Receber um diagnóstico de doença celíaca pelo Sistema Único de Saúde não deveria depender de a pessoa já saber quais anticorpos pedir, qual especialista procurar ou como funciona a regulação. Ainda assim, muitos pacientes chegam à Unidade Básica de Saúde com anemia que não melhora, alterações da tireoide, baixa massa óssea, diarreia, constipação, cansaço ou histórico familiar e passam anos tratando cada problema separadamente.
Desde junho de 2025, o Brasil possui um novo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) atualizado e específico para doença celíaca. O documento tem caráter nacional e orienta estados, Distrito Federal e municípios sobre suspeita, exames, confirmação diagnóstica, tratamento e monitoramento.
Este guia mostra, de forma prática, onde começar, o que levar à consulta, quais exames fazem parte do fluxo, quando a endoscopia entra na investigação, quais profissionais podem participar do cuidado, como deve ser o acompanhamento e em quais situações o SUS pode fornecer ferro, vitaminas ou minerais.
Como conseguir diagnóstico e tratamento da doença celíaca no SUS?
O caminho geralmente começa na Unidade Básica de Saúde (UBS). A equipe da Atenção Primária registra os sintomas e fatores de risco, solicita os exames iniciais — anti-transglutaminase tecidual IgA e IgA total — e, quando indicado, encaminha o paciente pela regulação para gastroenterologista e endoscopia digestiva alta com biópsia do duodeno.
Confirmado o diagnóstico, o tratamento é a dieta rigorosamente isenta de glúten por toda a vida, com acompanhamento médico e nutricional, correção de deficiências e monitoramento de doenças associadas.
O PCDT é nacional, mas não existe uma única fila ou um único hospital para todo o país. Cada gestor local deve organizar a rede, indicar os serviços de referência e definir o fluxo entre UBS, laboratório, especialista, endoscopia e nutrição. Por isso, o percurso e o tempo de espera podem variar entre municípios.
| Etapa | Onde costuma acontecer | O que deve ocorrer |
| Suspeita | UBS ou equipe de Saúde da Família | Registro de sintomas, histórico familiar, doenças associadas e dieta atual |
| Investigação inicial | UBS ou laboratório da rede | Anti-transglutaminase tecidual IgA e IgA total, ainda com glúten na alimentação |
Avaliação especializada |
Ambulatório ou serviço regulado | Gastroenterologista ou pediatra/gastroenterologista pediátrico avalia os resultados e a indicação de endoscopia |
| Confirmação | Serviço de endoscopia e anatomia patológica | Endoscopia digestiva alta com biópsias do duodeno, quando indicada pelo PCDT |
| Tratamento | UBS, ambulatório e nutrição | Dieta isenta de glúten, prevenção da contaminação cruzada e correção de deficiências |
| Seguimento | Atenção Primária e/ou serviço especializado | Médico e nutricionista a cada 3 a 6 meses no primeiro ano e, após estabilização, anualmente |
Primeiro passo: procure a UBS de referência
A Unidade Básica de Saúde é a porta de entrada habitual do SUS. Quem não sabe qual é a sua unidade pode consultar a rede próxima pelo Meu SUS Digital ou procurar a Secretaria Municipal de Saúde.
O aplicativo mostra estabelecimentos e rotas; a possibilidade de marcar consulta pelo próprio sistema existe apenas nos municípios que habilitaram essa função.
Na consulta, o acolhimento pode começar com a equipe de enfermagem, mas a investigação e a coordenação do caso costumam ser conduzidas pelo médico de família e comunidade, clínico ou pediatra.
O encaminhamento ao gastroenterologista não precisa ser o primeiro movimento: a Atenção Primária pode registrar a suspeita e iniciar os exames previstos no protocolo.
O que levar à primeira consulta
- documento de identificação e Cartão Nacional de Saúde, se disponível;- exames anteriores, principalmente hemogramas, ferritina, vitaminas, tireoide, fígado e densitometria;
- laudos de endoscopias ou biópsias já realizadas;
- lista de medicamentos e suplementos em uso;
- histórico de doença celíaca, diabetes tipo 1, tireoidite ou outras doenças autoimunes na família;
- uma linha do tempo dos sintomas, incluindo manifestações que não parecem intestinais;
- informação honesta sobre ter reduzido ou retirado o glúten antes da consulta.
