O banco britânico Barclays iniciou a cobertura das ações da Forte Biosciences com recomendação overweight, utilizada quando o analista espera desempenho superior ao mercado ou ao setor.
O preço-alvo foi fixado em US$ 74, enquanto as ações estavam cotadas a US$ 47,49 no momento mencionado pela análise. A diferença representa um potencial de valorização de aproximadamente 56%.
Parte dessa expectativa está ligada ao FB102, um anticorpo monoclonal experimental desenvolvido para atuar em mecanismos imunológicos envolvidos em doenças como vitiligo, alopecia areata e doença celíaca.
A análise financeira estima que, caso seja aprovado para doença celíaca, o medicamento possa alcançar vendas máximas próximas de US$ 3,6 bilhões. O Barclays também calcula que a população potencialmente elegível possa chegar a aproximadamente 400 mil pacientes até 2043.
Os números chamam atenção, mas precisam ser interpretados corretamente. Uma recomendação de investimento não representa confirmação de eficácia clínica, aprovação regulatória ou garantia de que o medicamento chegará ao mercado.
Ainda assim, a notícia revela algo maior: a doença celíaca passou a ser observada por investidores, bancos e empresas de biotecnologia como uma área relevante para o desenvolvimento de medicamentos.
O interesse do mercado financeiro não torna a doença mais importante do ponto de vista médico. Essa importância sempre existiu. O que pode mudar é a escala dos investimentos, o número de estudos clínicos e a quantidade de empresas dispostas a desenvolver tratamentos além da dieta sem glúten.
O que é a Forte Biosciences?
A Forte Biosciences é uma empresa norte-americana de biotecnologia em estágio clínico, ou seja, ainda concentrada na pesquisa e no desenvolvimento de candidatos a medicamentos que não foram aprovados para comercialização.
Seu principal produto experimental é o FB102, um anticorpo monoclonal que atua sobre o CD122, estrutura envolvida nos receptores das interleucinas 2 e 15.
A companhia está estudando o medicamento em diferentes doenças imunológicas. No caso da doença celíaca, um ensaio clínico de fase 2 está em andamento, com previsão de divulgação de resultados principais em 2026. A empresa também informou que o FB102 recebeu da agência reguladora norte-americana FDA a designação Fast Track para doença celíaca.
A designação Fast Track procura facilitar o desenvolvimento e a análise de tratamentos voltados a condições graves ou com necessidades médicas ainda não atendidas. Ela pode permitir uma comunicação mais frequente entre a empresa e a FDA.
Isso, porém, não significa que o medicamento tenha sido aprovado, nem que sua eficácia esteja comprovada.
Empresas de biotecnologia como a Forte dependem fortemente dos resultados de seus estudos clínicos. Por isso, notícias positivas ou negativas sobre um único medicamento podem provocar grandes oscilações no valor das ações.
O que são medicamentos biológicos?
Medicamentos biológicos são produzidos por sistemas vivos ou por processos biotecnológicos complexos.
Enquanto muitos medicamentos tradicionais são pequenas moléculas químicas fabricadas por síntese, os biológicos geralmente são moléculas maiores, como:
- anticorpos monoclonais;
- proteínas recombinantes;
- hormônios;
- fatores de crescimento;
- vacinas;
- terapias celulares ou genéticas.
Um anticorpo monoclonal é desenvolvido para reconhecer um alvo específico. Esse alvo pode ser uma proteína, uma célula, uma citocina ou um receptor envolvido no processo inflamatório.
Dependendo do medicamento, o anticorpo pode:
- bloquear um sinal inflamatório;
- impedir a ativação de determinada célula;
- reduzir a ação de uma citocina;
- modificar uma etapa da resposta autoimune;
- direcionar o sistema imunológico contra um alvo definido.
Biológicos já são usados em doenças como artrite reumatoide, psoríase, doença de Crohn, retocolite ulcerativa, asma grave e alguns tipos de câncer.
