Home / Seleção dos editores / Existe remédio para doença celíaca? O que existe hoje, o que está em estudo e por que a comparação com lactase é perigosa

Existe remédio para doença celíaca? O que existe hoje, o que está em estudo e por que a comparação com lactase é perigosa

remédio para doença celíaca

    A busca por um “remédio para doença celíaca” é legítima e cada vez mais frequente. Perguntas como “doença celíaca tem remédio?”, “qual o melhor remédio para doença celíaca?” e “existe enzima para quebrar glúten?” aparecem com força nas buscas na internet e nos consultórios do Brasil, mostrando que muitos pacientes e familiares tentam encontrar algo equivalente à lactase, isto é, uma solução prática para neutralizar o glúten antes que ele cause sintomas ou lesão intestinal.

    Só que a doença celíaca não funciona como a intolerância à lactose. Na intolerância, o problema principal é digestivo e enzimático; na doença celíaca, o glúten dispara uma resposta autoimune complexa, com participação de HLA-DQ2/DQ8, transglutaminase tecidual, linfócitos T e inflamação persistente da mucosa do intestino delgado.

    Isso significa que reduzir sintomas não é o mesmo que impedir inflamação, e quebrar parte do glúten não é necessariamente o mesmo que tornar o alimento seguro para quem é celíaco.

    Ao mesmo tempo, a ciência avançou muito. Hoje já existem dezenas de terapias em desenvolvimento e mais de 15 abordagens farmacológicas relevantes em investigação, incluindo enzimas que degradam peptídeos do glúten, inibidores da transglutaminase 2, moduladores de permeabilidade intestinal, anticorpos anti-inflamatórios, estratégias de tolerância imunológica e outras tecnologias emergentes.

    O ponto central, porém, permanece o mesmo: até junho de 2026, não existe medicamento aprovado para substituir a dieta sem glúten no tratamento da doença celíaca.

     

     

    Doença celíaca tem remédio?

    Até o momento, não existe remédio aprovado pela FDA ou incorporado como substituto da dieta sem glúten para tratar a doença celíaca.

    A dieta sem glúten continua sendo o único tratamento estabelecido com respaldo científico e uso clínico rotineiro.

    O que existe hoje são duas coisas diferentes:

    • primeiro: medicamentos e suplementos usados para corrigir consequências da doença, como anemia, osteopenia, deficiência de vitaminas, dermatite herpetiforme ou doença celíaca refratária;
    • segundo: terapias experimentais em estudo, com o objetivo de atuar como adjuvantes à dieta sem glúten, especialmente diante de exposição acidental ao glúten.

    Em outras palavras: a ciência está avançando, mas o “remédio que libera o glúten” ainda não existe.

     

     

    Quais são os remédios para doença celíaca hoje?

    A primeira distinção que o leitor precisa entender é entre “tratamento da doença celíaca” e “tratamento das consequências clínicas da doença celíaca”.

    Essa diferença ajuda a resolver grande parte da confusão gerada por buscas genéricas como “remédio doença celíaca”, “qual remédio tomar” ou “qual o melhor remédio”.

     

     

    O único tratamento de base hoje é a dieta sem glúten

    As diretrizes brasileiras e revisões recentes são consistentes: a única estratégia comprovadamente eficaz para controlar a doença celíaca é retirar o glúten de forma estrita e permanente, com atenção à contaminação cruzada e acompanhamento médico e nutricional adequados.

    Essa medida é a que permite normalização progressiva de sorologia, melhora clínica e recuperação histológica em boa parte dos pacientes.

     

     

    O que pode ser prescrito na prática clínica

    Embora não exista remédio específico aprovado para “curar” a doença celíaca, muitos pacientes precisam de tratamento medicamentoso para corrigir repercussões da doença ou manejar formas especiais de apresentação.

    Isso inclui reposição de ferro, ácido fólico, vitamina B12, vitamina D e cálcio, além de terapias para osteopenia/osteoporose, dermatite herpetiforme ou doença celíaca refratária.

