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Doença celíaca em idosos: estudo encontrou prevalência de 2,13%, e quase 6 em cada 10 casos estavam sem diagnóstico

doença celíaca em idosos

A doença celíaca pode ser descoberta depois dos 60, 70 ou até 80 anos. Em pessoas idosas, porém, anemia, osteoporose, fadiga, perda de peso e fraqueza podem ser atribuídas ao envelhecimento, enquanto a causa permanece sem diagnóstico.

A doença celíaca não é exclusiva da infância ou da juventude. Ela pode ser diagnosticada em qualquer fase da vida, inclusive após os 60 anos.

Em uma pesquisa populacional realizada na Finlândia, a doença foi identificada em 2,13% dos participantes de 52 a 74 anos.

Apenas 0,89% já tinham recebido o diagnóstico. Isso significa que aproximadamente 58% dos casos identificados permaneciam desconhecidos: quase 6 em cada 10 pessoas não sabiam que tinham doença celíaca.¹

O número não deve ser interpretado como a prevalência exata entre todos os idosos ou aplicado automaticamente à população brasileira. O estudo foi realizado em uma população específica, em um país com alta frequência conhecida da doença. Ainda assim, o resultado derruba a ideia de que investigar doença celíaca na velhice seria desnecessário.

Outro levantamento da literatura concluiu que aproximadamente um quarto dos diagnósticos já ocorre em pessoas com 60 anos ou mais. Cerca de um quinto acontece depois dos 65, e aproximadamente 4% dos pacientes recebem o diagnóstico a partir dos 80 anos.²

O problema é que as manifestações em idosos nem sempre correspondem à imagem clássica de uma pessoa com diarreia intensa e grande perda de peso. Cansaço, anemia, indigestão, pouco apetite, constipação, baixa massa óssea e perda de força podem ser os sinais predominantes.

 

 

Estudo encontrou doença celíaca em 2,13% dos participantes de 52 a 74 anos

O estudo finlandês avaliou amostras de uma população adulta ao longo do tempo e encontrou aumento da prevalência da doença celíaca.Entre os participantes de 52 a 74 anos, a prevalência total chegou a 2,13%. O percentual já diagnosticado era de apenas 0,89%, mostrando que a frequência real era mais que o dobro daquela reconhecida pelos serviços de saúde.¹

Em termos práticos:

  • pouco mais de 2 em cada 100 participantes tinham doença celíaca;
  • menos da metade dos casos havia sido identificada anteriormente;
  • aproximadamente 58% permaneciam sem diagnóstico.

O estudo também indicou que o aumento não podia ser explicado apenas pela melhoria dos exames ou pela maior atenção dos médicos. A prevalência total da doença havia aumentado na população analisada.¹

Isso não significa que todos os países tenham a mesma frequência. Uma meta-análise global encontrou prevalência de 1,4% quando o diagnóstico foi estimado por sorologia e de 0,7% quando foram considerados casos confirmados por biópsia. Os resultados variaram conforme região, idade, sexo e método utilizado.³

 

 

Quase 6 em cada 10 casos não tinham diagnóstico prévio

A diferença entre a prevalência total, de 2,13%, e a prevalência previamente diagnosticada, de 0,89%, mostra o tamanho do subdiagnóstico naquela população finlandesa.¹

Uma pessoa idosa pode passar anos tratando separadamente:

  • anemia por deficiência de ferro;
  • deficiência de vitamina B12 ou folato;
  • osteopenia ou osteoporose;
  • distensão abdominal;
  • constipação ou diarreia;
  • fadiga persistente;
  • perda de peso;
  • alterações de equilíbrio;
  • neuropatia;
  • fraqueza muscular.

Nem todos esses problemas são provocados por doença celíaca. Eles são comuns na velhice e podem ter diversas causas. A investigação torna-se importante quando permanecem sem explicação, aparecem em conjunto, não respondem ao tratamento esperado ou vêm acompanhados de outros fatores de risco.

 

 

Aproximadamente um quarto dos diagnósticos pode ocorrer depois dos 60 anos

Uma revisão sobre doença celíaca na vida adulta tardia calculou que aproximadamente 25% dos diagnósticos eram realizados a partir dos 60 anos. Cerca de 20% ocorriam aos 65 anos ou mais e 4% após os 80.²

Outra revisão relatou que até 34% dos pacientes recém-diagnosticados em algumas séries tinham mais de 60 anos.⁴

Esses percentuais não representam uma taxa universal. Eles variam de acordo com:

  • a população estudada;
  • a idade usada para definir “idoso”;
  • o tipo de serviço médico;
  • os critérios diagnósticos;
  • a existência de busca ativa em grupos de risco;
  • o grau de reconhecimento da doença pelos profissionais.

