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Doença celíaca aumenta o risco de pancreatite aguda? Estudo com mais de 57 mil pacientes traz novos dados

doença celíaca e pancreatite

A doença celíaca é conhecida principalmente pela reação autoimune desencadeada pelo glúten e pela lesão que pode provocar no intestino delgado. Mas seus efeitos não ficam necessariamente restritos ao intestino.

Uma nova pesquisa de grande porte publicada em 2026 no Journal of Internal Medicine investigou uma relação que a ciência observa há anos: pessoas com doença celíaca apresentam maior risco de desenvolver pancreatite aguda?

O estudo acompanhou 57.221 pessoas com doença celíaca confirmada por biópsia e comparou seus resultados aos de 279.126 indivíduos da população geral sueca. Durante um acompanhamento mediano de 15,5 anos, os pesquisadores encontraram um aumento de 42% no risco relativo de um primeiro episódio de pancreatite aguda entre os pacientes celíacos. 

O número chama atenção. Mas há uma segunda informação igualmente importante: o risco absoluto continuou baixo.

Ao longo de 25 anos, a diferença acumulada entre os grupos foi de apenas 0,54 ponto percentual, equivalente a aproximadamente um caso adicional de pancreatite aguda para cada 185 pessoas com doença celíaca acompanhadas durante esse período

É justamente a combinação desses dois números que permite entender o estudo sem minimizar o achado e sem transformar uma associação estatística em motivo para alarme.

 

 

A doença celíaca aumenta o risco de pancreatite aguda?

O novo estudo encontrou uma associação persistente entre doença celíaca e maior risco de um primeiro episódio de pancreatite aguda.

O risco relativo ajustado foi 42% maior, mas a diferença absoluta permaneceu pequena: 58,7 casos por 100 mil pessoas-ano entre celíacos, contra 37,8 na população de comparação.

Em 25 anos, isso correspondeu a 0,54 ponto percentual de diferença acumulada, ou aproximadamente um episódio adicional para cada 185 pacientes celíacos. O estudo é observacional e não prova que a doença celíaca seja a causa da pancreatite. 

 

 

O que é pancreatite aguda?

O pâncreas é um órgão localizado atrás do estômago que participa tanto da digestão quanto do controle da glicose no sangue.

Ele produz enzimas digestivas e hormônios importantes, entre eles a insulina.

A pancreatite aguda ocorre quando há uma inflamação súbita do pâncreas. O quadro pode variar de episódios relativamente leves, que melhoram em alguns dias, até formas graves associadas a necrose pancreática, falência de órgãos e necessidade de tratamento intensivo.

Segundo a diretriz do American College of Gastroenterology, cerca de um quinto dos pacientes pode evoluir com complicações importantes. 

Os sintomas mais característicos incluem:

  • dor intensa na região superior do abdômen;
  • dor que pode irradiar para as costas;
  • náuseas;
  • vômitos;
  • sensibilidade abdominal;
  • piora importante do estado geral em casos graves.

O diagnóstico é baseado na combinação entre sintomas, exames laboratoriais, especialmente lipase e amilase, e exames de imagem quando necessários. O consenso de Atlanta estabelece que o diagnóstico pode ser feito quando pelo menos dois de três critérios estão presentes: dor abdominal típica, elevação das enzimas pancreáticas para pelo menos três vezes o limite superior da normalidade ou alterações compatíveis em exames de imagem. 

 

 

Como foi feito o novo estudo?

A pesquisa utilizou o banco sueco ESPRESSO, que reúne registros histopatológicos dos departamentos de patologia de todo o país.

Foram identificadas 57.221 pessoas com doença celíaca confirmada por biópsia entre 1969 e 2023.

Cada paciente foi comparado a indivíduos da população geral semelhantes em características como ano de nascimento, sexo, período do diagnóstico e região de residência.

No total, o grupo de comparação reuniu 279.126 pessoas

A idade mediana dos pacientes no momento do diagnóstico da doença celíaca era de 28,4 anos, e 62,3% eram mulheres.

