Foto: instagram do atleta Canobbio
Atacante da seleção uruguaia e do Fluminense mudou a alimentação antes da Copa do Mundo. Estratégia também é adotada por atletas como Novak Djokovic e Cristiano Ronaldo, mas o que a ciência realmente diz sobre o tema?
A preparação física de atletas de elite vai muito além dos treinos. Nutrição, recuperação muscular, qualidade do sono, composição corporal e saúde intestinal passaram a ser considerados fatores decisivos para o desempenho esportivo moderno.
Foi justamente nesse contexto que o atacante uruguaio Agustín Canobbio, atualmente no Fluminense e convocado para a Copa do Mundo, chamou atenção ao revelar mudanças importantes em sua alimentação, incluindo a retirada do glúten da dieta.
A informação foi publicada pelo ge.globo em reportagem especial sobre a trajetória do jogador e sua preparação para o torneio internacional.
A decisão coloca Canobbio em um grupo cada vez maior de atletas de alta performance que adotam estratégias nutricionais livres de glúten, mesmo sem necessariamente possuir diagnóstico de doença celíaca.
Mas afinal, existe benefício real? O que mostram as pesquisas científicas? E por que tantos atletas de elite passaram a prestar atenção ao glúten?
O que mudou na alimentação de Canobbio?
Segundo a reportagem do ge.globo, Canobbio passou por uma transformação em seus hábitos alimentares nos últimos anos.
Entre as mudanças relatadas estão:
- redução significativa do consumo de doces;
- maior disciplina alimentar;
- acompanhamento nutricional;
- retirada do glúten da alimentação;
- foco em desempenho físico e composição corporal.
A estratégia faz parte de uma tendência observada em diversos esportes profissionais, especialmente futebol, tênis, ciclismo, triatlo e corridas de longa distância.
O objetivo costuma envolver:
- redução de desconfortos gastrointestinais;
- melhor recuperação muscular;
- controle inflamatório;
- melhora da qualidade do sono;
- otimização da absorção de nutrientes.
A dieta sem glúten melhora a performance esportiva?
Essa é uma das perguntas mais pesquisadas atualmente por atletas e profissionais da área esportiva. A resposta científica é mais complexa do que muitos imaginam.
Para pessoas com doença celíaca, a exclusão do glúten não é uma escolha. É um tratamento obrigatório.
Nesses casos, os benefícios são amplamente documentados:
- recuperação da mucosa intestinal;
- melhora da absorção de ferro, cálcio, magnésio e vitaminas;
- redução da inflamação sistêmica;
- melhora da energia;
- melhora da recuperação muscular.
Já para atletas sem doença celíaca, os estudos ainda apresentam resultados mistos. Uma revisão publicada no Journal of the International Society of Sports Nutrition concluiu que não existem evidências robustas de que a retirada do glúten aumente diretamente força, velocidade ou resistência em indivíduos saudáveis.
Por outro lado, pesquisadores observam que alguns atletas relatam melhora subjetiva de sintomas gastrointestinais, sensação de leveza e recuperação mais rápida.
Por que o intestino se tornou uma prioridade na alta performance?
Nos últimos dez anos, a ciência esportiva passou a olhar para o intestino como um dos principais determinantes da performance atlética.
Durante exercícios intensos, especialmente em modalidades de endurance, o fluxo sanguíneo é desviado para os músculos.
Como consequência:
- ocorre redução temporária da perfusão intestinal;
- aumenta a permeabilidade intestinal;
- podem surgir sintomas digestivos;
- a absorção de nutrientes pode ser prejudicada.
Estudos indicam que entre 30% e 90% dos atletas de endurance apresentam algum tipo de desconforto gastrointestinal durante treinamentos ou competições.
Isso ajuda a explicar por que muitos profissionais passaram a testar estratégias alimentares individualizadas, incluindo dietas sem glúten.
O que dizem os principais especialistas em performance esportiva?
O debate sobre o glúten no esporte também aparece entre médicos e nutricionistas especializados em alta performance.
Materiais recentes produzidos por especialistas internacionais em performance esportiva destacam que a retirada indiscriminada do glúten não deve ser considerada uma estratégia universal para todos os atletas.
Os especialistas alertam que a exclusão de grupos alimentares sem indicação clínica pode reduzir a ingestão de carboidratos complexos, fibras e micronutrientes importantes para o rendimento esportivo.
Por outro lado, eles também reconhecem que alguns atletas apresentam sensibilidade individual, sintomas gastrointestinais ou condições clínicas que justificam protocolos nutricionais personalizados.
O consenso atual é que a dieta deve ser individualizada e baseada em avaliação profissional.
