Em 2010, uma pesquisa publicada na revista Pediatrics e destacada pela Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology encontrou uma associação que chamou atenção: crianças com doença celíaca apresentaram odds 80% maiores de terem nascido por cesárea quando comparadas ao grupo de controle.
O dado não nasceu de um boato. O estudo envolveu 1.950 crianças e adolescentes atendidos em dezenas de centros pediátricos. Mas ele também não demonstrou que a cesárea causa doença celíaca – nem que 80% dos bebês nascidos por cesariana desenvolverão a doença.
Depois dessa publicação, vieram pesquisas muito maiores. Algumas acompanharam centenas de milhares de crianças; outras analisaram cerca de 1,9 milhão, 2 milhões e 2,67 milhões de nascimentos. Os resultados divergiram: certos estudos encontraram associações pequenas em grupos específicos, enquanto vários outros não identificaram aumento de risco.
Essa diferença não torna a primeira pesquisa falsa. Mostra como uma hipótese científica precisa ser testada repetidamente, em populações diferentes e com melhor controle de fatores que podem confundir a análise.
Cesárea aumenta o risco de doença celíaca?
Até o momento, não há evidência consistente de que a cesárea, isoladamente, cause doença celíaca ou seja um fator de risco independente. O estudo de 2010 encontrou uma associação importante, e pesquisas posteriores identificaram sinais em cesáreas planejadas, sem trabalho de parto ou em determinados subgrupos. Entretanto, grandes coortes e uma metanálise de 11 estudos não confirmaram aumento significativo no conjunto dos dados.
A conclusão mais correta é: a via de nascimento continua sendo investigada como um possível componente ambiental, especialmente em crianças geneticamente predispostas, mas não existe consenso de que a cesárea aumente o risco de doença celíaca.
O estudo que encontrou associação de 80%
O artigo que originou a repercussão foi publicado por Decker e colaboradores na Pediatrics, em 2010. A página da Nature citada no início desta matéria é um destaque de pesquisa sobre esse trabalho, e não o estudo original.
Os pesquisadores realizaram um estudo multicêntrico, retrospectivo e do tipo caso-controle. Participaram 1.950 crianças e adolescentes: 516 com doença de Crohn, 250 com retocolite ulcerativa, 157 com doença celíaca, 165 com outras doenças gastrointestinais e 862 controles atendidos em serviços de oftalmologia, ortodontia e odontologia.
Entre as crianças com doença celíaca, 28% haviam nascido por cesárea. Nos outros grupos, a proporção não ultrapassou 19%. Na comparação com os controles, a razão de chances foi de 1,80, com intervalo de confiança de 95% entre 1,13 e 2,88.
Em termos estatísticos, o resultado foi significativo. Em termos científicos, levantou uma hipótese que precisava ser confirmada por estudos prospectivos e por registros populacionais maiores.
O que “80% maior” realmente significa
O resultado foi expresso como uma razão de chances, ou odds ratio, de 1,80. Isso significa que, naquela amostra, as crianças com doença celíaca apresentaram odds 80% maiores de terem nascido por cesárea do que as crianças do grupo de controle.
Não significa que 80% dos bebês nascidos por cesárea desenvolverão doença celíaca. Também não significa que uma cesárea aumente em 80 pontos percentuais o risco individual de uma criança.
Essa diferença é essencial. Medidas relativas podem parecer muito grandes quando são retiradas do contexto. Para avaliar o impacto real, também é necessário observar quantas crianças desenvolveram a doença, quais eram as frequências absolutas e quais outros fatores poderiam explicar parte da associação.
Por que o resultado chamou tanta atenção?
A doença celíaca não depende de um único elemento. Ela ocorre em pessoas geneticamente suscetíveis, é desencadeada pelo consumo de glúten e parece ser influenciada por fatores ambientais que ainda estão sendo investigados.
A via de nascimento passou a ser considerada porque o parto influencia a colonização inicial do intestino. Bebês nascidos por via vaginal e por cesárea podem apresentar diferenças na composição da microbiota nos primeiros meses de vida. Como esse período também é importante para o amadurecimento do sistema imunológico, surgiu uma hipótese biologicamente plausível: alterações microbianas precoces poderiam contribuir para a manifestação de doenças imunomediadas em pessoas predispostas.
Plausibilidade biológica, porém, não é prova de causalidade. A cesárea também está relacionada a uso de antibióticos, indicação obstétrica, idade e saúde maternas, prematuridade, início do trabalho de parto, aleitamento e outros fatores. Separar o efeito de cada um deles é um dos maiores desafios desses estudos.
