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Mais da metade da alimentação de crianças celíacas vem de ultraprocessados, mesmo após a retirada do glúten. Mostra estudo.

crianças celíacas

O glúten saiu. Os ultraprocessados ficaram. Uma pesquisa publicada em julho de 2026 encontrou um dado que merece a atenção de todas as famílias de crianças celíacas: mais de 57% das calorias consumidas pelas crianças avaliadas vinham de alimentos ultraprocessados.

No café da manhã, esses produtos representavam aproximadamente 74% da energia consumida. No lanche da tarde, a participação chegava a quase 82%. O mais preocupante é que o padrão não mudou de maneira significativa depois do início do tratamento.

Após 12 meses de dieta sem glúten, o consumo diário de ultraprocessados continuava próximo de 59% das calorias. Isso não significa que as famílias tenham feito algo errado ao retirar o glúten.

A exclusão rigorosa de trigo, cevada e centeio continua sendo indispensável para o tratamento da doença celíaca.

A pesquisa evidencia outro problema: substituir alimentos com glúten por versões industrializadas sem glúten não melhora automaticamente a qualidade nutricional da alimentação infantil.

 

 

O que diz a pesquisa com crianças celíacas?

Um estudo realizado na Espanha acompanhou crianças de 5 a 14 anos antes e depois do início da dieta sem glúten.

Os ultraprocessados forneceram mais de 57% das calorias diárias e concentraram-se principalmente no café da manhã e no lanche da tarde.

Após 12 meses sem glúten, não houve redução estatisticamente significativa desse consumo: a participação dos ultraprocessados passou de 54,6% para 58,9% das calorias.

As crianças celíacas que já seguiam a dieta também apresentaram menor ingestão alimentar de vitamina D do que o grupo de comparação. Ferro, cálcio, folato, magnésio e zinco estavam abaixo dos valores de referência nos dois grupos.

A conclusão não é que a dieta sem glúten seja inadequada. Ela é o único tratamento disponível para a doença celíaca.

O que o estudo mostra é que a retirada do glúten precisa ser acompanhada de orientação nutricional, variedade e maior presença de alimentos naturalmente sem glúten.     

 

 

Como a pesquisa foi realizada

O estudo, chamado Patterns of Ultra-Processed Food Consumption in a Gluten-Free Diet: A Target for Nutritional Intervention, foi publicado em 4 de julho de 2026 na revista científica Nutrients e está indexado no PubMed.

A pesquisa foi conduzida por cientistas ligados à Universidade de Granada, à Universidade de Málaga, ao Hospital Regional Universitário de Málaga e a outras instituições espanholas.

Ao todo, foram recrutadas 128 crianças com idades entre 5 e 14 anos, entre março de 2023 e setembro de 2025.

A investigação reuniu diferentes grupos:

Grupo Participantes
Crianças recém-diagnosticadas, ainda antes da dieta sem glúten 48
Crianças que seguiam dieta sem glúten havia pelo menos seis meses 88
Crianças sem doença celíaca no grupo de comparação 36

Os grupos não eram totalmente independentes: 44 crianças recém-diagnosticadas foram novamente avaliadas depois de 12 meses de tratamento e passaram a integrar o grupo pós-dieta.

A análise longitudinal final utilizou os dados completos de 41 participantes.

Os pais ou responsáveis registraram tudo o que as crianças comeram e beberam durante três dias não consecutivos, incluindo um dia sem atividade escolar ou profissional habitual. Foram informados:

  • alimentos e bebidas;
  • quantidades;
  • marcas comerciais;
  • café da manhã;
  • lanche da manhã;
  • almoço;
  • lanche da tarde;
  • jantar.

Os registros foram revisados por profissionais de nutrição e analisados com bancos de composição alimentar da Espanha e dos Estados Unidos, complementados pelas informações nutricionais específicas dos produtos sem glúten.

Os pesquisadores também aplicaram o índice KIDMED, utilizado para avaliar a proximidade da alimentação infantil com o padrão mediterrâneo.    

 

 

O que é considerado ultraprocessado no estudo?

