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Dia Mundial de Conscientização dos Transtornos Alimentares: por que o TARE merece atenção entre pessoas com doença celíaca?

Transtornos Alimentares

Medo de comer, restrição alimentar excessiva e isolamento social não fazem parte do tratamento da doença celíaca. Podem ser sinais de um transtorno alimentar que precisa de atenção.

Todos os anos, em 2 de junho, o mundo volta os olhos para um tema que ainda é cercado por desinformação, preconceito e diagnósticos tardios: os transtornos alimentares. A data foi criada para ampliar a conscientização, combater estigmas e lembrar que transtornos alimentares não são escolhas, “frescura” ou falta de força de vontade.

São condições de saúde mental sérias que exigem acolhimento, diagnóstico e tratamento adequado. Quando falamos em doença celíaca, esse alerta ganha uma dimensão ainda mais importante.

Afinal, evitar o glúten faz parte do tratamento. Ler rótulos é necessário. Perguntar sobre ingredientes é uma medida de segurança. Planejar refeições é uma estratégia legítima para evitar contaminação cruzada.

Mas existe uma linha tênue entre o cuidado necessário e uma relação cada vez mais restritiva e angustiante com a comida.É justamente nesse ponto que surge o Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE), conhecido internacionalmente como ARFID (Avoidant Restrictive Food Intake Disorder).

 

 

O que são transtornos alimentares?

Os transtornos alimentares são condições psiquiátricas caracterizadas por alterações persistentes no comportamento alimentar que comprometem a saúde física, emocional e social da pessoa.

Embora a anorexia nervosa e a bulimia sejam os transtornos mais conhecidos, existem diversas outras condições reconhecidas pela medicina, incluindo o TARE.

Eles podem afetar pessoas de todas as idades, gêneros, etnias e classes sociais. Também apresentam uma das maiores taxas de mortalidade entre os transtornos mentais, especialmente quando não são identificados precocemente.

 

 

O que é o TARE (ARFID)?

O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo é caracterizado por uma restrição alimentar significativa que não está relacionada ao desejo de emagrecer ou à preocupação com a imagem corporal.A pessoa passa a evitar alimentos por diferentes motivos:

  • medo de sentir sintomas;
  • medo de engasgar;
  • medo de passar mal;
  • experiências alimentares traumáticas;
  • sensibilidade a texturas, cheiros ou sabores;
  • medo de contaminação.

No contexto da doença celíaca, esse último fator merece atenção especial.

Depois de anos sofrendo sintomas, recebendo diagnósticos errados ou enfrentando episódios de contaminação por glúten, algumas pessoas desenvolvem uma vigilância alimentar tão intensa que começam a restringir cada vez mais alimentos considerados “seguros”.

 

 

Por que o TARE pode acometer pessoas com doença celíaca?

A doença celíaca exige cuidados que não são opcionais.O glúten realmente provoca uma reação autoimune capaz de causar inflamação intestinal, deficiência nutricional e diversas complicações.Por isso, o celíaco aprende rapidamente que precisa:

  • evitar glúten;
  • ler rótulos;
  • investigar ingredientes;
  • prevenir contaminação cruzada;
  • planejar refeições fora de casa.

Tudo isso é esperado. O problema começa quando o medo passa a controlar a alimentação.

 

 

Quando o cuidado é saudável?

Segundo diretrizes do tratamento do celiaco, algumas atitudes fazem parte do chamado cuidado adaptativo:

  • evitar glúten;
  • ler rótulos;
  • prevenir contaminação cruzada;
  • planejar refeições.

Esses comportamentos ajudam a manter a saúde e a qualidade de vida.

 

 

Quando vira sinal de alerta?

Já alguns comportamentos podem indicar que a relação com a comida está deixando de ser apenas um cuidado e passando a representar sofrimento emocional.

Entre eles:

  • medo extremo de comer;
  • lista cada vez menor de alimentos considerados seguros;
  • sofrimento social;
  • perda de peso não intencional;
  • carências nutricionais.

 

 

O ciclo silencioso do medo alimentar

Uma das contribuições mais importantes do estudo discutido pelo Eu Celíaca foi mostrar como o medo alimentar pode evoluir progressivamente.

O fluxo geralmente segue este caminho:

Etapa O que acontece
1 Diagnóstico ou episódio de contaminação
2 Medo intenso dos sintomas
3 Hipervigilância alimentar
4 Restrição progressiva
5 Piora nutricional
6 Ansiedade crescente
7 Isolamento social

Esse processo pode levar a uma deterioração importante da qualidade de vida, mesmo quando a intenção inicial era apenas evitar o glúten.

 

 

O que a ciência mostra sobre TARE e doença celíaca?

Um estudo envolvendo 289 adultos com doenças digestivas orgânicas encontrou taxas elevadas de triagem positiva para TARE em diferentes condições gastrointestinais.

Os resultados chamam atenção:

Condição Triagem positiva para TARE
Acalasia 78,4%
Doença Inflamatória Intestinal 53%
Doença Celíaca 48,7%
Esofagite eosinofílica 42,9%

Ou seja, quase metade dos participantes com doença celíaca apresentou sinais compatíveis com o transtorno. Os dados reforçam que o tema não pode ser ignorado na prática clínica.

 

 

Por que o TARE é tão difícil de identificar em celíacos?

Porque muitos dos comportamentos parecem corretos à primeira vista.

Se uma pessoa com anorexia evita alimentos para emagrecer, isso costuma chamar atenção.