O que as pesquisas maiores encontraram
Os estudos publicados depois de 2010 não seguiram todos o mesmo desenho. Alguns avaliaram qualquer cesárea; outros separaram cesárea planejada, de emergência ou realizada antes do trabalho de parto. Alguns confirmaram a doença por biópsia, enquanto outros usaram diagnósticos registrados em sistemas de saúde.
| Estudo | Número de participantes | Principal resultado |
| Decker et al., 2010 | 1.950 participantes; 157 com doença celíaca | Associação com cesárea: OR 1,80 (IC 95% 1,13-2,88). |
| Mårild et al., 2012 | 11.749 casos confirmados por biópsia e 53.887 controles | Qualquer cesárea não foi significativa; cesárea planejada teve associação pequena: OR ajustada 1,15. |
| Emilsson et al., 2015 | 650 crianças com doença celíaca e 107.828 controles | Não encontrou associação após os ajustes: OR 0,83. |
| Sevelsted et al., 2015 | Cerca de 2 milhões de crianças nascidas a termo | Não encontrou associação com doença celíaca. |
| Namatovu et al., 2016 | 1.912.204 nascidos vivos; 6.596 casos | Não encontrou associação independente no conjunto da população. |
| Sander et al., 2018 | 1.051.028 crianças na Dinamarca e 537.457 na Noruega | Não encontrou aumento significativo em nenhuma das duas coortes. |
| Koletzko et al. – TEDDY, 2018 | 6.087 crianças com HLA de risco | Após ajustes, cesárea não se associou à autoimunidade celíaca nem à doença celíaca. |
| Andersen et al., 2020 | 2.672.708 crianças; 7.132 diagnósticos de doença celíaca | Encontrou associação pequena no período completo: HR 1,10. Os autores ressaltaram que o estudo observacional não prova causalidade. |
| Soullane et al., 20219 | 34.873 crianças | Não encontrou maior risco de hospitalização por doença celíaca: HR 0,86. |
| Yang et al., 2022 | Metanálise de 11 estudos observacionais | Não encontrou aumento significativo: OR 1,03. Resultados também não foram significativos para cesárea planejada ou de emergência. |
| Tanpowpong et al., 2023 | 44.539 pares mãe-filho; 173 diagnósticos | O resultado para qualquer cesárea não foi significativo; houve um sinal para cesárea sem trabalho de parto. |
| Iorfida et al., 2024 | 3.259 pacientes italianos com doença celíaca | Observou diferenças na idade de diagnóstico, mas não havia grupo sem doença celíaca para calcular risco. |
Nota importante: esses números não devem ser simplesmente somados. Algumas coortes nacionais podem abranger períodos ou populações parcialmente sobrepostos, e os estudos mediram desfechos diferentes.
O panorama é realmente divergente. Um estudo dinamarquês publicado em 2020, com 2.672.708 crianças e 7.132 diagnósticos de doença celíaca, encontrou uma associação pequena no acompanhamento completo: hazard ratio de 1,10. Os próprios autores afirmaram que o desenho observacional não permite concluir causalidade e que o efeito poderia ser explicado, total ou parcialmente, por fatores residuais não controlados.
Por outro lado, uma pesquisa também dinamarquesa com cerca de 2 milhões de crianças não encontrou associação. Outro trabalho, que reuniu 1.051.028 crianças da Dinamarca e 537.457 da Noruega, chegou à mesma conclusão negativa nas duas populações.
Em 2022, uma metanálise combinou 11 estudos observacionais. O resultado geral foi uma OR de 1,03, com intervalo de confiança de 0,95 a 1,12: não houve aumento estatisticamente significativo. As análises de cesárea planejada e de emergência também não foram significativas.
Uma revisão guarda-chuva publicada em 2024 – estudo que avalia resultados de metanálises – classificou a associação entre cesárea e doença celíaca como não significativa. Os autores não encontraram evidência forte ou altamente sugestiva para nenhum dos fatores não genéticos analisados.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 voltou a reunir os estudos sobre consequências gastrointestinais da cesárea. Para doença celíaca, a conclusão permaneceu a mesma: os resultados são inconsistentes e não sustentam a via de nascimento como fator de risco independente.
Crianças geneticamente predispostas: o que mostram os estudos
Falar em predisposição genética não significa dizer que a doença celíaca esteja determinada desde o nascimento. Os principais genes associados são HLA-DQ2 e HLA-DQ8. Cerca de 30% da população apresenta um deles, mas apenas aproximadamente 3% das pessoas com essas variantes desenvolvem doença celíaca.
