Para uma pessoa com doença celíaca, comer glúten não provoca apenas desconforto digestivo. Em pessoas geneticamente suscetíveis, proteínas presentes no trigo, na cevada e no centeio podem iniciar uma resposta imunológica que lesa o revestimento do intestino delgado, compromete a absorção de nutrientes e pode causar sintomas dentro e fora do sistema digestivo.
A ciência já conhecia partes importantes dessa história: predisposição genética, anticorpos, inflamação e atrofia das vilosidades.
Agora, pesquisas vêm detalhando melhor a sequência de eventos e o papel de células que antes pareciam apenas dar estrutura ao intestino. Entender essa cascata ajuda a combater dois equívocos frequentes: doença celíaca não é uma simples “intolerância”, e o glúten não machuca o intestino sozinho — ele aciona um sistema imunológico que passa a atacar o próprio tecido intestinal.
Como o glúten causa lesão no intestino de pessoas com doença celíaca?
Na doença celíaca, fragmentos do glúten resistem parcialmente à digestão e são modificados por uma enzima do próprio corpo, a transglutaminase tecidual 2, ou TG2. Em pessoas com genes HLA-DQ2 ou HLA-DQ8, esses fragmentos ativam células do sistema imunológico.
A resposta inflamatória recruta e ativa linfócitos que vivem junto ao epitélio intestinal, os chamados linfócitos intraepiteliais. Essas células passam a destruir enterócitos, comprometendo as vilosidades intestinais e a absorção de nutrientes.
O glúten é o gatilho, não o agressor direto
O glúten é um conjunto de proteínas encontrado principalmente no trigo, na cevada e no centeio. Entre seus componentes estão as gliadinas e as gluteninas. A composição dessas proteínas, rica em prolina e glutamina, faz com que alguns fragmentos não sejam completamente quebrados pelas enzimas digestivas humanas.
Em pessoas sem doença celíaca, isso não costuma gerar uma resposta imune destrutiva. Já em quem tem predisposição genética, alguns desses peptídeos do glúten alcançam a mucosa intestinal e entram em contato com células do sistema imune.
A diferença é crucial: não é correto dizer que o glúten “ataca” diretamente a parede intestinal. Na doença celíaca, ele funciona como um gatilho alimentar de uma reação imunológica inadequada. Quem causa a destruição dos enterócitos são células de defesa ativadas no ambiente inflamatório do intestino.
Uma revisão sistemática e meta-análise que reuniu dados de 275.818 participantes estimou prevalência global de 1,4% em testes sorológicos e de 0,7% em casos confirmados por biópsia. Os números ajudam a dimensionar o problema, mas também indicam que resultados de exames de sangue e diagnóstico confirmado não são a mesma coisa.
A enzima TG2 transforma o glúten em um alerta imunológico
Um dos momentos mais importantes da cadeia ocorre quando entra em ação a transglutaminase tecidual 2, conhecida pela sigla TG2. Essa enzima é produzida pelo próprio organismo e participa de processos normais do tecido. Na doença celíaca, porém, ela modifica certos peptídeos do glúten por um processo chamado deamidação.
Essa alteração torna os peptídeos mais reconhecíveis por moléculas genéticas chamadas HLA-DQ2 e HLA-DQ8. Essas moléculas funcionam como uma espécie de vitrine: elas exibem fragmentos de proteínas para as células T, que decidem se aquele material deve ou não disparar uma reação imunológica.
É também por isso que o anticorpo anti-transglutaminase tecidual, o anti-TG2, é tão importante na investigação da doença celíaca.
Ele não mede diretamente a quantidade de glúten ingerida, mas sinaliza uma resposta autoimune relacionada a essa enzima e ao processo inflamatório da doença.
Do glúten à lesão intestinal
A genética aumenta a suscetibilidade, mas não fecha o diagnóstico
A doença celíaca depende de predisposição genética. As variantes HLA-DQ2 e HLA-DQ8 são as mais relevantes porque apresentam fragmentos modificados do glúten às células T. A maioria das pessoas com doença celíaca carrega HLA-DQ2.5; outras têm HLA-DQ2.2 ou HLA-DQ8.
