Pesquisa publicada em outubro de 2026 identificou sintomas compatíveis com distúrbios da interação intestino-cérebro em 64,8% dos celíacos avaliados, mesmo após pelo menos um ano de dieta sem glúten. A síndrome do intestino irritável apresentou a associação mais forte, reforçando a necessidade de investigar outras causas para os sintomas persistentes.
Dor abdominal, gases, distensão, diarreia e alterações no funcionamento intestinal são manifestações conhecidas da doença celíaca. Para muitos pacientes, esses sintomas diminuem ou desaparecem depois do início da dieta sem glúten. Entretanto, nem sempre isso acontece. Algumas pessoas continuam enfrentando desconfortos digestivos mesmo depois de meses ou anos de tratamento.
A persistência dos sintomas costuma provocar dúvidas e preocupação. Será que existe contaminação cruzada? O intestino ainda não se recuperou? Ou seria possível desenvolver outra condição gastrointestinal além da doença celíaca?
Uma pesquisa publicada em outubro de 2026 no United European Gastroenterology Journal traz novos dados para essa discussão. Ao avaliar 1.001 adultos com doença celíaca que seguiam uma dieta sem glúten havia pelo menos um ano, os pesquisadores descobriram que quase 65% apresentavam perfis de sintomas compatíveis com distúrbios da interação intestino-cérebro.
A síndrome do intestino irritável (SII) apresentou a associação mais forte com a doença celíaca, mas não foi a única condição investigada.
Os resultados reforçam uma questão importante: continuar apresentando sintomas intestinais não significa necessariamente que a dieta sem glúten esteja falhando ou que o paciente tenha desenvolvido doença celíaca refratária. Existem outras condições que podem coexistir com a doença celíaca e precisam ser consideradas na avaliação médica.
Pessoas celíacas têm maior chance de apresentar síndrome do intestino irritável?
Sim. Uma pesquisa publicada em 2026 encontrou associação significativa entre doença celíaca e sintomas compatíveis com síndrome do intestino irritável (SII), com razão de chances ajustada de 4,5 em comparação à população de referência.
Entre os 1.001 adultos celíacos avaliados, 64,8% preencheram critérios sintomáticos para pelo menos um distúrbio da interação intestino-cérebro.
Esse percentual, porém, não corresponde exclusivamente à SII e não representa diagnósticos clínicos confirmados. A pesquisa também não conseguiu excluir completamente outras causas dos sintomas, como a exposição involuntária ao glúten.
Novo estudo de 2026 avaliou 1.001 celíacos em dieta sem glúten
A pesquisa Symptom Profiles Compatible With Disorders of Gut-Brain Interaction in Individuals With Coeliac Disease on a Long-Term Gluten-Free Diet foi desenvolvida por pesquisadores ligados a instituições da Suécia, Holanda, Estados Unidos e outros centros internacionais.
Os pesquisadores procuravam compreender a frequência de sintomas compatíveis com os chamados distúrbios da interação intestino-cérebro, conhecidos pela sigla DGBI (disorders of gut-brain interaction), em pessoas que já tratavam a doença celíaca por meio da alimentação.
Para isso, integrantes adultos da Associação Holandesa de Celíacos responderam a um questionário on-line que investigava sintomas gastrointestinais, sofrimento psicológico, manifestações físicas não digestivas e qualidade de vida.
Foram incluídas apenas pessoas que relataram seguir uma dieta sem glúten havia pelo menos um ano.
A pesquisa reuniu 1.001 participantes, dos quais 79,3% eram mulheres. A idade mediana era de 50 anos.
Os resultados foram comparados com os de uma amostra de referência da população holandesa.A avaliação utilizou o questionário diagnóstico Roma IV, instrumento internacional que estabelece critérios padronizados para identificar perfis de sintomas associados a diferentes distúrbios gastrointestinais.
O objetivo não era investigar uma nova forma de doença celíaca, mas descobrir se outras condições poderiam ajudar a explicar a persistência de manifestações digestivas mesmo durante o tratamento dietético.
Quase 65% dos celíacos apresentaram sintomas compatíveis com distúrbios intestino-cérebro
O principal resultado foi a elevada frequência de perfis de sintomas compatíveis com esses distúrbios entre os participantes celíacos.
De acordo com o estudo de van Gils e colaboradores, 64,8% dos pacientes com doença celíaca preencheram critérios para pelo menos um distúrbio da interação intestino-cérebro.
