A doença celíaca costuma ser lembrada pelos sintomas digestivos, mas pesquisas também investigam sua relação com a saúde cardiovascular. Uma grande análise de adultos do Reino Unido encontrou maior risco de eventos cardiovasculares em pessoas com a condição, mesmo quando elas apresentavam um perfil mais favorável de alguns fatores tradicionais de risco.
Esse resultado merece atenção, mas exige uma distinção: evidências sobre infarto e doença isquêmica do coração não demonstram, automaticamente, maior risco de obstrução das artérias das pernas ou de complicações após uma cirurgia vascular. Uma revisão brasileira publicada em 2025 discute essas possibilidades, reconhecendo que a evidência específica ainda é limitada.
Entender onde estão os dados mais consistentes — e onde permanecem as dúvidas — ajuda a cuidar da saúde sem transformar hipóteses em motivo de alarme.
Doença celíaca aumenta o risco de problemas de circulação?
Pesquisas observacionais identificaram uma associação entre doença celíaca e maior risco de alguns eventos cardiovasculares. Isso não prova que a condição seja a causa direta desses eventos. Para doença arterial periférica, que compromete a circulação principalmente nas pernas, e para resultados de cirurgias vasculares em celíacos, as conclusões precisam ser mais cautelosas: a revisão brasileira apresentada como ponto de partida reconhece limitações e riscos ainda teóricos.
Na prática, o diagnóstico de doença celíaca não significa que a pessoa tenha artérias obstruídas nem determina necessidade de cirurgia. A investigação vascular depende de sintomas, exame clínico e fatores de risco, e o tratamento depende da confirmação e da gravidade da doença arterial.
O que é a doença arterial periférica?
A doença arterial periférica, também chamada de DAP, compromete o fluxo de sangue nas artérias que irrigam os membros inferiores. Na doença aterosclerótica, placas na parede arterial podem estreitar ou obstruir a passagem do sangue, prejudicando o fornecimento de oxigênio aos tecidos.
Uma manifestação característica é a claudicação: dor, cansaço, câimbra ou desconforto muscular que aparece ao caminhar e melhora com o repouso. O incômodo pode ocorrer na panturrilha, na coxa ou nas nádegas. Entretanto, nem todas as pessoas apresentam esse padrão, e algumas não relatam sintomas nas pernas.
Em quadros mais graves, a circulação insuficiente pode provocar dor em repouso, feridas que não cicatrizam e gangrena. Essas manifestações exigem avaliação especializada e não devem ser confundidas com um desconforto comum após esforço.
Entre os fatores que ajudam a identificar pessoas com maior risco estão:
- Idade avançada.
- Tabagismo.
- Diabetes.
- Hipertensão arterial.
- Alterações do colesterol.
- Doença renal crônica.
- Aterosclerose já identificada em outras artérias.
O que a pesquisa brasileira diz sobre doença celíaca e cirurgia vascular?
O artigo “Doença celíaca e cirurgia vascular: cirurgia para doença arterial periférica em pacientes com doença celíaca” foi publicado em 3 de junho de 2025 na Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. Assinado por Allan Rafael de Sena Ribeiro e colaboradores, apresenta-se como uma revisão sistemática voltada à possível relação entre doença celíaca, gravidade da DAP e resultados do tratamento cirúrgico.
Segundo o resumo, os autores pesquisaram as bases PubMed, SciELO e Web of Science, buscando estudos dos dez anos anteriores. O trabalho discute a possibilidade de a inflamação crônica e as deficiências nutricionais associadas à doença celíaca não tratada contribuírem para alterações vasculares.
No contexto das operações, os autores levantam preocupações com cicatrização e com a manutenção do fluxo nos enxertos vasculares. Mas o próprio resumo caracteriza parte dessas preocupações como riscos teóricos e reconhece que a evidência é limitada.
Essa ressalva muda a interpretação jornalística: a publicação chama atenção para uma questão clínica que merece investigação, mas não deve ser apresentada como comprovação de que pacientes celíacos tenham mais falhas de enxertos, amputações ou complicações pós-operatórias.
Além disso, o resumo disponível na página não informa quantos estudos foram incluídos nem apresenta estimativas numéricas desses desfechos. Sem esses elementos, não é possível atribuir uma magnitude ao eventual risco cirúrgico com base apenas nessa página.