Peça que os sintomas, os fatores de risco e a suspeita de doença celíaca sejam registrados no prontuário. Esse registro ajuda a dar continuidade ao cuidado e fundamenta solicitações de exames e encaminhamentos.
Quem deve ser investigado para doença celíaca?
Doença celíaca não significa apenas diarreia e baixo peso. O PCDT reconhece apresentações intestinais, extraintestinais e assintomáticas. Para cada pessoa diagnosticada a partir de sintomas, estima-se que existam de três a sete pessoas pouco sintomáticas ou assintomáticas ainda sem diagnóstico.
A investigação deve ser considerada diante de sintomas persistentes ou sem explicação, como:
- diarreia, constipação, distensão, gases, dor abdominal, náuseas ou perda de peso;
- anemia por deficiência de ferro, especialmente quando recorrente ou de resposta insuficiente;- fadiga, aftas repetidas ou defeitos no esmalte dentário;
- baixa estatura, dificuldade de ganho de peso ou atraso puberal;
- osteopenia, osteoporose ou fratura por baixo impacto;
- elevação inexplicada de TGO e TGP;
- dermatite herpetiforme;- ataxia, neuropatia periférica, cefaleia ou outras manifestações neurológicas sem causa definida;
- infertilidade, abortamentos recorrentes, menarca tardia ou menopausa precoce.
Também pertencem a grupos de maior risco os parentes de primeiro grau de pessoas celíacas e pacientes com diabetes tipo 1, tireoidite autoimune, deficiência seletiva de IgA, síndrome de Down, síndrome de Turner, síndrome de Williams e outras doenças autoimunes.
Ter uma dessas condições não confirma doença celíaca. Significa que existe fundamento para conversar com a equipe de saúde sobre rastreamento, inclusive quando os sintomas digestivos são discretos ou inexistentes.
Não retire o glúten antes dos exames
Este é o cuidado mais importante de toda a investigação: não comece uma dieta sem glúten por conta própria antes de concluir os exames.
Os anticorpos e as alterações da mucosa intestinal dependem da exposição ao glúten. Se a pessoa retira ou reduz trigo, cevada e centeio antes da sorologia e da biópsia, os resultados podem ficar negativos ou inconclusivos mesmo na presença da doença.
Quem já está sem glúten deve contar isso ao médico.
Voltar a consumir o alimento sem orientação não é uma decisão simples, principalmente após reação importante, anemia grave, perda de peso, gestação ou outras condições clínicas.
O especialista avaliará se é necessário um desafio com glúten, por quanto tempo e com qual estratégia, ou se outros recursos podem ajudar a esclarecer o diagnóstico.
Para entender com mais detalhes por que o diagnóstico não depende de um único teste, leia: Qual exame detecta doença celíaca? Sangue, biópsia, SUS, rede privada e valores.
Quais exames o SUS usa para investigar doença celíaca?
1. Anti-transglutaminase tecidual IgA
O anti-transglutaminase tecidual da classe IgA, também chamado de tTG-IgA ou anti-TG2 IgA, é o principal exame de sangue para iniciar a investigação. Segundo o PCDT, sua sensibilidade varia de 92% a 100% e sua especificidade de 91% a 100% em crianças e adultos.
2. IgA total
A IgA total deve ser solicitada junto com o tTG-IgA. Pessoas com deficiência de IgA podem apresentar tTG-IgA falsamente negativo. Se a IgA estiver baixa, a investigação precisa ser adaptada com exames da classe IgG e avaliação especializada.
3. DGP-IgG em crianças com até 2 anos
Para crianças com até 2 anos e suspeita de doença celíaca, o protocolo recomenda também o anticorpo contra peptídeos de gliadina deaminada da classe IgG, chamado DGP-IgG.