Na população de referência, esse percentual foi de 31,3%.
| Resultado analisado | Celíacos | População de referência |
| Perfis de sintomas compatíveis com pelo menos um distúrbio da interação intestino-cérebro | 64,8% | 31,3% |
| Razão de chances ajustada para pelo menos um desses perfis | 3,2 | Referência |
| Razão de chances ajustada para síndrome do intestino irritável | 4,5 | Referência |
Fonte: van Gils et al., 2026. Os percentuais abrangem diferentes distúrbios da interação intestino-cérebro, não apenas SII. As razões de chances foram ajustadas para possíveis fatores de confusão.
Após os ajustes estatísticos, a razão de chances de apresentar sintomas compatíveis com pelo menos um desses distúrbios foi de 3,2, com intervalo de confiança de 95% entre 2,6 e 3,8.
Isso significa que, na população estudada, os participantes celíacos apresentaram chances estatísticas mais elevadas de preencher esses critérios do que as pessoas do grupo de referência.
É importante não confundir razão de chances com risco absoluto de desenvolver uma doença.
A pesquisa foi transversal, ou seja, avaliou as informações em um determinado momento. Portanto, não permite estabelecer se a doença celíaca provocou os distúrbios identificados ou se outras características dos participantes contribuíram para os resultados.
Síndrome do intestino irritável apresentou a associação mais forte
Entre as condições investigadas, a síndrome do intestino irritável se destacou.A razão de chances ajustada foi de 4,5, com intervalo de confiança de 95% entre 3,3 e 6,2.
O resultado indica uma associação estatisticamente importante entre doença celíaca e sintomas compatíveis com SII.
Entretanto, isso não significa que a síndrome do intestino irritável tenha sido diagnosticada em 64,8% dos pacientes.
Os quase 65% correspondem ao conjunto de perfis sintomáticos compatíveis com diferentes distúrbios da interação intestino-cérebro.
A SII foi a condição que apresentou a associação mais expressiva na comparação com o grupo de referência.
Essa distinção é fundamental porque os distúrbios da interação intestino-cérebro incluem condições que podem afetar diferentes regiões do sistema digestivo, e não apenas aquelas relacionadas ao funcionamento intestinal.
O que são distúrbios da interação intestino-cérebro?
Os distúrbios da interação intestino-cérebro envolvem alterações na comunicação entre o sistema nervoso e o aparelho digestivo.
O intestino possui uma extensa rede de neurônios e mantém comunicação constante com o sistema nervoso central. Essa interação participa do controle dos movimentos intestinais, da sensibilidade, das secreções digestivas e da percepção de sinais internos do organismo.
Segundo a Rome Foundation, organização internacional responsável pelos critérios de Roma, esses distúrbios podem envolver alterações na motilidade gastrointestinal, maior sensibilidade visceral, mudanças na microbiota intestinal, mecanismos imunológicos e diferentes formas de processamento dos sinais pelo sistema nervoso.
Entre as condições incluídas nessa classificação estão a síndrome do intestino irritável, a dispepsia funcional, a constipação funcional e determinados transtornos associados à evacuação.
Diferentemente da doença celíaca, que envolve uma resposta autoimune ao glúten e pode provocar lesões na mucosa do intestino delgado, esses distúrbios não são definidos pela presença de uma lesão intestinal específica.Isso, porém, não significa que os sintomas sejam imaginários ou tenham origem exclusivamente emocional.
A SII pode provocar dor abdominal importante, urgência para evacuar, diarreia, constipação e dificuldades que afetam significativamente a rotina.
Como a síndrome do intestino irritável é identificada?
Os critérios de Roma IV caracterizam a SII pela presença de dor abdominal recorrente, relacionada à evacuação ou acompanhada de alterações na frequência ou na consistência das fezes.
Na definição utilizada para adultos, a dor deve ocorrer, em média, pelo menos um dia por semana nos últimos três meses, com início dos sintomas há pelo menos seis meses.
A condição pode ser classificada conforme o padrão predominante das evacuações, incluindo SII com diarreia, com constipação, mista ou não classificada.
Entretanto, em pessoas com doença celíaca, preencher os critérios sintomáticos de SII não elimina a necessidade de investigar outras causas.
A inflamação intestinal ativa, a contaminação por glúten e algumas condições gastrointestinais podem produzir manifestações semelhantes.
Por essa razão, os pesquisadores de 2026 utilizaram a expressão “perfis de sintomas compatíveis”, evitando apresentar todos os resultados dos questionários como diagnósticos clínicos definitivos.