O acompanhamento mediano foi de 15,5 anos, e mais de um terço dos pacientes foi acompanhado durante pelo menos 20 anos.

Os pesquisadores investigaram:

  • primeiro episódio de pancreatite aguda;
  • pancreatite relacionada a cálculos biliares;
  • pancreatite não relacionada a cálculos;
  • pancreatite relacionada ao álcool;
  • pancreatite aguda grave;
  • episódios recorrentes;
  • e a possível relação entre cicatrização intestinal e risco pancreático.  

 

 

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42% a mais de risco relativo, mas qual foi o risco absoluto?

Durante o acompanhamento, 549 pessoas com doença celíaca desenvolveram pancreatite aguda, contra 1.732 no grupo de comparação.Quando o tempo de acompanhamento de cada pessoa é considerado, a incidência foi:

Resultado Pessoas com doença celíaca População de comparação
Pancreatite aguda 58,7 por 100 mil pessoas-ano 37,8 por 100 mil pessoas-ano
Diferença de incidência 20,9 casos adicionais por 100 mil pessoas-ano
Risco relativo ajustado 1,42 Referência
Diferença acumulada em 25 anos +0,54 ponto percentual
Impacto estimado 1 caso adicional para cada 185 celíacos em 25 anos

Fonte: Yao et al., Journal of Internal Medicine, 2026. 

Esse é um ótimo exemplo de por que risco relativo e risco absoluto precisam aparecer juntos em matérias sobre saúde.

Dizer apenas que houve um “aumento de 42%” pode fazer o risco parecer muito maior do que ele realmente é para uma pessoa individualmente.

Por outro lado, dizer apenas que a diferença absoluta foi pequena poderia minimizar uma associação que permaneceu presente durante décadas em uma população grande.As duas informações são verdadeiras.

 

 

O aumento de risco persistiu por mais de 20 anos

Outro aspecto interessante do estudo é que a associação não apareceu apenas logo após o diagnóstico da doença celíaca.

O risco relativo foi maior inicialmente, caiu para aproximadamente 1,5 por volta do terceiro ano e depois permaneceu geralmente entre 1,3 e 1,5 durante o acompanhamento até 25 anos.

Isso levou os autores a descreverem o aumento como moderado, mas persistente

A persistência também torna menos provável que todo o resultado seja explicado apenas por um fenômeno conhecido como viés de detecção.

Isso poderia acontecer, por exemplo, porque uma pessoa recém-diagnosticada com doença celíaca passa a realizar mais exames, consultas e investigações médicas, aumentando temporariamente a chance de encontrar outras condições.

Os pesquisadores realizaram análises retirando o primeiro ano de acompanhamento e a associação continuou aparecendo.

 

 

Cálculos biliares também entraram nessa relação

Os pesquisadores dividiram os casos de pancreatite conforme sua provável origem.

O aumento foi observado tanto para pancreatite relacionada a cálculos biliares quanto para pancreatite sem relação identificada com cálculos.

Tipo de pancreatite Incidência em celíacos Incidência nos controles Risco ajustado
Não relacionada a cálculos biliares 27,3/100 mil pessoas-ano 16,3 49% maior
Relacionada a cálculos biliares 27,8/100 mil pessoas-ano 19,6 34% maior
Relacionada ao álcool 5,0/100 mil pessoas-ano 3,8 Sem aumento estatisticamente significativo

Esse resultado é interessante porque cálculos biliares estão entre as causas mais comuns de pancreatite aguda.

As diretrizes do American College of Gastroenterology estimam que 40% a 70% dos episódios de pancreatite aguda sejam de origem biliar, enquanto o álcool responde por aproximadamente 25% a 35%. 

 

 

Por que a doença celíaca poderia ter alguma relação com o pâncreas?

O estudo não foi desenhado para descobrir o mecanismo biológico responsável pela associação.

