A busca por um medicamento para a doença celíaca ganhou um novo resultado importante. A Teva anunciou que o TEV-‘408, anticorpo experimental desenvolvido para bloquear uma molécula do sistema imunológico chamada interleucina-15 (IL-15), conseguiu reduzir o dano intestinal, medido por biópsia, provocado pela exposição ao glúten em um estudo de fase 2a com pacientes celíacos.
O resultado chama atenção não apenas porque o estudo atingiu seu objetivo principal. Outros medicamentos experimentais que já acompanhamos no Eu Celíaca, como ANB033 e FB102, também atuam sobre mecanismos relacionados à IL-15.
Mas eles não são iguais.
O TEV-‘408 bloqueia diretamente a IL-15. ANB033 e FB102 têm como alvo o CD122, uma estrutura utilizada pelos receptores de duas moléculas do sistema imunológico: IL-15 e IL-2.
E existe outra diferença fundamental neste momento: o TEV-‘408 já apresentou resultado positivo de fase 2a mostrando proteção da mucosa intestinal durante um desafio controlado com glúten. O FB102 está em fase 2, mas os resultados dessa etapa ainda são aguardados.
O ANB033 está em fase 1b e seus primeiros resultados em pacientes celíacos são esperados para o final de 2026.
Isso significa que estamos perto de um medicamento que permitirá aos celíacos voltar a comer glúten?Ainda não. Mas os resultados ajudam a responder uma pergunta científica importante: é possível interferir na resposta imunológica desencadeada pelo glúten e diminuir o dano que ela provoca no intestino?
No caso do TEV-‘408, os primeiros dados de fase 2a apontam que sim.
Primeiro: o que é o TEV-‘408?
TEV-‘408 é o nome usado durante o desenvolvimento de um anticorpo monoclonal criado pela farmacêutica Teva.
Anticorpos monoclonais são proteínas produzidas em laboratório para reconhecer um alvo muito específico no organismo. Alguns são utilizados há anos no tratamento de câncer, doenças inflamatórias e doenças autoimunes.
No caso do TEV-‘408, esse alvo é a IL-15, abreviação de interleucina-15.
As interleucinas são moléculas utilizadas pelas células do sistema imunológico para se comunicar.
Podemos imaginá-las como mensagens químicas capazes de dizer a determinadas células quando devem ser ativadas, multiplicadas ou participar de uma resposta inflamatória.
A IL-15 tem um papel particularmente importante na doença celíaca.
Quando uma pessoa com doença celíaca ingere glúten, ocorre uma sequência complexa de eventos imunológicos. A IL-15 participa dessa reação e favorece a ativação de células capazes de atacar as células que revestem o intestino.
O resultado pode ser a inflamação e a destruição progressiva das vilosidades intestinais, pequenas estruturas que revestem o intestino delgado e aumentam enormemente sua capacidade de absorver nutrientes.
O TEV-‘408 tenta interromper parte desse processo.
Em vez de destruir o glúten antes que ele chegue ao intestino, o medicamento procura bloquear a IL-15 e reduzir a resposta imunológica que contribui para a lesão intestinal.
Como foi realizado o estudo?
O estudo de fase 2a incluiu 50 adultos com doença celíaca confirmada por biópsia, que seguiam dieta sem glúten havia pelo menos um ano. No início da pesquisa, os participantes apresentavam pouca lesão intestinal e não tinham sintomas gastrointestinais moderados ou graves. Eles foram distribuídos aleatoriamente, na proporção de 1 para 1, para receber uma única injeção subcutânea de TEV-‘408 ou placebo.
A apresentação especifica doença confirmada por biópsia, dieta sem glúten ≥1 ano, Vh:Cd ≥2,0 e ausência de sintomas gastrointestinais moderados ou graves.
Placebo é uma substância sem o medicamento ativo utilizada para que os pesquisadores possam comparar o que acontece entre quem recebeu o tratamento experimental e quem não recebeu.
Duas semanas depois da aplicação, começou a parte mais importante do experimento.
