O Brasil já possui protocolo clínico para investigar e diagnosticar a doença celíaca. Os exames existem, os grupos de risco são conhecidos e as manifestações fora do intestino estão descritas.
Mesmo assim, muitos pacientes continuam passando por consultas, tratamentos isolados e diagnósticos equivocados antes que alguém considere investigar a doença.
Estima-se que a doença celíaca afete cerca de 1% da população mundial. Aplicada à população brasileira, essa proporção corresponderia a aproximadamente 2 milhões de pessoas, embora o país ainda não tenha um levantamento populacional capaz de mostrar quantas receberam o diagnóstico.
Parte da dificuldade está na variedade de sintomas. Mas ela não explica tudo. Estudos apontam que a baixa suspeição clínica, as lacunas no conhecimento profissional e as falhas no processo de investigação também ajudam a manter a doença celíaca subdiagnosticada.
A doença não é rara, mas ainda é ignorada
A doença celíaca pode se apresentar de forma clássica, com sintomas gastrointestinais, mas também de modo silencioso ou com manifestações fora do intestino. O que poucos médicos sabem a respeito.
Em idosos, por exemplo, a apresentação costuma ser ainda mais sutil, com menos sintomas digestivos e maior peso de sinais como anemia, osteopenia, osteoporose e deficiência de micronutrientes.
Essa variedade clínica dificulta o reconhecimento e faz com que muitos pacientes sejam inicialmente enquadrados em diagnósticos mais comuns, como gastrite, síndrome do intestino irritável ou azia. Esse atraso não é apenas desconfortável para o paciente: ele prolonga a exposição ao glúten e aumenta o risco de complicações, como deficiências nutricionais, perda de massa óssea e outras repercussões sistêmicas.
Em diferentes estudos, o atraso diagnóstico aparece associado justamente ao fato de a doença não ser lembrada fora do contexto gastroenterológico. A literatura aponta que a variabilidade clínica e a baixa suspeição fazem muitos pacientes circularem por consultas antes de chegar ao diagnóstico correto.
No entanto, ela não pode servir como explicação permanente para que uma doença com critérios de investigação conhecidos continue sendo ignorada.
Formação médica insuficiente
Um exame que não é solicitado não pode detectar uma doença. Quando anemia persistente, perda de densidade óssea, alterações hepáticas, sintomas digestivos recorrentes ou doenças autoimunes associadas não despertam a suspeita de doença celíaca, o paciente pode permanecer anos tratando apenas as consequências.
Estudos sobre conhecimento médico identificam lacunas importantes no reconhecimento das apresentações não clássicas e no uso adequado dos testes diagnósticos. Parte dos profissionais conhece a doença de forma geral, mas não a inclui com frequência no diagnóstico diferencial quando o paciente não apresenta diarreia e perda de peso.
O problema, portanto, não é apenas desconhecer a existência da doença celíaca. É não reconhecer os cenários em que ela deve ser investigada.
Não seria justo afirmar que todo atraso decorre de falha médica. A doença pode imitar diversas condições e exige interpretação clínica. Mas também não é justo atribuir todos os diagnósticos tardios à complexidade da doença.
Quando pesquisas repetidamente encontram baixa suspeição, desconhecimento das manifestações extraintestinais e investigação incompleta, existe um problema de formação que precisa ser enfrentado.
O diagnóstico também falha depois que a suspeita aparece
Mesmo quando a doença celíaca é considerada, a investigação pode fracassar se os exames forem solicitados ou interpretados de forma inadequada.
A avaliação costuma começar com testes sorológicos, principalmente o anticorpo antitransglutaminase tecidual IgA, acompanhado da dosagem de IgA total. Essa segunda análise é importante porque a deficiência de IgA pode produzir resultados falsamente negativos nos exames baseados nessa imunoglobulina.
Conforme os resultados, a idade e o protocolo utilizado, a investigação pode incluir endoscopia digestiva alta com múltiplas biópsias do duodeno.
Não basta realizar uma endoscopia: é necessário coletar amostras adequadas e encaminhá-las para avaliação histológica.
Outro erro frequente acontece quando o paciente é orientado a retirar o glúten antes da conclusão diagnóstica. A redução ou exclusão do glúten pode diminuir os anticorpos e permitir recuperação parcial da mucosa intestinal, prejudicando tanto a sorologia quanto a biópsia.