Isso significa que os genes são importantes, mas não suficientes. Uma criança pode ter HLA-DQ2 ou HLA-DQ8 e nunca adoecer. Por outro lado, a ausência dessas variantes torna a doença celíaca muito improvável.
É justamente por isso que estudos com crianças geneticamente predispostas são relevantes: eles permitem investigar se a via de nascimento modifica o risco dentro de um grupo que já possui uma condição necessária para a doença se manifestar.
TEDDY: mais de 6 mil crianças com HLA de risco
O estudo TEDDY acompanhou 6.087 crianças com HLA DR3-DQ2 ou DR4-DQ8. Entre elas, 1.600 – 26% – nasceram por cesárea. Durante o acompanhamento, 979 crianças desenvolveram autoimunidade celíaca e 343 tiveram doença celíaca.
Nas análises iniciais, a cesárea pareceu associar-se a um risco menor. Contudo, essa significância desapareceu quando os pesquisadores ajustaram os dados para país, sexo, genótipo HLA, doença celíaca na família, escolaridade materna e duração do aleitamento.
Depois dos ajustes, não houve associação significativa nem com autoimunidade celíaca, HR 0,91, nem com doença celíaca, HR 0,85. A conclusão dos autores foi que a cesárea não aumentou o risco nesse grupo geneticamente suscetível.
Estudo italiano acompanhou crianças predispostas desde o nascimento
Outro estudo prospectivo avaliou crianças com HLA-DQ2 ou HLA-DQ8 e histórico familiar de doença celíaca. Havia informação sobre a via de nascimento para 431 participantes: 233 nasceram por via vaginal e 198 por cesárea.
Aos 5 anos, a autoimunidade celíaca apareceu em 24% das crianças nascidas por via vaginal e em 19% das nascidas por cesárea. A doença celíaca manifesta foi observada em 19% e 14%, respectivamente. As diferenças não foram estatisticamente significativas.
Esses resultados reforçam uma mensagem importante: mesmo em crianças predispostas, a cesárea não se mostrou, até agora, um determinante isolado da doença.
Cesárea planejada, de emergência e sem trabalho de parto são iguais?
Não necessariamente. Do ponto de vista biológico e obstétrico, há diferenças entre uma cesárea planejada antes do início do trabalho de parto, uma cirurgia realizada depois que o trabalho de parto começou e uma cesárea de emergência.
Em 2012, o estudo sueco de Mårild encontrou uma associação pequena com cesárea planejada, OR ajustada 1,15, mas não com cesárea de emergência nem com qualquer cesárea analisada em conjunto. A diferença absoluta foi discreta: 5,7% dos casos e 5,1% dos controles haviam nascido por cesárea planejada.
Em 2023, uma coorte norte-americana com 44.539 pares mãe-filho encontrou um sinal para cesárea sem trabalho de parto, HR ajustada 1,56, mas não para cesárea com trabalho de parto. Para qualquer cesárea, o resultado ficou próximo do limite estatístico, porém não foi significativo.
Em sentido diferente, a grande coorte dinamarquesa de 2020 encontrou associação no período completo e um sinal maior para cesárea aguda em algumas análises. Já as coortes da Dinamarca e da Noruega publicadas em 2018 não confirmaram aumento consistente nem para cesárea planejada.
O estudo italiano CD-deliver-IT, publicado em 2024, reuniu 3.259 pessoas com doença celíaca e verificou que aquelas nascidas por cesárea de emergência receberam diagnóstico em idade mediana menor.
Entretanto, como o trabalho não incluiu um grupo de comparação sem doença celíaca, ele não permite afirmar que a cesárea aumentou o risco de desenvolver a doença.
Essas diferenças mostram por que a expressão genérica “nasceu de cesárea” pode ser insuficiente para compreender o fenômeno.
Microbiota intestinal: uma hipótese plausível, mas ainda não uma causa comprovada
Um dos mecanismos mais estudados é a microbiota intestinal. Em 2019, pesquisadores analisaram 1.679 amostras de 596 bebês nascidos a termo em hospitais britânicos: 314 por via vaginal e 282 por cesárea.
Os bebês nascidos por cesárea apresentaram menor transmissão de cepas maternas de Bacteroides e maior presença inicial de microrganismos oportunistas associados ao ambiente hospitalar, incluindo espécies de Enterococcus, Enterobacter e Klebsiella. O estudo mostrou que a via de nascimento influencia a colonização microbiana inicial.
Mas ele não acompanhou o desenvolvimento de doença celíaca como desfecho. Portanto, não demonstrou que essas diferenças microbianas causem a doença.