Uma grande pesquisa encontrou maior risco cardiovascular — mas não avaliou tudo isso
Uma análise prospectiva do UK Biobank acompanhou 469.095 adultos, dos quais 2.083 tinham doença celíaca. Os participantes tinham entre 40 e 69 anos na entrada do estudo e não apresentavam doença cardiovascular no início do acompanhamento.
Ao longo de uma mediana de 12,4 anos, ocorreram 40.687 eventos cardiovasculares, incluindo 218 entre pessoas com doença celíaca. A condição foi associada a uma razão de riscos de 1,27, com intervalo de confiança de 95% de 1,11 a 1,45 — uma estimativa de risco relativo 27% maior no modelo relatado.
Após ajustes adicionais para outros fatores de risco cardiovascular, a estimativa passou a 1,44. Os pesquisadores também observaram associações para doença isquêmica do coração e infarto, mas não encontraram evidência de associação com acidente vascular cerebral nessa análise.
Há três cuidados importantes para interpretar esses números:
- Um risco relativo 27% maior não significa que 27% das pessoas com doença celíaca terão um evento cardiovascular.
- Por ser observacional, o estudo identifica uma associação, não uma relação comprovada de causa e efeito.
- Esses resultados não fornecem, por si só, uma estimativa de risco de DAP ou de complicações de cirurgia vascular em celíacos.
O achado reforça a importância de avaliar a saúde cardiovascular dessa população. Não autoriza, porém, a conclusão de que todas as manifestações vasculares tenham o mesmo aumento de risco.
Inflamação e deficiências nutricionais explicam essa relação?
A revisão brasileira propõe a inflamação crônica e as deficiências decorrentes da má absorção como possíveis componentes da relação entre doença celíaca e alterações vasculares. Também sugere atenção ao estado nutricional e inflamatório no planejamento cirúrgico.
São hipóteses biologicamente relevantes, mas é necessário separar três níveis de evidência:
| Questão | O que as fontes permitem afirmar |
| Existe associação com eventos cardiovasculares? | A grande coorte do UK Biobank encontrou associação, sobretudo para doença isquêmica do coração e infarto. ukbiobank.ac |
| Está comprovado que a doença celíaca acelera a obstrução das artérias das pernas? | A revisão brasileira sugere essa possibilidade, mas reconhece evidência limitada. periodicorease.pro |
| Está comprovado que celíacos têm pior resultado de cirurgia vascular? | O resumo apresenta preocupações teóricas, sem estimativas numéricas que sustentem essa conclusão. periodicorease.pro |
| A dieta sem glúten comprovadamente evita infarto, DAP ou falha de enxerto? | Estudos sobre fatores de risco não estabelecem, por si só, prevenção desses desfechos clínicos. onlinelibrary.wiley |
Assim, não é adequado atribuir qualquer dor nas pernas à inflamação da doença celíaca ou presumir uma deficiência nutricional sem avaliação.
A dieta sem glúten protege o coração e as artérias?
A revisão brasileira destaca a adesão à dieta isenta de glúten no manejo da doença celíaca e sugere que ela pode atenuar parte dos riscos sistêmicos discutidos. Entretanto, isso não equivale à demonstração de que a dieta evite obstruções arteriais ou complicações cirúrgicas.
Uma revisão sistemática com 27 estudos encontrou mudanças em fatores como colesterol, glicemia e índice de massa corporal após a adoção da dieta sem glúten. A qualidade geral dos estudos era baixa, e apenas um tinha grupo de controle. Os autores concluíram que o efeito global sobre o risco cardiovascular permanecia incerto.
Uma meta-análise posterior, com 19 artigos, encontrou melhora de alguns indicadores, incluindo aumento do HDL e redução da pressão arterial sistólica e da proteína C-reativa. Esses resultados dizem respeito a marcadores de risco e inflamação, não à comprovação de menos infartos, amputações ou cirurgias vasculares.
A mensagem é complementar, não concorrente: seguir o tratamento da doença celíaca não dispensa atenção à pressão, ao colesterol, ao diabetes e ao tabagismo. Na presença de doença arterial periférica, esses fatores continuam fazendo parte do cuidado cardiovascular.