Os atletas famosos que seguem dieta sem glúten
Canobbio não está sozinho, diversos atletas de elite já relataram estratégias semelhantes, confira alguns exemplos:
| Atleta | Modalidade | Relação com dieta sem glúten |
| Novak Djokovic | Tênis | Relata melhora de energia e recuperação após retirar glúten |
| Cristiano Ronaldo | Futebol | Prioriza alimentos naturais e reduz ultraprocessados; já adotou períodos com restrição de glúten |
| Lewis Hamilton | Fórmula 1 | Dieta anti-inflamatória personalizada |
| Tom Brady | Futebol americano | Alimentação focada em controle inflamatório |
| Paula Radcliffe | Atletismo | Controle rigoroso da saúde intestinal |
| Agustín Canobbio | Futebol | Retirou glúten antes da Copa do Mundo |
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A ciência já encontrou vantagens da dieta sem glúten para atletas?
Os benefícios mais frequentemente observados envolvem fatores indiretos.
Possíveis benefícios
- redução de desconfortos gastrointestinais;
- menor sensação de estufamento;
- melhor adesão a uma alimentação mais natural;
- redução do consumo de ultraprocessados;
- melhora da recuperação em indivíduos sensíveis.
O que ainda não foi comprovado
- aumento direto da velocidade;
- aumento direto da força;
- melhora automática da resistência;
- ganho de massa muscular apenas pela retirada do glúten.
Ou seja, o benefício parece estar muito mais relacionado à saúde intestinal e ao contexto individual do atleta do que ao glúten isoladamente.
O papel da alimentação anti-inflamatória na alta performance
Um ponto importante é que muitos atletas não apenas retiram o glúten. Eles mudam completamente o padrão alimentar.
Na prática, passam a consumir:
- frutas;
- verduras;
- legumes;
- peixes ricos em ômega-3;
- azeite de oliva;
- castanhas;
- proteínas magras;
- carboidratos minimamente processados.
Quando isso acontece, é difícil saber se os benefícios vieram exclusivamente da retirada do glúten ou da melhora global da qualidade alimentar.
Diversos especialistas consideram esse um dos principais fatores por trás dos relatos positivos observados em atletas profissionais.
O que atletas de elite realmente comem?
Pesquisas sobre nutrição esportiva mostram que atletas de alto rendimento costumam priorizar:
| Grupo alimentar | Função |
| Carboidratos complexos | Energia e reposição de glicogênio |
| Proteínas magras | Recuperação muscular |
| Frutas e vegetais | Antioxidantes |
| Gorduras boas | Produção hormonal |
| Alimentos fermentados | Saúde intestinal |
| Hidratação adequada | Performance e recuperação |
Em muitos protocolos modernos de performance, o foco principal não é retirar alimentos, mas construir uma base alimentar capaz de reduzir inflamação, preservar massa muscular e otimizar recuperação.
E para pessoas com doença celíaca?
Nesse grupo, a situação é completamente diferente.
Para atletas com doença celíaca, a dieta sem glúten não é uma estratégia opcional: é tratamento.
Mesmo pequenas quantidades de glúten podem provocar:
- inflamação intestinal;
- má absorção de nutrientes;
- deficiência de ferro;
- fadiga;
- perda de desempenho;
- aumento do tempo de recuperação.
Por isso, o diagnóstico precoce e a adesão rigorosa à dieta sem glúten são fundamentais para atletas celíacos.
A suplementação também faz parte da estratégia dos atletas de alta performance
Além da alimentação, a suplementação nutricional tornou-se uma ferramenta amplamente utilizada no esporte de alto rendimento. O objetivo não é substituir refeições, mas corrigir necessidades específicas, acelerar a recuperação e otimizar adaptações ao treinamento.
De acordo com o Comitê Olímpico Internacional (IOC) e a Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva (ISSN), alguns suplementos possuem evidências científicas consistentes para melhora do desempenho quando utilizados sob orientação profissional, entre eles:
- Creatina monohidratada;
- Cafeína;
- Beta-alanina;
- Nitrato (suco de beterraba);
- Whey protein;
- Ômega-3;
- Vitamina D;
- Ferro;
- Magnésio;
- Peptídeos de colágeno.
Magnésio: recuperação muscular e função neuromuscular
O magnésio participa de mais de 300 reações metabólicas no organismo, incluindo produção de energia, contração muscular, função nervosa e síntese proteica. Em atletas submetidos a grandes volumes de treinamento, baixos níveis de magnésio podem estar associados a fadiga, cãibras, pior recuperação muscular e redução do desempenho físico.