4. Endoscopia digestiva alta com biópsia do duodeno
No fluxo brasileiro do SUS, a sorologia identifica quem precisa avançar na investigação, e a confirmação costuma exigir endoscopia digestiva alta com biópsia do duodeno. O PCDT orienta a coleta de pelo menos seis fragmentos: dois do bulbo duodenal e quatro da segunda porção do duodeno, acondicionados de forma adequada para análise.
A aparência normal do duodeno durante a endoscopia não exclui a doença. As alterações microscópicas são avaliadas pelo patologista e podem incluir aumento de linfócitos intraepiteliais, hiperplasia das criptas e atrofia das vilosidades.
E se o exame de sangue vier negativo?
Sorologia negativa torna a doença menos provável, mas não encerra todos os casos. O próprio PCDT mantém a indicação de endoscopia com biópsia diante de forte suspeita, como anemia ferropriva sem outra causa, diarreia com má absorção ou perda de peso, sintomas gastrointestinais em pessoa com familiar celíaco ou doença autoimune, baixa estatura infantil e dermatite herpetiforme confirmada por biópsia cutânea.
Antes de interpretar um resultado negativo, a equipe deve verificar pelo menos três pontos: se a pessoa ainda consumia glúten, se a IgA total foi dosada e se existe uma hipótese alternativa que explique os sintomas.
O teste genético HLA-DQ2/DQ8 faz parte do protocolo?
Não como exame rotineiro. O HLA-DQ2/DQ8 pode ajudar em casos duvidosos, principalmente para tornar doença celíaca muito improvável quando ambos estão ausentes, mas um resultado positivo demonstra predisposição — não diagnóstico. O teste não foi incorporado ao SUS para o diagnóstico rotineiro previsto no PCDT.
Os códigos dos procedimentos ajudam?
O PCDT registra os seguintes códigos na tabela do SUS:
| Código | Procedimento |
| 02.02.03.118-7 | Dosagem de anticorpos antitransglutaminase recombinante humano IgA |
| 02.02.03.015-6 | Dosagem de imunoglobulina A |
| 02.09.01.003-7 | Esofagogastroduodenoscopia |O paciente não precisa decorar os números |
Eles podem ser úteis para profissionais, regulação e conferência de solicitações quando há dúvida sobre o procedimento registrado.
Como a endoscopia é marcada pelo SUS?
Quando a sorologia é positiva ou a suspeita continua forte, a UBS ou o serviço assistente registra a solicitação no sistema de regulação. A Central de Regulação analisa as informações clínicas, a prioridade, a oferta e a rede de referência local para direcionar a consulta ou o exame.
Na prática:
- confirme se a solicitação foi inserida na regulação;
- peça o número do protocolo ou outro comprovante disponível;
- mantenha telefone e endereço atualizados na UBS;
- pergunte onde acompanhar a fila no seu município;
- leve à endoscopia os exames de sangue e a indicação clínica;
- confirme com a equipe que haverá biópsias do duodeno para investigação de doença celíaca;
- não retire o glúten enquanto aguarda, salvo orientação médica expressa.
Após o procedimento, guarde o laudo da endoscopia e o resultado anatomopatológico. Um laudo dizendo apenas que “a endoscopia estava normal” não substitui o resultado microscópico das biópsias.
Quem confirma o diagnóstico?
A confirmação deve integrar história clínica, consumo de glúten, sorologia e histologia. No PCDT brasileiro, o diagnóstico é confirmado quando a sorologia é positiva e a biópsia apresenta alterações seguramente compatíveis, com os exames realizados durante dieta contendo glúten.
Diretrizes internacionais mais recentes discutem diagnóstico sem biópsia em situações selecionadas, inclusive para alguns adultos com títulos muito elevados de tTG-IgA.
Isso não altera automaticamente o fluxo vigente do SUS: o PCDT nacional de 2025 continua sendo a referência para regulação e assistência pública no Brasil.
Depois da confirmação, peça que constem no prontuário:
- diagnóstico de doença celíaca e CID-10 K90.0;
- data e critérios utilizados no diagnóstico;
- resultados da sorologia, endoscopia e anatomopatológico;
- deficiências ou doenças associadas identificadas;
- plano de acompanhamento e encaminhamentos.