Na doença celíaca, ainda não há um medicamento biológico aprovado para o tratamento rotineiro. A dieta sem glúten permanece como a terapia estabelecida.
O que significa “biológico sistêmico”?
Um medicamento sistêmico não atua apenas no interior do intestino ou diretamente sobre o glúten ingerido. Depois de administrado, ele circula pelo organismo e interfere em determinada via biológica ou imunológica.
A administração de um anticorpo monoclonal normalmente ocorre por injeção subcutânea ou infusão intravenosa, embora a forma exata dependa de cada produto.
A ação sistêmica diferencia o FB102 de outras estratégias experimentais estudadas para doença celíaca.
| Estratégia em pesquisa | Como pretende agir |
| Enzimas | Degradar fragmentos de glúten antes que provoquem resposta imunológica |
| Protetores da barreira intestinal | Reduzir a passagem de fragmentos pela mucosa |
| Inibidores enzimáticos | Bloquear etapas necessárias para a apresentação imunológica do glúten |
| Imunoterapias específicas | Tentar induzir tolerância ao glúten |
| Anticorpos sistêmicos | Modular células, receptores ou citocinas envolvidos na inflamação |
Um biológico sistêmico pode oferecer uma ação imunológica mais ampla. Ao mesmo tempo, essa característica aumenta a necessidade de avaliação rigorosa de segurança.
O sistema imunológico utiliza as mesmas vias para diferentes funções. Bloquear um receptor ou uma citocina pode reduzir uma resposta inflamatória indesejada, mas também pode interferir na defesa contra infecções ou em outros mecanismos necessários ao organismo.
Por isso, estudos com biológicos monitoram cuidadosamente eventos como:
- infecções;
- reações à administração;
- alterações laboratoriais;
- respostas imunológicas inesperadas;
- efeitos sobre fígado, rins e células sanguíneas;
- desenvolvimento de anticorpos contra o próprio medicamento.
Como o FB102 pretende agir?
O FB102 é um anticorpo monoclonal dirigido ao CD122, uma proteína que integra receptores das citocinas IL-2 e IL-15.
As citocinas são moléculas usadas pelas células do sistema imunológico para se comunicar. Elas podem estimular, reduzir ou organizar respostas inflamatórias.
Na doença celíaca, a interleucina-15, ou IL-15, participa de mecanismos relacionados à ativação dos linfócitos intraepiteliais. Essas células ficam localizadas entre as células que revestem o intestino e podem contribuir para a lesão da mucosa após a exposição ao glúten.
Estudos científicos demonstram que a IL-15 está aumentada no intestino de pacientes com doença celíaca ativa e pode favorecer a sobrevivência, a ativação e a capacidade citotóxica dos linfócitos intraepiteliais. A citocina também tem papel relevante nas formas refratárias da doença.
Ao se ligar ao CD122, o FB102 procura interferir na sinalização relacionada à IL-15 e à IL-2. A hipótese é que essa modulação possa reduzir a ativação de células que participam da inflamação e do dano intestinal.
Em termos simples, o medicamento tenta enfraquecer uma das mensagens que mantêm determinadas células imunológicas ativadas.
Isso não significa que o FB102 elimine o glúten, corrija a causa genética da doença ou represente uma cura.
O que os pesquisadores estão testando é se o bloqueio dessa via pode:
- proteger as vilosidades intestinais;
- reduzir a ativação de linfócitos;
- diminuir sintomas após a exposição ao glúten;
- limitar o dano provocado por contaminações;
- complementar a dieta sem glúten em grupos selecionados.
O que os primeiros resultados mostraram?
A Forte Biosciences divulgou resultados de um estudo inicial de fase 1b em pessoas com doença celíaca submetidas a um desafio controlado com glúten.
Segundo a companhia, os participantes que receberam o FB102 apresentaram sinais favoráveis em medidas como:
- quantidade de linfócitos intraepiteliais;
- relação entre a altura das vilosidades e a profundidade das criptas;
- sintomas relacionados à exposição ao glúten;
- marcadores farmacodinâmicos ligados à via imunológica estudada.