Os próprios pesquisadores deixam claro que essa parte permanece hipotética. Uma possibilidade envolve a comunicação entre o intestino, a vesícula biliar e o pâncreas.

A mucosa do intestino delgado produz hormônios como a colecistocinina (CCK), que participa da contração da vesícula biliar e da liberação das enzimas pancreáticas.

Na doença celíaca ativa, a lesão intestinal pode alterar essa sinalização.

Pesquisas anteriores sugerem que pessoas com doença celíaca não tratada podem apresentar menor liberação de colecistocinina e esvaziamento prejudicado da vesícula biliar, mecanismos que teoricamente poderiam favorecer a formação de cálculos.

Outras hipóteses estudadas ao longo dos anos incluem:

  • inflamação crônica no duodeno e na região da papila por onde drenam os ductos pancreático e biliar;
  • alterações imunológicas;
  • efeitos da má absorção e da desnutrição grave sobre o pâncreas;
  • determinadas infecções;
  • medicamentos capazes de provocar pancreatite em situações específicas;
  • associação com outras doenças inflamatórias ou autoimunes.

Uma revisão sobre envolvimento pancreático na doença celíaca ressalta que alterações do pâncreas exócrino já foram descritas nesse grupo, mas os mecanismos continuam incompletamente compreendidos. 

Portanto, esses mecanismos são biologicamente plausíveis, mas não foram comprovados como explicação para os resultados do estudo de 2026.

 

 

Pancreatite grave também foi mais frequente?

Sim, mas aqui o risco absoluto volta a ser fundamental.

Os pesquisadores encontraram um aumento relativo de 60% no risco de pancreatite aguda grave entre pessoas com doença celíaca.

As taxas, entretanto, foram: 11,4 casos por 100 mil pessoas-ano entre celíacos, contra 6,5 casos por 100 mil pessoas-ano na população de comparação. 

Portanto, trata-se novamente de uma associação estatisticamente relevante envolvendo um evento relativamente raro.

A definição de quadro grave utilizada pelos pesquisadores incluiu internações prolongadas, complicações graves ou morte em até 90 dias após a alta.

Isso não significa que uma pessoa celíaca que desenvolva pancreatite tenha 60% de probabilidade de apresentar um quadro grave.

O número significa que o hazard relativo de pancreatite classificada como grave foi 1,60 vez o observado no grupo de comparação.

 

 

E quem já teve pancreatite? O risco de recorrência aumentou?

Este foi um dos resultados mais tranquilizadores.

Entre as pessoas que já haviam apresentado um primeiro episódio de pancreatite aguda, a doença celíaca não esteve associada a maior risco de novos episódios.

O hazard ratio ajustado para pancreatite recorrente foi de 0,85, com intervalo de confiança de 95% entre 0,67 e 1,08.

Como o intervalo inclui 1, a diferença não foi estatisticamente significativa. 

Esse resultado é relevante porque, na população geral, episódios recorrentes não são incomuns.

Uma meta-análise publicada em 2023 estimou recorrência em aproximadamente 21% das pessoas após um primeiro episódio de pancreatite aguda, embora o risco varie muito conforme a causa do quadro. 

O novo estudo sugere que ter doença celíaca, por si só, não parece acrescentar risco de recorrência depois que a pancreatite já aconteceu.

 

 

A cicatrização do intestino diminuiu o risco?

Esse é um dos achados mais interessantes e também um dos que mais exigem cuidado na interpretação.

Os pesquisadores identificaram 15.965 pacientes com doença celíaca que haviam realizado uma nova biópsia entre seis meses e cinco anos após o diagnóstico.

Destes, 4.099, ou 25,7%, ainda apresentavam atrofia vilositária.

Inicialmente, as pessoas com atrofia persistente pareciam apresentar mais pancreatite em números absolutos.

Mas, depois dos ajustes estatísticos para diferenças entre os grupos, não houve aumento significativo do risco entre quem mantinha atrofia e quem apresentava cicatrização da mucosa.