Os participantes passaram por um desafio controlado com 3 gramas de glúten por dia durante seis semanas. Essa exposição foi feita propositalmente para provocar alterações intestinais que permitissem comparar o efeito do TEV-‘408 com o placebo.
Desafio com glúten é uma exposição planejada e controlada utilizada em pesquisas para verificar como o organismo de uma pessoa com doença celíaca reage ao glúten e se determinado medicamento consegue modificar essa resposta.
Embora o principal resultado de eficácia tenha sido avaliado na oitava semana, o acompanhamento não terminou ali. Os participantes continuam sendo acompanhados até a semana 80, período destinado a avaliar a duração do efeito e a segurança do tratamento ao longo do tempo. Por isso, os dados divulgados até agora ainda não representam o conjunto completo de informações do estudo.
Ao final, os pesquisadores compararam biópsias intestinais, sinais de inflamação e sintomas dos participantes.
O TEV-‘408 já havia sido testado em um pequeno grupo de celíacos
A fase 2a não foi a primeira experiência do TEV-‘408 em pessoas com doença celíaca. Documentos apresentados agora pela Teva mostram que uma fase 1b exploratória anterior incluiu 20 pacientes celíacos.
Nesse estudo, os pesquisadores avaliaram segurança e marcadores biológicos durante exposição controlada ao glúten. Em uma análise apresentada pela companhia com 13 participantes que chegaram à semana 17, oito tratados com TEV-‘408 e cinco com placebo, foi acompanhado um marcador chamado FABP, sigla em inglês para *fatty acid-binding protein*, uma proteína que pode indicar dano tecidual.
Durante 14 semanas de exposição a 3 gramas de glúten por dia, a Teva relata que o marcador aumentou aproximadamente 50% no grupo placebo, enquanto ficou cerca de 30% abaixo do nível inicial no grupo tratado na semana 17. Segundo a companhia, esse sinal preliminar ajudou a embasar a realização da fase 2a.
O resultado precisa ser interpretado com cautela. A análise apresentada naquele momento envolvia apenas 13 pessoas, um número muito pequeno, e esses dados não equivalem à evidência produzida posteriormente pelo estudo randomizado de fase 2a com 50 participantes.
O principal resultado veio da biópsia
Esse é provavelmente o dado mais importante da pesquisa.Não bastava perguntar aos pacientes se eles tiveram menos dor abdominal, diarreia ou outros sintomas. Os pesquisadores queriam descobrir se o medicamento realmente estava protegendo a estrutura do intestino.
Para isso, utilizaram uma medida chamada Vh:Cd, sigla em inglês para villous height-to-crypt depth ratio.
Em português, significa relação entre a altura das vilosidades e a profundidade das criptas intestinais.
Pode parecer complicado, mas a ideia é relativamente simples.
Em um intestino saudável, as vilosidades são altas e ajudam na absorção dos nutrientes. Quando a doença celíaca está ativa, essas vilosidades podem ficar menores e as criptas mais profundas.
Por isso, a relação entre essas duas medidas ajuda os pesquisadores a avaliar o grau de dano da mucosa.
No grupo que recebeu placebo, a mudança média ajustada nessa relação foi de -0,88.
No grupo tratado com TEV-‘408, foi de -0,43.
Quanto maior a queda, maior a deterioração observada durante o desafio com glúten.A diferença entre os grupos foi de 0,45, com intervalo de confiança de 95% entre 0,06 e 0,84 e p<0,05.
O que significa p<0,05?
O chamado valor de p é uma medida estatística usada para avaliar se uma diferença observada em um estudo poderia ser explicada apenas pelo acaso dentro das condições da análise.
Um resultado abaixo de 0,05 é tradicionalmente considerado estatisticamente significativo.
Isso não quer dizer que o medicamento esteja aprovado, que funcionará para todos ou que o resultado esteja definitivamente comprovado.
Significa que, neste estudo, a diferença encontrada entre TEV-‘408 e placebo atingiu o critério estatístico estabelecido para o desfecho principal.
Outro resultado importante: os linfócitos intraepiteliais
Os pesquisadores também mediram os chamados IELs, sigla em inglês para intraepithelial lymphocytes, ou linfócitos intraepiteliais.