Esses documentos ajudam na continuidade do cuidado, na transição entre serviços e na emissão de relatórios para escola, trabalho ou outras necessidades.
Como é feito o tratamento da doença celíaca no SUS?
O tratamento comprovadamente eficaz é uma dieta rigorosamente isenta de glúten durante toda a vida. Não existe medicamento que permita à pessoa celíaca consumir glúten com segurança ou que substitua a alimentação adequada.
O tratamento inclui:
- excluir trigo, cevada, centeio e derivados;
- usar aveia somente quando houver garantia adequada de ausência de contaminação, com avaliação individual;
- ler rótulos e confirmar a inscrição “NÃO CONTÉM GLÚTEN” nos produtos industrializados;
- evitar contaminação cruzada no armazenamento, preparo, fritura, serviço e consumo;
- revisar medicamentos, suplementos e produtos que possam ser ingeridos;
- priorizar uma alimentação nutricionalmente adequada, com menos dependência de ultraprocessados sem glúten;
- corrigir anemia e outras deficiências comprovadas;
- acompanhar sintomas, crescimento, peso, exames e qualidade de vida.
Não é necessário substituir automaticamente toda panela ou todo talher da casa. O foco deve estar na limpeza eficaz e na separação do que é difícil de higienizar, acumula resíduos ou entra em contato repetido com farinha e massas com glúten.
Veja o guia: Como evitar a contaminação cruzada por glúten.
Qual equipe deve acompanhar a pessoa celíaca?
O cuidado deve ser multiprofissional, mas isso não significa que todo paciente precise consultar todos os especialistas ao mesmo tempo. A equipe é montada conforme idade, sintomas, deficiências, doenças associadas e resposta ao tratamento.
| Profissional | Papel no cuidado |
| Médico de família, clínico ou pediatra | Coordena o cuidado, acompanha sintomas e exames, prescreve reposições e solicita encaminhamentos |
| Gastroenterologista ou gastroenterologista pediátrico | Interpreta casos complexos, define endoscopia e biópsia, avalia resposta insuficiente e possíveis complicações |
| Nutricionista | Ensina a dieta sem glúten, identifica fontes de contaminação, avalia qualidade nutricional e ajusta a alimentação às necessidades do paciente |
| Dermatologista | Investiga e trata dermatite herpetiforme e outras manifestações cutâneas |
| Endocrinologista | Atua quando há diabetes tipo 1, tireoidite, baixa massa óssea ou alterações metabólicas que exijam cuidado especializado |
| Farmacêutico | Orienta sobre acesso e uso de medicamentos, vitaminas e minerais e ajuda a verificar formulações |
| Psicólogo | Apoia adaptação, ansiedade, isolamento social, transtornos alimentares e impacto familiar da dieta |
| Assistente social | Orienta sobre fluxos da rede, escola, trabalho, vulnerabilidade social e programas locais disponíveis |
| Ginecologista, obstetra ou especialista em reprodução | Avalia alterações menstruais, infertilidade, perdas gestacionais e cuidado na gestação quando presentes |
O PCDT cita médicos de família, pediatras, gastroenterologistas e dermatologistas no atendimento médico; considera altamente desejável o acompanhamento por nutricionista com experiência em doença celíaca e reconhece a contribuição de farmacêutico, assistente social e psicólogo.
Em pacientes estáveis, parte importante do seguimento pode ocorrer na Atenção Primária. O gastroenterologista deve ser reinserido ou mantido no cuidado diante de diagnóstico duvidoso, sintomas persistentes, ausência de queda dos anticorpos, desnutrição, anemia refratária, necessidade de nova endoscopia ou suspeita de complicação.
Em crianças e adolescentes, o seguimento também deve observar crescimento, desenvolvimento puberal, impacto emocional, vida escolar e a transição organizada do cuidado pediátrico para o atendimento adulto.
Como deve ser o acompanhamento depois do diagnóstico?