    O que existe hoje na prática

    Situação clínica O que pode ser usado Objetivo Substitui a dieta sem glúten?
    Doença celíaca em acompanhamento habitual Dieta sem glúten Retirar o gatilho autoimune e permitir recuperação intestinal Não se aplica; é o tratamento central
    Anemia por má absorção Ferro, folato, vitamina B12 Corrigir deficiências e sintomas relacionados Não
    Baixa massa óssea/osteopenia Vitamina D, cálcio e, quando necessário, tratamento específico ósseo Proteger saúde óssea e reduzir risco de fraturas Não
    Dermatite herpetiforme Tratamento médico específico, associado à dieta sem glúten Controlar manifestações cutâneas da doença Não
    Doença celíaca refratária Imunossupressores/corticoides em casos selecionados Controlar inflamação persistente grave Não

     

    Enzimas, probióticos e suplementos: o que existe e para que servem

    Boa parte da confusão pública começa aqui. Produtos com nomes como “digere glúten”, “gluten digest”, “gluten aid”, “glutezym” e formulações com Tolerase G costumam ser interpretados como “remédios para doença celíaca”, quando na prática não são reconhecidos como tratamento da doença celíaca e, em geral, são direcionados a desconforto digestivo ou à sensibilidade ao glúten não celíaca.

     

     

    Enzimas para glúten: Tolerase G, AN-PEP e produtos de prateleira

    A Tolerase® G é baseada em uma prolil-endopeptidase derivada de Aspergillus niger e pertence à mesma lógica de outras formulações enzimáticas de prateleira: degradar parte do glúten em condições específicas do trato gastrointestinal.

    O problema é que o próprio material técnico do fabricante afirma de forma clara que o produto não substitui a dieta sem glúten e não é adequado para tratar ou prevenir doença celíaca.

    Uma enzima pode reduzir parte da carga detectável de glúten ou ajudar na digestão de alguns fragmentos, mas isso não equivale a bloquear toda a cascata autoimune que define a doença celíaca.

    Na prática, ela pode até reduzir desconforto em algumas pessoas, mas não há evidência robusta de que suplementos comerciais protejam a mucosa intestinal de celíacos diante da ingestão de glúten.

     

     

    Probióticos e microbiota intestinal

    Os probióticos aparecem nas buscas como solução para “desinflamar o intestino” ou “ajudar quem tem doença celíaca”, e há algum racional biológico para isso.

    Revisões recentes indicam que certas cepas podem modular microbiota, atenuar sintomas gastrointestinais persistentes e participar da degradação parcial de peptídeos de gliadina, mas a qualidade global da evidência ainda é limitada e heterogênea.

    Portanto, probióticos podem ser discutidos no artigo como estratégia adjuvante em contextos específicos, mas não como alternativa à dieta nem como “tratamento farmacológico” consolidado.

     

     

    Suplementos seguros para celíacos

    Outro ponto importante, sugerido pelas próprias buscas, é que muitas pessoas não procuram apenas um “remédio para curar”, mas também “medicamentos seguros para celíacos”.

    Aqui cabe orientar o leitor sobre a necessidade de avaliar rótulos, excipientes, risco de contaminação cruzada e procedência de suplementos e fármacos, especialmente em produtos manipulados ou importados.

     

     

    Como desinflamar o intestino na doença celíaca

    Quando o paciente pergunta “como desinflamar o intestino por causa do glúten?”, ele geralmente está buscando uma solução mais rápida do que a dieta e tentando entender se existe algo que reverta o dano de uma exposição recente.

    Na doença celíaca, porém, a medida mais eficaz para reduzir inflamação continua sendo retirar completamente o gatilho imunológico, que é o glúten.

    Na prática, desinflamar o intestino envolve dieta sem glúten rigorosa, prevenção de contaminação cruzada, reposição de nutrientes quando necessário e investigação de sintomas persistentes.

    Se o paciente continua inflamado, é preciso pensar em glúten oculto, doença celíaca refratária, SIBO, lactose secundária, síndrome do intestino irritável e outras causas de queixas gastrointestinais persistentes.

    Como reduzir inflamação intestinal na prática

    Conduta Para que serve Observação importante
    Dieta sem glúten estrita Retirar o gatilho autoimune Continua sendo a medida mais importante
    Prevenção de contaminação cruzada Evitar exposição involuntária ao glúten Pequenas quantidades podem manter lesão
    Correção de deficiências nutricionais Apoiar recuperação clínica e intestinal Ferro, folato, B12, vitamina D e cálcio podem ser necessários
    Avaliação de sintomas persistentes Identificar outras causas de inflamação e sintomas além do glúten Inclui SIBO, intolerâncias secundárias e doença refratária
    Probióticos em casos selecionados Apoio adjuvante em sintomas e microbiota Não substituem a dieta sem glúten

     

     

    Novos remédios em pesquisa para doença celíaca

    A parte mais promissora do tema está no pipeline terapêutico.