Associação entre doença celíaca e distúrbios intestinais já havia sido identificada em estudo de 2024
A associação entre doença celíaca e distúrbios da interação intestino-cérebro não aparece pela primeira vez na literatura científica.
Em 2024, uma pesquisa internacional publicada no United European Gastroenterology Journal analisou dados de 54.127 adultos de 26 países, incluindo o Brasil, e encontrou maior frequência de sintomas compatíveis com esses distúrbios entre pessoas que relatavam doenças gastrointestinais, incluindo a doença celíaca.
O estudo fez parte do projeto internacional de epidemiologia da Rome Foundation, que reuniu informações sobre sintomas digestivos, condições clínicas e qualidade de vida em diferentes populações.
Entre todos os participantes, 323 informaram ter recebido diagnóstico médico de doença celíaca.
Os pesquisadores analisaram a relação entre doenças gastrointestinais orgânicas e a presença simultânea de perfis sintomáticos compatíveis com distúrbios da interação intestino-cérebro.
Uma das associações mais expressivas foi identificada entre doença celíaca e incontinência fecal.
Na análise inicial, a razão de chances foi de 6,94, com intervalo de confiança de 95% entre 4,95 e 9,73.
Depois dos ajustes para fatores como idade, sexo, índice de massa corporal, sofrimento psicológico e sintomas físicos não gastrointestinais, a associação diminuiu, mas permaneceu estatisticamente significativa, com razão de chances ajustada de 4,84.
Os resultados completos estão disponíveis no artigo científico publicado em 2024, com acesso integral pelo PubMed Central.
É importante observar que a pesquisa utilizou diagnósticos informados pelos próprios participantes. Não houve confirmação sistemática da doença celíaca por exames laboratoriais ou biópsias no contexto do levantamento.
Além disso, o estudo não investigou especificamente pacientes que seguiam uma dieta sem glúten havia vários anos.
É justamente nesse ponto que o novo estudo de 2026 acrescenta informações.
Ao concentrar a análise em 1.001 adultos celíacos que relatavam manter a dieta sem glúten havia pelo menos um ano, os pesquisadores identificaram uma associação expressiva com diferentes distúrbios da interação intestino-cérebro, especialmente com a síndrome do intestino irritável.
Os dois trabalhos reforçam a possibilidade de coexistência entre doenças gastrointestinais orgânicas e alterações funcionais do aparelho digestivo.
Entretanto, os resultados não demonstram que uma condição necessariamente cause a outra. Também não comprovam que os sintomas encontrados estejam completamente separados da atividade da doença celíaca.
Estudo também encontrou pior qualidade de vida e maior sofrimento psicológico
Além dos sintomas digestivos, a pesquisa de 2026 investigou aspectos relacionados à saúde emocional e ao bem-estar dos participantes.
Segundo os resultados publicados no United European Gastroenterology Journal, pessoas celíacas com perfis de sintomas compatíveis com distúrbios da interação intestino-cérebro também apresentaram maior sofrimento psicológico, mais sintomas físicos não gastrointestinais e pior qualidade de vida.
A associação foi semelhante à observada na população de referência.
Esse resultado não significa que ansiedade ou depressão sejam necessariamente a causa dos sintomas intestinais.
A relação entre alterações gastrointestinais e sofrimento psicológico pode envolver diferentes mecanismos, inclusive efeitos da própria intensidade e persistência dos sintomas sobre a vida cotidiana.
Dor abdominal frequente, episódios imprevisíveis de diarreia ou dificuldade para participar de atividades sociais podem representar limitações importantes, independentemente da origem do problema.
O estudo internacional de 2024 já havia encontrado uma associação semelhante: pessoas com doenças gastrointestinais e perfis sintomáticos compatíveis com distúrbios intestino-cérebro relatavam maior sofrimento psicológico e menor qualidade de vida do que participantes com a mesma doença orgânica, mas sem esses perfis.
Os resultados reforçam que o acompanhamento clínico precisa considerar não apenas exames e sintomas isolados, mas também o impacto das manifestações na vida do paciente.
Sintomas persistentes não significam necessariamente doença celíaca refratária
Uma preocupação comum entre pessoas celíacas é a possibilidade de que a persistência dos sintomas indique doença celíaca refratária.
Entretanto, as duas situações não são equivalentes.
A doença celíaca refratária é uma condição rara e potencialmente grave, caracterizada pela persistência ou recorrência de manifestações de má absorção e atrofia das vilosidades intestinais apesar de uma dieta rigorosa sem glúten, após investigação e exclusão de outras causas.