Os pesquisadores utilizaram a classificação NOVA, que organiza os alimentos de acordo com a extensão e a finalidade do processamento industrial.

A classificação é dividida em quatro grupos:

Grupo NOVA Características gerais
NOVA 1 Alimentos in natura ou minimamente processados
NOVA 2 Ingredientes culinários processados, como óleos, açúcar e sal
NOVA 3 Alimentos processados
NOVA 4 Formulações industriais ultraprocessadas

Os ultraprocessados geralmente são formulações produzidas com diversos ingredientes e etapas industriais. Podem incluir amidos modificados, proteínas isoladas, gorduras processadas, açúcares, aromatizantes, emulsificantes, corantes, espessantes e outros aditivos.

Na alimentação sem glúten, podem entrar nessa classificação diferentes tipos de:

  • biscoitos;
  • bolos prontos;
  • cereais açucarados;
  • barrinhas;
  • salgadinhos;
  • bebidas adoçadas;
  • sobremesas industrializadas;
  • pães especiais;
  • massas e produtos substitutos formulados principalmente com amidos refinados.

Isso não significa que todos os alimentos embalados sejam iguais nem que qualquer processamento torne um produto necessariamente inadequado.

A própria pesquisa reconhece que alimentos classificados no mesmo grupo NOVA podem apresentar diferenças importantes de fibras, proteínas, açúcares, gorduras, vitaminas, minerais e composição geral.  

 

 

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Mais de 57% das calorias vinham de ultraprocessados

Antes do início da dieta sem glúten, os ultraprocessados forneciam, em média: 57,3% da energia diária das crianças celíacas ; 57,1% da energia das crianças do grupo de comparação.

Ou seja, o problema não apareceu exclusivamente entre as crianças com doença celíaca. O consumo elevado já estava profundamente inserido na alimentação infantil dos dois grupos.

O resultado também evita uma interpretação equivocada: o estudo não mostrou que as crianças celíacas necessariamente consumiam muito mais ultraprocessados do que as demais antes do diagnóstico.

Mostrou que ambas as populações apresentavam um padrão alimentar dominado por esses produtos. Essa diferença é importante.

A doença celíaca não foi identificada como a causa desse consumo elevado. Entretanto, após o diagnóstico, a criança passa a depender de uma dieta restritiva e pode substituir pães, biscoitos, cereais, bolos e massas convencionais por versões especiais sem glúten.

Quando a orientação se concentra apenas na retirada do glúten, sem discutir qualidade nutricional, o mesmo padrão alimentar pode continuar — agora com outros produtos.    

 

 

Café da manhã e lanche da tarde concentraram os piores resultados

O consumo de ultraprocessados não estava distribuído igualmente ao longo do dia. Entre as crianças celíacas avaliadas antes do início do tratamento, esses produtos forneceram:

Refeição Participação dos ultraprocessados nas calorias
Café da manhã 74,1%
Lanche da manhã 65,1%
Almoço 25,6%
Lanche da tarde 81,9%
Jantar Dados inferiores aos dos lanches, mas ainda relevantes

O almoço foi a refeição com maior participação de alimentos in natura ou minimamente processados.  Isso provavelmente reflete a presença de refeições tradicionais preparadas com alimentos frescos.

Já o café da manhã e o lanche da tarde dependiam fortemente de produtos prontos ou formulados industrialmente.

Esse resultado traz uma orientação muito prática: não é necessário mudar toda a alimentação da criança de uma só vez para começar a melhorar a qualidade da dieta.

Café da manhã e lanche da tarde podem ser os primeiros alvos da intervenção nutricional, porque são os momentos em que os ultraprocessados ocupam mais espaço.    

 

 

O glúten saiu, mas o padrão alimentar praticamente não mudou

A análise longitudinal foi uma das partes mais relevantes da pesquisa. Os pesquisadores acompanharam crianças recém-diagnosticadas e compararam sua alimentação antes da retirada do glúten com a dieta registrada 12 meses depois.