O PCDT orienta consulta com médico e nutricionista a cada três a seis meses no primeiro ano. Após o primeiro ano e a estabilização dos exames, o acompanhamento passa a ser anual.
| Momento | O que revisar |
| Diagnóstico | Sintomas, peso, altura, IMC, crescimento infantil, qualidade da dieta, comorbidades e exames basais |
| 3 a 6 meses | Adaptação à dieta, contaminação cruzada, evolução dos sintomas, peso/crescimento, exames alterados e tTG-IgA — obrigatoriamente aos 6 meses segundo o PCDT |
| 12 meses | Resposta clínica e nutricional, sorologia, correção de deficiências e necessidade de avaliação especializada |
| Anualmente após estabilização | Sintomas, estado nutricional, adesão, sorologia e exames individualizados conforme alterações anteriores e fatores de risco |
No diagnóstico, o protocolo orienta solicitar glicemia de jejum, hemograma completo, ferritina, vitamina B12, TSH, T4, TGO, TGP, densitometria óssea, cálcio e fósforo.
O tTG-IgA deve ser repetido seis meses após o início da dieta. No começo do seguimento, o PCDT informa que a sorologia pode ser feita no diagnóstico, aos três meses, aos seis meses e após um ano; depois, pode ser anual.
A queda dos anticorpos é um bom sinal, mas não deve ser analisada isoladamente. Sorologia negativa não garante, sozinha, recuperação completa da mucosa. A avaliação combina sintomas, consulta nutricional, exames e, em situações selecionadas, nova biópsia.
É preciso repetir a endoscopia?
Não para todos de forma automática. O PCDT afirma que não há necessidade de biópsia de rotina em todos os pacientes, mas informa que ela pode ser considerada entre um e dois anos após o início da dieta para avaliar cicatrização, especialmente em pessoas com mais de 40 anos, sintomas iniciais graves ou doença celíaca soronegativa.
A decisão deve ser individualizada pelo gastroenterologista, considerando sintomas, sorologia, estado nutricional e risco de persistência da lesão.
Quais deficiências nutricionais precisam ser monitoradas?
A lesão intestinal pode reduzir a absorção de nutrientes. Além disso, uma dieta sem glúten mal planejada pode ficar pobre em fibras, ferro, folato e outros micronutrientes. Por isso, retirar o glúten é apenas uma parte do tratamento.
É importante separar dois níveis de avaliação:
- Exames expressamente listados pelo PCDT no diagnóstico: hemograma, ferritina, vitamina B12, cálcio, fósforo, densitometria óssea, além de glicemia, TSH, T4, TGO e TGP.
- Exames adicionais conforme sintomas, dieta e gravidade: ferro sérico, saturação de transferrina, folato, 25-OH vitamina D, fosfatase alcalina, zinco, magnésio, albumina e proteínas totais, entre outros.
| O que avaliar | Exames possíveis | Quando ganha prioridade |
| Anemia e ferro | Hemograma, ferritina, ferro e saturação de transferrina | Cansaço, palidez, queda de cabelo, pernas inquietas, anemia prévia |
| Folato e vitamina B12 | Folato e B12 | Alteração do hemograma, sintomas neurológicos, dieta restritiva |
| Saúde óssea | Densitometria, cálcio, fósforo, fosfatase alcalina e 25-OH vitamina D | Osteopenia, osteoporose, fratura, menopausa, baixo peso, diagnóstico tardio |
| Zinco e magnésio | Dosagens específicas | Diarreia prolongada, desnutrição, dieta muito limitada ou sintomas compatíveis |
| Estado nutricional global | Peso, altura, IMC, curva de crescimento, albumina e proteínas totais | Perda de peso, baixa estatura, atraso puberal ou desnutrição |
Exames adicionais não precisam ser repetidos indefinidamente quando estão normais.
As deficiências encontradas devem ser tratadas e reavaliadas até a correção, com frequência definida pelo profissional.
Leia a análise completa: Deficiências nutricionais na doença celíaca: o que monitorar no diagnóstico e no seguimento?
O SUS fornece vitaminas, minerais e suplementos para celíacos?
Pode fornecer alguns itens quando há indicação clínica, prescrição e disponibilidade na rede. O diagnóstico de doença celíaca, sozinho, não gera direito automático a um conjunto fixo de suplementos.