De acordo com a atualização clínica da American Gastroenterological Association (AGA), publicada em 2022, pacientes com sintomas persistentes devem passar por uma investigação organizada antes que o diagnóstico de doença celíaca refratária seja considerado.
Essa avaliação inclui confirmar o diagnóstico original, investigar exposição contínua ao glúten e verificar a possibilidade de outras doenças.
Entre as condições mencionadas pela AGA estão os distúrbios funcionais intestinais, a colite microscópica, a insuficiência pancreática, a intolerância à lactose ou frutose e o supercrescimento bacteriano do intestino delgado.
Qual é a diferença entre SII e doença celíaca refratária?
| Característica | Síndrome do intestino irritável | Doença celíaca refratária |
| Natureza da condição | Distúrbio da interação intestino-cérebro | Complicação da doença celíaca |
| Sintomas possíveis | Dor abdominal, diarreia, constipação e distensão | Diarreia persistente, manifestações de má absorção, perda de peso e alterações nutricionais |
| Lesão intestinal | Não exige atrofia das vilosidades para o diagnóstico | Envolve persistência de atrofia vilositária após exclusão de outras causas |
| Diagnóstico | Avaliação clínica, critérios sintomáticos e investigação direcionada | Avaliação especializada, biópsias intestinais e exames complementares |
| Tratamento | Individualizado, conforme o padrão dos sintomas | Acompanhamento especializado e tratamento específico, além da dieta sem glúten |
Fontes:
A distinção é especialmente importante porque a presença de sintomas não permite determinar, isoladamente, se existe inflamação intestinal ativa.
Uma pessoa pode apresentar dor, distensão e alterações intestinais por outra condição, mesmo após a recuperação da mucosa.
Por outro lado, também é possível apresentar alterações intestinais associadas à doença celíaca sem sintomas intensos.
As diretrizes britânicas atualizadas em 2026 ressaltam que a avaliação da cicatrização intestinal depende da análise histológica quando há necessidade clínica de verificar a persistência de inflamação.
Portanto, não seria correto utilizar os 64,8% encontrados no novo estudo como estimativa de doença celíaca refratária, de falha na dieta ou de lesão intestinal persistente.
O que pode explicar os sintomas intestinais mesmo após retirar o glúten?
A dieta sem glúten é indispensável para o tratamento da doença celíaca, mas não elimina automaticamente todas as possíveis causas de sintomas digestivos.
As orientações da AGA e as diretrizes britânicas de 2026 recomendam considerar diferentes hipóteses quando os sintomas continuam ou reaparecem durante o tratamento.
| Possível causa | Manifestações que podem ocorrer | Conduta que pode ser considerada |
| Exposição involuntária ao glúten | Diarreia, dor abdominal, distensão ou até ausência de sintomas | Revisão detalhada da dieta, da contaminação cruzada e do acompanhamento da doença celíaca |
| Síndrome do intestino irritável | Dor abdominal relacionada à evacuação, diarreia, constipação ou alternância entre ambas | Avaliação dos critérios clínicos e exclusão direcionada de outras causas |
| Intolerância à lactose | Gases, distensão, cólicas e diarreia após consumo de lactose | Avaliação da relação com alimentos e testes quando indicados |
| Supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO) | Distensão, gases, dor e alterações do hábito intestinal | Investigação individualizada, considerando fatores de risco e limitações dos testes |
| Colite microscópica | Diarreia aquosa crônica, frequentemente sem sangue | Colonoscopia com biópsias quando houver indicação clínica |
| Insuficiência pancreática exócrina | Diarreia, fezes gordurosas, perda de peso ou má absorção | Avaliação clínica e exames específicos, conforme suspeita |
| Doença celíaca refratária | Sintomas de má absorção e atrofia vilositária persistente | Investigação em serviço especializado após exclusão de causas mais comuns |
Fontes: AGA Clinical Practice Update, 2022 e British Society of Gastroenterology, 2026. A tabela apresenta possibilidades de investigação, não diagnósticos que possam ser definidos apenas pelos sintomas.
O novo estudo de 2026 acrescenta a importância de considerar também os distúrbios da interação intestino-cérebro, especialmente quando outras causas já foram adequadamente investigadas.
Entretanto, os pesquisadores reconhecem que não conseguiram excluir a exposição contínua ao glúten nem todas as condições clínicas que poderiam produzir sintomas semelhantes.
Essa limitação impede afirmar que os 64,8% representem exclusivamente distúrbios funcionais independentes da doença celíaca.