São células do sistema imunológico localizadas entre as células que revestem o intestino.
Na doença celíaca ativa, o número desses linfócitos costuma aumentar. Eles fazem parte da resposta imunológica que acompanha a lesão intestinal.
Depois da exposição ao glúten, a densidade desses linfócitos aumentou:
27,60 no grupo placebo
contra apenas
0,37 no grupo tratado com TEV-‘408.
A diferença entre os grupos foi de -27,23.
Em outras palavras, enquanto o desafio com glúten produziu um aumento expressivo desse marcador de inflamação no grupo placebo, isso praticamente não ocorreu entre os participantes tratados com o anticorpo.
Os pacientes que receberam TEV-‘408 também apresentaram menores escores de sintomas gastrointestinais, segundo a Teva. Esses sintomas foram avaliados pelo Celiac Disease Symptom Diary (CDSD), um diário padronizado utilizado para registrar os sintomas relatados pelos próprios participantes.
Segundo a Teva, até o momento não foram identificados sinais de segurança relacionados ao tratamento nos estudos apresentados. A companhia reuniu dados de quatro estudos, com 223 participantes inscritos ao todo: 115 voluntários saudáveis em fase 1, 20 pacientes celíacos em fase 1b, 50 pacientes celíacos na atual fase 2a e 38 pessoas com vitiligo em outro estudo de fase 1b.
Isso, porém, não significa que a segurança do medicamento já esteja estabelecida. O número de pacientes com doença celíaca ainda é pequeno, alguns acompanhamentos continuam em andamento e efeitos adversos incomuns podem aparecer apenas quando um medicamento é estudado em populações muito maiores.
Como uma única dose poderia agir por tantas semanas?
Uma característica importante do TEV-‘408 é sua meia-vida prolongada, expressão usada para descrever quanto tempo o medicamento permanece no organismo antes que sua quantidade seja reduzida pela metade.
Em uma fase 1 que incluiu 115 voluntários saudáveis, a Teva testou diferentes níveis de dose e encontrou evidências de bloqueio prolongado da IL-15. Com base nesses resultados, a companhia trabalha com a possibilidade de desenvolver um esquema de aplicação subcutânea aproximadamente a cada 12 semanas.
Isso ainda não significa que uma aplicação a cada três meses será o esquema utilizado em pacientes com doença celíaca. Dose e intervalo entre as aplicações ainda precisam ser definidos em estudos posteriores.
Os resultados completos ainda não foram publicados em um periódico científico revisado por pares. O que está disponível neste momento são os resultados principais divulgados pela própria Teva, acompanhados agora por uma apresentação técnica detalhada do estudo. A companhia informa que análises adicionais estão em andamento e que pretende apresentar mais dados em um futuro congresso científico.
TEV-‘408, ANB033 e FB102: o que muda entre os três?
Os três medicamentos são anticorpos monoclonais e tentam interferir na resposta imunológica envolvida na doença celíaca.Mas eles não apertam exatamente o mesmo “botão”.
| Medicamento | Empresa | Alvo | O que esse alvo significa | Fase atual na doença celíaca | O que já foi demonstrado |
| TEV-‘408 | Teva | IL-15 | Bloqueia diretamente uma molécula que participa da ativação da resposta imunológica e da lesão intestinal | Fase 2a, com resultados divulgados | Menor deterioração da mucosa, menor aumento de linfócitos intraepiteliais e menos sintomas durante desafio com glúten |
| FB102 | Forte Biosciences | CD122 | Bloqueia uma parte dos receptores utilizados pelas vias da IL-15 e da IL-2 | Fase 2 em andamento | Fase 1b mostrou sinais favoráveis durante desafio com glúten; resultados da fase 2 são aguardados em 2026 |
| ANB033 | First Tracks Biotherapeutics | CD122 | Também atua sobre uma parte dos receptores compartilhados pelas vias da IL-15 e da IL-2 | Fase 1b | Ainda não há resultados clínicos divulgados das atuais coortes com pacientes celíacos; primeiros dados são esperados no fim de 2026 |
IL-15, IL-2 e CD122: por que aparecem tantos nomes?