O consumo de ultraprocessados passou de: 54,6% das calorias antes da dieta; para 58,9% depois de 12 meses. Embora tenha ocorrido uma tendência de aumento, a diferença não atingiu significância estatística.

Portanto, o estudo não permite afirmar que a dieta sem glúten tenha provocado um aumento dos ultraprocessados.

O que pode ser afirmado é que não houve melhora significativa: o consumo permaneceu extremamente alto depois de um ano de tratamento.

Também não ocorreram mudanças substanciais em:

  • ingestão energética total;
  • distribuição de proteínas, gorduras e carboidratos;
  • adequação da maioria dos micronutrientes;
  • pontuação de adesão ao padrão mediterrâneo.

A ingestão de vitamina B6 apresentou aumento significativo, mas foi uma das poucas modificações nutricionais detectadas.

A mensagem principal é clara: retirar o glúten modificou os produtos escolhidos, mas não transformou de maneira relevante a estrutura global da alimentação. 

 

 

Menos alimentos in natura no café da manhã após 12 meses

Um dos resultados mais delicados apareceu justamente no café da manhã. Depois de 12 meses de dieta sem glúten, a participação de alimentos in natura ou minimamente processados nessa refeição caiu de: 21,1% para 9% das calorias.

A redução foi estatisticamente significativa. Ao mesmo tempo, o consumo diário de ingredientes culinários e de alimentos processados também diminuiu.

A participação dos ultraprocessados apresentou tendência de aumento, embora sem significância estatística.

Esse resultado sugere que a adaptação à dieta pode ter envolvido a troca de alimentos convencionais por alternativas prontas sem glúten, especialmente em refeições nas quais praticidade e velocidade costumam pesar muito nas decisões familiares.

Não significa que pais e responsáveis estejam escolhendo conscientemente uma alimentação pior. Depois do diagnóstico, a família enfrenta simultaneamente:

  • medo da contaminação;
  • dificuldade para interpretar rótulos;
  • pouca oferta de produtos seguros;
  • rotina escolar;
  • recusa alimentar;
  • falta de tempo;
  • preços elevados;
  • necessidade de oferecer algo semelhante ao que outras crianças comem;
  • preocupação para que a criança não se sinta excluída.

Nesse contexto, um produto embalado, rotulado e reconhecido como seguro pode parecer a alternativa mais simples.

O estudo mostra que a orientação profissional não deve apenas dizer o que a criança não pode comer. Precisa ajudar a família a construir opções possíveis para a rotina real.    

 

 

Vitamina D foi ainda mais baixa entre as crianças celíacas

As crianças que já seguiam a dieta sem glúten apresentaram ingestão alimentar média de vitamina D significativamente menor do que as crianças do grupo de comparação: 4,6 microgramas por dia entre as crianças celíacas; 6,2 microgramas por dia entre os controles.

Isso correspondia a: 30,8% da ingestão de referência no grupo celíaco; 41,7% no grupo de comparação. 

É fundamental compreender o que o estudo mediu. Os pesquisadores avaliaram a vitamina D presente na alimentação.

Não mediram:

  • concentração sanguínea de vitamina D;
  • exposição solar;
  • atividade física;
  • uso de suplementação;
  • estado clínico individual.

Portanto, não é possível concluir que 69,2% das necessidades de cada criança estejam necessariamente ausentes no organismo nem que todas precisem receber suplemento.

O resultado indica apenas que a ingestão alimentar estava muito abaixo do valor de referência e merece avaliação profissional.

A suplementação de vitamina D não deve ser iniciada automaticamente com base em uma matéria ou em um resultado populacional. Deve considerar idade, alimentação, exames, exposição solar, crescimento, saúde óssea e orientação médica.    

 

 

Ferro, cálcio, folato, magnésio e zinco também ficaram abaixo do recomendado

O problema não se limitou à vitamina D. Tanto as crianças celíacas quanto as crianças sem doença celíaca apresentaram inadequações na ingestão de:

  • ferro;
  • cálcio;
  • folato;
  • magnésio;
  • zinco.

A ingestão de folato ficou abaixo de 50% dos valores de referência nos dois grupos.

