Gases, distensão abdominal, dor, diarreia, constipação e alterações nutricionais podem persistir mesmo após o início de uma dieta sem glúten. Nesses casos, o supercrescimento bacteriano do intestino delgado — conhecido como SIBO — pode ser uma das hipóteses investigadas, mas não deve ser confundido com doença celíaca refratária.
A mensagem central é simples: sintomas persistentes exigem uma avaliação organizada. Antes de concluir que a dieta sem glúten “não funcionou” ou que há doença celíaca refratária, é necessário confirmar a adesão à dieta, procurar contaminação involuntária por glúten e investigar outras condições que podem coexistir com a doença celíaca.
O que é SIBO?
SIBO é a sigla em inglês para small intestinal bacterial overgrowth, ou supercrescimento bacteriano do intestino delgado. O termo descreve uma situação em que há quantidade excessiva de bactérias no intestino delgado, acompanhada de sintomas, alterações clínicas ou laboratoriais compatíveis.
Entre os sintomas possíveis estão:
- Distensão abdominal e aumento de gases
- Dor ou desconforto abdominal
- Diarreia, urgência evacuatória ou alteração do hábito intestinal
- Náuseas
- Sensação de digestão difícil após as refeições
- Perda de peso não intencional
- Deficiências nutricionais, em alguns casos
- Constipação, especialmente quando há excesso de metano
Também existe o IMO, sigla para intestinal methanogen overgrowth, ou supercrescimento intestinal de metanógenos. Embora muitas vezes seja tratado como “um tipo de SIBO”, tecnicamente o IMO envolve arqueias produtoras de metano — e não bactérias.
A presença de metano no teste respiratório costuma estar mais associada a constipação e trânsito intestinal mais lento.
Qual é a relação com a doença celíaca?
A doença celíaca pode alterar a digestão, a absorção de nutrientes, a motilidade intestinal e a composição da microbiota. Esses fatores podem favorecer sintomas sobrepostos aos de SIBO ou IMO.
Uma revisão sistemática com metanálise de 14 estudos, incluindo 742 pessoas com doença celíaca e 178 controles, estimou prevalência agrupada de SIBO de 18,3% entre os participantes com doença celíaca. Na comparação com controles saudáveis, a chance de SIBO foi maior no grupo celíaco, com odds ratio de 5,1.
Esse dado, porém, não significa que cerca de uma em cada cinco pessoas celíacas terá necessariamente SIBO. Os estudos usaram populações, testes, critérios diagnósticos e momentos diferentes da doença — pessoas recém-diagnosticadas, em dieta, com sintomas persistentes ou atendidas em centros de referência. Por isso, os números não podem ser aplicados automaticamente a cada paciente.
Novo estudo chama atenção
Um estudo da Mayo Clinic, publicado em 2026, avaliou 256 pessoas com doença celíaca que fizeram exames para investigar o supercrescimento de microrganismos no intestino delgado. O resultado de SIBO variou conforme o critério laboratorial usado para definir o diagnóstico: pelo parâmetro mais tradicional, 17,6% tiveram resultado positivo; por um critério mais sensível e ainda debatido, esse número chegou a 49,6%.
Em outras palavras, os números mudam porque ainda não existe consenso absoluto sobre qual quantidade de bactérias no intestino delgado deve ser considerada anormal. Por isso, o exame não deve ser interpretado isoladamente: sintomas, histórico clínico e outros achados também importam.
Nos pacientes classificados com doença celíaca refratária, o SIBO foi mais frequente: 36,8% no ponto de corte mais alto e 78,9% no ponto de corte mais baixo.
No entanto, o estudo não encontrou associação entre SIBO e escore de Marsh mais elevado, ou seja, o supercrescimento não acompanhou a intensidade das alterações histológicas observadas na mucosa intestinal.
O resultado é relevante, mas precisa ser lido com cautela.
A pesquisa foi retrospectiva e realizada em um centro terciário, que costuma receber casos mais complexos, sintomáticos ou de difícil manejo. Além disso, as pessoas incluídas já tinham sido encaminhadas para testes de supercrescimento; portanto, os percentuais não representam a prevalência de SIBO em todas as pessoas com doença celíaca.