A orientação é clara: não se deve iniciar a dieta sem glúten antes de concluir a investigação, salvo quando houver indicação médica específica.
Sintomas tratados isoladamente, mas ninguém reúne as peças
Pessoas com doença celíaca podem circular por diferentes especialidades porque cada manifestação é tratada separadamente.
O gastroenterologista avalia o desconforto intestinal, o hematologista acompanha a anemia, o endocrinologista investiga a perda óssea e outros profissionais tratam fadiga, alterações neurológicas ou problemas reprodutivos.
Cada atendimento pode estar correto quando observado isoladamente. O problema surge quando ninguém reúne as peças e pergunta se existe uma única condição capaz de explicar parte daquele conjunto.
O paciente pode receber ferro, medicamentos para refluxo, suplementos, laxantes ou tratamentos sintomáticos e apresentar melhora parcial. Ainda assim, permanece exposto ao glúten e sem saber que existe uma doença autoimune por trás das manifestações.
Essa fragmentação ajuda a explicar o ciclo de consultas repetidas, respostas temporárias e anos de atraso até o diagnóstico.
O atraso não termina no intestino, apresenta consequências sérias de saúde
A dificuldade de diagnóstico tem consequências que vão além do aparelho digestivo. Pessoas com doença celíaca apresentam maior propensão a desenvolver outras doenças autoimunes, como diabetes tipo 1, tireoidite autoimune, hepatite autoimune, gastrite autoimune, doença de Addison, síndrome de Sjögren, psoríase e outras condições relacionadas.
A própria Celiac Disease Foundation destaca que pessoas com uma doença autoimune têm maior chance de desenvolver outras, e que um diagnóstico mais tardio na doença celíaca está associado a maior risco de comorbidades autoimunes.
Isso reforça que o atraso diagnóstico não é apenas um detalhe clínico: ele amplia o risco de adoecimento sistêmico.
| Idade do diagnóstico | Probabilidade de desenvolver outra doença autoimune |
| 2-4 | 10,5% |
| 4-12 | 16,7% |
| 12-20 | 27% |
| Mais de 20 | 34% |
As doenças mais comuns associadas à doença celíaca são as doenças da tireoide e o diabetes tipo 1. A doença celíaca é mais frequente em pessoas que apresentam as seguintes doenças autoimunes:
| Doença autoimune | Risco aumentado |
| Doença de Addison | 6% |
| Hepatite autoimune | 6-15% |
| Tireoidite de Hashimoto | 4-6% |
| Cardiomiopatia dilatada idiopática | 5,7% |
| Nefropatia por IgA (Doença de Berger) | 3,6% |
| Artrite | 1,5-7,5% |
| Esclerose Múltipla (EM) | 11% |
| Síndrome de Sjögren | 2-15% |
| Diabetes Mellitus Tipo 1 | 2,4-16,4% |
Centro de Doença Celíaca da Universidade de Chicago, fevereiro de 2013.
A idade também atrasa o diagnóstico e idosos também ficam sem diagnóstico
No idoso, a doença celíaca tende a ser ainda mais subestimada. A doença celíaca ainda é erroneamente associada à infância e aos adultos jovens.
Revisões acadêmicas apontam que essa faixa etária tem apresentação clínica heterogênea e frequentemente menos digestiva e maior presença de anemia, osteopenia, osteoporose, perda de peso, fragilidade e deficiências nutricionais, o que faz a hipótese ser deixada em segundo plano justamente quando o diagnóstico poderia evitar perda óssea, desnutrição e piora funcional.
Outro dado relevante é que cerca de um quarto dos novos diagnósticos pode ocorrer em pessoas com 60 anos ou mais. Isso desmonta a ideia de que não seria necessário investigar a doença em quem chegou à velhice sem sintomas digestivos clássicos.
Quando a idade é usada para afastar a hipótese, sinais potencialmente relacionados à má absorção podem ser atribuídos apenas ao envelhecimento. O resultado é mais uma oportunidade perdida de diagnóstico.
Falta de divulgação
As fragilidades no cuidado também estão ligadas à baixa visibilidade do tema na rede de atenção.