Entre as possíveis explicações discutidas pelos pesquisadores está a menor fortificação de diversos cereais e produtos especiais sem glúten.

Isso mostra que a baixa qualidade alimentar é um problema mais amplo da infância contemporânea. No entanto, a criança celíaca pode enfrentar uma vulnerabilidade adicional porque:

  •  teve ou ainda pode ter má absorção intestinal;
  • precisa excluir cereais amplamente consumidos;
  • utiliza produtos especiais nem sempre fortificados;
  • pode restringir alimentos além do necessário;
  • pode apresentar seletividade ou medo de comer;
  • depende de preparações seguras contra contaminação cruzada.

Por isso, a alimentação não deve ser avaliada apenas pela presença ou ausência de glúten.    

 

 

Cerca de 40 gramas de açúcares simples por dia

As crianças avaliadas consumiam aproximadamente 40 gramas de açúcares simples por dia.

Na análise longitudinal, o consumo passou de 34,5 para 43 gramas diários após 12 meses de dieta sem glúten.

A diferença apareceu inicialmente como significativa, mas perdeu significância depois do ajuste para idade, sexo e ingestão energética total. Portanto, o estudo não permite afirmar com segurança que a retirada do glúten provocou aumento do açúcar.

Ainda assim, o padrão chamou a atenção dos autores, principalmente porque produtos substitutos sem glúten podem utilizar açúcares e amidos refinados para melhorar sabor, textura e conservação.

Também é importante não confundir o resultado com uma medição específica de “açúcar adicionado” em todos os produtos.

O estudo analisou a ingestão alimentar registrada e trabalhou com estimativas nutricionais.

A interpretação deve permanecer dentro desse limite.    

 

 

Produto sem glúten não é automaticamente ruim — nem automaticamente saudável

A pesquisa não sustenta a ideia de que todo produto industrializado sem glúten deva ser eliminado.

Alguns desses alimentos cumprem funções importantes:

  • oferecem praticidade;
  • ampliam a variedade;
  • facilitam a inclusão social;
  • permitem que a criança participe de festas e eventos;
  • reduzem o tempo necessário para preparar todas as refeições;
  • podem ser fortificados;
  • ajudam famílias que não conseguem cozinhar integralmente em casa.

O problema aparece quando pães, biscoitos, cereais açucarados, bolos, barrinhas e lanches prontos passam a formar a base da alimentação.

“Sem glúten” é uma informação essencial de segurança para a pessoa celíaca.

Mas não informa, isoladamente:

  • quanto o produto contém de fibras;
  • se oferece proteína;
  • quanto possui de açúcar;
  • qual é o teor de gordura saturada;
  • se foi fortificado;
  • quanto contém de ferro, cálcio ou folato;
  • se apresenta boa densidade nutricional.

Diretrizes pediátricas da ESPGHAN recomendam que a dieta sem glúten seja segura, equilibrada e baseada, sempre que possível, em alimentos naturalmente sem glúten. 

 

 

O almoço mostra que existe outro caminho

Um dado especialmente interessante foi a diferença entre o almoço e os lanches.

No almoço, alimentos in natura ou minimamente processados forneceram mais de 40% das calorias, enquanto os ultraprocessados responderam por aproximadamente 26% entre as crianças celíacas antes da dieta e por cerca de 30% entre aquelas com dieta estabelecida.

Embora ainda exista espaço para melhorar, o almoço apresentou um padrão muito diferente do café da manhã e do lanche da tarde.

Isso mostra que a alimentação naturalmente sem glúten já faz parte da rotina de muitas famílias.

Arroz, feijão, carnes, ovos, verduras, legumes, mandioca, milho, batata e frutas podem formar refeições seguras, nutritivas e culturalmente familiares.

O desafio é levar parte dessa lógica também para os outros momentos do dia.

 

 

Como melhorar o café da manhã sem transformar tudo em proibição

A solução não é retirar, de uma vez, todos os produtos de que a criança gosta.

