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Pesquisa da Unicamp cria biscoito sem glúten mais nutritivo com farinha de alga marinha brasileira

farinha de alga em alimentos sem glúten

Estudo publicado em uma das principais revistas científicas do mundo mostra que apenas 1% de farinha de alga marrom foi capaz de melhorar digestibilidade, aumentar antioxidantes e tornar biscoitos sem glúten mais nutritivos.

Durante anos, um dos principais desafios da indústria sem glúten foi encontrar o equilíbrio entre segurança alimentar e qualidade nutricional.

Embora essenciais para pessoas com doença celíaca, sensibilidade ao glúten não celíaca e alergia ao trigo, muitos produtos gluten free ainda apresentam menor teor de fibras, proteínas, minerais e compostos bioativos quando comparados às versões convencionais.

Agora, uma nova pesquisa liderada por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) pode representar um avanço importante para esse cenário.

O estudo demonstrou que a adição de apenas 1% de farinha da alga marrom brasileira Sargassum filipendula em biscoitos sem glúten foi suficiente para melhorar características nutricionais, aumentar a atividade antioxidante e favorecer a digestibilidade proteica do alimento.

Os resultados foram publicados na revista científica Food Research International, uma das mais respeitadas da área de ciência dos alimentos.

 

 

Uma alga abundante no litoral brasileiro

A espécie utilizada pelos pesquisadores é uma alga marrom encontrada em abundância na costa brasileira.

Apesar do potencial nutricional já conhecido pela ciência, seu uso na indústria alimentícia ainda era bastante limitado.

Segundo os autores, o objetivo foi justamente avaliar se esse recurso natural poderia contribuir para melhorar a qualidade dos alimentos sem glúten, uma categoria frequentemente criticada pelo excesso de amidos refinados e pela baixa densidade nutricional. A pesquisa foi conduzida por cientistas da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp em parceria com pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos da Espanha (ICTAN-CSIC).

 

 

O que os pesquisadores descobriram

Os cientistas compararam duas formulações de biscoitos:

  • Formulação controle: 100% farinha de arroz;
  • Formulação experimental: 99% farinha de arroz + 1% farinha de alga.

Mesmo com uma substituição mínima, os resultados chamaram atenção.

O biscoito enriquecido com a alga apresentou:

  • maior teor de minerais;
  • maior teor de umidade;
  • textura mais macia;
  • coloração naturalmente mais escura devido aos pigmentos da alga;
  • melhor digestibilidade proteica;
  • atividade antioxidante significativamente superior.

Segundo os pesquisadores, a farinha de Sargassum filipendula alcançou digestão proteica completa após 240 minutos nos testes laboratoriais simulando o sistema digestivo humano.

Além disso, a atividade antioxidante medida pelo método ORAC atingiu 13.993,93 μM TE/g após a digestão intestinal da alga, valor considerado elevado para ingredientes alimentares.

 

 

Por que isso é importante para os celíacos?

A relevância da pesquisa vai além da simples criação de um novo ingrediente.

Diversos estudos mostram que pessoas com doença celíaca costumam apresentar maior risco de deficiências nutricionais, especialmente no período próximo ao diagnóstico.

As carências mais frequentes incluem:

Nutriente Possíveis consequências
Ferro Anemia e fadiga
Vitamina D Osteopenia e osteoporose
Cálcio Fragilidade óssea
Zinco Alterações imunológicas
Magnésio Cansaço e dores musculares
Vitaminas do complexo B Alterações neurológicas

Ao mesmo tempo, muitos produtos industrializados sem glúten continuam sendo formulados principalmente com amidos refinados de arroz, milho ou mandioca.

Isso faz com que boa parte dos alimentos disponíveis no mercado seja segura do ponto de vista da ausência de glúten, mas apresente baixa qualidade nutricional. Pesquisas como a da Unicamp buscam justamente preencher essa lacuna.

 

 

Algas marinhas são consideradas alimentos funcionais

O interesse científico pelas algas cresceu significativamente nos últimos anos.