Revisões publicadas no PubMed indicam que a suplementação pode beneficiar atletas com deficiência ou ingestão inadequada do mineral, especialmente em modalidades de resistência e alta intensidade.
Fontes alimentares incluem castanhas, sementes, cacau, leguminosas e vegetais verde-escuros, mas muitos atletas utilizam suplementação individualizada após avaliação nutricional.
Peptídeos de colágeno: articulações, tendões e prevenção de lesões
Outra estratégia que ganhou espaço entre atletas profissionais é a suplementação com peptídeos de colágeno hidrolisado.
Estudos clínicos demonstram que o consumo de aproximadamente 15 gramas de colágeno associado à vitamina C cerca de 30 a 60 minutos antes do exercício pode aumentar marcadores de síntese de colágeno em tendões, ligamentos e cartilagens.
Pesquisas conduzidas por Keith Baar, da Universidade da Califórnia, mostraram que essa combinação pode estimular a produção de colágeno nos tecidos conjuntivos, algo particularmente importante para atletas submetidos a elevadas cargas mecânicas.
Revisões recentes também apontam benefícios potenciais na redução de dores articulares relacionadas ao treinamento intenso e no suporte à saúde musculoesquelética, embora mais estudos de longo prazo ainda sejam necessários.
Por isso, não é coincidência que atletas de futebol, corrida, tênis, ciclismo e modalidades olímpicas tenham incorporado protocolos de colágeno em suas rotinas de recuperação e prevenção de lesões.
Vitamina B12: energia, recuperação e a crescente popularidade entre atletas
Nos últimos anos, a vitamina B12 também passou a ocupar espaço em protocolos de performance esportiva, principalmente na forma de suplementação injetável.
A vitamina participa diretamente da formação das células sanguíneas, da produção de DNA, da função neurológica e do metabolismo energético. Por isso, níveis inadequados podem comprometer a capacidade aeróbica, aumentar a fadiga e prejudicar a recuperação física.
Atletas de endurance, praticantes de esportes com elevado volume de treinamento e pessoas com restrições alimentares específicas costumam ser monitorados com mais atenção para possíveis deficiências.
No caso dos celíacos, a preocupação é ainda maior. A vitamina B12 é absorvida ao longo do trato gastrointestinal e sua deficiência é relativamente comum em pessoas com doença celíaca ativa ou diagnosticada tardiamente, especialmente quando existe comprometimento intestinal prolongado.
Embora clínicas de performance frequentemente utilizem protocolos injetáveis de vitamina B12 com o objetivo de melhorar energia, disposição e recuperação, as evidências científicas mostram que os benefícios são mais consistentes quando existe deficiência comprovada ou níveis insuficientes do nutriente.
Por isso, a recomendação dos especialistas continua sendo baseada em exames laboratoriais e acompanhamento profissional, evitando o uso indiscriminado da suplementação apenas por modismo ou expectativa de ganho de desempenho.
Para atletas celíacos, o cuidado deve ser ainda maior
No caso de atletas com doença celíaca, a suplementação exige atenção redobrada. A inflamação intestinal e a má absorção antes do diagnóstico podem resultar em deficiência de ferro, vitamina B12, folato, zinco, magnésio, cálcio e vitamina D.
Além disso, suplementos devem ser cuidadosamente avaliados quanto à presença de glúten ou ao risco de contaminação cruzada. Embora muitos produtos sejam naturalmente livres de glúten, nem todos possuem certificação adequada.
Assim como acontece com a dieta sem glúten, a suplementação não deve seguir tendências das redes sociais. A estratégia ideal é individualizada e baseada em exames laboratoriais, modalidade esportiva, intensidade dos treinos e acompanhamento de nutricionista esportivo.
Wearables e biomarcadores: a nova fronteira da performance esportiva
O esporte de alto rendimento entrou definitivamente na era dos dados.
Hoje, atletas profissionais, equipes médicas e treinadores utilizam dispositivos capazes de monitorar dezenas de biomarcadores fisiológicos em tempo real, permitindo ajustes precisos em treinos, recuperação, alimentação e suplementação.
O objetivo é simples: tomar decisões baseadas em evidências individuais e não apenas em percepção subjetiva.