Mudanças graduais tendem a ser mais sustentáveis e podem considerar:

  • acrescentar uma fruta a um café da manhã baseado em pão;
  • acompanhar a tapioca com ovo, queijo ou outra fonte proteica;
  • usar iogurte com frutas e sementes adequadas à idade;
  • substituir parte dos cereais açucarados por preparações menos processadas;
  • utilizar milho, mandioca, batata ou outros alimentos naturalmente sem glúten;
  • preparar porções caseiras e congelar quando possível;
  • escolher pães e produtos com melhor quantidade de fibras e proteínas;
  • variar as fontes de carboidrato em vez de repetir diariamente o mesmo produto.

A segurança contra o glúten deve continuar sendo prioritária. Nenhuma troca nutricional é válida se aumentar o risco de contaminação.

 

 

O lanche da tarde é a principal janela de oportunidade

Com 81,9% das calorias provenientes de ultraprocessados, o lanche da tarde foi o momento mais crítico da alimentação das crianças avaliadas.

É uma refeição frequentemente marcada por:

  • pressa;
  • transporte até a escola ou atividades;
  • pouca possibilidade de refrigeração;
  • alimentos individualmente embalados;
  • necessidade de evitar trocas entre crianças;
  • dificuldade para encontrar opções seguras fora de casa.

Algumas alternativas que podem reduzir a dependência de produtos prontos, conforme idade, tolerância e rotina, incluem:

  • frutas;
  • iogurtes seguros;
  • queijos;
  • ovos;
  • milho;
  • preparações de mandioca;
  • sanduíches feitos com pão seguro e fonte proteica;
  • bolos ou preparações caseiras com maior densidade nutricional;
  • oleaginosas em forma adequada à idade;
  • combinações de fruta com alimento proteico.

Não existe um lanche universal. A melhor opção precisa considerar conservação, risco de contaminação, idade, preferências, alergias, seletividade e condições financeiras.  

 

 

O estudo não autoriza culpar as famílias

A pesquisa foi realizada na Espanha e descreve uma realidade alimentar específica. Ela não avaliou diretamente:

  • disponibilidade de produtos em cada região;
  • tempo de preparo das famílias;
  • insegurança alimentar;
  • nível de conhecimento sobre nutrição;
  • custo individual da dieta;
  • seletividade alimentar;
  • impacto emocional do diagnóstico;
  • exclusão social;
  • estrutura das escolas.

Também não identificou quais produtos específicos foram os principais responsáveis pelos percentuais em cada refeição.

Os próprios autores recomendam que estudos futuros façam essa análise. Portanto, o estudo não deve ser usado para afirmar que os pais alimentam mal os filhos ou que todos os produtos especiais sem glúten são prejudiciais.

A interpretação mais justa é outra:

As famílias precisam de mais apoio para construir uma dieta que seja simultaneamente segura, viável, acessível e nutricionalmente adequada.

 

 

O estudo provou que ultraprocessados causam inflamação na doença celíaca?

Não. A pesquisa avaliou a alimentação registrada pelas famílias.

Ela não mediu:

  • marcadores sanguíneos de inflamação;
  • atividade imunológica;
  • composição da microbiota;
  • permeabilidade intestinal;
  • recuperação das vilosidades;
  • gravidade histológica;
  • incidência de outras doenças;
  • relação causal entre ultraprocessados e progressão da doença celíaca.

Os pesquisadores reconhecem que qualquer interpretação sobre efeitos inflamatórios ou imunomoduladores permanece indireta e deve ser considerada como hipótese para novos estudos. Essa distinção é essencial.

O estudo demonstra um padrão elevado e persistente de consumo, associado a inadequações alimentares. Não demonstra que os ultraprocessados tenham causado inflamação, impedido a cicatrização intestinal ou agravado diretamente a doença nas crianças observadas.

 

 

Quais são as principais limitações?

Os próprios autores apresentam limitações importantes:

Registros feitos pelas famílias

A alimentação foi registrada durante três dias. Apesar de os dados terem sido revisados por nutricionistas, pode haver esquecimento, subnotificação ou dificuldade para estimar quantidades.