Esses resultados contribuíram para o avanço do medicamento para a fase 2.
Há, entretanto, uma limitação essencial: as informações iniciais foram divulgadas pela própria empresa, e não constituem, por si só, evidência definitiva de eficácia. Estudos pequenos e precoces são desenvolvidos principalmente para avaliar segurança, dose e sinais preliminares de atividade.
Os achados precisam ser confirmados em grupos maiores, comparados com placebo e avaliados por pesquisadores e agências reguladoras.
Para quem um tratamento sistêmico poderia ser indicado?
Ainda não existe uma indicação clínica aprovada para o FB102. Portanto, não é possível afirmar quais pacientes receberiam o medicamento caso ele chegasse ao mercado.
Possíveis grupos de interesse para tratamentos experimentais incluem pessoas que:
- continuam apresentando sintomas apesar da dieta sem glúten;
- mantêm lesão intestinal mesmo após acompanhamento adequado;
- sofrem exposições acidentais frequentes;
- apresentam dificuldade de recuperação da mucosa;
- têm doença celíaca não responsiva;
- possuem formas raras e refratárias.
Isso não significa que todas essas pessoas seriam candidatas a um anticorpo sistêmico. A população final dependerá dos resultados dos estudos, do equilíbrio entre benefícios e riscos e da indicação eventualmente autorizada pelas agências reguladoras.
O ensaio de fase 2 do FB102 inclui adultos com doença celíaca que seguem dieta sem glúten e são submetidos a um desafio oral controlado com glúten. O objetivo é verificar se o medicamento reduz o dano histológico e outros efeitos provocados pela exposição.
Portanto, a investigação atual não está restrita exclusivamente a pacientes com doença celíaca refratária.
Doença celíaca não responsiva não é o mesmo que refratária
A matéria financeira afirma que aproximadamente 10% dos pacientes seriam “refratários” à dieta sem glúten. Essa formulação exige cuidado.
Pessoas que continuam com sintomas após iniciar a dieta podem apresentar doença celíaca não responsiva, mas isso não significa que tenham doença celíaca refratária.
O que é doença celíaca não responsiva?
A expressão é usada quando sintomas, alterações laboratoriais ou lesões intestinais persistem ou reaparecem apesar da tentativa de seguir a dieta sem glúten.
As causas podem incluir:
- ingestão acidental ou contínua de glúten;
- dificuldade para identificar fontes de contaminação;
- síndrome do intestino irritável;
- intolerância à lactose;
- supercrescimento bacteriano do intestino delgado;
- colite microscópica;
- insuficiência pancreática;
- outros distúrbios gastrointestinais;
- diagnóstico inicial incorreto;
- recuperação intestinal ainda incompleta.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 identificou a exposição involuntária ao glúten como a causa mais frequente entre pacientes com doença não responsiva, representando aproximadamente 33% dos casos analisados. Distúrbios gastrointestinais funcionais, incluindo a síndrome do intestino irritável, também foram frequentes.
O que é doença celíaca refratária?
A doença celíaca refratária é uma condição rara, caracterizada pela persistência ou recorrência de sintomas de má absorção e atrofia das vilosidades, apesar de dieta rigorosa por período prolongado, depois que outras causas foram excluídas.
Ela é classificada em dois tipos, de acordo com as características dos linfócitos intraepiteliais.
A forma tipo 2 está associada a células anormais e a maior risco de complicações, incluindo linfoma de células T associado à enteropatia.
Estudos mais antigos chegaram a sugerir prevalências próximas de 10%, mas trabalhos contemporâneos indicam que a doença refratária verdadeira ocorre em menos de 1% das pessoas diagnosticadas com doença celíaca. Um estudo populacional encontrou prevalência de aproximadamente 0,31% entre pacientes celíacos.
Por isso, não é adequado tratar todas as pessoas que continuam com sintomas como refratárias.