Ainda assim, as pesquisas mostram que o diagnóstico tardio não é uma exceção isolada.

 

 

O que os estudos mostram sobre doença celíaca em adultos mais velhos?

Dado encontrado População ou contexto Como interpretar Fonte científica
Prevalência de 2,13% Participantes de 52 a 74 anos em estudo populacional finlandês Pouco mais de 2 em cada 100 participantes tinham doença celíaca. O percentual não deve ser aplicado automaticamente a outros países. Lohi et al., 2007¹
Apenas 0,89% já tinham diagnóstico | Mesma população finlandesa Menos da metade dos casos existentes já havia sido reconhecida antes da pesquisa. Lohi et al., 2007¹
Aproximadamente 58% permaneciam sem diagnóstico Casos identificados entre os participantes de 52 a 74 anos Quase 6 em cada 10 pessoas com a doença não sabiam que eram celíacas. Lohi et al., 2007¹
Cerca de 25% dos diagnósticos após os 60 anos Revisão de estudos sobre diagnóstico na vida adulta tardia Uma parcela relevante dos casos é reconhecida somente na velhice. Collin et al., 2018²
Cerca de 20% após os 65 anos Mesma revisão Um em cada cinco diagnósticos ocorreu a partir dos 65 anos nas séries avaliadas. Collin et al., 2018²
Aproximadamente 4% após os 80 anos Mesma revisão A doença também pode ser reconhecida em pessoas com 80 anos ou mais. Collin et al., 2018²
Até 34% dos recém-diagnosticados tinham mais de 60 anos Séries clínicas reunidas em revisão O percentual varia entre estudos e não representa todos os países ou serviços. Johnson et al., 2008⁴
Um em cada cinco pacientes pode não responder inicialmente à dieta Revisão sistemática e meta-análise sobre doença celíaca não responsiva Sintomas persistentes não significam automaticamente doença refratária. A exposição involuntária ao glúten foi a causa mais frequente. Aggarwal et al., 2025⁵
Prevalência de 0,31% para doença celíaca refratária Estudo realizado em país com alta frequência de diagnóstico A forma refratária verdadeira é rara e exige investigação especializada. Ilus et al., 2014⁶

 

 

Diagnóstico aos 70 anos não significa que a doença começou aos 70

Receber o diagnóstico na velhice não permite determinar com precisão quando a doença começou.

Algumas pessoas desenvolvem manifestações clínicas apenas depois dos 60 anos. Outras relatam que já apresentavam anemia, sintomas intestinais, aftas, baixa massa óssea ou fadiga havia muitos anos, mas esses sinais nunca haviam sido ligados à doença celíaca.

Também existem pessoas com pouca ou nenhuma manifestação perceptível. A condição pode ser identificada durante a investigação de uma deficiência nutricional, de uma fratura, de alterações em exames ou após o diagnóstico de um familiar.

A doença celíaca depende de predisposição genética e da exposição ao glúten, mas isso não significa que obrigatoriamente se manifeste na infância. A resposta autoimune pode tornar-se clinicamente evidente em diferentes momentos da vida.

Infecções, cirurgias, alterações hormonais e outros períodos de estresse fisiológico são pesquisados como possíveis fatores relacionados ao aparecimento ou à intensificação das manifestações. Entretanto, geralmente não é possível afirmar que um acontecimento específico tenha causado a doença em determinada pessoa.

 

 

Anemia, osteoporose e fadiga podem ser confundidas com envelhecimento

O atraso no diagnóstico ocorre, em parte, porque muitos sinais da doença celíaca também são comuns em outras condições da velhice.

O cansaço pode ser atribuído à idade, à falta de sono, ao sedentarismo ou a doenças cardíacas. A perda de massa óssea pode ser explicada apenas pela menopausa ou pelo envelhecimento. A anemia pode ser tratada com ferro sem que sua causa seja esclarecida.

A doença celíaca precisa entrar na investigação quando esses problemas:

  • permanecem sem causa definida;
  • reaparecem depois do tratamento;
  • não melhoram como esperado;
  • surgem junto com perda de peso ou sintomas digestivos;
  • estão associados a outra doença autoimune;
  • aparecem em alguém com familiar celíaco;
  • acompanham alterações persistentes de vitaminas e minerais.