Estudos brasileiros sobre o cuidado em saúde às pessoas com desordens relacionadas ao glúten apontam carência de capacitação, ausência de fluxos assistenciais bem definidos e pouca integração entre atenção primária, gastroenterologia e nutrição.
Na reportagem do CFN, a própria fala de profissionais e entidades reforça que a doença ainda é pouco lembrada na prática clínica. Isso ajuda a explicar por que o paciente celíaco frequentemente passa anos sem resposta, mesmo em um cenário em que o diagnóstico deveria ser tecnicamente acessível.
O Brasil possui um protocolo clínico. O problema é que um documento publicado não muda o atendimento sozinho. Para funcionar, ele precisa chegar à rotina dos profissionais, orientar os encaminhamentos e ser aplicado de maneira consistente na rede de saúde.
Quando isso não acontece, o diagnóstico que deveria ser tecnicamente possível continua dependendo de o paciente encontrar, por acaso, um profissional que conheça a doença.
O papel dos incentivos
Uma doença sem remédio também pode se tornar invisível.
O tratamento da doença celíaca não depende de um medicamento específico. Ele exige diagnóstico correto, orientação alimentar detalhada, prevenção da contaminação cruzada e acompanhamento contínuo.
Esse modelo de cuidado demanda tempo, integração entre profissionais e acesso a médicos e nutricionistas capacitados. Quando a rede não oferece essa estrutura, o acompanhamento fica fragmentado e a responsabilidade é transferida quase integralmente ao paciente.
Também existe menor mobilização comercial em torno de uma doença cujo tratamento não está ligado à venda contínua de um fármaco.
Essa diferença pode ajudar a explicar por que outras condições recebem mais campanhas, eventos e ações de atualização profissional. Isso não prova uma conspiração nem significa que médicos deixem deliberadamente de diagnosticar a doença.
Mas permite fazer uma pergunta legítima: quanto espaço uma condição recebe no sistema de saúde quando o seu tratamento depende mais de reeducação alimentar e acompanhamento do que de prescrição?
O que precisa mudar
O Brasil não precisa esperar a criação de um novo exame para começar a reduzir o subdiagnóstico da doença celíaca. Precisa aplicar melhor o conhecimento que já existe.
Isso exige ampliar o ensino da doença na graduação, investir em educação médica continuada e incorporar efetivamente o protocolo do Ministério da Saúde à rotina dos serviços.
A suspeita clínica também precisa ultrapassar a imagem clássica de diarreia e emagrecimento. Anemia por deficiência de ferro sem explicação, baixa densidade óssea, sintomas digestivos persistentes, alterações hepáticas e doenças autoimunes associadas devem levar o profissional a considerar a investigação.
Também é necessário melhorar o uso dos exames: manter o consumo de glúten durante a avaliação, solicitar sorologia adequada, medir IgA total, interpretar corretamente os resultados e encaminhar para endoscopia com biópsias quando indicado.
Quanto mais cedo a doença entra no raciocínio clínico, menor a chance de o paciente passar anos tratando sintomas sem descobrir a causa.
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Referências Científicas e Fontes
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- Ministério da Saúde — PCDT Doença Celíaca – GOV
- CFN — Falta diagnóstico correto da doença celíaca no Brasil – cfn.org
- UERJ/Demetra — Fragilidades da atenção à saúde de pessoas celíacas no Sistema
- PMC — The Role of Physicians’ Factors in Underdiagnosis of Celiac Disease – pubmed.ncbi.nlm.nih
- SciELO — Fragilidades no cuidado em saúde às pessoas com desordens relacionadas ao glúten
- DOENÇA CELÍACA: uma epidemia submersa – FENACELBRA
- IMPASSES DO DIAGNÓSTICO PRECOCE DA DOENÇA CELÍACA E SUAS REPERCUSSÕES CLÍNICAS E SOCIAIS | Arquivos de Ciências da Saúde da UNIPAR
- pmc.ncbi.nlm.nih – BRIEF REPORT: Physician Awareness of Celiac Disease: A Need for Further Education – PMC
- Celiac Disease Foundation — condições autoimunes associadas
- Revisão Doença celíaca no idoso – estudogeral.uc
- s-e-12-c-1-a-179-1710257735174-Paper Celiac disease and associated autoimmune conditions .pdf
- Sociedade Portuguesa de Medicina Interna – Volume 28 #2 Abril/Junho 2021
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