É aqui que a comparação pode parecer confusa para quem não trabalha com imunologia.
IL significa interleucina.
IL-15 e IL-2 são, portanto, duas interleucinas diferentes. Ambas funcionam como sinais de comunicação entre células do sistema imunológico.
Para que uma célula “escute” esses sinais, existem estruturas em sua superfície chamadas receptores.
É como uma mensagem e uma antena.
A interleucina é a mensagem. O receptor é parte do sistema que recebe essa mensagem.
O CD122 é uma das peças que compõem receptores utilizados tanto pela IL-15 quanto pela IL-2.É justamente aí que aparece a diferença entre os medicamentos.
TEV-‘408
Tenta bloquear diretamente a IL-15.
É como tentar impedir que determinada mensagem seja transmitida.
FB102 e ANB033
Têm como alvo o CD122.
Em vez de atacar diretamente a IL-15, tentam interferir em uma parte do sistema utilizado para receber sinais relacionados tanto à IL-15 quanto à IL-2.
Isso significa que os medicamentos podem produzir exatamente os mesmos efeitos?
Não.
Mesmo quando medicamentos atuam sobre partes relacionadas de uma mesma via imunológica, eles podem apresentar diferenças de eficácia, segurança, duração do efeito, dose e impacto sobre outras funções do sistema imunológico.
É justamente para descobrir isso que existem as diferentes etapas dos estudos clínicos.
E o que significa estar na fase 2?
Antes de um medicamento chegar às farmácias, ele precisa passar por várias etapas de pesquisa.
| Etapa | Em termos simples, o que os pesquisadores querem descobrir |
| Fase 1 | O medicamento parece seguro? Como o organismo reage a ele? |
Fase 1b |
Como ele se comporta em um pequeno grupo de pessoas com a doença? Há sinais iniciais de atividade? |
| Fase 2 | Há evidências mais consistentes de que funciona? Qual dose deve ser estudada? |
| Fase 3 | O benefício e a segurança se confirmam em um número maior e mais diverso de pacientes? |
| Análise regulatória | As evidências são suficientes para que uma agência reguladora considere autorizar o medicamento? |
A denominação fase 2a geralmente identifica uma etapa inicial da fase 2, muito voltada à demonstração preliminar de eficácia e ao entendimento de como o tratamento funciona nos pacientes.
Portanto, dizer que o TEV-‘408 teve um resultado positivo em fase 2a não significa que o medicamento esteja perto de chegar às farmácias.
Ainda serão necessários estudos maiores. A apresentação da Teva informa que o próximo passo planejado para doença celíaca é um novo estudo de fase 2 com múltiplas doses, destinado a definir melhor a quantidade do medicamento e o intervalo entre as aplicações antes de um eventual estudo pivotal, etapa destinada a gerar evidências mais robustas para uma futura avaliação regulatória.
A companhia também informa que, de acordo com a orientação regulatória recebida, uma futura fase 3 deverá considerar tanto sintomas dos pacientes quanto a Vh:Cd, medida da estrutura intestinal obtida por biópsia.
Então o TEV-‘408 está à frente do FB102?
Essa comparação exige cuidado.Os dois já chegaram à fase 2, mas estão em momentos diferentes da produção de evidências.
O TEV-‘408 acaba de apresentar resultados positivos de fase 2a.
O FB102 está sendo testado em fase 2, e os resultados principais desse estudo são esperados ainda em 2026.
O FB102, entretanto, já havia apresentado resultados positivos em uma fase 1b com pacientes celíacos.
Nesse estudo inicial, participantes tratados tiveram sinais favoráveis em medidas relacionadas à mucosa intestinal e à inflamação. Durante 16 dias de desafio com glúten, a empresa também relatou 42% menos eventos de sintomas gastrointestinais por participante no grupo FB102 em comparação ao placebo.
Portanto, não é correto dizer simplesmente que um medicamento “é melhor” ou que está necessariamente mais próximo da aprovação.
Eles estão produzindo evidências diferentes e ainda precisam avançar.
Já o ANB033 está em uma etapa anterior.