Quais sintomas nas pernas merecem avaliação?
O padrão dos sintomas ajuda a orientar a investigação, embora não permita fazer o diagnóstico sozinho. A diretriz vascular de 2024 destaca tanto manifestações durante o esforço quanto sinais de comprometimento mais grave da circulação.
| Sinal ou sintoma | Conduta de atenção |
| Dor, câimbra ou cansaço muscular que aparece repetidamente ao caminhar e melhora ao parar | Procurar avaliação clínica, principalmente quando há fatores de risco cardiovascular. pmc.ncbi.nlm.nih |
| Dor no pé em repouso, especialmente acompanhada de ferida ou alteração de cor | Buscar avaliação médica sem adiar. Pode indicar comprometimento importante da circulação. pmc.ncbi.nlm.nih |
| Ferida nos pés ou nas pernas que não cicatriza | Investigar a circulação e outras possíveis causas com um profissional de saúde. pmc.ncbi.nlm.nih |
| Dor súbita acompanhada de pé frio, palidez, perda de sensibilidade ou fraqueza | Procurar atendimento de emergência imediatamente. Esses sinais podem ocorrer na isquemia aguda do membro. pmc.ncbi.nlm.nih |
A urgência dos sinais súbitos vale para qualquer pessoa, com ou sem doença celíaca.
Como a doença arterial periférica é diagnosticada?
A investigação começa pela história clínica e pelo exame das pernas e dos pés, incluindo a avaliação dos pulsos. Quando há sintomas ou achados sugestivos, um exame inicial importante é o índice tornozelo-braquial, que compara a pressão arterial medida no tornozelo com a do braço.
Outros exames podem ser necessários conforme o resultado inicial e a situação clínica. Quando um procedimento de revascularização está em consideração, a avaliação anatômica das artérias ajuda a definir o planejamento.
O diagnóstico de doença celíaca, isoladamente, não justifica concluir que a pessoa tenha DAP. A diretriz organiza a investigação a partir da suspeita clínica e do perfil de risco vascular.
Quando é necessário um procedimento vascular?
Nem toda pessoa com DAP precisa de cirurgia. O tratamento pode incluir controle dos fatores de risco, medicamentos e exercício estruturado, conforme a apresentação clínica e a avaliação profissional.
Para pessoas com claudicação que limita as atividades, a revascularização pode ser considerada quando o tratamento clínico e o exercício estruturado não oferecem melhora suficiente. Já na isquemia crônica que ameaça o membro, a avaliação para revascularização é importante para preservar os tecidos e reduzir o risco de perda do membro.
A revascularização busca restabelecer o fluxo sanguíneo e pode ser feita por diferentes abordagens:
- Endovascular: procedimentos por cateter, como angioplastia, com ou sem colocação de stent.
- Cirúrgica: operações que podem remover placas ou criar um desvio para o sangue contornar uma obstrução.
- Híbrida: combinação das duas estratégias.
A decisão depende da anatomia das lesões, da gravidade da doença, do estado geral e dos riscos do procedimento. Não decorre apenas da presença de doença celíaca.
Atenção, celíacos: o que informar antes de uma cirurgia vascular
A revisão brasileira propõe uma abordagem multidisciplinar, com atenção ao estado nutricional e ao controle da doença celíaca. A recomendação é pertinente como medida de cuidado individualizado, mas não deve ser confundida com um protocolo cirúrgico específico já comprovado para essa população.
Na consulta pré-operatória, vale comunicar o diagnóstico de doença celíaca, os sintomas atuais e eventuais deficiências nutricionais já identificadas. Essas informações ajudam a equipe a considerar as necessidades do paciente no planejamento do atendimento. A revisão também destaca a possível contribuição de gastroenterologistas e cirurgiões vasculares nesse acompanhamento.
Não se deve presumir que toda pessoa celíaca esteja desnutrida ou tenha dificuldade de cicatrização. No artigo apresentado, essas preocupações aparecem como possibilidades a avaliar, não como características obrigatórias de todos os pacientes.
Leia mais no Eu Celíaca
-
Deficiências nutricionais na doença celíaca: o que monitorar no diagnóstico e no seguimento?
