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Esquizofrenia e glúten: o que mostram os estudos da Dra. Deanna Kelly

Esquizofrenia e glúten

Esquizofrenia e doença celíaca parecem, à primeira vista, condições sem nenhuma relação — uma é um transtorno psiquiátrico, a outra uma doença autoimune digestiva.

Mas há mais de uma década, uma linha de pesquisa conduzida pela Dra. Deanna Kelly, farmacêutica clínica e pesquisadora da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, vem investigando justamente essa fronteira: o que acontece quando uma parte das pessoas com esquizofrenia também tem uma reação imunológica ao glúten — com ou sem doença celíaca associada.

Este artigo reúne os três principais estudos da pesquisadora sobre o tema, na ordem em que foram publicados, e explica o que cada um mostrou, com honestidade sobre os limites de cada etapa da pesquisa.

 

 

Resposta rápida

Estudos liderados pela Dra. Deanna Kelly e sua equipe na Universidade de Maryland identificaram que cerca de um terço das pessoas com esquizofrenia têm níveis elevados de anticorpos antigliadina (AGA IgG), e uma proporção menor tem anticorpos anti-transglutaminase (tTG), compatíveis com doença celíaca.

É importante entender que essa linha de pesquisa é, na prática, quase inteira sobre sensibilidade ao glúten — não sobre doença celíaca.

Somando os três estudos da pesquisadora, 57 pessoas participaram ao todo, e apenas uma teve doença celíaca confirmada — no estudo mais antigo, de 2012.

Nos dois estudos maiores e mais recentes, ter doença celíaca era, na verdade, critério de exclusão: quem testava positivo para o marcador de doença celíaca (anti-tTG) era retirado do estudo e encaminhado para diagnóstico e tratamento à parte.

O primeiro estudo, o piloto de 2012 com apenas dois pacientes, mostrou melhora dos sintomas psiquiátricos após duas semanas de dieta sem glúten.

Um ensaio maior e randomizado, publicado em 2019 com 16 participantes, e um terceiro estudo com 39 participantes, concluído em 2024, deram mais consistência à hipótese, mas os resultados ainda são parciais — a dieta sem glúten mostrou benefício em sintomas específicos, não em todos os aspectos da esquizofrenia, e não substitui o tratamento psiquiátrico padrão.

Para quem tem doença celíaca: não confunda essa pesquisa com evidência sobre a sua condição. Os achados aqui dizem respeito, majoritariamente, a pessoas com sensibilidade ao glúten sem doença celíaca — um mecanismo diferente, ainda que os dois grupos comprovadamente se beneficiem de uma dieta sem glúten.

 

 

O ponto de partida: por que investigar glúten em esquizofrenia?

A ideia não é nova. Já na década de 1960, o psiquiatra F. Curtis Dohan observou que as internações por esquizofrenia caíram nos países escandinavos durante a Segunda Guerra Mundial, período de escassez de trigo, e voltaram a subir quando o consumo de cereais normalizou.

Nos Estados Unidos, o padrão foi inverso: internações por esquizofrenia aumentaram junto com o consumo de trigo.

Essas observações populacionais não provam causa e efeito, mas motivaram décadas de pesquisa subsequente.

O grupo da Dra. Kelly, ao analisar amostras de sangue de um grande estudo americano sobre tratamento de esquizofrenia (o CATIE), encontrou que 5,5% das pessoas com esquizofrenia tinham anticorpos anti-tTG compatíveis com doença celíaca — quase cinco vezes mais que o grupo de comparação, que teve 1,1%.

Ainda mais notável: 23,4% tinham anticorpos antigliadina (AGA), contra apenas 2,9% no grupo de comparação sem esquizofrenia.

 

 

O primeiro estudo: dois pacientes, dois casos diferentes

O primeiro passo prático da equipe foi um estudo-piloto aberto, publicado em 2012 na revista Schizophrenia Research, testando se seria viável manter pacientes psiquiátricos internados em dieta sem glúten por duas semanas.

O desenho original previa recrutar dois grupos distintos: pessoas com doença celíaca confirmada (positivas para anti-tTG) e pessoas com sensibilidade ao glúten sem doença celíaca (positivas apenas para antigliadina, AGA).

O estudo publicado incluiu um paciente de cada grupo:

  • Um paciente tinha doença celíaca confirmada (anti-tTG positivo).
  • O outro tinha sensibilidade ao glúten sem doença celíaca (AGA positivo, tTG negativo) — uma condição que os próprios autores descrevem como imunologicamente distinta da doença celíaca.

Os dois foram internados, mantidos em dieta sem glúten rigorosamente supervisionada por duas semanas, e avaliados por escalas psiquiátricas padronizadas (BPRS, para sintomas gerais, e SANS, para sintomas negativos, como apatia e isolamento social).

Ambos os pacientes melhoraram nas duas escalas, toleraram bem a dieta, mantiveram peso estável e tiveram queda nos níveis dos anticorpos correspondentes ao final do período.