SIBO não é sinônimo de doença celíaca refratária
SIBO pode coexistir com a doença celíaca e contribuir para sintomas persistentes, mas um teste positivo não comprova doença celíaca refratária. O estudo da Mayo Clinic encontrou maior frequência de SIBO em pessoas com doença celíaca refratária, porém sem associação com escore de Marsh. Isso sugere que o supercrescimento pode fazer parte de quadros clínicos mais complexos sem ser, necessariamente, a causa da atrofia vilositária persistente. Antes de considerar refratariedade, é essencial revisar a exposição ao glúten e investigar diagnósticos concomitantes.
| Situação | Como interpretar |
| Sintomas persistentes na dieta sem glúten | Exigem investigação; não confirmam, isoladamente, falha da dieta ou doença celíaca refratária |
| SIBO ou IMO positivos | Podem contribuir para sintomas digestivos, alteração do hábito intestinal e má absorção; o resultado deve ser interpretado no contexto clínico |
| Doença celíaca não responsiva | Cenário em que sintomas, sinais ou alterações laboratoriais persistem ou retornam e exigem busca sistemática de causas |
| Doença celíaca refratária | Diagnóstico raro, especializado e confirmado após exclusão de exposição ao glúten e de outras causas de sintomas e lesão intestinal persistente |
| Escore de Marsh | Descreve alterações microscópicas da mucosa intestinal; no estudo de 2026, não se associou à presença de SIBO |
Sintomas persistentes: o que deve ser investigado?
A primeira hipótese diante de sintomas persistentes é a exposição contínua ao glúten, inclusive por contaminação cruzada, produtos industrializados, refeições fora de casa, medicamentos, suplementos ou falhas de rotulagem. A revisão detalhada da dieta com nutricionista experiente em doença celíaca é parte essencial da investigação.
Depois dessa etapa, o gastroenterologista pode avaliar outras causas, conforme sintomas, exames e histórico clínico. Entre elas estão:
- Síndrome do intestino irritável- Intolerância à lactose ou à frutose
- Constipação funcional- SIBO e IMO
- Insuficiência pancreática exócrina
- Colite microscópica
- Doença inflamatória intestinal
- Alterações da tireoide
- Uso de medicamentos que afetam a digestão ou a motilidade
- Outras causas de enteropatia ou má absorção
A diretriz do American College of Gastroenterology recomenda avaliação sistemática dos pacientes com doença celíaca não responsiva, em vez de atribuir automaticamente os sintomas à persistência da doença celíaca.
Como SIBO é investigado?
A investigação pode incluir testes respiratórios com glicose ou lactulose, que medem hidrogênio e metano no ar expirado após o consumo de um substrato. Em situações selecionadas, pode ser realizada cultura de aspirado do intestino delgado obtido durante endoscopia.
Nenhum desses métodos é perfeito. O teste respiratório é mais acessível e não invasivo, mas pode ser influenciado por fatores como preparo inadequado, trânsito intestinal, tipo de substrato utilizado e critérios de interpretação. Já a cultura de aspirado intestinal pode sofrer interferência por contaminação durante a coleta e não identifica todos os microrganismos com a mesma facilidade.
No estudo da Mayo Clinic, apenas 7 pacientes realizaram tanto teste respiratório quanto cultura de aspirado; a concordância entre os métodos foi de 28,6%. Entre os 39 pacientes submetidos ao teste respiratório, 9 tiveram resultado positivo e todos apresentavam metano elevado, isoladamente ou junto de elevação de hidrogênio.
Isso reforça um ponto importante: o diagnóstico não deve se apoiar apenas em um número ou em sintomas inespecíficos. A interpretação precisa considerar o conjunto formado por sintomas, dieta, medicamentos, cirurgias prévias, constipação, motilidade intestinal, estado nutricional e outros diagnósticos possíveis.
SIBO pode causar lesão intestinal?
Ainda não há base para afirmar que SIBO seja a causa direta da atrofia vilositária da doença celíaca ou da doença celíaca refratária.
No estudo de 2026, SIBO foi encontrado tanto em pessoas com Marsh abaixo de 2 — grupo em que predominava cicatrização da mucosa — como em pessoas com pontuações mais altas. Não houve associação estatisticamente significativa entre SIBO e escore de Marsh.
Essa é uma informação útil para evitar interpretações equivocadas: um diagnóstico de SIBO pode ajudar a explicar sintomas persistentes, mas não substitui o acompanhamento da doença celíaca por sorologia, avaliação nutricional, revisão da dieta e, quando indicado, endoscopia com biópsias.
Como é o tratamento?
O tratamento do SIBO ou IMO deve ser individualizado e conduzido por gastroenterologista. Em geral, envolve três frentes:
- Tratar o supercrescimento quando o diagnóstico e o contexto clínico justificarem
- Identificar e corrigir fatores predisponentes, quando possível
- Corrigir deficiências nutricionais e acompanhar a evolução dos sintomas
Antibióticos podem ser utilizados em casos selecionados, mas não devem ser usados por conta própria nem como teste terapêutico indiscriminado. A AGA destaca que a evidência disponível para definir estratégias antibióticas ainda é limitada e que o manejo deve considerar os riscos do uso repetido ou prolongado de antibióticos de amplo espectro.