Em idosos, a apresentação clássica com diarreia volumosa, esteatorreia e perda acentuada de peso pode ocorrer, mas não é necessária para justificar a investigação. Revisões sobre doença celíaca na velhice descrevem manifestações mais discretas, como fadiga, indigestão, redução do apetite e anemia.²˒⁷

 

 

Em idosos, a doença pode aparecer sem diarreia

A ausência de diarreia não exclui doença celíaca. Entre as manifestações digestivas possíveis estão:

  • distensão abdominal;
  • excesso de gases;
  • dor ou desconforto abdominal;
  • constipação;
  • diarreia;
  • náuseas;
  • redução do apetite;
  • indigestão;
  • refluxo;
  • perda de peso;
  • intolerância secundária à lactose.

Algumas pessoas apresentam alternância entre constipação e diarreia. Outras têm apenas desconforto leve ou não percebem sintomas intestinais.

As manifestações fora do aparelho digestivo podem ser mais evidentes:

Nenhum desses sinais confirma sozinho a doença celíaca. Eles indicam a necessidade de avaliação clínica e de investigação das diferentes causas possíveis.

 

 

Perda de peso, anemia persistente e fraturas não devem ser explicadas apenas pela idade

Envelhecer não torna normal apresentar perda de peso involuntária, anemia recorrente ou fraturas por pequenos traumas.

Esses achados podem estar relacionados a diversos problemas, como sangramentos, doenças hematológicas, câncer, alterações hormonais, baixa ingestão alimentar, efeitos de medicamentos e doenças gastrointestinais.

A doença celíaca é uma das possibilidades que precisam ser consideradas, especialmente quando existe:

  • anemia por deficiência de ferro sem causa esclarecida;
  • deficiência de ferro que retorna após a reposição;
  • osteoporose desproporcional aos fatores de risco conhecidos;
  • perda de peso não intencional;
  • diarreia ou constipação persistente;
  • distensão abdominal frequente;
  • alteração de transaminases sem explicação;
  • neuropatia sem causa definida;
  • diabetes tipo 1;
  • doença autoimune da tireoide;
  • dermatite herpetiforme;
  • familiar de primeiro grau com doença celíaca.

 

 

Retirar o glúten antes dos exames pode produzir resultados falsamente negativos

Uma pessoa que ainda está em investigação não deve iniciar a dieta sem glúten por conta própria.

A redução ou exclusão do glúten pode diminuir os anticorpos no sangue e permitir recuperação parcial da mucosa intestinal. Como consequência, a sorologia e a biópsia podem apresentar resultados negativos ou menos claros, mesmo que a pessoa tenha a doença.

As diretrizes recomendam que a investigação diagnóstica seja realizada enquanto o paciente ainda consome glúten. Em pessoas que já o retiraram, o gastroenterologista deve avaliar se há necessidade e segurança para uma reintrodução orientada.⁸

Essa decisão precisa ser individualizada. Não se recomenda que uma pessoa idosa volte a consumir glúten por conta própria, principalmente se já apresentou perda importante de peso, anemia grave, desnutrição ou manifestações intensas.

 

 

Anti-transglutaminase IgA e IgA total costumam ser os primeiros exames solicitados

Em adultos, a investigação geralmente começa com exames de sangue.

O teste mais utilizado é o anticorpo antitransglutaminase tecidual da classe IgA, conhecido como anti-tTG IgA ou anti-transglutaminase IgA. A dosagem de IgA total costuma ser solicitada junto, porque a deficiência dessa imunoglobulina é mais frequente entre pessoas celíacas e pode provocar resultado falsamente negativo.

Quando existe deficiência de IgA, o médico pode utilizar testes da classe IgG, como:

  • antitransglutaminase IgG;
  • anticorpos contra peptídeos de gliadina deamidada IgG.

O anticorpo antiendomísio IgA pode ser empregado como exame complementar em situações selecionadas.

Resultados positivos não devem ser interpretados isoladamente pelo paciente. Outras condições clínicas, a quantidade de glúten ingerida e a qualidade dos testes podem influenciar a avaliação.

 

 

Adultos geralmente precisam de endoscopia com biópsias do duodeno

Em adultos, a confirmação diagnóstica normalmente envolve endoscopia digestiva alta com coleta de fragmentos do duodeno.

O patologista procura alterações como:

  • aumento de linfócitos intraepiteliais;
  • alongamento das criptas;
  • redução da altura das vilosidades;
  • atrofia vilositária de diferentes graus.

As lesões podem estar distribuídas de forma irregular. Por isso, recomenda-se obter múltiplas amostras, incluindo fragmentos do bulbo e de porções mais distais do duodeno.⁸

A endoscopia pode parecer normal a olho nu e, ainda assim, a análise microscópica revelar alterações. A ausência de uma aparência endoscópica típica não exclui a doença.