    Revisões recentes e páginas de pipeline de fundações mostram um ecossistema crescente de abordagens com mecanismos diferentes: enzimas que degradam glúten, moléculas que interferem na permeabilidade intestinal, inibidores de tTG2, anticorpos direcionados a citocinas, estratégias para bloquear etapas da apresentação antigênica e terapias para induzir tolerância imunológica ao glúten.

     

     

    Três exemplos que aparecem com frequência nas discussões atuais

    Larazotide acetato

    O larazotide acetato foi, por muito tempo, um dos candidatos mais conhecidos por atuar na modulação das tight junctions, com a proposta de reduzir a passagem de peptídeos de gliadina pela barreira intestinal.

    Em fases anteriores houve sinais de melhora sintomática em alguns pacientes, mas o ensaio de fase 3 foi descontinuado em 2022 após análise interina indicar que seria necessário ampliar muito o estudo para alcançar significância, o que na prática representou um revés importante para a molécula.

    A latiglutenase é uma enzima oral desenhada para degradar peptídeos do glúten antes que eles provoquem dano significativo no intestino.

    No estudo CeliacShield, com desafio de 2 g de glúten por dia durante 6 semanas, houve atenuação de cerca de 82% na alteração da razão vilosidade:cripta, redução de aproximadamente 60% no aumento de linfócitos intraepiteliais e redução relevante de sintomas e de peptídeos urinários de glúten.

    Esses dados tornaram a molécula uma das enzimas mais promissoras da área, embora ainda sem fase 3 bem-sucedida e com histórico anterior de estudos com resultados heterogêneos.

    ZED-1227

    O ZED-1227 representa outra estratégia: em vez de quebrar o glúten, ele inibe seletivamente a transglutaminase 2, uma enzima central para a deamidação de peptídeos de gliadina e amplificação da resposta imune celíaca.

    Em estudo de prova de conceito, o fármaco mostrou proteção contra dano de mucosa durante desafio com glúten e segue sendo tratado como uma das abordagens farmacológicas mais promissoras em desenvolvimento na Europa.

     

    Terapias e estudos em desenvolvimento para doença celíaca

    A tabela abaixo reúne, de forma resumida, mais de 15 estudos e linhas terapêuticas que aparecem em revisões de pipeline, fundações e relatórios recentes.

    Como a área muda rápido, o ideal é tratar essa tabela como um panorama atualizado de tendências, e não como lista definitiva de opções prontas para uso clínico.

    Terapia/linha  Classe  Como atua, em resumo  Situação geral
    Latiglutenase (IMGX-003) Enzima oral Degrada peptídeos do glúten antes da agressão mucosa Fase 2/2b, promissora como adjuvante
    TAK-062 Enzima oral Degrada rapidamente grandes quantidades de glúten no TGI Fase inicial, alta degradação em estudos precoces
    Larazotide acetato Modulador de permeabilidade Atua nas tight junctions para reduzir passagem de gliadina Fase 3 descontinuada em 2022
    ZED-1227 Inibidor de tTG2 Bloqueia deamidação de peptídeos do glúten Fase II/IIb, muito promissor
    TPM502 Tolerância imunológica Nanopartículas com fragmentos de glúten para reduzir resposta imune Fase 2a, dados iniciais positivos
    Terapia/linha Classe  Como atua, em resumo  Situação geral
    KAN-101 Tolerância hepática/imune Busca induzir tolerância antígeno-específica ao glúten Em desenvolvimento clínico inicial/intermediário
    VTP-1000 Imunoterapia Plataforma de tolerização específica ao glúten Em estudo clínico ativo
    TAK-227 Imunomodulador Atua em alvo imune do pipeline da Takeda Em desenvolvimento clínico
    AMG 714 / PRV-015 Anti-IL-15 Bloqueia via inflamatória relevante, especialmente em DC refratária Dados de melhora sintomática; nicho específico
    Terapia/linha Classe Como atua, em resumo  Situação geral
    Amlitelimab Anticorpo/imunomodulador Modula vias imunes associadas à ativação inflamatória Pipeline ativo
    ANB033 Experimental imunológico Candidato em estudo fase 1b com recrutamento apoiado pela CDF Desenvolvimento clínico inicial
    EQ302 Imunomodulador Candidato listado em pipeline recente Desenvolvimento clínico inicial
    FB102 Biológico/imunológico Programa experimental com dados iniciais positivos divulgados em 2025 Desenvolvimento clínico inicial
    Terapia/linha Classe Como atua, em resumo  Situação geral
    TEV-53408 Imunológico Investigacional com Fast Track para pacientes em GFD Desenvolvimento clínico ativo
    AT-1718 Imunológico Candidato listado em relatórios recentes de pipeline Desenvolvimento inicial
    IgY-112 Ligante/neutralizante Busca neutralizar componentes relevantes ligados à resposta ao glúten Desenvolvimento inicial
    MTX-101 / MT-101 Imunoterapia Plataforma em fases iniciais para modulação imune Desenvolvimento inicial
    Terapia/linha Classe Como atua, em resumo 