Ter esses genes, porém, não significa que uma pessoa necessariamente desenvolverá a doença. A revisão de 2026 cita que cerca de 40% das populações ocidentais carregam pelo menos um alelo HLA associado, mas menos de 2% desses portadores desenvolvem doença celíaca.
Em outras palavras: a predisposição genética é necessária, mas não é suficiente.
| Resultado do teste HLA | O que pode indicar | O que não permite concluir |
| HLA-DQ2 ou HLA-DQ8 positivo | Há predisposição genética compatível | Não confirma doença celíaca |
| HLA-DQ2 e HLA-DQ8 negativos | A doença celíaca se torna muito improvável | Não identifica outra causa dos sintomas |
| HLA positivo com sintomas | Pode justificar investigação clínica | Não autoriza cortar glúten por conta própria |
HLA positivo sem sintomas |
Pode representar apenas suscetibilidade | Não exige dieta sem glúten |
O teste genético pode ser útil em situações selecionadas, como quando a pessoa já retirou o glúten antes da investigação ou quando os resultados de sorologia e biópsia não são conclusivos. A decisão deve ser individualizada pelo profissional que acompanha o caso.
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As células T dão o comando da inflamação
Depois que os peptídeos do glúten modificados pela TG2 são apresentados por HLA-DQ2 ou HLA-DQ8, células T CD4+ específicas para o glúten entram em ação. Elas liberam substâncias que coordenam e ampliam a resposta inflamatória, entre elas interferon-gama, IL-21 e IL-2.
Essas citocinas funcionam como mensageiros químicos. Elas convocam outras células, modificam o comportamento do tecido intestinal e contribuem para transformar uma exposição alimentar em uma reação inflamatória persistente.
O sistema imune, em condições normais, precisa equilibrar proteção contra agentes nocivos e tolerância aos alimentos. Na doença celíaca, esse equilíbrio falha especificamente diante do glúten.
Quem destrói as vilosidades são os linfócitos intraepiteliais
As células mais diretamente envolvidas na destruição do epitélio são os linfócitos intraepiteliais, ou IELs. Eles ficam posicionados entre as células que recobrem a superfície interna do intestino. Na doença celíaca ativa, sua quantidade aumenta e muitos adquirem um comportamento citotóxico — isto é, passam a ter capacidade de matar células.
Esses IELs, em especial os CD8+, expressam moléculas relacionadas à citotoxicidade, como granzima B e NKG2D. Ao mesmo tempo, enterócitos sob estresse expressam sinais que os tornam alvos mais vulneráveis. O resultado é apoptose, ou morte programada, das células do revestimento intestinal.
A consequência pode ser o encurtamento ou desaparecimento das vilosidades, estruturas microscópicas que ampliam muito a área de absorção do intestino delgado. Quando essas vilosidades sofrem dano, a absorção de ferro, folato, cálcio e outros nutrientes pode ser prejudicada.
| Alteração intestinal | O que significa | Possíveis efeitos |
| Aumento de IELs | Mais células imunes entre os enterócitos | Inflamação da mucosa |
| Apoptose de enterócitos | Morte de células do revestimento | Fragilidade da barreira intestinal |
| Hiperplasia de criptas | Criptas mais profundas e ativas | Tentativa de compensação do tecido |
| Atrofia vilositária | Vilosidades encurtadas ou achatadas | Menor área de absorção |
| Inflamação persistente | Atividade imune contínua | Sintomas ou dano silencioso |
A presença isolada de aumento de IELs não confirma doença celíaca. Essa alteração pode ser observada em outras condições, o que reforça a necessidade de interpretar sintomas, exames de sangue, endoscopia e biópsia de forma integrada.
Por que a IL-15 é tão importante na doença celíaca?
A interleucina 15, conhecida como IL-15, é considerada uma das citocinas centrais na imunopatogênese da doença celíaca. Na doença ativa, ela pode estar aumentada no epitélio intestinal e em células do sistema imune presentes na mucosa.
Na prática, a IL-15 ajuda a deixar os IELs mais agressivos. Ela favorece sua expansão, aumenta a produção de moléculas citotóxicas e contribui para que esses linfócitos reconheçam e eliminem enterócitos submetidos a estresse.