Outras causas também podem provocar inflamação ou atrofia das vilosidades. Entre elas estão algumas infecções, imunodeficiências, doenças inflamatórias e determinados medicamentos. O diagnóstico deve integrar história clínica, sorologia, consumo de glúten e resultado das biópsias.

 

 

HLA-DQ2 e HLA-DQ8 ajudam mais a excluir do que a confirmar

A maioria das pessoas com doença celíaca possui HLA-DQ2 ou HLA-DQ8. Entretanto, esses marcadores genéticos também aparecem em grande parte da população sem a doença.

Por isso, um resultado positivo não confirma que a pessoa seja celíaca.

A principal utilidade do exame é ajudar a excluir a doença em casos difíceis. Quando os dois marcadores estão ausentes, o diagnóstico torna-se muito improvável.O HLA pode ser considerado, por exemplo, quando:

  • a pessoa iniciou dieta sem glúten antes da investigação;
  • sorologia e biópsia apresentam resultados discordantes;
  • existem dúvidas sobre um diagnóstico antigo;
  • não há documentos que comprovem como o diagnóstico foi estabelecido.

 

 

Deficiência de ferro pode ser a primeira pista em idosos

A absorção de ferro ocorre principalmente nas porções iniciais do intestino delgado, uma região frequentemente afetada pela doença celíaca.

A inflamação e a lesão das vilosidades podem reduzir a absorção, provocando deficiência com ou sem anemia.

Entre os exames que podem ser usados na avaliação estão:

  • hemograma;
  • ferritina;
  • saturação de transferrina;
  • ferro sérico, quando indicado;
  • vitamina B12;
  • folato.

A presença de deficiência de ferro em uma pessoa idosa exige investigação ampla. Sangramentos do aparelho digestivo e outras causas potencialmente graves precisam ser excluídos. Não é seguro presumir que toda anemia em uma pessoa celíaca decorra da má absorção.

Quando a doença celíaca é a causa, a dieta sem glúten permite a recuperação da mucosa e melhora progressiva da absorção. Algumas pessoas também necessitam de reposição de ferro, cuja via, dose e duração devem ser definidas conforme a gravidade e a resposta.

 

 

Má absorção aumenta o risco de perda óssea e fraturas

A doença celíaca pode prejudicar a saúde dos ossos por diferentes mecanismos:

  • redução da absorção de cálcio;
  • deficiência de vitamina D;
  • inflamação sistêmica;
  • baixo peso;
  • redução da massa muscular;
  • alterações hormonais;
  • menor ingestão de nutrientes;
  • diagnóstico tardio.

Uma revisão sistemática encontrou associação entre doença celíaca diagnosticada e maior risco de fraturas em geral e de fratura de quadril.⁹

A idade, por si só, já aumenta o risco de osteoporose. Na pessoa idosa com doença celíaca, podem se somar menopausa, sedentarismo, uso de corticoides, baixo peso, quedas, tabagismo e outras doenças.

A densitometria óssea pode ser considerada na avaliação inicial, especialmente quando existem:

  • diagnóstico após os 60 anos;
  • fratura prévia;
  • baixo peso;
  • deficiência de vitamina D;
  • sinais de má absorção;
  • menopausa;
  • uso prolongado de corticoide;
  • outros fatores reconhecidos de risco.

A necessidade de repetição da densitometria depende do resultado inicial, do risco individual e do tratamento adotado. Não existe um único intervalo adequado para todos. A avaliação da saúde óssea pode incluir vitamina D, cálcio, função renal, paratormônio em situações selecionadas e análise da ingestão alimentar.¹⁰

 

 

Perda muscular pode aumentar quedas e perda de autonomia

Sarcopenia é a redução da força e da massa muscular associada ao envelhecimento e a outros fatores clínicos.

Na doença celíaca, o risco pode ser agravado por:

  • baixa ingestão de energia e proteína;
  • má absorção;
  • perda de peso;
  • deficiência de vitamina D;
  • anemia;
  • inflamação;
  • sedentarismo;
  • internações;
  • outras doenças crônicas.

Fraqueza muscular e osteoporose formam uma combinação preocupante. A fraqueza aumenta o risco de queda, enquanto a fragilidade óssea eleva a possibilidade de fratura.

A avaliação geriátrica pode considerar:

  • perda de peso recente;
  • força de preensão;
  • velocidade da caminhada;
  • dificuldade para levantar da cadeira;
  • número de quedas;
  • capacidade de comprar e preparar alimentos;
  • ingestão de proteína;
  • estado da dentição e da deglutição.