O PCDT determina que anemia por deficiência de ferro seja tratada conforme o protocolo específico e que micronutrientes ou vitaminas deficientes sejam repostos.
A Rename 2024 inclui, entre outros itens, sulfato ferroso, ácido fólico, cianocobalamina injetável, carbonato de cálcio e combinações de cálcio com colecalciferol no Componente Básico da Assistência Farmacêutica.
Isso não significa que todos serão entregues a todo paciente celíaco, em qualquer dose ou apresentação. A dispensação depende de:
- deficiência ou condição clínica documentada;
- prescrição compatível com o protocolo e com a padronização local;
- Relação Municipal ou Estadual de Medicamentos;
- local de retirada definido pela rede;
- estoque e regras administrativas vigentes.
Como solicitar na prática
- apresente os exames que comprovam a deficiência ao médico;
- peça que o diagnóstico, a deficiência e a necessidade de reposição constem no prontuário e na receita;
- pergunte em qual farmácia da rede o item é dispensado;
- leve receita válida, documento, Cartão Nacional de Saúde e demais documentos exigidos localmente;
- se a apresentação prescrita não estiver padronizada, converse com médico e farmacêutico sobre uma alternativa terapêutica disponível;
- repita os exames no prazo orientado: suplemento não deve ser mantido ou suspenso apenas pela melhora dos sintomas.
Não existe um “kit de vitaminas para celíacos” nem indicação de suplementar ferro, vitamina D, B12, folato, zinco ou magnésio para todos. Reposição desnecessária também pode causar efeitos adversos e mascarar problemas que continuam sem diagnóstico.
Quais são as principais comorbidades e complicações da doença celíaca?
Comorbidade é uma doença que ocorre junto com outra condição. Complicação é um problema que pode surgir em consequência da doença, do diagnóstico tardio ou da falta de tratamento. Na prática, os dois grupos orientam o que deve ser observado no acompanhamento.
| Condição associada ou complicação | O que monitorar | Quando encaminhar ou investigar mais |
| Anemia e deficiências nutricionais | Hemograma, ferritina, B12 e exames individualizados | Anemia persistente, perda de peso, sintomas neurológicos ou reposição sem resposta |
| Tireoidite de Hashimoto e doença de Graves | TSH e T4 no diagnóstico; seguimento conforme resultado e sintomas | Alteração hormonal, aumento da tireoide, perda ou ganho de peso inexplicado, palpitação |
| Diabetes tipo 1 | Glicemia de jejum no diagnóstico; avaliação metabólica conforme risco | Hiperglicemia, muita sede, urina excessiva, perda de peso ou diagnóstico prévio de diabetes |
| Osteopenia e osteoporose | Densitometria, cálcio e fósforo; vitamina D conforme risco | Fratura, dor óssea, menopausa, baixo peso ou densidade mineral reduzida |
| Alterações hepáticas | TGO e TGP no diagnóstico e repetição se alteradas | Enzimas que não normalizam com a dieta exigem investigação de outras causas, inclusive autoimunes |
| Dermatite herpetiforme | Avaliação da pele e adesão à dieta | Lesões intensamente pruriginosas, agrupadas em cotovelos, joelhos, nádegas ou couro cabeludo |
| Manifestações neurológicas | Exame clínico e correção de deficiências | Ataxia, neuropatia, fraqueza, perda de sensibilidade ou cefaleia persistente sem explicação |
| Saúde mental e transtornos alimentares | Humor, ansiedade, isolamento, medo de comer e relação com a alimentação | Sofrimento persistente, depressão, restrição alimentar excessiva ou prejuízo social |
| Alterações reprodutivas | Ciclo menstrual, fertilidade, histórico gestacional e estado nutricional | Infertilidade, abortamentos recorrentes, menarca tardia ou menopausa precoce |
| Outras doenças autoimunes | Avaliação dirigida pelos sintomas e histórico | Hepatite autoimune, síndrome de Sjögren e outras condições não exigem um único painel universal para todos |
| Complicações malignas raras | Sintomas de alerta, hemograma, avaliação especializada | Perda de peso inexplicada, dor persistente, sangramento, febre, anemia recorrente ou piora após melhora inicial |
Ter doença celíaca não significa que a pessoa desenvolverá todas essas condições. O objetivo do seguimento é identificar sinais precoces sem transformar associações em destino ou solicitar painéis indiscriminados.