Doença não responsiva é relativamente comum. Doença refratária verdadeira é rara e exige investigação especializada.
Em que fase está a pesquisa?
O FB102 está sendo avaliado em um estudo de fase 2, multicêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo.
Essas características aumentam a qualidade metodológica:
- randomizado: os participantes são distribuídos entre os grupos por método aleatório;
- duplo-cego: nem os participantes nem os pesquisadores responsáveis pela avaliação sabem quem recebeu o medicamento;
- controlado por placebo: os resultados são comparados com um grupo que recebe uma substância sem o princípio ativo;
- multicêntrico: o estudo ocorre em mais de um centro de pesquisa.
O ensaio avalia eficácia, segurança, farmacocinética e farmacodinâmica do FB102 em adultos com doença celíaca mantidos em dieta sem glúten. Os participantes passam por um desafio oral com glúten em ambiente controlado.
O que cada fase procura responder?
| Fase | Pergunta principal |
| Fase 1 | O medicamento parece seguro e tolerável? |
| Fase 1b | Como ele se comporta em um pequeno grupo de pacientes? |
| Fase 2 | Existem sinais consistentes de eficácia? Qual dose deve avançar? |
| Fase 3 | O benefício se confirma em uma população maior e mais diversa? |
| Análise regulatória | Os dados justificam autorização para comercialização? |
| Fase 4 | Como o medicamento se comporta após chegar ao mercado? |
Um medicamento que chega à fase 2 ainda tem um caminho considerável pela frente. Muitos candidatos que parecem promissores em estudos iniciais não confirmam a eficácia esperada em ensaios maiores ou apresentam problemas de segurança.
Como os pesquisadores avaliam se um tratamento funciona?
Em doença celíaca, apenas perguntar se o paciente sentiu menos sintomas pode ser insuficiente.Uma pessoa pode apresentar melhora clínica e continuar com lesão intestinal. Também pode haver dano histológico sem sintomas intensos.
Por isso, os estudos costumam combinar diferentes medidas.
Histologia intestinal
A biópsia permite avaliar:
- altura das vilosidades;
- profundidade das criptas;
- grau de atrofia;
- quantidade de linfócitos intraepiteliais;
- classificação histológica da lesão.
A relação entre a altura das vilosidades e a profundidade das criptas é um dos indicadores usados para medir a integridade da mucosa.
Sintomas
Questionários validados podem medir:
- dor abdominal;
- diarreia;
- distensão;
- náusea;
- cansaço;
- impacto na vida diária.
Exames laboratoriais
Os estudos também podem acompanhar:
- anticorpos relacionados à doença celíaca;
- marcadores inflamatórios;
- células imunológicas;
- concentração do medicamento no sangue;
- alterações hepáticas ou hematológicas.
Qualidade de vida
Um tratamento só será clinicamente relevante se produzir benefícios que tenham valor real para o paciente, como menor impacto das contaminações, recuperação intestinal ou redução de sintomas.
Melhorar apenas um marcador laboratorial, sem benefício clínico proporcional, pode não ser suficiente para justificar os riscos e o custo de um tratamento sistêmico.
Qual é o tamanho do mercado?
O Barclays estima que o mercado potencial do FB102 em doença celíaca possa chegar a aproximadamente 400 mil pacientes até 2043.
O banco também projeta vendas máximas próximas de US$ 3,6 bilhões caso o medicamento seja aprovado.
Essas projeções dependem de várias condições:
- resultados positivos nos estudos;
- segurança aceitável;
- aprovação regulatória;
- definição da população elegível;
- preço do medicamento;
- cobertura por seguradoras e sistemas públicos;
- adesão dos médicos;
- concorrência com outras terapias;
- disponibilidade em diferentes países.
A doença celíaca é comum.
Uma meta-análise que reuniu dados de 275.818 pessoas encontrou prevalência sorológica global de 1,4%. A prevalência confirmada por biópsia foi de 0,7%.