Isso é especialmente relevante na doença celíaca: se há sintomas persistentes, tratar apenas um possível SIBO sem revisar a dieta, investigar causas coexistentes e avaliar deficiências nutricionais pode atrasar o diagnóstico correto.
Um ensaio clínico duplo-cego com rifaximina em pessoas com doença celíaca e sintomas persistentes apesar da dieta sem glúten não demonstrou melhora dos sintomas relatados nem identificou o teste respiratório de hidrogênio como ferramenta confiável para prever quem responderia ao antibiótico.
Leia também: Doença celíaca refratária: sintomas, diagnóstico e tratamento.
Quando procurar avaliação médica?
A avaliação médica não deve ser adiada se houver:
- Perda de peso involuntária
- Anemia, deficiência de ferro, vitamina B12, folato ou outras deficiências persistentes
- Diarreia persistente ou sinais de desidratação
- Dor abdominal intensa, progressiva ou que acorda à noite
- Sangue nas fezes, febre ou vômitos recorrentes
- Queda importante do estado geral
- Sintomas que permanecem apesar de dieta sem glúten cuidadosamente revisada
- Suspeita de doença celíaca refratária
A doença celíaca refratária é rara e exige avaliação em serviço especializado. Seu diagnóstico não deve ser presumido apenas porque há desconforto digestivo ou um teste sugestivo de SIBO.
Conclusão
SIBO é uma possibilidade relevante na investigação de pessoas com doença celíaca e sintomas persistentes, principalmente quando a dieta sem glúten parece estar bem conduzida. O estudo da Mayo Clinic reforça que o supercrescimento pode ser mais frequente em contextos complexos, incluindo doença celíaca refratária, mas não demonstrou relação com maior gravidade da lesão intestinal medida pelo escore de Marsh.
A melhor conduta não é assumir que os sintomas indicam refratariedade — nem tratar SIBO de forma automática. O caminho mais seguro é uma investigação sistemática: confirmar o diagnóstico de doença celíaca, revisar a dieta, avaliar exposição ao glúten, buscar causas associadas e individualizar os testes e o tratamento com acompanhamento especializado.
FAQ – Perguntas frequentes
Toda pessoa com doença celíaca e gases tem SIBO?
Não. Gases e distensão são sintomas muito comuns e podem ocorrer por ingestão involuntária de glúten, consumo de alimentos fermentáveis, constipação, síndrome do intestino irritável, intolerâncias alimentares e outras condições. SIBO é apenas uma das hipóteses possíveis.
SIBO significa que a dieta sem glúten falhou?
Não. A dieta sem glúten continua sendo o tratamento essencial da doença celíaca. SIBO pode coexistir com a condição e explicar parte dos sintomas, mas não significa que a dieta seja inútil ou deva ser abandonada.
SIBO é igual a doença celíaca refratária?
Não. SIBO é uma condição que pode contribuir para sintomas digestivos. Doença celíaca refratária é um diagnóstico raro, feito quando há atrofia vilositária persistente e má absorção apesar de dieta sem glúten estrita, após exclusão de outras causas.
O teste respiratório diagnostica SIBO com certeza?
Não. O teste respiratório pode ser útil, mas tem limitações e deve ser interpretado junto de sintomas, histórico clínico, preparo para o exame e outros achados. Cultura de aspirado intestinal e teste respiratório também podem apresentar resultados discordantes.
Metano alto no teste respiratório indica o quê?
Metano elevado sugere IMO, supercrescimento intestinal de metanógenos. Esse achado tende a se associar mais à constipação e ao trânsito intestinal lento do que à diarreia.
Probióticos tratam SIBO na doença celíaca?
Não há evidência suficiente para recomendar probióticos como tratamento padrão para SIBO. A escolha de qualquer suplemento deve ser individualizada, especialmente em pessoas com sintomas persistentes, má absorção ou suspeita de doença celíaca refratária.
Posso tomar rifaximina por conta própria?
Não. Antibióticos exigem prescrição e acompanhamento. O tratamento depende do diagnóstico, do padrão de sintomas, de fatores predisponentes, de comorbidades e da necessidade de investigar outras causas. O uso inadequado pode causar efeitos adversos, favorecer resistência bacteriana e atrasar a identificação do problema principal.
Referências científicas e fontes
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