    Situação geral

    DONQ52 Anticorpo/biológico Atua bloqueando diretamente a resposta imune ao glúten, impedindo a ativação das células T (responsáveis pela inflamação e danos intestinais) sem afetar o resto do sistema imunológico Em desenvolvimento
    IMU-856 Reparação de barreira/mucosa Foco em integridade epitelial e reparo intestinal Desenvolvimento inicial.
    Nexvax2 Vacina terapêutica Tentava induzir tolerância com peptídeos de glúten Histórico importante, mas sem sucesso clínico suficiente
    Probióticos específicos Microbiota/adjuvante Modulam microbiota, inflamação e sintomas. Evidência baixa a moderada; adjuvante, não 
    Terapia/linha Classe Como atua, em resumo  Situação geral
    Trigo geneticamente modificado de baixo glúten Engenharia alimentar Reduz epítopos imunogênicos do trigo Pesquisa experimental/piloto
           
           
           

     

     

    Cerveja enzimática, ppm e a falsa sensação de segurança

    A confusão entre lactase, enzimas para glúten e cervejas “sem glúten” enzimáticas é muito comum porque, à primeira vista, a lógica parece simples: se a indústria consegue usar enzimas para reduzir o glúten da cerveja a níveis abaixo de 20 ppm, então talvez uma cápsula tomada antes da refeição também pudesse “quebrar” o glúten do alimento e tornar seu consumo seguro para o celíaco.

    O problema é que essa comparação ignora duas limitações importantes: a diferença entre reduzir o glúten detectável em laboratório e eliminar, de fato, todo o potencial imunogênico da bebida ou do alimento; e a enorme diferença entre um processo industrial controlado e o ambiente variável do trato gastrointestinal humano.

    Na produção de algumas cervejas chamadas “gluten-reduced” ou tratadas enzimaticamente, enzimas como a AN-PEP são usadas para fragmentar proteínas do glúten durante o processo produtivo, o que pode fazer com que a análise laboratorial indique valores abaixo de 20 ppm.

    Só que, em produtos fermentados e hidrolisados, os métodos analíticos têm limitações reconhecidas, e isso significa que um resultado baixo no teste não garante, necessariamente, ausência de fragmentos ainda capazes de ativar o sistema imune de pessoas com doença celíaca.

    Esse ponto ficou especialmente claro em análises citadas por organizações de referência em doença celíaca: amostras de sangue de pessoas celíacas não reagiram a cervejas produzidas a partir de grãos naturalmente sem glúten, mas reagiram a algumas cervejas “gluten-removed”, mesmo quando elas testavam abaixo dos limites usuais de detecção laboratorial.

    Por isso, usar a cerveja enzimática como prova de que um “remédio que quebra glúten” permitiria comer trigo, cevada ou centeio com segurança é uma extrapolação perigosa: se nem em um processo industrial altamente padronizado existe garantia total de segurança imunológica, muito menos uma cápsula tomada antes da refeição pode ser tratada como passaporte para ingerir glúten na doença celíaca.

     

     

    Por que remédio para doença celíaca não é igual à lactase

    Essa comparação é intuitiva, mas biologicamente falha.

    Na intolerância à lactose, a deficiência está na digestão de um açúcar, e a lactase suplementar pode reduzir ou impedir sintomas ao quebrar a lactose em glicose e galactose.