Ensaio clínico com 70 celíacos mostrou melhora de sintomas com redução de FODMAPs
Uma das questões que surgem diante desses resultados é como tratar os pacientes que continuam apresentando sintomas digestivos mesmo depois de controlar adequadamente a doença celíaca.
Um ensaio clínico randomizado publicado em 2022 na revista Clinical Gastroenterology and Hepatology investigou uma estratégia alimentar específica.
A pesquisa incluiu 70 adultos com doença celíaca confirmada por biópsia, que seguiam uma dieta sem glúten havia pelo menos 12 meses e apresentavam sintomas gastrointestinais persistentes.
Diferentemente do estudo de 2026, os pesquisadores selecionaram pacientes que apresentavam remissão sorológica e da lesão da mucosa intestinal.
Os participantes foram divididos em dois grupos.
O primeiro, com 34 pessoas, recebeu orientação para seguir uma dieta sem glúten com redução moderada de FODMAPs. O segundo, com 36 participantes, manteve sua dieta sem glúten habitual.
FODMAPs são carboidratos fermentáveis presentes em diferentes alimentos. Em pessoas suscetíveis, podem contribuir para distensão, produção de gases e alterações intestinais.
Depois de quatro semanas, o grupo que reduziu os FODMAPs apresentou melhora significativamente maior dos sintomas gastrointestinais.
A diferença média entre os grupos na pontuação do questionário GSRS-IBS foi de -10,8 pontos na quarta semana, com intervalo de confiança de 95% entre -14,8 e -6,8.
Os pesquisadores observaram melhora em manifestações como dor abdominal, distensão, diarreia e sensação de saciedade. Entretanto, não houve diferença estatisticamente significativa para constipação.
O resultado indica que, em pacientes selecionados, uma intervenção alimentar adicional pode ajudar a controlar sintomas que persistem mesmo após a recuperação da mucosa intestinal.Mas não significa que toda pessoa celíaca deva adotar uma dieta com baixo teor de FODMAPs.
Dieta com baixo teor de FODMAPs não substitui a dieta sem glúten
A redução de FODMAPs é uma estratégia diferente da exclusão do glúten.
Enquanto a dieta sem glúten é necessária para controlar a resposta autoimune da doença celíaca, a redução dos FODMAPs procura diminuir sintomas digestivos associados à fermentação e à sensibilidade intestinal.
Alguns alimentos naturalmente sem glúten também contêm FODMAPs. Por isso, uma alimentação sem glúten não é necessariamente pobre nesses carboidratos.
Além disso, a dieta com baixo teor de FODMAPs envolve restrições adicionais e costuma exigir fases de redução temporária, reintrodução e personalização alimentar.
Sua utilização sem acompanhamento pode reduzir desnecessariamente a variedade da alimentação e dificultar o consumo adequado de nutrientes.
Um estudo complementar publicado em 2023 no British Journal of Nutrition também investigou efeitos dessa estratégia sobre a microbiota intestinal em pessoas celíacas tratadas que apresentavam sintomas persistentes.
Assim, a evidência disponível aponta para uma possível opção terapêutica em situações selecionadas, mas não autoriza a recomendação indiscriminada de novas restrições alimentares.
O que as diretrizes médicas de 2026 recomendam aos celíacos com sintomas persistentes?
O documento reconhece que os sintomas podem ter múltiplas causas e que condições não relacionadas diretamente à atividade da doença celíaca, como a síndrome do intestino irritável, podem coexistir com o diagnóstico.
A diretriz também afirma que até cerca de um terço dos pacientes pode continuar apresentando sintomas apesar de relatar adesão à dieta sem glúten.
Esse número não deve ser confundido com os 64,8% da pesquisa holandesa.
As duas informações utilizam definições diferentes. A estimativa mencionada na diretriz se refere à persistência de sintomas durante o acompanhamento clínico, enquanto a pesquisa de 2026 identificou perfis sintomáticos por meio de questionários de Roma IV, sem confirmar que todos representassem sintomas residuais da doença celíaca.
As diretrizes destacam que nenhuma avaliação isolada é suficiente para determinar com segurança a adesão à dieta ou a recuperação da mucosa intestinal.
Por isso, recomendam uma abordagem combinada, incluindo avaliação especializada da alimentação, investigação clínica, exames adequados e, quando necessário, biópsias intestinais.
A AGA também orienta que outras causas sejam investigadas depois de avaliar o diagnóstico de doença celíaca e a possível exposição contínua ao glúten.