O PCDT cita associações raras com adenocarcinoma do intestino delgado, linfoma intestinal de células T e alguns outros cânceres. Não existe recomendação para realizar tomografias ou endoscopias repetidas em todo paciente estável apenas por medo de câncer. Sintomas persistentes ou novos devem ser avaliados, e manter a dieta sem glúten reduz o risco de complicações.
E se os sintomas não melhorarem mesmo sem glúten?
A primeira hipótese a revisar é exposição contínua e não intencional ao glúten, mas ela não é a única. O médico e o nutricionista devem reavaliar ingredientes, rótulos, refeições fora de casa, medicamentos, suplementos, utensílios e contaminação cruzada.
Também podem coexistir:
- intolerância temporária à lactose durante a recuperação intestinal;
- síndrome do intestino irritável;- supercrescimento bacteriano do intestino delgado;
- colite microscópica;
- insuficiência pancreática;
- doença inflamatória intestinal;
- outras intolerâncias ou alergias;
- deficiências nutricionais não corrigidas;
- doença celíaca refratária, que é rara.
Não retire novos grupos alimentares por conta própria. Restrições acumuladas podem piorar a ingestão de nutrientes e dificultar a identificação do verdadeiro problema. Persistência de sintomas, anticorpos que não caem, anemia, perda de peso ou alterações laboratoriais justificam retorno à UBS e ao gastroenterologista.
Quais hospitais do SUS tratam doença celíaca?
Não existe uma lista nacional única de “hospitais de doença celíaca”. A Portaria determina que estados, Distrito Federal e municípios definam serviços de referência e fluxos para todas as etapas do atendimento.
Por isso, o caminho correto não é escolher aleatoriamente um hospital e tentar atendimento direto. Comece pela UBS, que verifica a necessidade clínica e encaminha o caso pela regulação para o serviço contratado ou de referência na região.
Em alguns locais, esse serviço está em hospital universitário; em outros, em ambulatório especializado, policlínica ou hospital regional.
O que fazer quando o exame, a consulta ou o suplemento não estão disponíveis?
Uma demora não deve ser tratada automaticamente como recusa definitiva. Primeiro, descubra em qual ponto o processo parou.
- Confirme na UBS se o pedido foi registrado corretamente e se contém justificativa clínica.
- Peça o número da solicitação e pergunte como acompanhar a regulação.
- Verifique se existe serviço regional, estadual, universitário ou conveniado.
- Para medicamentos e suplementos, consulte a farmácia da rede e a lista municipal ou estadual vigente.
- Se houver negativa, solicite a justificativa por escrito sempre que possível.
- Registre manifestação na Ouvidoria Municipal ou Estadual de Saúde. A Ouvidoria-Geral do SUS também recebe solicitações, reclamações e denúncias pelo Disque Saúde 136 e pelos canais digitais.
- Em caso de necessidade clínica documentada e impasse persistente, procure orientação da Defensoria Pública com laudo, prescrição, exames, protocolos e negativa.
Levar o PCDT pode ajudar a fundamentar a conversa, mas o documento não autoriza qualquer exame ou produto sem indicação. Ele sustenta o acesso às etapas e aos procedimentos que correspondem ao quadro clínico do paciente.
Quando procurar atendimento de urgência?
A investigação habitual deve ocorrer pela UBS, mas sinais de gravidade exigem pronto atendimento. Procure UPA ou serviço de emergência diante de desidratação importante, desmaio, confusão, sangue nas fezes ou vômitos, dor intensa, incapacidade de ingerir líquidos, perda de peso rápida, fraqueza incapacitante ou piora aguda em criança pequena.
A crise celíaca é rara, porém potencialmente grave. Pode provocar diarreia intensa, desidratação, distúrbios de eletrólitos, comprometimento renal e neurológico e desnutrição, exigindo hospitalização.