    Na doença celíaca, por outro lado, o problema é uma resposta autoimune contra peptídeos do glúten, o que envolve mecanismos imunes e dano de mucosa muito além da digestão simples.

    Por isso, mesmo uma enzima experimental potente pode ser útil apenas como adjuvante para reduzir a carga de exposição, e não como autorização para ingerir glúten livremente.

    É exatamente essa diferença que torna perigosa a comparação entre lactase, cerveja enzimática e cápsulas “quebra-glúten” vendidas como solução para celíacos.

    Lactase x terapias para doença celíaca

    Aspecto Lactase Terapias em estudo para doença celíaca
    Natureza do problema Deficiência enzimática digestiva Doença autoimune desencadeada por glúten
    Objetivo do tratamento  Quebrar lactose e reduzir sintomas Reduzir peptídeos imunogênicos, modular inflamação ou induzir tolerância
    Permite consumo livre? Em muitos intolerantes, pode facilitar consumo conforme dose e tolerância Não. As estratégias atuais são estudadas como complemento à dieta sem glúten
    Risco de dano silencioso  Não há autoimunidade intestinal típica Pode haver inflamação e lesão mesmo sem sintomas marcantes

     

     

    Instituições envolvidas nas pesquisas

    O desenvolvimento de novos tratamentos para doença celíaca envolve uma combinação de centros acadêmicos, fundações de pacientes, empresas de biotecnologia e grandes farmacêuticas.

    Entre as organizações mais relevantes estão a Celiac Disease Foundation, a plataforma iCureCeliac®, Beyond Celiac e Celiac Canada, que ajudam a divulgar estudos, recrutar participantes, monitorar pipeline e aproximar pesquisa e comunidade.

    No lado empresarial e translacional, aparecem nomes como Takeda, Topas Therapeutics, ImmunogenX, Anokion, Teva e outras companhias citadas em relatórios de pipeline e atualizações do setor.

    Isso mostra que a área já não é apenas uma promessa teórica: há uma pipeline real e diversificada, embora ainda sem um substituto aprovado para a dieta sem glúten.

     

     

    Atenção, celíacos

    A ciência avança e há motivos reais para otimismo. Hoje já existem terapias com racional biológico sólido, resultados encorajadores em ensaios iniciais e múltiplas abordagens tentando resolver problemas diferentes da doença celíaca: exposição acidental, dano mucoso persistente, barreira intestinal, autoimunidade e tolerância ao glúten.

    Mas a mensagem prática não pode ser distorcida. Nenhum medicamento aprovado hoje permite abandonar a dieta sem glúten, e suplementos enzimáticos vendidos para “digestão do glúten” não tratam doença celíaca.

    O maior risco não é apenas ter sintomas: é acreditar que está protegido enquanto a inflamação intestinal continua ativa de forma silenciosa.

     

     

    Leia mais no Eu Celíaca

     

     

    FAQ: remédio para doença celíaca

    Doença celíaca tem remédio?

    Não existe remédio aprovado para substituir a dieta sem glúten na doença celíaca até junho de 2026.

    Existe remédio para doença celíaca ou só dieta?

    A dieta sem glúten continua sendo o tratamento principal e comprovado. Alguns remédios e suplementos podem tratar sintomas, deficiências nutricionais e complicações, mas não substituem a dieta.

    Qual o melhor remédio para doença celíaca?

    Não existe um “melhor remédio” aprovado para controlar a doença em si. O melhor tratamento segue sendo a dieta sem glúten bem conduzida, com correção de deficiências e acompanhamento profissional.

    Qual remédio tomar para sintomas da doença celíaca?

    Isso depende da causa dos sintomas. Pode ser necessário corrigir anemia, deficiência de vitaminas, investigar lactose secundária, SIBO, contaminação cruzada ou outras condições associadas.

    Quem tem doença celíaca pode tomar enzima para glúten?

    Suplementos enzimáticos vendidos no mercado não são indicados para tratar ou prevenir doença celíaca, e não substituem a dieta sem glúten.

    Quais remédios são indicados para anemia e osteoporose na doença celíaca?

    Ferro, folato, vitamina B12, vitamina D e cálcio podem ser necessários, dependendo das deficiências e do quadro clínico do paciente.

    Existem medicamentos novos em pesquisa para doença celíaca?

    Sim. Há estudos com enzimas como TAK-062 e latiglutenase, imunoterapias como TPM502 e outros candidatos que atuam em tTG2, vias inflamatórias e mecanismos de tolerância imune.