-
Impacto da dieta sem glúten: o que muda na vida de pessoas celíacas em cada fase da vida
-
Glúten e coração: o que uma pesquisa com 2,2 milhões de pessoas revelou
FAQ – Perguntas frequentes
Doença celíaca causa má circulação?
Há evidência observacional de associação com alguns eventos cardiovasculares, mas isso não comprova que a doença celíaca cause diretamente “má circulação”. A relação específica com doença arterial periférica ainda exige cautela.
Dor na panturrilha pode indicar artéria obstruída?
Pode, especialmente quando surge ao caminhar e melhora com o repouso. Esse padrão é compatível com claudicação, mas precisa de avaliação clínica para confirmar a origem vascular.
Quem tem doença celíaca precisa fazer exames vasculares de rotina?
As fontes consultadas não sustentam uma recomendação universal de exames vasculares apenas por causa do diagnóstico de doença celíaca. A investigação deve considerar sintomas, exame físico e fatores de risco.
A dieta sem glúten evita infarto?
Os estudos citados sobre dieta avaliam principalmente mudanças em fatores de risco. Não demonstram que seguir a dieta, isoladamente, elimine o risco de infarto ou substitua o cuidado cardiovascular.
Pessoas celíacas podem fazer cirurgia vascular?
O diagnóstico, por si só, não determina a indicação nem impede concluir que um procedimento possa ser necessário. A decisão deve considerar a doença vascular e as condições individuais; a revisão brasileira propõe atenção adicional ao estado nutricional e ao acompanhamento multidisciplinar.
Qual sintoma exige atendimento imediato?
Dor súbita na perna ou no pé acompanhada de frio, palidez, perda de sensibilidade ou fraqueza exige atendimento de emergência, pela possibilidade de redução aguda do fluxo sanguíneo.
Conclusão
As pesquisas justificam incluir a saúde cardiovascular no acompanhamento de pessoas com doença celíaca. Uma grande coorte encontrou maior risco de alguns eventos, mas as evidências específicas sobre artérias das pernas e resultados de cirurgias vasculares ainda não permitem afirmações amplas.
O caminho mais útil é reconhecer sintomas, avaliar os fatores tradicionais de risco e individualizar o cuidado. Para quem precisa de um procedimento vascular, a doença celíaca deve fazer parte das informações clínicas — sem pressupor complicações que os estudos ainda não demonstraram.
Referências científicas e fontes
- Ribeiro e colaboradores. Doença celíaca e cirurgia vascular: cirurgia para doença arterial periférica em pacientes com doença celíaca. REASE, 2025. Fonte que motivou a pauta.
- Association between coeliac disease and cardiovascular disease: prospective analysis of UK Biobank data. Coorte utilizada para contextualizar a associação cardiovascular, sem extrapolá-la para resultados cirúrgicos periféricos. Registro identificado pelo PMID 36936262.
- Diretriz multissocietária ACC/AHA de 2024 para doença arterial periférica dos membros inferiores. Publicada em Circulation;149(24):e1313–e1410. PMID 38743805. Fonte para sintomas, investigação e indicações de revascularização.
- Effect of the gluten-free diet on cardiovascular risk factors in patients with coeliac disease: a systematic review. Fonte para as limitações das evidências sobre dieta e risco cardiovascular.
- Impact of gluten-free diet (GFD) on some of cardiovascular risk factors: a systematic review and meta-analysis. Fonte complementar sobre mudanças em marcadores cardiometabólicos. Cambridge.
- 2024 ACC/AHA/AACVPR/APMA/ABC/SCAI/SVM/SVN/SVS/SIR/SIR/VESS Diretrizes para o Manejo da Doença das Artérias Periféricas dos Membros Inferiores: Relatório do Comitê Conjunto de Diretrizes de Prática Clínica do American College of Cardiology/American Heart Association – PMC
Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada. Esta matéria foi elaborada com base em artigos científicos indexados no PubMed e outros artigos cientificos e dos testes, além de diretrizes internacionais e revisões de alto nível de evidência. O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Eu Celíaca©. Todos os direitos reservados. Reprodução parcial ou total permitida somente com citação da fonte e link para o conteúdo original.