Uma ampla revisão publicada em 2026 identificou mais de 700 espécies com potencial alimentar e destacou que as algas marinhas são fontes importantes de:

  • fibras alimentares;
  • minerais;
  • proteínas;
  • compostos antioxidantes;
  • polissacarídeos bioativos;
  • compostos anti-inflamatórios.

Segundo a revisão, as algas marrons se destacam especialmente pela presença de compostos como:

  • fucoidanas;
  • alginatos;
  • laminarinas;
  • polifenóis;
  • fucoxantina.

Essas substâncias vêm sendo estudadas por seus potenciais efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios, imunomoduladores e metabólicos.

 

 

Um dos maiores problemas dos produtos sem glúten

Nos últimos anos, pesquisadores passaram a chamar atenção para um fenômeno recorrente.

Muitas pessoas retiram o glúten da alimentação, mas acabam substituindo alimentos tradicionais por produtos ultraprocessados sem glúten.

Embora seguros para celíacos, esses alimentos frequentemente apresentam:

  • menos fibras;
  • menos proteínas;
  • mais açúcar;
  • mais gordura;
  • menor densidade nutricional.

Por isso, a busca por ingredientes capazes de enriquecer nutricionalmente produtos gluten free é considerada uma das principais tendências da indústria mundial de alimentos.

 

 

O impacto para o mercado sem glúten

O estudo brasileiro traz uma mensagem importante para fabricantes e consumidores.

Até recentemente, boa parte das inovações em produtos sem glúten estava concentrada na textura, sabor ou estabilidade tecnológica.

Agora, o foco começa a migrar para um conceito mais moderno: alimentos sem glúten que também promovam saúde.

A incorporação de ingredientes naturais ricos em fibras, antioxidantes e compostos bioativos pode representar uma nova geração de produtos voltados não apenas à exclusão do glúten, mas à melhoria da qualidade nutricional da dieta.

Para os cerca de milhões de brasileiros que vivem com doença celíaca, sensibilidade ao glúten ou alergia ao trigo, isso significa mais opções de alimentos que unem segurança alimentar e valor nutricional.

 

 

Leia mais no Eu Celíaca:

 

     

     

    Um caminho promissor para o futuro

    Embora os pesquisadores ressaltem que novos estudos ainda serão necessários para avaliar aceitação sensorial, escalabilidade industrial e possíveis aplicações em outros alimentos, os resultados mostram que pequenas mudanças na formulação podem gerar ganhos nutricionais relevantes.

    Mais do que criar um biscoito diferente, a pesquisa demonstra que a ciência brasileira está contribuindo para resolver um dos maiores desafios da alimentação sem glúten: transformar produtos seguros em produtos realmente nutritivos.

    E para uma comunidade que há décadas convive com opções limitadas, essa pode ser uma notícia tão importante quanto a própria ausência do glúten.

     

     

    Referências científicas e fontes

    1. Agência FAPESP
    2. Food Research International – estudo original  Revisão científica sobre algas marinhas e compostos bioativos (periódico científico internacional)

     

    Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas neste artigo não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada.  

    Produtos mencionados neste artigo não constituem endosso comercial. Tão pouco há endosso político/partidário. Consulte sempre o rótulo para identificar a isenção de glúten. 

    Caso você suspeite de doença celíaca, sensibilidade ao glúten ou qualquer condição relacionada, procure um profissional especialista qualificado, mesmo antes de iniciar qualquer medicamento, suplementação ou mudança no protocolo de tratamento. Cada paciente é único, e as condutas devem ser individualizadas por profissionais habilitados e especializados. Nunca retire o glúten da alimentação antes de realizar os exames diagnósticos — isso pode invalidar os resultados sorológicos e dificultar o diagnóstico.

    O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Todo o conteúdo é produzido de forma independente, com base em fontes científicas verificadas, com o único objetivo de apoiar a comunidade celíaca.

    Andréa Farias é celíaca diagnosticada desde 2012, empreendedora, jornalista, pesquisadora e fundadora do Eu Celíaca. A autora compartilha sua experiência pessoal como celíaca, pesquisas baseada em fontes científicas, experiência na indústria farmacêutica e relacionamento direto com médicos, nutricionistas, pesquisadores e farmacêuticos.

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