    ZED-1227 e latiglutenase são promissores?

    Sim, ambos estão entre os candidatos mais comentados porque atuam em mecanismos centrais da doença e já mostraram proteção mucosa ou atenuação de dano em estudos de desafio com glúten.

    Cerveja enzimática “sem glúten” prova que cápsula quebra-glúten funciona para celíaco?

    Não. Cervejas tratadas com enzima podem ter redução analítica do glúten, mas isso não garante ausência de fragmentos imunogênicos nem segurança para doença celíaca.

    Como desinflamar o intestino por causa do glúten?

    Na doença celíaca, o principal caminho é retirar completamente o glúten, evitar contaminação cruzada, corrigir deficiências e investigar sintomas persistentes com equipe experiente.

     

     

    Conclusão

    A resposta mais honesta para a pergunta “existe remédio para doença celíaca?” ainda é não.

    O que existe hoje são tratamentos para sintomas, deficiências e complicações, além de uma pipeline cada vez mais sofisticada de terapias experimentais que podem, no futuro, reduzir os danos da exposição acidental ao glúten e melhorar a qualidade de vida de quem convive com a doença.

    Mas o ponto central permanece inalterado: nenhuma dessas soluções foi aprovada para substituir a dieta sem glúten, e compará-las à lactase ou às cervejas enzimáticas pode criar uma falsa sensação de segurança profundamente perigosa para o celíaco.

    A mensagem correta é de esperança com responsabilidade: a ciência avança, os estudos são promissores, mas a proteção mais eficaz do intestino celíaco ainda depende de rigor com a alimentação e acompanhamento profissional qualificado.

     

     

