Estimativas para pais, irmãos e filhos, sintomas que podem passar despercebidos, exames indicados e o que genética, gêmeos, microbiota e novos estudos revelam sobre o risco familiar.
A doença celíaca resulta da interação entre exposição ao glúten, predisposição genética — sobretudo HLA-DQ2/DQ8 — e fatores ambientais e imunológicos.
Quando uma pessoa recebe o diagnóstico de doença celíaca, uma pergunta costuma se espalhar pela família: quem mais pode ter a doença? A dúvida é legítima. Pais, irmãos e filhos compartilham parte dos genes e, muitas vezes, também hábitos e exposições. Mesmo assim, alguns desenvolvem autoimunidade e lesão intestinal, enquanto outros seguem sem anticorpos detectáveis — às vezes por toda a vida, às vezes apenas até uma fase posterior.
A resposta não cabe em um único gene nem em uma lista de sintomas digestivos. Estudos familiares, pesquisas com gêmeos e coortes que acompanham crianças antes do aparecimento da doença mostram que suscetibilidade não significa destino. Para a família, porém, há uma consequência prática: o risco é maior do que na população geral, a apresentação pode ser silenciosa e a investigação precisa ser feita do modo correto.
Ter um familiar celíaco significa que eu também terei a doença?
Não. Significa que o risco é maior e merece atenção. Em uma meta-análise com 34 estudos e 10.016 parentes de primeiro grau, 11% apresentaram sorologia positiva e 7% tiveram doença confirmada por biópsia. Diretrizes europeias também costumam resumir o risco ao longo da vida em aproximadamente 5% a 10% para pais, irmãos e filhos. Esses números descrevem grupos; não permitem calcular com exatidão o futuro de uma pessoa específica.
A diferença entre os números não é contradição. Sorologia positiva não equivale automaticamente a diagnóstico confirmado; prevalência encontrada em rastreamentos também não é a mesma coisa que risco acumulado ao longo da vida. Idade, sexo, HLA, número de familiares afetados, população estudada e método diagnóstico mudam as estimativas.
Qual é a prevalência entre pais, irmãos e filhos?
As estimativas mais úteis para a família estão reunidas abaixo. Elas vêm de duas meta-análises e de recortes diferentes; por isso, não devem ser comparadas como se todos os participantes pertencessem à mesma pesquisa. Servem para mostrar a ordem de grandeza do risco e as diferenças observadas por parentesco e sexo.
| Grupo familiar | Estimativa | Como interpretar |
| Parentes de 1º grau — sorologia | 11% | Anticorpos positivos; não confirma sozinho o diagnóstico. |
| Parentes de 1º grau — biópsia | 7% | Estimativa com confirmação histológica. |
| Irmãos — ambos os sexos| | cerca de 9% | Estimativa agrupada de meta-análise anterior. |
| Filhos — ambos os sexos | cerca de 8% | Estimativa agrupada de meta-análise anterior. |
| Pais — mães e pais juntos | cerca de 3% | Estimativa agrupada de meta-análise anterior. |
| Irmãs | cerca de 14% | Uma das maiores estimativas no recorte por sexo. |
| Irmãos homens | cerca de 9% | Estimativa inferior à observada entre irmãs. |
| Filhas | cerca de 23% | Maior estimativa do recorte; subgrupo pequeno. |
| Filhos homens | cerca de 6% | Estimativa baseada em subgrupo pequeno. |
Mães |
cerca de 5% | Meta-análise mais recente. |
| Pais homens | cerca de 5% | Meta-análise mais recente. |
Tabela 1. Estimativas agrupadas, não previsões pessoais. Filhas e filhos foram subgrupos pequenos — 32 filhas e 41 filhos — e exigem cautela. Fontes: Karimzadhagh et al. e Singh et al.
A diferença por sexo é um dado relevante, mas não autoriza concluir que o sexo, isoladamente, explique o risco. HLA, outros genes, idade, comportamento de procura por diagnóstico e tamanho das amostras também podem influenciar. Uma filha específica não recebe automaticamente uma probabilidade pessoal de 23%; esse percentual descreve o subgrupo reunido pela meta-análise.