Em um trabalho mais específico, publicado em 2020, foram avaliados 31 bebês com parente de primeiro grau com doença celíaca. A cesárea foi associada a menor abundância de Bacteroides vulgatus e Bacteroides dorei, além de mudanças em vias metabólicas antes da introdução do glúten.
O resultado ajuda a construir uma possível ponte entre genes, ambiente e sistema imunológico. Entretanto, a amostra era pequena e o estudo avaliou alterações na microbiota, não quantos participantes desenvolveriam doença celíaca anos depois.
Hoje, a hipótese mais prudente é a de múltiplos fatores: predisposição genética, exposição ao glúten e uma combinação variável de infecções, antibióticos, microbiota, alimentação infantil e outros eventos ambientais. A cesárea poderia participar desse conjunto em algumas crianças, mas essa participação ainda não foi demonstrada como causa independente.
Também não há evidência suficiente para recomendar “semeadura vaginal”, probióticos ou qualquer intervenção no microbioma com o objetivo de prevenir doença celíaca. Essas medidas não devem ser realizadas por conta própria.
Por que os estudos chegam a conclusões diferentes?
Resultados conflitantes são comuns quando o possível efeito é pequeno e muitos fatores estão interligados. Entre as principais explicações estão:
- Desenho do estudo: entrevistas retrospectivas estão mais sujeitas a falhas de memória do que registros feitos no nascimento.
- Definição de doença celíaca: confirmação por biópsia, sorologia, prontuário ou código hospitalar não identifica exatamente os mesmos casos.
- Tipo de cesárea: planejada, de emergência, com ou sem trabalho de parto podem representar exposições diferentes.
- Fatores maternos e obstétricos: idade, doenças autoimunes, complicações da gestação, prematuridade e a própria indicação da cirurgia podem influenciar os resultados.
- Antibióticos e alimentação infantil: profilaxia antibiótica, aleitamento e fórmula também interferem na microbiota e nem sempre foram medidos.
- Genética e histórico familiar: nem todos os trabalhos ajustaram adequadamente para HLA ou doença celíaca na família.
- Tempo de acompanhamento: algumas pesquisas observaram apenas a infância; outras acompanharam participantes por décadas.
- Tamanho e perfil da população: um resultado pode aparecer em um país, sexo ou subgrupo e não se repetir em outro.
Quanto maior a amostra, maior a capacidade de detectar diferenças muito pequenas. Isso é uma vantagem, mas exige cuidado: um efeito estatisticamente significativo pode ter magnitude discreta e ainda sofrer influência de fatores não medidos.
O cenário brasileiro torna a pergunta ainda mais relevante
Segundo dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos apresentados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar, 57% dos 2.677.101 nascimentos registrados no Brasil em 2021 ocorreram por cesárea. Na saúde suplementar, o percentual informado foi de 81,76%.
Esses números tornam qualquer hipótese sobre consequências de longo prazo especialmente relevante para o país. Ao mesmo tempo, eles não autorizam alarmismo nem culpa materna.
A Organização Mundial da Saúde destaca que a cesárea pode ser uma cirurgia essencial e capaz de salvar a vida da gestante e do bebê quando há indicação médica. A discussão científica sobre possíveis efeitos futuros não deve levar famílias a recusar um procedimento necessário.
Também é importante evitar interpretações simplistas. A OMS não recomenda uma taxa única de cesáreas para todos os hospitais ou países, porque o perfil das gestantes, os riscos obstétricos e a complexidade dos serviços variam.
O que pais e responsáveis devem fazer na prática
Nascer por cesárea, isoladamente, não é indicação reconhecida para rastreamento de doença celíaca. O acompanhamento deve considerar o conjunto da história clínica e familiar.
Vale conversar com o pediatra ou gastroenterologista pediátrico quando a criança apresenta sintomas persistentes, como diarreia ou constipação recorrente, barriga inchada, dor abdominal, vômitos, anemia, dificuldade para ganhar peso, baixa estatura, atraso no crescimento, fadiga, aftas frequentes ou alterações no esmalte dentário.
A atenção também deve ser maior quando há parente de primeiro grau com doença celíaca ou condições associadas, como diabetes tipo 1, tireoidite autoimune, síndrome de Down, síndrome de Turner e deficiência de IgA.
Se houver suspeita, não retire o glúten da alimentação antes dos exames sem orientação médica. A investigação sorológica e a biópsia, quando indicada, precisam ser interpretadas enquanto a pessoa consome glúten. O teste HLA-DQ2/DQ8 pode ser útil em situações específicas, principalmente para tornar a doença muito improvável quando é negativo, mas um resultado positivo não confirma o diagnóstico.