    Referências científicas e fontes

    1. Brasil. Ministério da Saúde. Doenças celíacas. Brasília: Ministério da Saúde; [citado 2026 jun 9].
    2. Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca. Brasília: CONITEC; [citado 2026 jun 9].
    3. Makharia GK, et al. Novel Drug Therapeutics in Celiac Disease: A Pipeline Review. GastroHep. 2022;4(6):298-311.
    4. Parzanese I, et al. New therapies in celiac disease. Best Pract Res Clin Gastroenterol. 2025;74-75:101938.
    5. Syage JA, et al. Gluten Degradation, Pharmacokinetics, Safety, and Tolerability of TAK-062, an Engineered Enzyme for Celiac Disease. Clin Gastroenterol Hepatol. 2021;19(6):1130-1139.e3.
    6. Celiac Disease Foundation. A Gluten-Digesting Enzyme Passes Phase 1 Trial. Woodland Hills: Celiac Disease Foundation; 2023 [citado 2026 jun 9].
    7. Celiac Disease Foundation. Could a New Treatment Help People with Celiac Disease Tolerate Gluten?. Woodland Hills: Celiac Disease Foundation; 2025 [citado 2026 jun 9].
    8. Topas Therapeutics. TPM502 achieves gluten-specific tolerance induction, positive safety profile in Phase 2a trial in celiac disease patients . Hamburg: Topas Therapeutics; [citado 2026 jun 9].
    9. New developments in celiac disease treatments. Drug Discov Today. 2024.
    10. Celiac Disease Foundation. iCureCeliac®. Woodland Hills: Celiac Disease Foundation; [citado 2026 jun 9].
    11. iRecruit Celiac. iCureCeliac® Patient Registry. [citado 2026 jun 9].
    12. Beyond Celiac. Drug Development Pipeline. Ambler: Beyond Celiac; [citado 2026 jun 9].
    13. Celiac Canada. Celiac Disease Research Treatment 2025. [citado 2026 jun 9].
    14. Koninklijke DSM NV, dsm-firmenich. Tolerase® G. [citado 2026 jun 9].
    15. Glutezym. Tolerase® G. [citado 2026 jun 9].
    16. JanssenDuijghuijsen LM, et al. Digesting gluten with oral endopeptidases to improve symptoms in gluten-related disorders. Aliment Pharmacol Ther. 2024.
    17. Francavilla R, et al. A Probiotic Preparation Hydrolyzes Gliadin and Protects Intestinal Cells from the Toxicity of Pro-Inflammatory Peptides. Nutrients. 2020;12(2):495.
    18. Khalili L, et al. The potentials of probiotics on gluten hydrolysis; a review study. Gastroenterol Hepatol Bed Bench. 2021;14(2):95-104.
    19. The role of microbiome in the development of gluten-related disorders. Curr Opin Gastroenterol. 2024.
    20. Consulta Remédios. Lactase: bula, para que serve e como usar. [citado 2026 jun 9].
    21. Ensaios Clínicos Gov. Celiac Disease Clinical Trial Pipeline. [citado 2026 jun 9].
    22. Comparison of enzymatic and precipitation treatments for gluten-free craft beers production – ScienceDirect
    23. High prolyl-endopeptidase enzyme dosages for the production of gluten-free wheat beer : a lab-scale case study
    24. What’s gluten-reduced beer, and can celiac patients drink it?
    25. Varma P, Krishnareddy S. Novel Drug Therapeutics in Celiac Disease: A Pipeline Review. Drugs. 2022;82(15):1515-1526. 
    26. ImmunogenX. Latiglutenase Protects the Mucosa and Attenuates Symptom Severity in Patients With Celiac Disease Exposed to a Gluten Challenge. Gastroenterology. 2022.
    27. Celiac Disease Foundation. ImmunogenX and Mayo Clinic Successfully Complete the CeliacShield Trial. [citado 2026 jun 9]. 
    28. Kelly CP, et al. No Difference Between Latiglutenase and Placebo in Reducing Villous Atrophy or Improving Symptoms in Patients With Symptomatic Celiac Disease. Gastroenterology. 2017;152(4):787-798.e2. 
    29. Celiac Disease Foundation. Promising Drug Shows Progress in Clinical Trials. [citado 2026 jun 9].
    30. 9 Meters Discontinues Phase 3 Clinical Trial for Potential Celiac Disease Drug Larazotide. Celiac Disease Foundation; 2022 [citado 2026 jun 9].  
    31. Beyond Celiac. July 2022: Larazotide phase 3 clinical trial discontinued. [citado 2026 jun 9]. 
    32. Celiac Disease Foundation. Future Therapies for Celiac Disease. [citado 2026 jun 9]. 
    33. Detection of gluten in a pilot-scale barley-based beer produced with and without a prolyl endopeptidase enzyme. Food Addit Contam Part A Chem Anal Control Expo Risk Assess. 2019. 
    34. National Celiac Association. Is it OK to drink gluten-reduced beer that tests below 10 ppm? [citado 2026 jun 9]. 
    35. Celiac Disease Foundation. The Truth About Gluten-Free Beer. [citado 2026 jun 9].
    36. AOECS. Beer analysis method limitations and recommendations. [citado 2026 jun 9].
    37. Frontiers in Pharmacology. From an understanding of etiopathogenesis to novel therapies—what is new in the treatment of celiac disease? 2024.

     

    Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas neste artigo não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada.  

    Produtos mencionados neste artigo não constituem endosso comercial. Tão pouco há endosso político/partidário. Consulte sempre o rótulo para identificar a isenção de glúten. 

    Caso você suspeite de doença celíaca, sensibilidade ao glúten ou qualquer condição relacionada, procure um profissional especialista qualificado, mesmo antes de iniciar qualquer medicamento, suplementação ou mudança no protocolo de tratamento. Cada paciente é único, e as condutas devem ser individualizadas por profissionais habilitados e especializados. Nunca retire o glúten da alimentação antes de realizar os exames diagnósticos — isso pode invalidar os resultados sorológicos e dificultar o diagnóstico.

    O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Todo o conteúdo é produzido de forma independente, com base em fontes científicas verificadas, com o único objetivo de apoiar a comunidade celíaca.

    Andréa Farias é celíaca diagnosticada desde 2012, empreendedora, jornalista, pesquisadora e fundadora do Eu Celíaca. A autora compartilha sua experiência pessoal como celíaca, pesquisas baseada em fontes científicas, experiência na indústria farmacêutica e relacionamento direto com médicos, nutricionistas, pesquisadores e farmacêuticos.

    Eu Celíaca©. Todos os direitos reservados. Reprodução parcial ou total permitida somente com citação da fonte e link para o conteúdo original.

     

    Marcado:

    Deixe um Comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

    Newsletter

    Fique por dentro das novidades do mundo celíaco. Inscreva-se.

    Social Icons

    Banner E-book Creme de Abacate_Site Eu Celíaca
    SELO FEITO POR MULHERES