Sintomas que podem passar despercebidos
Doença celíaca em familiares nem sempre se apresenta com diarreia intensa e perda de peso. Na meta-análise mais recente, 34% dos parentes com diagnóstico confirmado por biópsia eram assintomáticos. Entre os que tinham sintomas, dor abdominal, distensão e gases apareceram com frequência — mas manifestações fora do intestino também podem ser a única pista.
Queixas discretas ou recorrentes
- distensão, gases, dor abdominal leve, constipação ou alternância do hábito intestinal;
- náusea, desconforto depois das refeições ou sensação de digestão difícil;
- fadiga persistente, queda de energia, cefaleia, enxaqueca ou “névoa mental”;
- aftas frequentes, irritabilidade ou alterações de humor acompanhadas de outros sinais;
- formigamento, dormência ou sintomas neurológicos sem explicação definida.
Sinais que merecem rastreio
| Área | Sinais ou achados que justificam avaliação |
| Sangue e nutrição | Anemia por deficiência de ferro sem causa clara; ferritina baixa; deficiência de B12 ou folato; fadiga persistente. |
| Ossos | Osteopenia, osteoporose precoce, osteomalácia ou fratura por baixo impacto. |
| Fígado | Transaminases elevadas sem explicação definida. |
| Sistema neurológico | Neuropatia periférica, ataxia, enxaqueca recorrente ou queixas cognitivas sem causa esclarecida. |
| Pele, boca e dentes | Dermatite herpetiforme, aftas recorrentes e defeitos de esmalte dentário. |
| Saúde reprodutiva | Infertilidade sem causa aparente, abortamentos recorrentes, amenorreia, menarca tardia ou menopausa precoce. |
| Crianças e adolescentes | Baixa estatura, desaceleração do crescimento, dificuldade para ganhar peso, atraso puberal, irritabilidade ou fadiga. |
| Digestivo não clássico | Constipação persistente, distensão, dispepsia, náusea ou quadro semelhante à síndrome do intestino irritável. |
Tabela 2. Um item isolado não confirma doença celíaca. O histórico familiar reduz o limiar para conversar sobre investigação. Fontes: diretrizes ACG, ESsCD, ESPGHAN e NICE.
Condições associadas também aumentam a atenção
O médico tende a considerar a investigação com maior prioridade quando o familiar também tem diabetes tipo 1, doença tireoidiana autoimune, deficiência seletiva de IgA, síndrome de Down ou Turner, doença hepática autoimune ou outra condição reconhecidamente associada. A presença dessas condições não estabelece o diagnóstico, mas aumenta a utilidade clínica do rastreio.
Quem deve conversar com o médico sobre exames?
Pais, irmãos e filhos de uma pessoa com doença celíaca formam um grupo de risco. Quem apresenta sintomas, sinais laboratoriais ou condições associadas deve procurar avaliação; mesmo familiares sem sintomas evidentes podem discutir rastreio com clínico, gastroenterologista ou pediatra. O momento e a frequência dependem da idade, do histórico familiar e dos resultados anteriores.
Quais exames costumam iniciar a investigação?
| Exame | Para que serve | Ponto importante |
| Anti-TG2 IgA | Principal exame sorológico inicial | Também chamado anti-transglutaminase tecidual IgA; precisa ser interpretado com o consumo de glúten e a IgA total. |
| IgA total | Verifica deficiência de IgA | Evita interpretar como confiável um anti-TG2 IgA negativo em quem produz pouca IgA. |
| Testes em IgG | Usados quando há deficiência de IgA | Anti-TG2 IgG e/ou peptídeos de gliadina deamidada IgG podem ser escolhidos conforme avaliação profissional. |
| EMA-IgA | Teste confirmatório em situações selecionadas | Pode ser útil em resultados específicos; não é necessário como teste inicial para todos os adultos. |
| Endoscopia com biópsias | Confirmação e avaliação da mucosa | A necessidade depende da idade, dos títulos de anticorpos, da diretriz aplicada e da avaliação especializada. |
| HLA-DQ2/DQ8 | Esclarecimento em casos selecionados | Resultado positivo não confirma doença; ausência de variantes compatíveis torna a doença muito improvável. |
Tabela 3. A investigação deve ser definida por profissional de saúde. Em crianças, os critérios diagnósticos e a possibilidade de diagnóstico sem biópsia seguem regras próprias.