Os principais wearables utilizados por atletas de elite
| Dispositivo | Principais métricas monitoradas | Aplicações na performance |
| Oura Ring 5 | Sono, frequência cardíaca, HRV, temperatura corporal, estresse, recuperação, idade cardiovascular, capacidade cardiorrespiratória (VO₂ estimado), biomarcadores metabólicos e painéis de saúde | Ajuste de recuperação, sono, prontidão para treinar e monitoramento longitudinal da saúde |
| Whoop | Carga de treinamento, recuperação, HRV, frequência cardíaca, qualidade do sono e estresse fisiológico | Controle de overtraining e planejamento de treinos |
| Garmin (linha Forerunner, Fenix e Enduro) | GPS avançado, VO₂ máximo, carga de treino, recuperação, potência de corrida, frequência cardíaca, HRV e sono | Corrida, ciclismo, triatlo e esportes de endurance |
| Polar | Frequência cardíaca, carga cardiovascular, recuperação e testes fisiológicos | Planejamento esportivo e monitoramento da recuperação |
| Apple Watch Ultra | Frequência cardíaca, ECG, oxigenação, sono, temperatura corporal, atividade física e integração com aplicativos médicos | Saúde geral e performance integrada |
| Coros | VO₂ máximo, potência, carga de treinamento e autonomia de bateria | Atletas de endurance e ultramaratona |
| Sensores CGM (Dexcom, Libre) | Monitoramento contínuo da glicose | Estratégias nutricionais, disponibilidade energética e resposta metabólica aos alimentos |
O que os atletas fazem com esses dados?
O monitoramento contínuo permite ajustes praticamente diários.
Alguns exemplos:
Recuperação insuficiente
- Se HRV cair e a frequência cardíaca de repouso subir: ➡ redução da carga de treino.
Sinais de inflamação ou infecção
- Se houver aumento persistente da temperatura corporal:➡ revisão do treinamento e investigação clínica.
Sono inadequado
- Se o atleta apresentar redução do sono profundo:➡ ajustes nutricionais, suplementação e mudanças na rotina.
Resposta metabólica alterada
- Com sensores de glicose:➡ modificação da estratégia alimentar pré e pós-treino.
Risco de overtraining
- Combinando carga, sono e recuperação:➡ replanejamento da semana de treinos.
O caso Canobbio mostra uma tendência crescente
A decisão de Canobbio de retirar o glúten da alimentação antes da Copa do Mundo reflete uma transformação muito maior que vem acontecendo no esporte de alto rendimento.
Se no passado a preparação de um atleta era baseada principalmente em treinos físicos, hoje ela envolve uma combinação sofisticada de nutrição, recuperação, suplementação, exames laboratoriais, monitoramento de biomarcadores e tecnologia vestível.
A dieta sem glúten é apenas uma das estratégias que vêm sendo adotadas por atletas de elite em busca de melhor desempenho, recuperação mais eficiente e maior longevidade esportiva. Em alguns casos, especialmente quando existe doença celíaca ou sensibilidade ao glúten, os benefícios são amplamente reconhecidos. Em outros, a ciência ainda busca entender quais ganhos podem ser atribuídos especificamente à retirada do glúten e quais resultam de uma melhora global da qualidade da alimentação.
O que já está claro é que a performance esportiva moderna deixou de depender apenas do que acontece dentro de campo, da quadra ou das pistas. Hoje, fatores como saúde intestinal, qualidade do sono, composição corporal, recuperação muscular, suplementação personalizada e monitoramento contínuo por wearables fazem parte da rotina de atletas profissionais em todo o mundo.
Nesse cenário, a história de Canobbio ajuda a ilustrar uma tendência crescente: o atleta moderno não busca apenas treinar mais. Busca entender melhor o próprio corpo para tomar decisões mais inteligentes.
E cada vez mais, essas decisões são guiadas por ciência, dados e personalização.
Referências Científicas e Fontes
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- Globo Esporte. Canobbio do Fluminense puxou veia futebolística do pai, atuou de gandula e cortou doces antes de ida à Copa. 2026.
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- Journal of the International Society of Sports Nutrition.
- Gastroenterology. Materiais de especialistas em performance esportiva e medicina do esporte.
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Caso você suspeite de doença celíaca, sensibilidade ao glúten ou qualquer condição relacionada, procure um profissional especialista qualificado, mesmo antes de iniciar qualquer medicamento, suplementação ou mudança no protocolo de tratamento. Cada paciente é único, e as condutas devem ser individualizadas por profissionais habilitados e especializados. Nunca retire o glúten da alimentação antes de realizar os exames diagnósticos — isso pode invalidar os resultados sorológicos e dificultar o diagnóstico.
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Andréa Farias é celíaca diagnosticada desde 2012, empreendedora, jornalista, pesquisadora e fundadora do Eu Celíaca. A autora compartilha sua experiência pessoal como celíaca, pesquisas baseada em fontes científicas, experiência na indústria farmacêutica e relacionamento direto com médicos, nutricionistas, pesquisadores e farmacêuticos.
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