A sarcopenia é multifatorial. Sua presença em um paciente celíaco não prova que o glúten seja a única causa. O tratamento pode exigir dieta sem glúten segura, proteína suficiente, correção das deficiências, exercício resistido adaptado e controle de outras doenças.

 

 

Doenças autoimunes são mais comuns, mas cada diagnóstico precisa ser confirmado

A doença celíaca pode ocorrer junto com outras condições autoimunes, especialmente:

Isso não significa que toda pessoa celíaca terá outra doença autoimune ou que sintomas inespecíficos confirmem uma segunda condição.

O acompanhamento deve ser direcionado pela história clínica, pelo exame físico, pelos sintomas e pelos fatores de risco. Exames indiscriminados podem produzir resultados de difícil interpretação, enquanto a ausência de investigação em uma pessoa sintomática também pode atrasar diagnósticos importantes.

É preciso ainda separar doenças autoimunes de condições apenas associadas. Síndrome do intestino irritável, intolerância à lactose e osteoporose, por exemplo, podem ocorrer em pessoas celíacas, mas não são doenças autoimunes.

 

 

O que significa ter doença celíaca ativa?

Doença celíaca ativa é aquela em que a resposta imunológica provocada pelo glúten continua causando inflamação e lesão no intestino.

Isso pode acontecer:

  • antes do diagnóstico;
  • durante ingestão contínua ou repetida de glúten;
  • após contaminações frequentes;
  • quando a mucosa ainda não teve tempo para se recuperar;
  • quando existe outra causa para a persistência da lesão;
  • em casos raros de doença celíaca refratária.

“Doença ativa” não é sinônimo de “doença com sintomas fortes”.

Uma pessoa pode ter poucos sintomas e continuar apresentando anticorpos elevados ou atrofia das vilosidades. Outra pode sentir dor, distensão ou diarreia apesar de já ter mucosa recuperada, porque os sintomas são provocados por outra condição.

A atividade é avaliada pelo conjunto de informações:

  • sintomas;
  • consumo e risco de exposição ao glúten;
  • sorologia;
  • exames nutricionais;
  • evolução do peso;
  • biópsia, quando indicada;
  • investigação de outros diagnósticos.

 

 

Linfoma intestinal e adenocarcinoma do intestino delgado são raros, mas merecem atenção

A doença celíaca está associada a maior risco relativo de algumas malignidades raras, principalmente o linfoma de células T associado à enteropatia e o adenocarcinoma do intestino delgado.

Isso não significa que a maioria dos celíacos desenvolverá câncer. O risco absoluto individual permanece baixo.

A preocupação é maior quando existem:

  • diagnóstico muito tardio;
  • atrofia intestinal persistente;
  • doença celíaca refratária;
  • perda de peso sem explicação;
  • dor abdominal persistente;
  • anemia que retorna;
  • febre ou suores noturnos;
  • piora clínica apesar de dieta rigorosa;
  • sinais contínuos de má absorção.

Doença ativa, nesse contexto, significa inflamação e lesão intestinal persistentes, não apenas presença de sintomas.

Também não é correto chamar todos esses tumores de “câncer de intestino”. O linfoma de células T é uma doença das células do sistema imunológico que pode acometer o intestino. O adenocarcinoma do intestino delgado é um tumor que se origina no revestimento intestinal. Eles são diferentes do câncer colorretal.

 

 

Envelhecer com doença celíaca exige rever ossos, músculos e capacidade de manter a dieta

Os cuidados não são necessários apenas para quem recebe o diagnóstico depois dos 60 anos.

Uma pessoa diagnosticada na infância ou na vida adulta pode encontrar novas dificuldades ao envelhecer:

  • redução da visão para ler rótulos;
  • perda de força ou mobilidade para fazer compras;
  • dificuldade para cozinhar;
  • alterações de memória;
  • mudança de renda;
  • viuvez ou perda do cuidador;
  • entrada em instituição de longa permanência;
  • internações frequentes;
  • uso de muitos medicamentos;
  • perda de apetite;
  • dificuldade para mastigar ou engolir.

Uma dieta tecnicamente sem glúten pode, ainda assim, ser nutricionalmente insuficiente. Alimentos industrializados sem glúten podem ter pouca fibra e proteína e quantidades elevadas de açúcar, gordura ou sódio.