Os exames devem ser realizados enquanto a pessoa ainda consome glúten, pois a retirada prévia pode reduzir os anticorpos e permitir recuperação parcial da mucosa, produzindo resultados falsamente negativos ou inconclusivos. Quem já excluiu o glúten deve procurar orientação médica antes de qualquer reintrodução.
Se o primeiro exame der negativo, o risco acabou?
Não necessariamente. A doença pode surgir da infância à vida adulta. Para adultos de primeiro grau inicialmente soronegativos, a diretriz europeia de 2025 admite acompanhamento periódico de anticorpos — por exemplo, a cada quatro ou cinco anos — como recomendação condicional. Sintomas novos, anemia, alterações de crescimento ou outra pista justificam reavaliação antes desse prazo. Em crianças, o intervalo deve ser individualizado pelo pediatra ou gastroenterologista pediátrico.
O teste genético pode ajudar quando existe dúvida diagnóstica, quando a pessoa já retirou o glúten ou quando se deseja avaliar se a predisposição compatível está ausente. Ele não substitui a sorologia e não precisa fazer parte do painel inicial de todo familiar.
O que levar para a consulta: nome e grau de parentesco da pessoa diagnosticada; idade do diagnóstico; sintomas atuais; resultados anteriores; presença de anemia, doenças autoimunes, alterações ósseas ou de crescimento; e informação sobre retirada total ou parcial do glúten.
Por que um familiar desenvolve a doença e outro não?
Porque herdar suscetibilidade não é o mesmo que herdar um destino. O glúten é o gatilho necessário; os genes tornam a resposta possível; e fatores ambientais, imunológicos e biológicos influenciam se, quando e com que intensidade aparecerão autoanticorpos e lesão intestinal. Dois parentes podem compartilhar a casa e parte dos genes, mas diferir em HLA, outros genes, microbiota, infecções, funcionamento da barreira intestinal, maturação imune e exposições acumuladas ao longo do tempo.
Genética: HLA-DQ2/DQ8 abre a possibilidade, mas não confirma doença
HLA é a sigla de antígeno leucocitário humano. As variantes HLA-DQ2 e HLA-DQ8 apresentam fragmentos modificados do glúten às células do sistema imunológico e são o principal componente genético conhecido da suscetibilidade celíaca. A maioria das pessoas com doença celíaca carrega HLA-DQ2; grande parte das demais tem HLA-DQ8 ou combinações relacionadas.
Essas variantes, porém, são comuns: aproximadamente 30% a 40% da população tem uma combinação genética compatível, enquanto apenas uma pequena parcela desenvolve a doença. HLA positivo significa “há possibilidade genética”, não “há diagnóstico”. HLA negativo, quando o teste é completo e interpretado corretamente, torna a doença celíaca muito improvável.
Cerca de 1% da população e 3% dos portadores: qual é a diferença?
O número próximo de 1% descreve a prevalência da doença celíaca na população geral — inclui pessoas com e sem predisposição. A estimativa de aproximadamente 3% considera apenas quem carrega HLA compatível. Como os portadores representam perto de um terço da população, 3% desse grupo produz uma ordem de grandeza próxima a 1% do total.
Exemplo para memorizar: em 1.000 pessoas, 300 a 400 podem ter HLA compatível. Se aproximadamente 3% desse grupo desenvolver doença celíaca, seriam cerca de 9 a 12 casos — perto de 1% das 1.000 pessoas. É apenas uma ilustração do denominador, não uma previsão individual.
A relação entre gêmeos idênticos e fraternos
Gêmeos idênticos (monozigóticos) compartilham quase todo o material genético; gêmeos fraternos (dizigóticos) compartilham, em média, cerca de metade, como outros irmãos. Por isso, comparar os dois grupos ajuda a separar o peso da genética do que é explicado por ambiente, imunidade, microbiota e tempo.