Amostra relativamente pequena

O total de participantes foi adequado para uma investigação inicial, mas alguns subgrupos eram pequenos. A análise longitudinal final utilizou 41 crianças com dados completos.

Diferenças entre os grupos

As crianças celíacas eram, em média, mais jovens, e o grupo de comparação tinha maior participação de moradores de áreas rurais. Os pesquisadores ajustaram as análises, mas não é possível excluir completamente outros fatores de confusão.

Vitamina D apenas alimentar

Não foram medidos vitamina D sanguínea, atividade física ou exposição solar. O resultado indica baixa ingestão pela alimentação, não necessariamente deficiência clínica.

Limites da classificação NOVA

Produtos colocados na mesma categoria podem ter perfis nutricionais muito diferentes.

Ausência de marcadores biológicos

Não foram avaliados inflamação, microbiota ou atividade imunológica.

Realidade espanhola

Os achados não podem ser transferidos automaticamente para crianças brasileiras. Produtos disponíveis, fortificação, refeições escolares, preços e padrões culturais diferem entre países. 

 

 

O que este estudo muda na prática?

O estudo não muda o tratamento da doença celíaca.

A dieta rigorosamente sem glúten continua sendo:

  • indispensável;
  • permanente;
  • necessária mesmo quando a criança não apresenta sintomas;
  • a única forma atualmente comprovada de interromper a exposição alimentar que desencadeia a doença.

A pesquisa muda a maneira como o tratamento nutricional precisa ser acompanhado.

Não basta perguntar: a criança retirou o glúten?

Também é necessário perguntar:

  • O que entrou no lugar?
  • Quantas frutas e verduras ela consome?
  • Há variedade de cereais e tubérculos?
  • Ela recebe proteínas suficientes?
  • Como são o café da manhã e os lanches?
  • Os produtos especiais são a base ou apenas parte da alimentação?
  • Há ingestão adequada de ferro, cálcio e folato?
  • A alimentação está excessivamente restrita?
  • Peso e altura estão evoluindo?
  • Existe necessidade de avaliação laboratorial?
  • A família consegue seguir a dieta sem comprometer a qualidade de vida?

O documento de posição da ESPGHAN sobre dieta sem glúten na infância também reforça que segurança alimentar, adequação nutricional, crescimento e acompanhamento precisam caminhar juntos.   

 

Não é necessário eliminar todos os ultraprocessados

Uma alimentação infantil real precisa considerar praticidade, prazer, celebrações, convivência e autonomia.

O objetivo não deve ser criar uma nova lista de proibições para uma criança que já convive com uma restrição permanente.

Produtos ultraprocessados seguros podem aparecer ocasionalmente. O problema identificado pela pesquisa é a proporção: eles forneciam mais da metade de todas as calorias e dominavam quase completamente algumas refeições.

Uma mudança possível é inverter a lógica:

  • alimentos naturalmente sem glúten como base;
  • produtos industrializados seguros como apoio;
  • doces e lanches especiais em momentos adequados;
  • variedade ao longo da semana;
  • avaliação profissional quando houver deficiência, seletividade ou dificuldade de crescimento.

 

 

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FAQ – Perguntas frequentes

O estudo mostrou que 57% de tudo o que as crianças comiam era ultraprocessado?

O estudo mediu a proporção de energia, ou calorias, proveniente de cada grupo de alimentos. Entre as crianças celíacas recém-diagnosticadas, 57,3% das calorias diárias vinham de ultraprocessados.

Esse percentual ocorreu apenas nas crianças celíacas?

Não. As crianças do grupo de comparação também apresentaram resultado semelhante, com 57,1% da energia proveniente de ultraprocessados.

A dieta sem glúten aumentou o consumo de ultraprocessados?

Houve aumento de 54,6% para 58,9% depois de 12 meses, mas a diferença não foi estatisticamente significativa. Portanto, não é correto afirmar que a dieta causou o aumento. O principal achado é que o consumo permaneceu muito elevado.

Quais refeições apresentaram mais ultraprocessados?

O café da manhã, com aproximadamente 74% das calorias, e o lanche da tarde, com quase 82%, foram os momentos mais críticos.

