar essa realidade.
Referências Científicas e Fontes
- Bueno MC, Maynard DC. A participação do nutricionista no processo do diagnóstico da doença celíaca em portadores da doença. Braz J Implantol Health Sci. 2025;7(4):553-568.
- Rubio-Tapia A, Hill ID, Kelly CP, Calderwood AH, Murray JA. ACG Clinical Guidelines: Diagnosis and Management of Celiac Disease. Am J Gastroenterol. 2023;118(1):59-76.
- Husby S, Koletzko S, Korponay-Szabó IR, et al. European Society for Paediatric Gastroenterology Hepatology and Nutrition Guidelines for Diagnosing Coeliac Disease. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2020;70(1):141-156.
- Ludvigsson JF, Bai JC, Biagi F, et al. Diagnosis and management of adult coeliac disease. Gut. 2014;63(8):1210-1228.
- Catassi C, Alaedini A, Bojarski C, et al. The overlapping area of non-celiac gluten sensitivity and wheat-sensitive irritable bowel syndrome. Nutrients. 2017;9(11):1268.
- Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (FENACELBRA).
- National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK). Celiac Disease.
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