O indicador usado é a concordância: quando um gêmeo tem doença celíaca, com que frequência o outro também é afetado? Os percentuais variam conforme o método, mas a concordância é sempre muito maior nos idênticos — e nunca chega a 100%.
| Estudo e medida | Idênticos | Fraternos | Como ler |
| Greco et al., 2002 — por par | 75% | 11,1% | Ambos afetados entre os pares estudados. |
| Greco et al., 2002 — por probando | 85,7% | 20% | Parte de um gêmeo já diagnosticado. |
| Nisticò et al., 2006 — por par | 71,4% | 9,1% | Outra coorte familiar; medida por par. |
| Nisticò et al., 2006 — por probando | 83,3% | 16,7% | Medida por probando, geralmente mais alta. |
| Coorte sueca, 2016 | 49% | 10% | 107.912 gêmeos; atrofia vilositária em registro. |
Tabela 4. Concordância em gêmeos. “Por par” mede pares em que ambos são afetados; “por probando” parte de uma pessoa diagnosticada. Fontes: Greco et al., Nisticò et al. e Kuja-Halkola et al..
A leitura prática é direta: a genética pesa muito, mas não explica tudo. Se fosse suficiente, a concordância entre gêmeos idênticos seria de 100%. Também é incorreto dizer que “75% de todos os gêmeos idênticos têm doença celíaca”; os números se referem a pares selecionados quando um dos gêmeos já é afetado.
Fatores ambientais e imunológicos: o que está sendo investigado
Além do glúten, vários fatores foram associados ao risco em estudos observacionais. A evidência, porém, é desigual. Uma revisão “guarda-chuva” de meta-análises publicada em 2024 concluiu que nenhum fator não genético tinha evidência forte ou altamente sugestiva. Infecções apresentaram evidência sugestiva; antibióticos, evidência fraca; e outras associações não foram estatisticamente confirmadas.
- Infecções: podem alterar barreira intestinal, microbiota e tolerância imune. A revisão de 2024 encontrou associação sugestiva com maior risco; uma coorte dinamarquesa observou associações com crupe viral e otite, mas registrou apenas 28 casos confirmados. Isso não permite afirmar que uma infecção específica causou doença em uma pessoa.
- Antibióticos: a associação agrupada com maior risco foi fraca e pode sofrer influência da própria infecção, da indicação do medicamento e de outros fatores. Não se deve evitar tratamento necessário por medo de doença celíaca.
- Parto cesáreo: a revisão de meta-análises não encontrou associação estatisticamente significativa.
- Aleitamento materno: não há evidência de que previna doença celíaca, embora tenha outros benefícios reconhecidos para mãe e bebê.
- Momento de introdução do glúten: ensaios randomizados não mostraram prevenção pela introdução muito precoce nem pelo adiamento programado.
- Quantidade e padrão de consumo: algumas coortes encontram associações com maior ingestão em determinados períodos, mas ainda não existe um limite preventivo validado nem orientação para restringir glúten em criança saudável de risco.
- Estado nutricional, dieta global e outras exposições: vitamina D, composição da alimentação, medicamentos, estação do ano e fatores perinatais seguem em estudo, sem estratégia preventiva comprovada para familiares.
Microbiota: não é apenas “quem mora” no intestino
Microbiota é o conjunto de microrganismos do intestino; microbioma inclui também seus genes e funções. O interesse científico está em como essas comunidades processam componentes da dieta, produzem metabólitos, interagem com a barreira intestinal e ajudam a educar o sistema imunológico. Estudos descrevem diferenças antes e depois do início da autoimunidade, mas ainda não existe um “perfil de microbiota celíaca” validado para prever individualmente quem adoecerá.
A relação também pode funcionar nos dois sentidos: alterações microbianas podem contribuir para a perda de tolerância, mas a inflamação, o diagnóstico e a dieta sem glúten também modificam a microbiota. Por isso, testes comerciais de microbioma e recomendações de probióticos não substituem sorologia, avaliação clínica ou acompanhamento médico.