Isso representa milhões de pessoas em todo o mundo, mas não significa que todas necessitem de um medicamento sistêmico.
A maioria continua tendo na dieta sem glúten o principal tratamento. Um biológico poderá ser direcionado inicialmente a um grupo menor, como pessoas com sintomas persistentes, lesão intestinal ou maior risco de complicações.
O mercado potencial calculado por bancos é diferente da prevalência da doença. O primeiro tenta estimar quantos pacientes poderiam receber e pagar por determinado tratamento. O segundo mede quantas pessoas vivem com a condição.
O que muda quando o mercado financeiro olha para a doença celíaca?
Durante décadas, a doença celíaca foi tratada pela indústria principalmente como um mercado de alimentos sem glúten.
O interesse de grandes instituições financeiras por empresas que pesquisam medicamentos revela uma mudança: a doença também começa a ser vista como uma área farmacêutica capaz de sustentar investimentos de longo prazo.
Esse movimento pode trazer consequências concretas.
Mais recursos para estudos clínicos
Ensaios clínicos são caros. Exigem centros especializados, exames, endoscopias, biópsias, acompanhamento de segurança e equipes multidisciplinares.
A entrada de capital pode permitir estudos maiores e mais rigorosos.
Maior concorrência
Quando uma área demonstra potencial econômico, outras empresas tendem a desenvolver produtos próprios ou adquirir candidatos já existentes.
A concorrência pode estimular abordagens diferentes e aumentar a chance de que algum tratamento seja bem-sucedido.
Mais atenção às necessidades não atendidas
Parte dos pacientes continua apresentando sintomas, medo de contaminação, limitações sociais ou recuperação intestinal incompleta mesmo após iniciar a dieta.
Um mercado farmacêutico mais ativo pode direcionar pesquisas para esses problemas.
Maior pressão por desfechos relevantes
Investidores e agências reguladoras precisam saber se o produto realmente produz benefício. Isso pode estimular a criação de melhores exames, questionários e critérios de resposta.
Mas o interesse financeiro também exige vigilância. Projeções de vendas podem favorecer mensagens excessivamente otimistas, especialmente quando os dados vêm da própria companhia interessada na valorização do produto.
Por que empresas estão investindo nessa área?
A doença celíaca reúne características atraentes para o desenvolvimento farmacêutico:
- é uma doença crônica;
- afeta aproximadamente 1% da população;
- possui mecanismos imunológicos relativamente bem conhecidos;
- o desencadeante, o glúten, é identificado;
- não há medicamento aprovado que substitua ou complemente amplamente a dieta;
- evitar totalmente a contaminação é difícil;
- parte dos pacientes mantém sintomas;
- a qualidade de vida pode ser significativamente afetada;
- estudos com desafio de glúten permitem medir respostas de forma controlada.
Além disso, a indústria pode desenvolver tratamentos com finalidades distintas.
Alguns produtos tentam proteger contra pequenas contaminações. Outros procuram reparar a barreira intestinal. Há ainda estratégias voltadas à tolerância imunológica ou ao bloqueio de citocinas.
Essa variedade demonstra que não existe uma única forma de tratar farmacologicamente a doença celíaca.
Quais outras empresas e produtos estão em desenvolvimento?
O FB102 não é o único candidato em pesquisa. A área inclui anticorpos, pequenas moléculas, enzimas e imunoterapias.A situação dos programas pode mudar rapidamente.