Seu estudo de fase 1b tem uma primeira coorte destinada a avaliar a proteção durante exposição controlada ao glúten e uma segunda voltada a pacientes com diferentes graus de lesão intestinal.
Os primeiros resultados são esperados entre o final de 2026 e o início de 2027.
Por que tantas empresas estão mirando a IL-15?
Talvez esse seja um dos aspectos mais interessantes dessa corrida científica.
TEV-‘408, FB102 e ANB033 foram desenvolvidos por empresas diferentes. Dois bloqueiam CD122; um bloqueia diretamente IL-15.
Mesmo assim, os três convergem para uma região semelhante da biologia da doença celíaca.
Isso acontece porque a IL-15 ocupa uma posição importante na resposta imunológica que contribui para a destruição das células do intestino após a exposição ao glúten.
O fato de diferentes empresas investirem nessa via não prova que ela produzirá um medicamento aprovado.
TEV-‘408, FB102 e ANB033 também não são os primeiros programas a explorar essa região da resposta imunológica. Outros anticorpos, como AMG 714/PRV-015 e CALY-002, já foram avaliados anteriormente em estudos envolvendo a via da IL-15 em doença celíaca.
A própria Teva apresentou uma comparação entre TEV-‘408, FB102, CALY-002 e AMG 714/PRV-015, mas fez uma ressalva importante: não são estudos que compararam diretamente um medicamento com o outro. Eles utilizaram diferentes doses, períodos de exposição ao glúten, números de aplicações e momentos para realização das biópsias. Por isso, os resultados não permitem concluir simplesmente que um medicamento seja superior aos demais.
Mas mostra que existe uma hipótese biológica suficientemente consistente para sustentar diferentes programas de desenvolvimento clínico.
E o resultado do TEV-‘408 acrescenta uma informação importante: bloquear diretamente a IL-15 produziu um efeito mensurável na biópsia intestinal de pacientes expostos ao glúten nesse estudo de fase 2a.
Doença celíaca também se tornou uma aposta bilionária para a Teva
O interesse no TEV-‘408 não é apenas científico. Os documentos apresentados pela Teva mostram também quanto a companhia acredita que um medicamento para doença celíaca poderia representar comercialmente.
Em apresentação a investidores divulgada em 2 de setembro, a Teva estimou que o TEV-‘408 poderia alcançar entre US$ 1,5 bilhão e US$ 2 bilhões em vendas anuais no pico, caso o desenvolvimento seja bem-sucedido e o medicamento chegue ao mercado. A companhia calcula uma população-alvo inicial de aproximadamente 1,6 milhão de adultos diagnosticados com doença celíaca.
É importante colocar esses números em perspectiva. A própria Teva classifica a projeção como “não ajustada ao risco”, o que significa que a estimativa comercial não desconta a possibilidade de o medicamento fracassar em etapas posteriores do desenvolvimento. O TEV-‘408 continua experimental e ainda não há garantia de aprovação ou comercialização.
O mercado financeiro também reagiu aos resultados. Segundo a Reuters, as ações da Teva negociadas nos Estados Unidos chegaram a subir quase 3% no início do pregão de 2 de setembro, dia em que os resultados da fase 2a foram anunciados.
Dois dias depois, em 4 de setembro, a S&P Global Ratings elevou a classificação de crédito da Teva de BB+ para BBB-, levando a empresa ao grau de investimento nessa escala. A decisão levou em conta fatores mais amplos, como redução do endividamento, crescimento dos medicamentos de marca, estabilização dos genéricos e perspectivas para o pipeline da companhia. Não seria correto atribuir a elevação do rating especificamente ao TEV-‘408 ou aos resultados em doença celíaca.
Os números, no entanto, ajudam a mostrar que a busca por um tratamento farmacológico para doença celíaca deixou de ser apenas uma questão científica. Ela também se tornou uma área de interesse econômico relevante para a indústria farmacêutica e seus investidores.
Há esperança de um remédio que permita aos celíacos comer glúten?
Essa provavelmente é a pergunta que mais interessa aos pacientes.
E a resposta precisa separar esperança científica de evidência disponível.