Ao envelhecer, é importante reavaliar:

  • ingestão de proteína;
  • consumo de fibras;
  • cálcio e vitamina D;
  • ferro, B12 e folato;
  • peso e massa muscular;
  • hidratação;
  • função intestinal;
  • capacidade de preparar refeições seguras;
  • necessidade de ajuda de familiares ou cuidadores.

 

 

Após o diagnóstico tardio, a avaliação deve procurar deficiências, osteoporose e perda muscular

O plano de avaliação deve ser individualizado, mas pode incluir:

Área O que pode ser avaliado
Atividade da doença Sintomas, anti-transglutaminase ou outro marcador definido pelo médico e qualidade da dieta
Anemia e ferro Hemograma, ferritina e outros testes de ferro conforme o caso
Vitaminas Vitamina B12, folato e vitamina D, especialmente quando há risco ou sintomas
Estado nutricional Peso, perda de peso, ingestão alimentar e sinais de desnutrição
Saúde óssea Densitometria, vitamina D, cálcio e fatores de risco para fratura
Fígado Enzimas hepáticas quando indicadas
Tireoide TSH e outros exames conforme história clínica
Força e mobilidade Quedas, força muscular, velocidade de marcha e capacidade funcional
Dieta Consulta com nutricionista que conheça doença celíaca e necessidades da pessoa idosa
Medicamentos Revisão de interações, suplementos e possíveis efeitos gastrointestinais

 Nem todos esses exames são obrigatórios para todos os pacientes ou em todas as consultas.

 

 

 

A dieta sem glúten continua sendo o tratamento, mas precisa fornecer proteína, fibras e micronutrientes

O tratamento estabelecido para a doença celíaca é a dieta sem glúten por toda a vida.

Isso exige excluir trigo, centeio, cevada e seus derivados, além de controlar a contaminação cruzada. A aveia deve ser própria para pessoas celíacas e avaliada individualmente, conforme a orientação da equipe de saúde e as regras de segurança aplicáveis.

Na velhice, o planejamento alimentar deve considerar mais do que a retirada do glúten.

As refeições precisam fornecer:

  • proteínas adequadas;
  • cálcio;
  • vitamina D;
  • ferro;
  • vitamina B12;
  • folato;
  • fibras;
  • energia suficiente;
  • líquidos.

Arroz, feijão, carnes, ovos, leite e derivados quando tolerados, frutas, legumes, verduras, tubérculos e grãos naturalmente sem glúten podem formar a base da alimentação, respeitando as necessidades e restrições individuais.

Suplementos não devem ser usados automaticamente. Ferro, cálcio, vitamina D, vitamina B12, folato e zinco podem ser necessários quando existe deficiência ou risco aumentado, mas doses excessivas também podem causar problemas e interagir com medicamentos.

 

 

Internações e instituições aumentam o risco de exposição acidental

Hospitais, casas de repouso e instituições de longa permanência podem representar um desafio para pessoas celíacas.

Os riscos incluem:

  • equipes que desconhecem a diferença entre doença celíaca e preferência alimentar;
  • preparo em superfícies compartilhadas;
  • uso dos mesmos utensílios;
  • troca de refeições;
  • espessantes, molhos ou temperos sem verificação;
  • contaminação em torradeiras e equipamentos;
  • medicamentos e suplementos não revisados;
  • dificuldade de comunicação do paciente.

O diagnóstico deve constar de forma clara no prontuário. Familiares e cuidadores podem ajudar fornecendo informações escritas sobre a dieta, contatos da equipe assistente e orientações objetivas para a cozinha.

Checklist para familiares e cuidadores

  • registrar a doença celíaca no prontuário;
  • confirmar que a equipe compreendeu que se trata de um tratamento médico;
  • identificar alimentos, preparações e utensílios seguros;
  • acompanhar peso, apetite e função intestinal;
  • comunicar perda de peso, anemia ou diarreia persistente;
  • verificar se a pessoa consegue ler rótulos e preparar refeições;
  • planejar antecipadamente internações e mudanças de residência;
  • manter acompanhamento médico e nutricional.

 

 

Melhora dos sintomas não garante recuperação completa do intestino

Muitas pessoas apresentam melhora depois de iniciar a dieta sem glúten. Entretanto, os sintomas não mostram sozinhos se a mucosa se recuperou.

Uma pessoa pode se sentir bem e continuar apresentando lesão intestinal. Outra pode ter sorologia normal, mas continuar exposta a pequenas quantidades de glúten. Também é possível persistirem sintomas por síndrome do intestino irritável, intolerância à lactose, constipação, medicamentos ou outras doenças, mesmo depois da recuperação do intestino.