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O que a ciência permite concluir hoje
O conjunto das evidências permite separar quatro afirmações:
- Existe uma hipótese científica real. O estudo de 2010 encontrou associação estatisticamente significativa, e pesquisas sobre microbiota mostram mecanismos biologicamente plausíveis.
- Os resultados não são consistentes. Grandes estudos chegaram a conclusões opostas, inclusive dentro de registros com milhões de crianças.
- A melhor síntese disponível não confirma aumento de risco. A metanálise de 11 estudos e a revisão guarda-chuva de 2024 não encontraram associação estatisticamente significativa.
- Genética continua sendo central, mas não determina o destino. Estudos com milhares de crianças HLA-DQ2/DQ8 positivas não mostraram que a cesárea aumente, por si só, a autoimunidade celíaca ou a doença.
Portanto, a cesárea deve ser vista como uma exposição ambiental em investigação, e não como uma causa estabelecida da doença celíaca.
Perguntas frequentes sobre cesárea e doença celíaca
Toda criança nascida por cesárea tem maior risco de doença celíaca?
Não. Os estudos não demonstram que toda criança nascida por cesárea tenha risco aumentado. Grandes coortes e metanálises não encontraram associação significativa no conjunto das populações estudadas.
O estudo mostrou que 80% dos bebês de cesárea terão doença celíaca?
Não. O estudo encontrou odds 80% maiores de nascimento por cesárea entre crianças com doença celíaca, em comparação aos controles. Essa medida relativa não significa que 80 em cada 100 bebês de cesárea desenvolverão a doença.
Uma criança que nasceu por cesárea precisa fazer exames para doença celíaca?
Não apenas por esse motivo. A decisão de investigar deve considerar sintomas, crescimento, anemia, doenças associadas e histórico familiar. Nascer por cesárea, sozinho, não é indicação reconhecida para rastreamento.
Ter HLA-DQ2 ou HLA-DQ8 significa que a criança será celíaca?
Não. Cerca de 30% das pessoas possuem HLA-DQ2 ou HLA-DQ8, mas somente aproximadamente 3% delas desenvolvem doença celíaca. O resultado positivo indica predisposição, não diagnóstico.
A ausência de HLA-DQ2 e HLA-DQ8 exclui doença celíaca?
A ausência dessas variantes torna a doença muito improvável. Por isso, o teste genético é mais útil para excluir a possibilidade em situações específicas do que para confirmar o diagnóstico.
Probióticos podem prevenir doença celíaca em bebês nascidos por cesárea?
Não há evidência clínica suficiente para recomendar probióticos com esse objetivo. Alterações da microbiota são uma linha de pesquisa, mas ainda não existe intervenção comprovada para prevenir doença celíaca por meio do microbioma.
Uma cesárea indicada deve ser evitada por medo de doença celíaca?
Não. A cesárea é um procedimento essencial e pode salvar vidas quando há indicação médica. A hipótese investigada nesses estudos não justifica recusar uma cirurgia necessária.
Cesárea planejada e cesárea de emergência têm o mesmo resultado nos estudos?
Não. Alguns estudos encontraram sinais apenas para cesárea planejada, sem trabalho de parto ou de emergência, enquanto outros não repetiram esses achados. Essa inconsistência é uma das razões pelas quais não há conclusão causal.
Conclusão: uma hipótese séria não é o mesmo que uma causa comprovada
O estudo de 2010 merece ser citado corretamente. Ele avaliou 1.950 participantes, encontrou uma associação estatisticamente significativa e abriu uma linha importante de investigação sobre nascimento, microbiota e doenças imunomediadas.
Mas a ciência não parou naquele resultado. Pesquisas posteriores acompanharam milhões de crianças. Algumas encontraram associações pequenas; muitas outras não encontraram aumento de risco. Em crianças geneticamente predispostas, os principais estudos também não confirmaram que a cesárea aumente a ocorrência de autoimunidade celíaca ou doença celíaca.
Hoje, a interpretação mais responsável é esta: a cesárea pode alterar a microbiota inicial e talvez interagir com outros fatores em determinados contextos, mas não está comprovado que cause doença celíaca. Para as famílias, o mais importante continua sendo reconhecer sintomas e grupos de risco, investigar sem retirar o glúten antes dos exames e buscar avaliação médica adequada.
Conteúdo informativo. Esta matéria não substitui consulta, diagnóstico ou orientação individual de pediatra, gastroenterologista ou obstetra.
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