Estudos podem avançar, ser interrompidos, ter o nome modificado ou ser transferidos para outras empresas.
| Produto | Empresa ou responsável | Estratégia | Situação clínica |
| FB102 | Forte Biosciences | Anticorpo contra CD122, ligado às vias de IL-2 e IL-15 | Fase 2 |
| DONQ52 | Chugai Pharmaceutical | Anticorpo multiespecífico voltado à resposta de células T ao glúten | Estudo em doença celíaca ativa |
| Amlitelimab | Sanofi | Anticorpo dirigido ao OX40L, envolvido na ativação imune | Fase 2a/2b em doença não responsiva |
| ZED1227 | Dr. Falk Pharma e Zedira | Inibidor da transglutaminase 2 intestinal | Estudos clínicos avançados |
| VTP-1000 | Barinthus Biotherapeutics | Imunoterapia voltada à indução de tolerância ao glúten | Desenvolvimento clínico inicial |
Latiglutenase |
Desenvolvimento por diferentes organizações ao longo do programa | Combinação de enzimas para degradar glúten | Estudos de fase 2 |
| IMU-856 | Immunic | Pequena molécula voltada à integridade e regeneração intestinal | Desenvolvimento clínico |
CALY-002 |
Novartis/Calypso Biotech | Anticorpo contra IL-15 | Desenvolvimento clínico inicial |
DONQ52
O DONQ52 procura bloquear a ativação de células T relacionada a fragmentos do glúten. Um estudo registrado avalia seu efeito sobre o dano do intestino delgado e os sintomas associados à exposição.
Amlitelimab
O amlitelimab está sendo estudado em adultos com doença celíaca não responsiva. O ensaio de fase 2a/2b avalia eficácia e segurança da administração subcutânea.
ZED1227
O ZED1227 é uma pequena molécula oral que inibe a transglutaminase 2 no intestino. A enzima participa da modificação de fragmentos do glúten, etapa importante para que eles sejam reconhecidos pelo sistema imunológico.
Diferentemente de um anticorpo sistêmico, o objetivo é atuar de forma mais localizada no intestino. Novos estudos avaliam seu possível uso em pessoas que continuam com sintomas apesar da dieta sem glúten.
Nenhum desses produtos deve ser interpretado como aprovado ou disponível para uso rotineiro apenas por estar em estudo.
Biológicos poderiam permitir que a pessoa voltasse a comer glúten?
Ainda não há evidência que permita essa conclusão.
A maior parte dos estudos atuais testa se o medicamento pode proteger contra quantidades controladas de glúten ou reduzir danos relacionados a exposições acidentais.
Existe uma diferença importante entre:
- tolerar pequenas contaminações;
- reduzir sintomas após um desafio curto;
- proteger completamente a mucosa;
- consumir livremente trigo, cevada e centeio.
Um medicamento pode alcançar os primeiros objetivos sem permitir uma alimentação com glúten.
Mesmo que o FB102 seja aprovado no futuro, a indicação pode continuar exigindo dieta sem glúten.
Quanto poderia custar um tratamento desse tipo?
Ainda não existe preço para o FB102.
Biológicos costumam ter custos elevados porque são complexos de produzir, exigem controle rigoroso e frequentemente precisam de aplicação periódica.
O preço final dependeria de:
- dose;
- frequência de administração;
- duração do tratamento;
- indicação aprovada;
- concorrência;
- acordos com planos de saúde;
- negociação com sistemas públicos;
- país de comercialização.
Uma projeção de vendas de US$ 3,6 bilhões não informa quanto cada paciente pagaria. O valor representa uma estimativa de receita anual máxima para a empresa em um cenário futuro.
O medicamento poderia chegar ao Brasil?
Um medicamento aprovado nos Estados Unidos não fica automaticamente disponível no Brasil.
Para ser comercializado no país, ele precisaria passar pela avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa.
Mesmo após o registro sanitário, sua incorporação ao SUS dependeria de uma análise específica de eficácia, segurança, impacto orçamentário e custo-efetividade.
Nos planos de saúde, a cobertura dependeria das regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar, do tipo de contrato e das condições aplicáveis no momento.
Como o FB102 ainda está em fase 2, qualquer discussão sobre disponibilidade, preço ou cobertura no Brasil permanece prematura.
Atenção Celíacos
O FB102 continua sendo um medicamento experimental.
A recomendação do Barclays avalia a possibilidade de valorização financeira da Forte Biosciences. Ela não representa uma recomendação médica e não comprova que o tratamento seja eficaz.