Imunidade: como a predisposição pode virar lesão intestinal
Na doença celíaca, a transglutaminase tecidual 2 modifica fragmentos do glúten. HLA-DQ2/DQ8 apresenta esses fragmentos a células T, iniciando uma resposta específica. A progressão envolve perda de tolerância, produção de autoanticorpos, ativação de linfócitos intraepiteliais, mediadores inflamatórios como interleucina-15 e falhas nos mecanismos que normalmente limitam a inflamação. A combinação e o momento dessas etapas podem diferir entre parentes.
O que o estudo de 2026 encontrou em familiares sem doença detectável
O estudo que motivou esta pauta avaliou 50 parentes de primeiro grau assintomáticos e soronegativos. Os pesquisadores analisaram metabólitos na mucosa do intestino delgado, no plasma e na urina e compararam os resultados com pessoas com doença celíaca e controles. O objetivo era procurar diferenças químicas associadas ao fato de esses familiares, naquele momento, não apresentarem evidência sorológica da doença.
O que significa “perfil metabólico”?
Metabólitos são pequenas moléculas produzidas, transformadas ou usadas pelas células humanas e pelos microrganismos. Quando várias aparecem em um padrão recorrente, os pesquisadores falam em perfil ou assinatura metabólica. É como uma fotografia química que reúne influências da alimentação, da produção de energia, da microbiota, da renovação celular, da barreira intestinal e da inflamação.
Os principais achados
Os familiares assintomáticos apresentaram um perfil diferente. Na mucosa, os autores destacaram níveis mais altos de mio-inositol e fumarato, interpretados como possíveis sinais de modulação da inflamação e do metabolismo celular. Também observaram diferenças em formiato, tirosina e aminoácidos de cadeia ramificada — leucina, isoleucina e valina — que podem se relacionar à atividade microbiana, renovação dos enterócitos e manutenção das junções entre células.
| O estudo sugere | O estudo não prova |
| Há um perfil metabólico diferente em familiares assintomáticos e soronegativos. | Que todos estejam protegidos para sempre. |
| Algumas rotas podem se relacionar à barreira, ao metabolismo celular e à imunorregulação. | Que um único metabólito seja a causa da proteção. |
| A metabolômica pode gerar hipóteses e futuros biomarcadores. | Que já exista um exame capaz de prever quem adoecerá. |
| Microbiota e metabolismo podem explicar parte das diferenças familiares. | Que probióticos, prebióticos ou suplementos previnam a doença. |
| Acompanhamento longitudinal pode separar progressão de não progressão. | Que a retirada preventiva do glúten seja indicada. |
Tabela 5. Leitura editorial do alcance do estudo de Upadhyay et al.
A palavra correta é hipótese: o estudo encontrou associações em um grupo pequeno e em um único momento. Mio-inositol, fumarato ou aminoácidos não devem ser transformados em suplementos preventivos: dose, eficácia e segurança não foram testadas para esse objetivo.
CDGEMM: acompanhando crianças antes do aparecimento da doença
CDGEMM é a sigla de Celiac Disease Genomic, Environmental, Microbiome and Metabolomic Study. A coorte internacional inclui crianças com pai, mãe ou irmão com doença celíaca e começa o acompanhamento antes da introdução de alimentos sólidos. São coletadas amostras de sangue e fezes, além de informações sobre dieta, medicamentos, infecções e outras exposições.
No perfil da coorte publicado em 2023, os pesquisadores informaram 554 participantes: 54 haviam desenvolvido anticorpos e 31 tinham doença confirmada. Entre os participantes que desenvolveram autoimunidade ou doença, cerca de 80% apresentaram esse desfecho até os três anos. Esses números descrevem a coorte de alto risco até 2022 e não devem ser extrapolados para todas as crianças.
Em uma análise anterior, dez crianças que progrediram para doença celíaca foram comparadas a dez controles. Alterações microbianas, funcionais e metabólicas apareceram até 18 meses antes do início da doença. A amostra era pequena, mas o desenho longitudinal é valioso porque procura sinais que antecedem a autoimunidade, não apenas alterações presentes depois do diagnóstico.
- O que o CDGEMM tenta descobrir: quais combinações de genes, microbiota, metabólitos e exposições aparecem antes da perda de tolerância ao glúten.
- Por que ele é importante: acompanhar a mesma criança ao longo do tempo ajuda a separar causa, marcador precoce e consequência.