O hazard ratio ajustado foi 0,92, com intervalo de confiança de 0,66 a 1,27

Isso significa que a dieta sem glúten não protege o pâncreas?

Não. O estudo não avaliou diretamente a adesão à dieta sem glúten.

A cicatrização da mucosa foi utilizada apenas como uma aproximação indireta da adesão alimentar.

Os próprios autores explicam que uma única biópsia não é capaz de representar o estado da mucosa ou o consumo de glúten durante décadas.

Uma pessoa pode apresentar cicatrização em determinado momento e voltar a ter exposição posteriormente. Outra pode ter ingestões ocasionais e ainda apresentar recuperação histológica.

Por isso, esse achado não permite concluir que seguir ou não seguir corretamente a dieta sem glúten tenha o mesmo efeito sobre risco de pancreatite.

E ele não modifica a recomendação central da doença celíaca: a dieta sem glúten rigorosa e permanente continua sendo o tratamento da doença.

 

 

O estudo prova que a doença celíaca causa pancreatite?

Não e essa distinção é fundamental. O estudo encontrou uma associação epidemiológica.

Isso significa que, na população estudada, as pessoas com doença celíaca apresentaram pancreatite aguda com maior frequência do que as pessoas do grupo de comparação.

Não significa que os pesquisadores tenham demonstrado que a doença celíaca foi diretamente responsável pelos episódios.

Entre as limitações apontadas pelos próprios autores estão a ausência de informações detalhadas sobre:

  • alimentação;
  • tabagismo;
  • obesidade;
  • consumo real de álcool;
  • alguns fatores metabólicos;
  • adesão à dieta sem glúten;
  • mudanças da mucosa intestinal ao longo de todo o período estudado.

Mais de 90% da população incluída também havia nascido em países nórdicos, o que significa que os números absolutos encontrados na Suécia não devem ser automaticamente aplicados à população brasileira. 

Os autores são explícitos: o desenho observacional não permite interpretar a associação como causal.

 

 

Um caso individual não pode ser explicado por esse estudo

Esse ponto também é importante quando uma pessoa com doença celíaca desenvolve pancreatite.

O fato de estudos populacionais mostrarem maior incidência não permite concluir que a doença celíaca tenha causado a pancreatite naquele paciente específico.

Cada episódio precisa ter sua causa investigada.

Cálculos biliares, álcool, triglicerídeos elevados, determinados medicamentos, alterações anatômicas, tabagismo, níveis elevados de cálcio, fatores genéticos, procedimentos endoscópicos e outras condições estão entre as possíveis causas ou fatores associados. American College of Gastroenterology

Em alguns casos, nenhuma causa é identificada mesmo depois de uma investigação extensa.

 

 

O estudo confirma pesquisas anteriores?

Sim, mas também modifica a dimensão do risco.

Pesquisas suecas anteriores já haviam encontrado associação entre doença celíaca e pancreatite.

Um estudo publicado em 2012, por exemplo, encontrou risco aumentado para diferentes formas de pancreatite, incluindo a pancreatite aguda relacionada e não relacionada a cálculos biliares. 

A nova pesquisa utiliza dados mais recentes, população maior, acompanhamento prolongado e análises mais detalhadas.

Os autores destacam que as estimativas atuais foram menores do que algumas encontradas em estudos mais antigos, o que ajuda a refinar a percepção do risco.

Isso é importante. A associação parece existir.

Mas o melhor estudo disponível até agora aponta para um aumento moderado, e não para um risco extremamente alto.

 

 

Comparar irmãos tornou o resultado mais robusto

Os pesquisadores também realizaram uma análise envolvendo 40.256 pessoas com doença celíaca e 69.439 irmãos sem a doença.

Esse tipo de comparação é interessante porque irmãos compartilham parte da genética e frequentemente vários aspectos ambientais e sociais.