Por que isso é relevante, mas não é prova definitiva: são dois pacientes, sem grupo controle, sem cegamento — ou seja, tanto os pesquisadores quanto os pacientes sabiam que a dieta era sem glúten, o que abre espaço para efeito placebo ou viés de expectativa.

Foi, na prática, um estudo de viabilidade: mostrou que era possível fazer a intervenção com segurança e que valia a pena investir em um estudo maior e mais rigoroso.

 

 

O segundo estudo: ensaio randomizado e duplo-cego (2019)

Com base nesse resultado inicial, a equipe conduziu um ensaio clínico maior, publicado em 2019 no Journal of Psychiatry and Neuroscience — o primeiro estudo duplo-cego sobre o tema.

Foram recrutados 16 participantes com esquizofrenia ou transtorno esquizoafetivo, todos com AGA IgG elevado, mas sem doença celíaca (tTG negativo — pacientes com tTG positivo foram excluídos do estudo e orientados a investigar doença celíaca separadamente, fora da pesquisa).

Todos os participantes receberam refeições sem glúten durante 5 semanas em regime de internação, mas foram divididos, de forma cega, em dois grupos: um recebia diariamente um shake com 10 g de farinha de trigo (reintroduzindo glúten escondido na dieta), o outro recebia um shake equivalente com farinha de arroz (placebo).

Resultado: o grupo que permaneceu genuinamente sem glúten teve melhora mais consistente em sintomas negativos da esquizofrenia, comparado ao grupo que recebia glúten escondido no shake, mesmo achando que estava em dieta sem glúten.

 

 

O terceiro estudo: a confirmação mais recente (2024)

O estudo mais recente e mais robusto dessa linha de pesquisa, concluído em 2024 e ainda em processo de publicação completa, envolveu 39 participantes — o maior grupo já estudado no tema —, também com desenho randomizado e duplo-cego, comparando dieta sem glúten rigorosa contra dieta com glúten, ambas com aparência idêntica para os participantes.

O resultado principal encontrou melhora estatisticamente significativa em uma escala específica de motivação e prazer (parte da avaliação de sintomas negativos da esquizofrenia) no grupo sem glúten, mas não houve diferença significativa nas demais escalas avaliadas, incluindo a escala geral de sintomas psiquiátricos.

Em linguagem simples: o benefício encontrado foi real, mas específico — não uma “cura” da esquizofrenia, e sim uma melhora pontual em um subconjunto de sintomas, num subgrupo específico de pacientes (os que têm os anticorpos elevados).

 

 

Doença celíaca ou sensibilidade ao glúten? O que os números dos três estudos mostram

Esse é o ponto que mais gera confusão quando essa pesquisa circula fora do meio científico — inclusive em vídeos e conteúdos que resumem os estudos como “ligação entre doença celíaca e esquizofrenia”. Os números contam uma história mais específica:

Estudo Ano Participantes Com doença celíaca confirmada
Piloto aberto (Jackson et al.) 2012 2 1
Ensaio randomizado (Kelly et al.) 2019 16 0 — critério de exclusão
Ensaio randomizado, maior 2024/2025 39 0 — critério de exclusão
Total 57 1

Nos dois estudos mais recentes e mais robustos — que são também os que dão mais peso científico à linha de pesquisa —, ter doença celíaca não era apenas raro: era um critério formal de exclusão.

Qualquer participante que testasse positivo para anti-tTG era retirado do estudo e orientado a investigar doença celíaca separadamente, fora do protocolo de pesquisa.

Por que isso importa para quem já tem doença celíaca diagnosticada: essa pesquisa não deve ser lida como “evidência de que a doença celíaca está ligada à esquizofrenia”.

O grupo estudado, na esmagadora maioria, tem sensibilidade ao glúten sem doença celíaca — um quadro imunológico diferente, com mecanismo ainda não totalmente esclarecido, distinto da resposta autoimune que caracteriza a doença celíaca.

Se você tem doença celíaca e busca informação sobre a relação entre a doença e saúde mental, essa não é a pesquisa mais diretamente aplicável ao seu caso — vale procurar estudos que investiguem especificamente pacientes celíacos, não o subgrupo de sensibilidade ao glúten.

 

 

O que esses estudos não mostram

É importante ser honesto sobre os limites dessa pesquisa, para não gerar expectativas irreais:

  • Os estudos foram feitos apenas em pessoas com anticorpos elevados relacionados ao glúten — não há evidência de que a dieta sem glúten ajude pessoas com esquizofrenia que não têm esses marcadores.
  • Nenhum dos estudos testou a retirada do glúten como substituto do tratamento antipsicótico. Em todos eles, os participantes mantiveram a medicação psiquiátrica habitual.
  • O benefício encontrado, mesmo nos estudos mais robustos, foi parcial — em sintomas específicos, não em todos os domínios da doença.
  • Não existe, até o momento, recomendação de rastreamento rotineiro de anticorpos antigliadina ou anti-tTG em todas as pessoas com esquizofrenia — essa ainda é uma linha de pesquisa em desenvolvimento, não uma prática clínica padrão.