A lesão intestinal não parece depender exclusivamente da resposta das células T ao glúten. A literatura científica descreve uma cooperação entre a resposta adaptativa, ligada aos peptídeos de glúten e HLA, e sinais locais de estresse do epitélio, entre eles a IL-15. É essa combinação que ajuda a explicar a intensidade do dano na mucosa.
O novo capítulo: células estruturais do intestino também amplificam o processo
O intestino não é composto apenas por epitélio e células de defesa. Há também o estroma, uma rede de células estruturais e matriz que sustenta o tecido. Fibroblastos e células mesenquimais desse compartimento ajudam a organizar a arquitetura intestinal, a reparação de tecidos e a comunicação entre diferentes células.
A revisão publicada em Frontiers in Immunology em 2026 destaca evidências de que esse estroma pode participar ativamente da inflamação celíaca. Estudos com análise de célula única e transcriptômica espacial identificaram fibroblastos ativados em áreas próximas a células T e IELs citotóxicos, sugerindo que essas células podem recrutar, reter ou ativar componentes do sistema imune no local da lesão.
Um ponto especialmente relevante é o papel da IL-7. Em modelos experimentais com organoides humanos, a exposição à gliadina estimulou a produção de IL-7 principalmente no compartimento mesenquimal semelhante à lâmina própria. Nesses experimentos, a IL-7 aumentou a capacidade citotóxica de IELs CD8+; bloquear a IL-7 ou receptores NKG2C/D reduziu o dano epitelial observado no modelo.
Isso não significa que exista tratamento com bloqueio de IL-7 disponível para doença celíaca. Os resultados ajudam a explicar mecanismos biológicos e apontam possíveis alvos para estudos futuros. A dieta sem glúten rigorosa e permanente continua sendo a única abordagem comprovada para tratar a doença hoje.
A reação em cadeia da lesão celíaca
A doença celíaca não é uma única reação. É uma cascata em que genética, glúten, imunidade e o próprio tecido intestinal interagem.
Atenção, celíacos
A intensidade dos sintomas não mede, sozinha, a atividade da doença. Algumas pessoas podem apresentar poucos sintomas ou nenhum sintoma gastrointestinal e, ainda assim, ter alterações laboratoriais, deficiências nutricionais ou dano intestinal.
Se sintomas persistirem mesmo com dieta sem glúten, não presuma que seja “normal”. É importante investigar contaminação cruzada, ingestão inadvertida de glúten, adesão à dieta, diagnóstico inicial, intolerâncias associadas e outras condições gastrointestinais com o gastroenterologista e nutricionista.
Não comece uma dieta sem glúten antes de concluir a investigação diagnóstica sem orientação profissional. A retirada do glúten pode reduzir anticorpos e alterar a biópsia, dificultando a confirmação da doença.
Como é feito o diagnóstico de doença celíaca?
O diagnóstico deve ser conduzido enquanto a pessoa ainda está consumindo glúten, salvo orientação médica específica. Em geral, a investigação começa com sorologia, especialmente anticorpo anti-transglutaminase tecidual IgA associado à dosagem de IgA total.
Em muitos adultos, a confirmação inclui endoscopia digestiva alta com biópsias do duodeno. Em crianças, protocolos da ESPGHAN admitem diagnóstico sem biópsia em situações específicas: anti-TG2 IgA igual ou superior a 10 vezes o limite superior da normalidade, anticorpo antiendomísio IgA positivo em uma segunda amostra e avaliação por especialista.
| Etapa da investigação | Para que serve | Ponto de atenção |
| Anti-TG2 IgA | Principal teste sorológico inicial | Deve ser interpretado junto à IgA total |
| IgA total | Identifica possível deficiência de IgA | A deficiência pode exigir testes baseados em IgG |
| Antiendomísio IgA | Ajuda a confirmar resposta autoimune | É especialmente relevante em protocolos pediátricos sem biópsia |
| Endoscopia com biópsia | Avalia a mucosa e a arquitetura das vilosidades | A pessoa precisa estar em dieta com glúten, salvo orientação |
| HLA-DQ2/DQ8 | Avalia predisposição genética | É mais útil para excluir do que para confirmar a doença |
A pesquisa pode levar a novos tratamentos?