- O que ainda não oferece: um teste clínico de microbiota ou metabolômica, um probiótico preventivo ou uma dieta capaz de impedir doença celíaca.
O que a família pode fazer hoje
Ainda não existe prevenção comprovada com dieta, suplemento ou probiótico. Isso não significa que a família esteja sem ação. A medida útil é reconhecer o risco, investigar corretamente e manter um plano de reavaliação.
- Conte o histórico familiar: informe ao médico quem recebeu o diagnóstico e qual é o grau de parentesco.
- Não espere apenas sintomas digestivos: anemia, alterações ósseas, neurológicas, reprodutivas ou de crescimento também podem ser pistas.
- Faça os exames com consumo de glúten: não inicie dieta sem glúten antes de concluir a investigação.
- Comece pela estratégia adequada: anti-TG2 IgA e IgA total são a combinação inicial mais usada; deficiência de IgA muda os testes escolhidos.
- Guarde os resultados: um exame negativo documentado ajuda a planejar comparações e novo rastreio.
- Combine quando repetir: resultado negativo hoje não encerra o risco para sempre; sintomas novos antecipam a reavaliação.
- Use HLA com objetivo claro: é ferramenta de exclusão ou esclarecimento em situações selecionadas, não diagnóstico isolado.
- Evite promessas de prevenção: testes comerciais de microbiota, metabolômica, suplementos e restrições preventivas não substituem conduta validada.
Conclusão: risco familiar pede atenção, não medo
A doença celíaca se concentra em famílias, mas não segue uma herança simples. Genes HLA-DQ2/DQ8 criam a possibilidade; o glúten é necessário; fatores ambientais e imunológicos influenciam a trajetória. Estudos com gêmeos mostram que a genética é poderosa, mas incompleta.
Pesquisas sobre microbiota e metabólitos começam a mostrar sinais biológicos que podem separar progressão e não progressão — ainda sem um exame preditivo ou uma forma comprovada de prevenir a doença.
Para pais, irmãos e filhos, a informação mais útil não é tentar adivinhar quem adoecerá. É saber que o risco é maior, reconhecer sintomas discretos, conversar sobre rastreio mesmo na ausência de queixas e fazer os exames antes de retirar o glúten.
A ciência ainda procura explicar por que os caminhos se separam; o cuidado atual já permite reduzir atrasos no diagnóstico.
Perguntas frequentes
Doença celíaca é hereditária?
Existe forte componente genético e agregação familiar, mas a herança é multifatorial. HLA-DQ2/DQ8 e outros genes aumentam a suscetibilidade; glúten, ambiente e imunidade participam da manifestação. Não é uma transmissão direta e inevitável.
Familiar sem sintomas precisa conversar sobre exames?
Sim. Parentes de primeiro grau são grupo de risco e doença silenciosa existe. Na meta-análise recente, 34% dos familiares com diagnóstico confirmado por biópsia eram assintomáticos.
Ter HLA-DQ2 ou DQ8 significa ter doença celíaca?
Não. Resultado positivo indica predisposição. Aproximadamente 30% a 40% da população tem HLA compatível, enquanto perto de 1% da população geral tem doença.
Um exame negativo vale para sempre?
Não. A doença pode aparecer em outra fase da vida. O profissional deve definir se e quando repetir a sorologia, antecipando a avaliação quando surgirem sintomas ou alterações laboratoriais.
Todo familiar precisa fazer endoscopia?
Não. A investigação geralmente começa pela sorologia. A necessidade de endoscopia depende dos resultados, da idade e do protocolo diagnóstico aplicado.
Um gêmeo idêntico pode ter a doença e o outro não?
Sim. A concordância é alta, mas não chega a 100%, o que mostra a participação de fatores além da sequência genética.
Probióticos ou suplementos podem prevenir?
Não há evidência para recomendar probióticos, prebióticos, mio-inositol, fumarato ou outros suplementos como prevenção de doença celíaca em familiares.
Em uma frase: a doença celíaca resulta da interação entre exposição ao glúten, predisposição genética — sobretudo HLA-DQ2/DQ8 — e fatores ambientais e imunológicos.
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