Mesmo nessa análise, a doença celíaca continuou associada a maior risco de pancreatite aguda.

O aumento foi menor, mas permaneceu significativo: aHR de 1,30, ou aproximadamente 30% de aumento relativo. 

Para pancreatite relacionada a cálculos biliares, entretanto, a diferença deixou de ser estatisticamente significativa na comparação entre irmãos.

Isso reforça uma ideia importante: parte da associação pode envolver fatores compartilhados que são difíceis de separar completamente em estudos observacionais.

 

 

O celíaco precisa fazer exames do pâncreas preventivamente?

O estudo não sustenta essa recomendação.

Não há indicação, com base nesses resultados, de realizar tomografias, exames de enzimas pancreáticas ou outros rastreamentos de pancreatite em pessoas celíacas sem sintomas.

Os próprios autores concentram as implicações clínicas em reconhecer a associação e orientar fatores de risco modificáveis.

Isso inclui atenção a:

  • tabagismo;
  • consumo excessivo de álcool;
  • obesidade;
  • triglicerídeos elevados;
  • cálculos biliares;
  • medicamentos associados à pancreatite quando clinicamente relevantes;
  • alimentação nutricionalmente adequada dentro da dieta sem glúten.

Atenção, celíacos

Um aumento relativo de 42% não significa que 42% das pessoas com doença celíaca terão pancreatite.

No estudo, a incidência foi de 58,7 casos por 100 mil pessoas-ano entre os celíacos e 37,8 entre os controles.

Ao longo de 25 anos, a diferença acumulada foi de 0,54 ponto percentual, equivalente a aproximadamente um episódio adicional para cada 185 pacientes celíacos.

A pesquisa também não recomenda rastreamento de pancreatite em quem não apresenta sintomas.

Dor abdominal intensa e súbita, especialmente na parte superior do abdômen e acompanhada de vômitos ou piora importante do estado geral, exige avaliação médica. Não atribua automaticamente uma dor forte à doença celíaca ou a uma possível contaminação por glúten.

 

 

Quando uma dor abdominal merece avaliação urgente?

A doença celíaca pode causar dor abdominal, mas pancreatite aguda é um quadro diferente e potencialmente grave.

Procure atendimento médico diante de:

Sinal Por que merece atenção
Dor abdominal muito intensa e de início súbito É um dos sintomas clássicos de pancreatite
Dor na parte superior do abdômen que irradia para as costas Padrão frequente na pancreatite
Vômitos persistentes Pode acompanhar o processo inflamatório e causar desidratação
Febre, fraqueza intensa ou piora rápida Podem indicar complicações
Queda de pressão, confusão ou dificuldade respiratória Sinais de emergência
Dor diferente das reações habituais após exposição ao glúten Precisa de diagnóstico, não de suposição

Uma pessoa com doença celíaca não deve presumir que qualquer sintoma gastrointestinal intenso seja causado por glúten.

 

 

Leia mais no Eu Celíaca

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FAQ sobre doença celíaca e pancreatite

Doença celíaca pode causar pancreatite?

Estudos mostram uma associação entre doença celíaca e maior incidência de pancreatite, mas isso não significa que tenha sido comprovada uma relação direta de causa e efeito. O estudo de 2026 encontrou risco relativo 42% maior para um primeiro episódio de pancreatite aguda, com aumento absoluto pequeno. 

Qual é o risco de um celíaco desenvolver pancreatite aguda?

No estudo sueco, a incidência foi de 58,7 casos por 100 mil pessoas-ano entre pessoas com doença celíaca e 37,8 entre controles. Em 25 anos, a diferença acumulada foi de 0,54 ponto percentual, equivalente a aproximadamente um caso adicional para cada 185 pacientes celíacos. 

A pancreatite é uma manifestação comum da doença celíaca?

Não. O aumento de risco encontrado foi estatisticamente relevante, mas o evento permaneceu relativamente raro em termos absolutos. Pancreatite não deve ser considerada uma manifestação esperada na maioria das pessoas com doença celíaca.