Mas quando um celíaco evita alimentos porque tem medo da contaminação cruzada, o comportamento pode ser visto apenas como cautela.

A diferença está no impacto.

Perguntas importantes

  • O medo domina seus pensamentos diariamente?
  • Você evita eventos sociais por causa da comida?
  • Sua lista de alimentos seguros está diminuindo constantemente?
  • Você perdeu peso sem querer?
  • Desenvolveu deficiência nutricional mesmo mantendo dieta sem glúten?
  • A alimentação passou a gerar mais ansiedade do que prazer?

Se a resposta for “sim” para várias dessas perguntas, vale conversar com profissionais especializados.

 

 

Quem pode ajudar?

O acompanhamento ideal costuma envolver uma equipe multidisciplinar:

Profissional Papel
Gastroenterologista acompanhamento da doença celíaca
Nutricionista especializado ampliar a segurança alimentar e prevenir deficiências
Psicólogo trabalhar medo alimentar, ansiedade e comportamentos restritivos
Psiquiatra avaliação quando há sofrimento emocional significativo

 

 

Atenção, celíacos

Ter cuidado com a alimentação não é exagero.

A doença celíaca exige vigilância.

Mas viver com medo constante da comida não deve ser considerado normal.

A alimentação segura deve ampliar sua saúde, não reduzir sua vida.

Se o medo está gerando sofrimento, isolamento ou restrição excessiva, buscar ajuda é um ato de cuidado tão importante quanto evitar o glúten.

 

 

Leia mais no Eu Celíaca

 

 

FAQ –  Perguntas Frequentes

O que é o Dia Mundial de Conscientização dos Transtornos Alimentares?

É uma campanha internacional realizada em 2 de junho para aumentar a informação sobre transtornos alimentares, combater o preconceito e incentivar o diagnóstico precoce.

O TARE é um transtorno alimentar?

Sim. O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo é reconhecido pelos manuais diagnósticos internacionais como um transtorno alimentar.

Pessoas com doença celíaca têm mais risco de desenvolver TARE?

Estudos sugerem que condições digestivas crônicas, incluindo a doença celíaca, apresentam taxas elevadas de triagem positiva para TARE.

O TARE é a mesma coisa que anorexia?

Não. Na anorexia existe preocupação com peso e imagem corporal. No TARE, a restrição alimentar ocorre por medo, desconforto, sensibilidade sensorial ou experiências negativas relacionadas aos alimentos.

Como saber se meu cuidado com o glúten está se tornando um problema?

Quando a alimentação passa a gerar sofrimento intenso, isolamento social, perda de peso ou carências nutricionais, é importante buscar avaliação profissional.

O tratamento da doença celíaca pode causar medo alimentar?

Não diretamente, mas experiências repetidas de sintomas, contaminação cruzada e insegurança alimentar podem favorecer comportamentos restritivos em algumas pessoas.

 

 

Conclusão

O Dia Mundial de Conscientização dos Transtornos Alimentares é uma oportunidade para ampliar uma conversa que ainda acontece pouco dentro da comunidade celíaca.

Evitar o glúten é tratamento.

Ter atenção aos rótulos é necessário.

Planejar refeições é prudente.

Mas quando o medo passa a comandar as escolhas, restringe a vida social, reduz a variedade alimentar e compromete a saúde física e emocional, é preciso olhar além da doença celíaca.

O TARE existe. Pode acometer pessoas com doença celíaca. E reconhecer seus sinais precocemente pode ser tão importante quanto identificar uma contaminação por glúten.

Porque viver sem glúten não deve significar viver com medo.

 

 

Referências Científicas e Fontes

  1. Burton Murray H, Bailey AP, Keshishian AC, Silvernale CJ, Staller K. When Is Patient Behavior Indicative of Avoidant Restrictive Food Intake Disorder (ARFID) vs Reasonable Response to Digestive Disease? Clin Transl Gastroenterol. 2022;13(1):e00436. Available from:
  2. American Psychiatric Association. What Are Eating Disorders? 
  3. National Eating Disorders Association. Avoidant Restrictive Food Intake Disorder (ARFID).
  4. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. 2 de junho: Dia Mundial de Conscientização dos Transtornos Alimentares. 
  5. Biblioteca Virtual em Saúde. Dia Mundial de Ação contra os Transtornos Alimentares. 

 

Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas neste artigo não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada.  

Produtos mencionados neste artigo não constituem endosso comercial. Tão pouco há endosso político/partidário. Consulte sempre o rótulo para identificar a isenção de glúten. 

Caso você suspeite de doença celíaca, sensibilidade ao glúten ou qualquer condição relacionada, procure um profissional especialista qualificado, mesmo antes de iniciar qualquer medicamento, suplementação ou mudança no protocolo de tratamento. Cada paciente é único, e as condutas devem ser individualizadas por profissionais habilitados e especializados. Nunca retire o glúten da alimentação antes de realizar os exames diagnósticos — isso pode invalidar os resultados sorológicos e dificultar o diagnóstico.

O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Todo o conteúdo é produzido de forma independente, com base em fontes científicas verificadas, com o único objetivo de apoiar a comunidade celíaca.

Andréa Farias é celíaca diagnosticada desde 2012, empreendedora, jornalista, pesquisadora e fundadora do Eu Celíaca. A autora compartilha sua experiência pessoal como celíaca, pesquisas baseada em fontes científicas, experiência na indústria farmacêutica e relacionamento direto com médicos, nutricionistas, pesquisadores e farmacêuticos.

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