Até o momento:
- o FB102 não está aprovado para doença celíaca;
- não está disponível em farmácias ou clínicas;
- não substitui a dieta sem glúten;
- não foi demonstrado que permita o consumo livre de glúten;
- seus benefícios e riscos completos ainda são desconhecidos;
- os resultados da fase 2 ainda precisam ser analisados.
Não interrompa a dieta sem glúten nem altere o tratamento atual com base em notícias sobre ações, projeções de vendas ou comunicados empresariais.
FAQ – Perguntas frequentes
O FB102 já está disponível?
Não. O medicamento está em fase de pesquisa clínica e não foi aprovado para comercialização.
O que significa FB102?
É o código de desenvolvimento usado para identificar o anticorpo experimental da Forte Biosciences.
O FB102 é uma vacina?
Não. É um anticorpo monoclonal desenvolvido para modular uma via do sistema imunológico.
O medicamento pretende destruir o glúten?
Não. Ele procura agir sobre mecanismos imunológicos envolvidos na inflamação provocada pelo glúten.
O FB102 poderá substituir a dieta sem glúten?
Ainda não se sabe. Os estudos atuais não demonstram que pacientes poderão voltar a consumir glúten livremente.
O que significa anti-CD122?
Significa que o anticorpo reconhece e se liga ao CD122, componente de receptores relacionados às interleucinas IL-2 e IL-15.
Biológicos diminuem a imunidade?
Alguns biológicos podem modificar partes da resposta imunológica e aumentar determinados riscos, incluindo infecções. O efeito depende do alvo e do medicamento. O perfil completo do FB102 ainda está sendo estudado.
O FB102 é destinado apenas à doença celíaca refratária?
Não. O estudo atual envolve adultos com doença celíaca em dieta sem glúten submetidos a desafio controlado. A indicação definitiva ainda não existe.
O que significa Fast Track?
É uma designação da FDA que pode facilitar o desenvolvimento e a análise de medicamentos para condições com necessidades não atendidas. Não significa aprovação.
Quando os resultados devem ser divulgados?
A Forte Biosciences informa esperar resultados principais do estudo de fase 2 em 2026. O cronograma pode sofrer alterações.
A alta projetada de 56% já aconteceu?
Não. O percentual representa a diferença entre a cotação de US$ 47,49 citada na matéria e o preço-alvo de US$ 74 estabelecido pelo Barclays. É uma projeção, não uma valorização garantida.
Existem outros medicamentos sendo testados?
Sim. Há pesquisas com anticorpos, enzimas, pequenas moléculas e imunoterapias. Nenhum medicamento está aprovado atualmente para substituir a dieta sem glúten.
Conclusão
A recomendação do Barclays não comprova que o FB102 funcionará. Também não garante que o medicamento será aprovado ou alcançará vendas bilionárias.
Ela mostra, porém, que a doença celíaca começa a ocupar um espaço diferente no setor farmacêutico.
Quando uma instituição financeira internacional atribui potencial de valorização a uma empresa por causa de um medicamento experimental para doença celíaca, a discussão deixa de estar restrita aos laboratórios acadêmicos e aos consultórios. A doença passa também a atrair capital, concorrência e análises de mercado.
Esse interesse pode acelerar estudos, trazer novas empresas para o setor e ampliar as possibilidades de tratamento. Mas também exige jornalismo cuidadoso para separar três coisas diferentes:
- uma hipótese científica;
- uma projeção financeira;
- uma terapia comprovada.
O FB102 ainda pertence às duas primeiras categorias. Para chegar à terceira, precisará demonstrar eficácia relevante, segurança aceitável e resultados consistentes em estudos clínicos maiores.
Para quem vive com doença celíaca, o avanço das pesquisas representa uma possibilidade real de que, no futuro, a dieta sem glúten não seja a única ferramenta disponível. Até lá, o tratamento estabelecido continua sendo a exclusão rigorosa do glúten, acompanhada por profissionais capacitados.
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