A dieta sem glúten previne pancreatite?

O estudo de 2026 não conseguiu responder essa pergunta diretamente porque não possuía informações detalhadas sobre adesão à dieta. A cicatrização da mucosa intestinal também não esteve associada a menor risco ajustado, mas uma biópsia isolada não representa o consumo de glúten durante décadas. 

Quem tem doença celíaca precisa fazer exames de pâncreas regularmente?

Não há recomendação de rastreamento de pancreatite em celíacos assintomáticos com base nesse estudo. A orientação é conhecer os sintomas, controlar fatores de risco modificáveis e investigar adequadamente um quadro suspeito.

Pedras na vesícula podem causar pancreatite?

Sim. Cálculos biliares são uma das principais causas de pancreatite aguda. Um cálculo pode bloquear a região onde os ductos biliar e pancreático drenam para o intestino e desencadear inflamação pancreática. 

Quem tem doença celíaca e já teve pancreatite tem maior risco de ter outra?

O novo estudo não encontrou aumento estatisticamente significativo de pancreatite recorrente entre pessoas com doença celíaca depois do primeiro episódio. O aHR foi de 0,85, com intervalo de confiança de 0,67 a 1,08. 

Dor abdominal forte em um celíaco pode ser apenas contaminação por glúten?

Não é possível concluir isso apenas pelo sintoma. Dor abdominal intensa, súbita ou diferente do padrão habitual, principalmente quando acompanhada de vômitos, febre, fraqueza intensa ou piora clínica, precisa de avaliação médica.

 

 

Conclusão

A nova pesquisa sueca acrescenta uma peça importante ao conhecimento sobre as possíveis repercussões da doença celíaca fora do intestino.

Ao acompanhar mais de 57 mil pessoas com diagnóstico confirmado por biópsia, os pesquisadores encontraram um aumento persistente no risco de um primeiro episódio de pancreatite aguda.

O número que provavelmente chamará mais atenção é o aumento relativo de 42%.

Mas ele não deveria aparecer sozinho.A incidência passou de 37,8 para 58,7 casos por 100 mil pessoas-ano e, ao longo de 25 anos, a diferença acumulada foi de 0,54 ponto percentual.

Em termos práticos, isso equivaleu a aproximadamente um episódio adicional para cada 185 pessoas com doença celíaca acompanhadas durante 25 anos.

A pesquisa também encontrou aumento relativo de pancreatite grave, associação com formas biliares e não biliares e nenhum aumento significativo de episódios recorrentes depois da primeira pancreatite.

O mecanismo responsável permanece incerto.

Alterações da motilidade da vesícula, sinalização da colecistocinina, inflamação intestinal, fatores imunológicos, medicamentos e outras condições associadas são hipóteses, não respostas definitivas.

E o estudo deixa outra mensagem importante: associação populacional não determina a causa de uma doença em um indivíduo.

Quando uma pessoa celíaca desenvolve pancreatite, é necessário investigar cálculos biliares, álcool, triglicerídeos, medicamentos e outras causas conhecidas. Não é correto concluir automaticamente que a doença celíaca provocou o episódio.

Para o paciente celíaco, portanto, a pesquisa não é motivo para viver com medo de pancreatite nem para realizar exames preventivos sem indicação.

Ela amplia o conhecimento sobre uma associação que merece atenção clínica e reforça um princípio que vale para praticamente toda pesquisa sobre riscos em saúde: um percentual relativo pode chamar atenção, mas é o risco absoluto que mostra o tamanho real do problema.

 

 

Referências Científicas e Fontes

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Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada. Esta matéria foi elaborada com base em artigos científicos indexados no PubMed e outros artigos científicos, além de diretrizes internacionais e revisões de alto nível de evidência. O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Eu Celíaca©. Todos os direitos reservados. Reprodução parcial ou total permitida somente com citação da fonte e link para o conteúdo original.

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