A resposta ao tratamento pode ser avaliada por:

  • evolução dos sintomas;
  • ganho ou estabilização do peso;
  • correção da anemia;
  • normalização de vitaminas e minerais;
  • redução dos anticorpos;
  • avaliação detalhada da dieta;
  • saúde óssea;
  • recuperação da força;
  • nova endoscopia em situações selecionadas.

O acompanhamento deve ser mais próximo quando há diagnóstico tardio, desnutrição, anemia grave, osteoporose, sintomas persistentes ou dificuldade para manter a dieta.

 

 

Um em cada cinco pacientes pode não responder inicialmente à dieta

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 concluiu que aproximadamente um em cada cinco pacientes com doença celíaca poderia ser classificado como não responsivo à dieta sem glúten.⁵

Doença celíaca não responsiva é um termo usado quando sintomas, alterações laboratoriais ou lesões intestinais permanecem ou retornam apesar da tentativa de seguir a dieta.

A ingestão involuntária de glúten foi a causa mais frequente na análise, respondendo por aproximadamente um terço das causas identificadas.⁵

Outras possibilidades incluem:

A persistência de sintomas não deve ser tratada automaticamente como falta de cuidado do paciente. A exposição pode ocorrer por erros de rotulagem, refeições preparadas por terceiros, utensílios compartilhados, alimentos considerados seguros ou orientações incompletas.

 

 

Sintomas persistentes não significam automaticamente doença refratária

Doença celíaca não responsiva e doença celíaca refratária não são sinônimos.

A forma não responsiva é relativamente comum e possui diferentes causas. A refratária é rara e exige persistência de sinais de má absorção e atrofia das vilosidades apesar de dieta rigorosa, depois que a exposição ao glúten e outras causas foram cuidadosamente excluídas.

Em um estudo populacional finlandês, a prevalência de doença celíaca refratária foi estimada em 0,31% entre os pacientes celíacos.⁶

A forma refratária é dividida em dois tipos conforme as características dos linfócitos intraepiteliais. O tipo 2 está associado a risco maior de linfoma de células T ligado à enteropatia e precisa de acompanhamento em centro especializado.

Portanto:

Ter sintomas depois de iniciar a dieta não significa ter doença celíaca refratária. Na maioria dos casos, outras causas precisam ser investigadas primeiro.

 

 

Atenção Celíacos

  • A doença celíaca pode ser diagnosticada em qualquer idade.
  • Diarreia não é obrigatória para o diagnóstico.
  • Anemia, osteoporose, fadiga e perda muscular não devem ser atribuídas automaticamente ao envelhecimento.
  • Não retire o glúten antes de concluir a investigação médica.
  • Sorologia negativa não encerra todos os casos quando a suspeita clínica permanece alta.
  • Sintomas persistentes não significam automaticamente doença refratária.
  • Suplementos devem ser usados conforme necessidade comprovada e orientação profissional.
  • A dieta sem glúten precisa ser segura e também nutricionalmente adequada.

 

 

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Perguntas frequentes

Uma pessoa pode desenvolver doença celíaca depois dos 60 anos?

A doença pode se tornar clinicamente evidente em qualquer idade. Também é possível que ela já existisse antes, mas só tenha sido reconhecida depois dos 60. Nem sempre é possível determinar quando a resposta autoimune começou.

É comum receber o diagnóstico na velhice?

Sim. Uma revisão estimou que aproximadamente 25% dos diagnósticos eram realizados a partir dos 60 anos, 20% depois dos 65 e cerca de 4% após os 80.²

Toda pessoa idosa com doença celíaca tem diarreia?

Não. Anemia, fadiga, indigestão, perda de apetite, osteoporose, constipação e perda de peso podem ser mais evidentes do que a diarreia.

O que significa doença celíaca ativa?

Significa que a resposta imunológica ao glúten continua provocando inflamação e dano intestinal. A pessoa pode ter doença ativa mesmo com poucos sintomas.

Posso retirar o glúten para ver se melhoro antes dos exames?

Não é recomendado. A retirada pode reduzir os anticorpos e permitir recuperação da mucosa, dificultando a confirmação do diagnóstico.

Quais exames são usados?

A investigação costuma começar com anti-transglutaminase IgA e IgA total. Em adultos, a confirmação geralmente envolve endoscopia com múltiplas biópsias do duodeno.

O exame genético confirma a doença celíaca?

Não. HLA-DQ2 e HLA-DQ8 são comuns também em pessoas sem a doença. A ausência dos dois ajuda a tornar o diagnóstico muito improvável, mas a presença não confirma.