Sim, existe hoje uma perspectiva concreta de desenvolvimento de medicamentos capazes de modificar diferentes partes da resposta à exposição ao glúten.
Isso é muito diferente de alguns anos atrás, quando praticamente toda a discussão sobre tratamento da doença celíaca terminava na mesma frase: dieta sem glúten por toda a vida.
Mas nenhum dos três medicamentos demonstrou até agora que uma pessoa com doença celíaca poderá abandonar a dieta sem glúten e voltar a consumir trigo, cevada e centeio livremente.
O estudo do TEV-‘408 também não testou isso.
Os participantes estavam em dieta sem glúten antes do estudo e receberam glúten de maneira controlada durante seis semanas para que os pesquisadores pudessem medir o efeito do medicamento.
Esse desenho responde à pergunta: “O medicamento consegue proteger parcialmente o intestino quando ocorre exposição ao glúten?”
Ele não responde: “Uma pessoa tratada poderá comer glúten todos os dias sem desenvolver lesão intestinal ao longo dos anos?”
São perguntas muito diferentes.
Proteger contra contaminação acidental ou liberar a dieta?
Também é possível que futuros medicamentos para doença celíaca tenham objetivos diferentes.
Um tratamento poderia, por exemplo, funcionar como proteção adicional contra pequenas exposições acidentais ao glúten, diminuindo o impacto da contaminação cruzada sem substituir a dieta.
Outro poderia ser desenvolvido para pacientes que continuam apresentando inflamação ou lesão intestinal apesar dos esforços para seguir corretamente a dieta sem glúten.
E uma terapia futura poderia eventualmente tentar permitir maior tolerância ao glúten.
Hoje, porém, não sabemos se TEV-‘408, FB102 ou ANB033 conseguirão atingir esse último objetivo.
Nem sequer sabemos se todos chegarão ao mercado.
O que o resultado do TEV-‘408 realmente permite dizer hoje?
Há motivos para acompanhar o medicamento com atenção.
Uma única dose foi seguida por uma exposição diária ao glúten durante seis semanas e, ao final, o grupo tratado apresentou menor deterioração histológica da mucosa intestinal, menor aumento de um marcador importante de inflamação e menos sintomas gastrointestinais que o grupo placebo.
O estudo atingiu seu objetivo principal.
Mas foram apenas 50 participantes na fase 2a, o acompanhamento continua e os resultados ainda não foram publicados integralmente em um periódico científico revisado por pares. Os dados disponíveis foram divulgados pela própria Teva em comunicado e em uma apresentação técnica aos investidores. Análises adicionais continuam em andamento e a companhia pretende apresentar mais resultados em um futuro congresso científico.
Isso coloca o resultado em uma posição interessante: é mais do que uma hipótese de laboratório, mas ainda está muito distante de ser um tratamento estabelecido.
Atenção, celíacos
TEV-‘408, FB102 e ANB033 são medicamentos experimentais.
Até o momento:
- nenhum deles foi aprovado para o tratamento da doença celíaca;
- nenhum está disponível nas farmácias para essa indicação;
- nenhum demonstrou que permite abandonar a dieta sem glúten;
- ainda não conhecemos completamente seus benefícios e riscos;
- estudos maiores serão necessários antes de qualquer eventual pedido de aprovação.
A dieta estritamente sem glúten continua sendo o tratamento da doença celíaca.
Os desafios com glúten realizados nesses estudos fazem parte de protocolos clínicos controlados e não devem ser reproduzidos por pacientes por conta própria.
O que acompanhar agora sobre medicamento para doença celíaca?
O cenário pode ficar ainda mais interessante nos próximos meses.
No caso do TEV-‘408, análises adicionais da fase 2a ainda deverão ser apresentadas, enquanto os participantes continuam em acompanhamento. A Teva também planeja avançar para um estudo de fase 2 com múltiplas doses, que deverá ajudar a definir dose e intervalo de administração antes de uma eventual etapa pivotal.
O FB102 poderá divulgar os resultados de sua fase 2 ainda em 2026, permitindo uma comparação muito mais informativa entre duas estratégias relacionadas à via da IL-15.