Perguntas frequentes sobre doença celíaca no SUS
O SUS faz exame para doença celíaca?
Sim. O PCDT inclui anti-transglutaminase IgA, IgA total e endoscopia digestiva alta no fluxo diagnóstico. Em crianças com até 2 anos, o DGP-IgG foi incorporado para situações previstas no protocolo.[1]
Preciso ir direto a um gastroenterologista?
Em geral, não. A UBS pode iniciar a investigação e encaminhar ao especialista quando necessário. O fluxo pode variar conforme o município.
Posso cortar o glúten enquanto espero o exame?
Não por conta própria. Reduzir ou retirar glúten pode fazer a sorologia e a biópsia parecerem normais e dificultar a confirmação.
Toda pessoa precisa fazer biópsia?
No PCDT brasileiro, a biópsia duodenal permanece a principal forma de confirmação. Existem exceções clínicas e discussões internacionais sobre diagnóstico sem biópsia, mas elas devem ser avaliadas pelo especialista e não substituem automaticamente o protocolo do SUS.
Um exame de sangue negativo exclui a doença?
Nem sempre. É necessário verificar IgA total, consumo de glúten e intensidade da suspeita. O PCDT prevê biópsia mesmo com sorologia negativa em cenários de forte suspeita.
Com que frequência o celíaco deve voltar ao médico e ao nutricionista?
A cada três a seis meses no primeiro ano e, após estabilização, anualmente, conforme o PCDT. Casos com sintomas, deficiências ou doenças associadas podem exigir intervalos menores.
O SUS fornece suplemento para todo celíaco?
Não. A reposição depende de deficiência ou indicação documentada, prescrição, padronização e disponibilidade local. Não existe kit nacional de suplementos para doença celíaca.
O SUS fornece alimentos sem glúten?
Não há uma política federal universal que entregue alimentos sem glúten a toda pessoa celíaca. Alguns municípios ou estados podem ter programas próprios, que precisam ser consultados localmente.
Quem tem doença celíaca recebe benefício financeiro automático?
Não. O diagnóstico, isoladamente, não cria um benefício financeiro federal automático. Eventual acesso a programas sociais depende dos critérios próprios de renda, deficiência, vulnerabilidade ou legislação local — não apenas de ser celíaco.
Conclusão
O diagnóstico e o tratamento da doença celíaca podem ser realizados pelo SUS, e o PCDT de 2025 oferece uma referência nacional para que a investigação não dependa apenas do conhecimento individual de cada profissional.
Na prática, o paciente precisa percorrer um caminho organizado: começar pela UBS ainda consumindo glúten, registrar sintomas e fatores de risco, realizar tTG-IgA e IgA total, seguir para endoscopia com biópsia quando indicada e, depois da confirmação, manter acompanhamento médico e nutricional.
O tratamento não termina quando o glúten é retirado. É necessário verificar se a alimentação é segura e nutricionalmente adequada, corrigir deficiências, acompanhar anticorpos, crescimento, peso, ossos, tireoide, fígado e glicemia e investigar sintomas que persistem.
O protocolo também não significa que todos os municípios tenham a mesma estrutura ou o mesmo tempo de espera. Significa que existe uma base técnica para organizar e cobrar continuidade do cuidado. Guardar exames, laudos e números de solicitação, conhecer o fluxo local e usar os canais de ouvidoria quando necessário transforma o PCDT de um documento distante em uma ferramenta prática de acesso à saúde.
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Referências científicas e fontes
- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8, de 23 de junho de 2025: aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca. Brasília: Ministério da Saúde; 2025.
- Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde. PCDT resumido: doença celíaca. Brasília: Conitec; 2025.
- Brasil. Ministério da Saúde. Meu SUS Digital: perguntas e respostas para o cidadão. Brasília: Ministério da Saúde; atualizado em 30 jun 2026.
- Rubio-Tapia A, Hill ID, Semrad C, Kelly CP, Greer KB, Limketkai BN, et al. American College of Gastroenterology guidelines update: diagnosis and management of celiac disease. Am J Gastroenterol. 2023;118(1):59-76. doi:10.14309/ajg.0000000000002075.
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