Toda pessoa idosa recém-diagnosticada precisa fazer densitometria?

A avaliação é individual. A idade, o diagnóstico tardio, fraturas, baixo peso, menopausa, deficiência de vitamina D e outros fatores podem justificar a densitometria já no início do acompanhamento.

A dieta pode melhorar a osteoporose?

A dieta sem glúten ajuda a controlar a inflamação e a recuperar a absorção de nutrientes. A melhora óssea depende também de idade, gravidade da perda, vitamina D, cálcio, atividade física, hormônios e eventual necessidade de medicamento para osteoporose.

Sintomas persistentes significam doença refratária?

Não. A causa mais frequente é a exposição involuntária ao glúten, e outras condições gastrointestinais também podem explicar a falta de resposta. A doença refratária verdadeira é rara.

Nunca é tarde para iniciar a dieta sem glúten?

Não. Estudos mostram que idosos podem apresentar melhora dos sintomas e dos exames após o diagnóstico e o início do tratamento. O plano precisa considerar nutrição, ossos, músculos, outras doenças e capacidade de manter a dieta.²

 

 

Conclusão

A doença celíaca não desaparece das possibilidades diagnósticas quando a pessoa envelhece.No estudo finlandês, a prevalência chegou a 2,13% entre participantes de 52 a 74 anos, mas apenas 0,89% já sabia que tinha a doença. Quase 6 em cada 10 casos permaneciam ocultos.¹

Outras pesquisas mostram que aproximadamente um quarto dos diagnósticos pode ocorrer depois dos 60 anos e que algumas pessoas só descobrem a doença após os 80.²

O maior obstáculo não é necessariamente a ausência de sinais. É o modo como eles são interpretados.

Anemia é tratada como um problema isolado. Osteoporose é atribuída apenas à idade. Fadiga e fraqueza são normalizadas. Alterações intestinais são explicadas por medicamentos ou pelo envelhecimento. Enquanto isso, a inflamação e a má absorção podem continuar.

Investigar não significa atribuir todos os problemas de saúde à doença celíaca. Significa incluir essa hipótese quando o conjunto de sinais, a história familiar ou as condições associadas justificarem.

O diagnóstico correto permite tratar a causa, corrigir deficiências, proteger ossos e músculos e preservar autonomia. Mesmo quando a doença é descoberta tarde, o tratamento continua tendo valor.

 

 

Referências científicas e fontes

  1. Lohi S, Mustalahti K, Kaukinen K, Laurila K, Collin P, Rissanen H, et al. Increasing prevalence of coeliac disease over time. Aliment Pharmacol Ther. 2007;26(9):1217-25.
  2. Collin P, Vilppula A, Luostarinen L, Holmes GKT, Kaukinen K. Review article: coeliac disease in later life must not be missed. Aliment Pharmacol Ther. 2018;47(5):563-72.
  3. Singh P, Arora A, Strand TA, Leffler DA, Catassi C, Green PH, et al. Global prevalence of celiac disease: systematic review and meta-analysis. Clin Gastroenterol Hepatol. 2018;16(6):823-836.e2.
  4. Johnson MW, Ellis HJ, Asante MA, Ciclitira PJ. Celiac disease in the elderly. Nat Clin Pract Gastroenterol Hepatol. 2008;5(12):697-706.
  5. Aggarwal N, et al. Prevalence and etiologies of non-responsive celiac disease: a systematic review and meta-analysis. Aliment Pharmacol Ther. 2025.
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  8. Rubio-Tapia A, Hill ID, Semrad C, Kelly CP, Greer KB, Limketkai BN, et al. American College of Gastroenterology guidelines update: diagnosis and management of celiac disease. Am J Gastroenterol. 2023;118(1):59-76.
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  10. Duerksen D, Pinto-Sanchez MI, Anca A, Schnetzler J, Case S, Zelin J, et al. Management of bone health in patients with celiac disease: practical guide for clinicians. Can Fam Physician. 2018;64(6):433-8.
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  12. Cappello M, Morreale GC, Licata A. Elderly onset celiac disease: a narrative review. Clin Med Insights Gastroenterol. 2016;9:41-9.
  13. Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca. Brasília: Ministério da Saúde; atualizado em 2025.

 

Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada. Esta matéria foi elaborada com base em artigos científicos indexados no PubMed e outros artigos cientificos, além de diretrizes internacionais e revisões de alto nível de evidência. O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Eu Celíaca©. Todos os direitos reservados. Reprodução parcial ou total permitida somente com citação da fonte e link para o conteúdo original. 

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