E os primeiros resultados do ANB033 em pacientes celíacos são esperados para o quarto trimestre de 2026, com dados da segunda coorte previstos para o início de 2027.
Isso significa que três programas que interferem, de maneiras diferentes, em uma das vias imunológicas mais importantes da doença celíaca poderão produzir novos dados em um intervalo relativamente curto.
Ainda não sabemos se algum deles se transformará no primeiro medicamento capaz de mudar a rotina de tratamento dos celíacos.
Mas o resultado do TEV-‘408 traz algo que merece atenção: durante seis semanas de exposição controlada ao glúten, bloquear diretamente a IL-15 fez diferença mensurável na mucosa intestinal.
Para uma doença que ainda depende exclusivamente da retirada rigorosa do glúten da alimentação, é um resultado importante.
Não é o fim da dieta sem glúten.
Mas é mais uma evidência de que a ciência está tentando construir um tratamento que vá além dela.
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Nota de atualização: esta reportagem foi atualizada em 6 de setembro de 2026 após o Eu Celíaca ter acesso à apresentação técnica completa dos resultados de fase 2a divulgada pela Teva. Foram acrescentadas informações sobre a quantidade de glúten utilizada no desafio, critérios dos participantes, acompanhamento de longo prazo, estudos clínicos anteriores, segurança, próximos passos do desenvolvimento e projeções comerciais. Os resultados específicos da fase 2a do TEV-‘408 ainda não foram publicados integralmente em periódico científico revisado por pares.
Referências científicas e fontes
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- Teva Pharmaceutical Industries Ltd. Teva announces positive topline results from Phase 2a study in celiac disease for its anti-IL-15 antibody, further validating its pipeline-in-a-product potential. Tel Aviv: Teva Pharmaceutical Industries; 2026 Sep 2 [citado 2026 Sep 3].
- Lähdeaho ML, Scheinin M, Vuotikka P, Taavela J, Popp A, Laukkarinen J, et al. Safety and efficacy of AMG 714 in adults with coeliac disease exposed to gluten challenge: a phase 2a, randomised, double-blind, placebo-controlled study. Lancet Gastroenterol Hepatol. 2019;4(12):948-959. doi:10.1016/S2468-1253(19)30264-X.
- Cellier C, Bouma G, van Gils T, Khater S, Malamut G, Crespo L, et al. Safety and efficacy of AMG 714 in patients with type 2 refractory coeliac disease: a phase 2a, randomised, double-blind, placebo-controlled, parallel-group study. Lancet Gastroenterol Hepatol. 2019;4(12):960-970. doi:10.1016/S2468-1253(19)30265-1.
- Forte Biosciences, Inc. Forte Biosciences announces positive data in FB102 celiac disease Phase 1B study. Dallas: Forte Biosciences; 2025 Jun 23 [citado 2026 Sep 3].
- Forte Biosciences, Inc. Forte Biosciences announces presentation of FB102 celiac disease trial at Tampere Celiac Disease Symposium. Dallas: Forte Biosciences; 2025 Sep 15 [citado 2026 Sep 3].
- First Tracks Biotherapeutics, Inc. First Tracks Biotherapeutics announces second quarter 2026 financial results and provides business update. San Diego: First Tracks Biotherapeutics; 2026 Aug 12 [citado 2026 Sep 3].
- First Tracks Biotherapeutics. ANB033: a novel approach to IL-15/IL-2 pathway modulation. San Diego: First Tracks Biotherapeutics [citado 2026 Sep 3].
- Teva celiac drug protects gut from gluten damage after single injection in trial
- Teva’s celiac drug TEV ‘408 hits trial milestone | Israel Hayom
- S&P eleva rating da Teva Pharm com desalavancagem e pipeline robusto Por Investing.com
- Teva Pharmaceutical Industries Ltd. Upgraded To ‘ | S&P Global Ratings
- ClinicalTrials.gov — NCT06807463. A Trial to Assess the Efficacy and Safety of TEV-53408 in Adults With Celiac Disease.
- Reuters. Teva’s immune disorder drug meets main goal in mid-stage trial.
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