Sim, mas essa possibilidade ainda pertence ao campo da pesquisa clínica e translacional. Entre as estratégias investigadas estão enzimas para degradar fragmentos do glúten, agentes que interferem na TG2, terapias para modular a permeabilidade intestinal, abordagens que impedem a apresentação de peptídeos por HLA e medicamentos direcionados a vias inflamatórias, como a IL-15.
O avanço no entendimento de IL-7, fibroblastos e outros componentes do estroma amplia esse mapa de possíveis alvos. Mas é essencial diferenciar uma hipótese mecanística de um tratamento pronto: estudos em tecido, organoides ou modelos experimentais não equivalem a eficácia e segurança comprovadas para pacientes.
Hoje, a recomendação prática permanece clara: para quem tem doença celíaca, o tratamento é uma dieta sem glúten estrita, contínua e acompanhada. Isso inclui evitar trigo, cevada, centeio e fontes de contaminação cruzada.
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FAQ – Perguntas frequentes
O glúten destrói diretamente o intestino?
Não. Na doença celíaca, fragmentos do glúten desencadeiam uma resposta imunológica anormal em pessoas predispostas geneticamente. A destruição dos enterócitos é provocada sobretudo por linfócitos intraepiteliais citotóxicos ativados no ambiente inflamatório.
Por que algumas pessoas comem glúten e não desenvolvem doença celíaca?
A doença exige predisposição genética, especialmente HLA-DQ2 ou HLA-DQ8, além de outros fatores imunológicos e ambientais ainda não completamente definidos. Muitas pessoas têm os genes de risco, mas nunca desenvolvem doença celíaca.
O que é transglutaminase tecidual?
A transglutaminase tecidual 2, ou TG2, é uma enzima do organismo. Na doença celíaca, ela modifica peptídeos do glúten, facilitando seu reconhecimento pelas células de defesa. Os anticorpos anti-TG2 são usados como marcadores importantes na investigação diagnóstica.
O que são linfócitos intraepiteliais?
São células imunes localizadas entre as células que revestem o intestino. Na doença celíaca ativa, podem aumentar em número e se tornar mais citotóxicas, contribuindo para a lesão do epitélio e a atrofia das vilosidades.
A doença celíaca pode causar lesão mesmo sem sintomas?
Sim. Algumas pessoas podem não apresentar sintomas digestivos claros e, ainda assim, ter atividade imunológica, alterações nutricionais ou lesão intestinal. Por isso, o seguimento médico não deve depender apenas da presença ou ausência de desconforto.
A IL-7 já é um tratamento para doença celíaca?
Não. A IL-7 é uma via em investigação científica. Estudos experimentais sugerem que ela pode participar da ativação de células que lesionam o epitélio, mas não existe tratamento aprovado que bloqueie IL-7 especificamente para doença celíaca.
Enzimas, suplementos ou probióticos permitem comer glúten
Não há evidência de que enzimas digestivas, probióticos ou suplementos protejam com segurança pessoas com doença celíaca contra a ingestão de glúten. A dieta sem glúten rigorosa segue sendo necessária.
Posso retirar o glúten antes de fazer os exames?
Não faça isso sem orientação médica. A retirada prévia do glúten pode reduzir a positividade dos anticorpos e melhorar alterações da mucosa, tornando mais difícil confirmar ou excluir doença celíaca.
Conclusão
A lesão intestinal na doença celíaca é o resultado de uma reação em cadeia.
O glúten inicia o processo, a predisposição genética permite que determinados fragmentos sejam apresentados ao sistema imunológico e células T coordenam uma resposta inflamatória que transforma os linfócitos intraepiteliais em agentes de dano ao epitélio.
A ciência vem mostrando que esse processo não envolve apenas o glúten e as células de defesa. O próprio tecido intestinal, incluindo células estromais e sinais como a IL-7, pode participar da amplificação da inflamação.
Esse conhecimento abre caminhos para novas pesquisas e possíveis terapias futuras, mas não substitui o cuidado que faz diferença agora: diagnóstico correto, dieta sem glúten rigorosa e acompanhamento de longo prazo.
Referências científicas e fontes
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- Celiac Disease Foundation. Treatment and follow-up.
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