O estudo mostrou deficiência de vitamina D?

Mostrou ingestão alimentar reduzida de vitamina D. Não foram realizados exames sanguíneos para determinar o estado clínico de vitamina D de cada criança.

Toda criança celíaca precisa suplementar vitamina D?

Não. A suplementação deve ser individualizada e considerar exames, alimentação, idade, exposição solar, saúde óssea e orientação médica.

Todo produto sem glúten industrializado faz mal?

Não. Os produtos diferem muito em composição e podem ter funções importantes na rotina. O problema é quando se tornam a base da dieta e substituem alimentos mais variados e nutricionalmente densos.

Crianças celíacas podem comer alimentos processados?

Podem consumir alimentos seguros contra glúten, desde que a alimentação global seja equilibrada. O estudo não propõe eliminar todos os produtos processados ou ultraprocessados.    

 

 

Conclusão

A retirada do glúten é inegociável para uma criança com doença celíaca. Mas retirar o glúten não basta para transformar automaticamente a alimentação em uma dieta equilibrada. A pesquisa publicada em 2026 mostrou que:

  • mais de 57% das calorias vinham de ultraprocessados;
  • o café da manhã atingia aproximadamente 74%;
  • o lanche da tarde chegava a quase 82%;
  • o consumo permaneceu elevado após 12 meses sem glúten;
  • a ingestão alimentar de vitamina D foi menor entre as crianças celíacas;
  • ferro, cálcio, folato, magnésio e zinco estavam inadequados nos dois grupos.

A mensagem não é que os pais precisam preparar tudo em casa, abolir qualquer produto embalado ou impor uma alimentação perfeita. A mensagem é que o tratamento precisa olhar para além do rótulo “sem glúten”.

Segurança contra contaminação, variedade, densidade nutricional, praticidade, custo e qualidade de vida precisam fazer parte da mesma conversa. Porque uma criança celíaca não precisa apenas de alimentos que não façam mal ao intestino.

Ela precisa de uma alimentação que também ofereça os nutrientes necessários para crescer, aprender, brincar e se desenvolver.    

 

 

Referências Científicas e Fontes

  1. Nestares T, Jiménez-Muñoz M, Flor-Alemany M, Herrador-López M, Bossini-Castillo L, Zapata-Martínez I, et al. Patterns of ultra-processed food consumption in a gluten-free diet: a target for nutritional intervention. Nutrients. 2026;18(13):2173. doi:10.3390/nu18132173. PMID: 42451173.
  2. 2. Luque V, Crespo-Escobar P, Hård af Segerstad EM, Koltai T, Norsa L, Roman E, et al. Gluten-free diet for pediatric patients with coeliac disease: a position paper from the ESPGHAN Gastroenterology Committee, Special Interest Group in Coeliac Disease. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2024;78:973-995. doi:10.1002/jpn3.12079.
  3. Papoutsaki M, Katsagoni CN, Papadopoulou A. Short- and long-term nutritional status in children and adolescents with celiac disease following a gluten-free diet: a systematic review. Nutrients. 2025;17(3):487. doi:10.3390/nu17030487.
  4. Nestares T, Martín-Masot R, Labella A, Aparicio VA, Flor-Alemany M, López-Frías M, Maldonado J. Is a gluten-free diet enough to maintain correct micronutrients status in young patients with celiac disease? *Nutrients*. 2020;12(3):844. doi:10.3390/nu12030844.5. Larretxi I, Simon E, Benjumea L, Miranda J, Bustamante MA, Lasa A, et al. Gluten-free-rendered products contribute to imbalanced diets in children and adolescents with celiac disease. Eur J Nutr. 2019;58:775-783. doi:10.1007/s00394-018-1685-2.

 

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Não substitui consulta, diagnóstico, prescrição ou acompanhamento individualizado com pediatra, gastroenterologista pediátrico e nutricionista. Eu Celíaca©. Todos os direitos reservados. Reprodução parcial ou total permitida somente com citação da fonte e link para o conteúdo original. 

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