 

 

Atenção: retirar o glúten não deve ser feito sem investigação e acompanhamento médico

Se você ou alguém próximo tem esquizofrenia e está considerando testar uma dieta sem glúten com base nesses estudos, o caminho correto é conversar com o psiquiatra responsável e considerar a investigação dos anticorpos (AGA e anti-tTG) antes de qualquer mudança na dieta — inclusive porque, se houver suspeita de doença celíaca, retirar o glúten antes dos exames pode prejudicar o próprio diagnóstico.

 

 

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FAQ – Perguntas frequentes

Esquizofrenia é causada por glúten?

Não, na grande maioria dos casos. Os estudos identificam um subgrupo específico de pessoas com esquizofrenia que também têm marcadores imunológicos relacionados ao glúten, mas isso não significa que o glúten cause esquizofrenia de forma geral.

Todo mundo com esquizofrenia deveria testar os anticorpos de glúten?

Isso ainda não é uma recomendação clínica padrão. É uma linha de pesquisa em desenvolvimento, conduzida principalmente por esse grupo de pesquisadores da Universidade de Maryland.

Dieta sem glúten substitui o tratamento com antipsicóticos?

Não. Em nenhum dos estudos os participantes deixaram de usar a medicação psiquiátrica. A dieta foi testada como possível complemento, não como substituto.

Qual a diferença entre os dois pacientes do estudo de 2012?

Um tinha doença celíaca confirmada por exame de sangue (anti-tTG positivo). O outro tinha apenas anticorpos antigliadina, sem doença celíaca — uma condição que os pesquisadores tratam como distinta, mais próxima da sensibilidade ao glúten.

Essa pesquisa é sobre doença celíaca ou sobre sensibilidade ao glúten?

Quase inteiramente sobre sensibilidade ao glúten. Dos 57 participantes somados nos três estudos, apenas 1 tinha doença celíaca confirmada — e foi no estudo mais antigo, de 2012. Nos dois estudos maiores e mais recentes, doença celíaca era critério de exclusão. Quem tem doença celíaca diagnosticada não deve tomar essa pesquisa como evidência direta sobre a própria condição.

 

 

Conclusão

A pesquisa da Dra. Deanna Kelly e sua equipe não sustenta a ideia de que esquizofrenia seja, na verdade, uma reação ao trigo mal diagnosticada — essa seria uma simplificação da evidência real.

O que os estudos mostram, com solidez crescente ao longo de mais de dez anos de pesquisa, é que existe um subgrupo identificável de pessoas com esquizofrenia, com marcadores imunológicos específicos ligados ao glúten, para quem a dieta sem glúten pode trazer um benefício real e mensurável em sintomas específicos — como parte de um cuidado mais amplo, nunca como substituto dele.

Vale reforçar, por fim, que essa é majoritariamente uma pesquisa sobre sensibilidade ao glúten, não sobre doença celíaca — de 57 participantes nos três estudos, apenas um tinha o diagnóstico confirmado.

Para o público que já vive com doença celíaca e busca entender a relação entre a doença e a saúde mental, essa linha de pesquisa é um dado interessante sobre o espectro mais amplo de condições relacionadas ao glúten, mas não deve ser lida como evidência direta sobre a própria doença celíaca.

 

 

Referências Científicas e Fontes

1. Jackson J, Eaton W, Cascella N, Fasano A, Warfel D, Feldman S, et al. A gluten-free diet in people with schizophrenia and anti-tissue transglutaminase or anti-gliadin antibodies. Schizophrenia Research. 2012;140(1-3):262-263. DOI: [10.1016/j.schres.2012.06.011

2. Kelly DL, Demyanovich HK, Rodriguez KM, et al. Randomized controlled trial of a gluten-free diet in patients with schizophrenia positive for antigliadin antibodies (AGA IgG): a pilot feasibility study. Journal of Psychiatry and Neuroscience. 2019;44(4):269-276. DOI: [10.1503/jpn.180174]

3. Kelly DL, et al. Randomized Double Blind Inpatient Study of a Gluten-Free Diet in Persons with Schizophrenia. 2024/2025 (preprint em processo de publicação).

4. Cascella NG, Kryszak D, Bhatti B, et al. Prevalence of celiac disease and gluten sensitivity in the United States clinical antipsychotic trials of intervention effectiveness study population. Schizophrenia Bulletin. 2011;37(1):94-100.

5. Registro do estudo NCT01558557 — Gluten Free Diet in People With Schizophrenia: A Pilot Study.

6. Jackson JR, Eaton WW, Cascella NG, Fasano A, Kelly DL. Neurologic and Psychiatric Manifestations of Celiac Disease and Gluten Sensitivity. Psychiatric Quarterly. 2012;83(1):91-102.

Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas não substituem consulta médica ou psiquiátrica. A pesquisa aqui descrita é preliminar e específica a um subgrupo de pacientes; não deve ser interpretada como recomendação geral de dieta sem glúten para esquizofrenia. Qualquer mudança na dieta ou no tratamento de uma condição psiquiátrica deve ser feita com acompanhamento médico. O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten.

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