Na prática, isso significa que o acompanhamento precisa considerar tanto a atividade da doença autoimune quanto a possibilidade de condições associadas.
Atenção, celíacos: ter sintomas não significa que você esteja ingerindo glúten
Para quem convive com a doença celíaca, um episódio de dor abdominal ou diarreia pode provocar preocupação imediata com a possibilidade de contaminação cruzada.
Essa hipótese precisa ser considerada, porque a exposição involuntária ao glúten pode manter a inflamação intestinal ativa.
Entretanto, nem toda dor abdominal, distensão ou alteração nas evacuações significa que houve ingestão de glúten.
Os novos estudos mostram que pessoas celíacas também podem apresentar condições gastrointestinais que exigem avaliação e tratamento próprios.
Isso não diminui a importância da dieta rigorosamente sem glúten. Pelo contrário, reforça a necessidade de manter o tratamento enquanto outras causas são investigadas.
Também não é adequado concluir que a presença de sintomas persistentes representa, automaticamente, doença celíaca refratária.
O mais importante é evitar tanto a banalização dos sintomas quanto a realização de restrições alimentares cada vez maiores sem diagnóstico.
Quando os sintomas persistem, pioram ou aparecem acompanhados de sinais como perda de peso involuntária, sangue nas fezes, anemia ou manifestações importantes de má absorção, a avaliação médica não deve ser adiada.
O objetivo é identificar o que realmente está acontecendo, sem atribuir todos os problemas intestinais exclusivamente ao glúten.
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FAQ: dúvidas sobre doença celíaca, síndrome do intestino irritável e sintomas persistentes
Quem tem doença celíaca pode desenvolver síndrome do intestino irritável?
Sim. As duas condições podem coexistir. Uma pesquisa publicada em 2026 com 1.001 adultos celíacos encontrou associação significativa entre doença celíaca e sintomas compatíveis com SII. Entretanto, a presença desses sintomas precisa ser investigada para excluir outras causas, incluindo a atividade da própria doença celíaca.
Quase 65% dos celíacos têm síndrome do intestino irritável?
Não. O percentual de 64,8% encontrado no estudo de 2026 corresponde a participantes que preencheram critérios sintomáticos para pelo menos um distúrbio da interação intestino-cérebro. A síndrome do intestino irritável apresentou a associação mais forte, mas não corresponde a todos os casos identificados.
Por que continuo com dor abdominal mesmo seguindo dieta sem glúten?
Existem diferentes possibilidades, incluindo exposição involuntária ao glúten, recuperação intestinal incompleta, intolerância à lactose, SIBO, síndrome do intestino irritável e outras condições gastrointestinais. As recomendações da AGA orientam uma investigação organizada para identificar a causa dos sintomas.
Síndrome do intestino irritável pode ser confundida com doença celíaca refratária?
Algumas manifestações podem ser semelhantes, mas as condições são diferentes. A síndrome do intestino irritável é um distúrbio da interação intestino-cérebro. A doença celíaca refratária envolve persistência de enteropatia após tratamento adequado e exclusão de outras causas. O diagnóstico exige avaliação especializada.
É possível ter síndrome do intestino irritável mesmo com a mucosa intestinal recuperada?
Sim. A recuperação da mucosa não impede a coexistência de outras condições. Um ensaio clínico publicado em 2022 avaliou pacientes celíacos com remissão sorológica e histológica que continuavam apresentando sintomas intestinais, demonstrando que determinadas intervenções alimentares podem beneficiar pessoas selecionadas.
A dieta sem glúten também trata a síndrome do intestino irritável?
A dieta sem glúten é o tratamento da doença celíaca, mas não constitui tratamento universal para a SII. Algumas pessoas podem apresentar melhora digestiva ao modificar a alimentação, mas isso não comprova que o glúten seja o responsável pelos sintomas. A conduta depende da avaliação clínica e das características individuais.
Celíacos com SII precisam fazer dieta com baixo teor de FODMAPs?
Não necessariamente. A pesquisa randomizada de 2022 encontrou benefícios com a redução moderada de FODMAPs em um grupo selecionado de celíacos tratados, mas isso não significa que a estratégia seja indicada para todos. O acompanhamento nutricional é importante para evitar restrições desnecessárias.
Exames normais de doença celíaca excluem outras causas dos sintomas intestinais?
Não. Exames relacionados ao acompanhamento da doença celíaca não investigam todas as possíveis causas de dor abdominal, distensão ou alterações intestinais. Além disso, segundo as diretrizes britânicas de 2026, a sorologia isolada não é suficiente para determinar se a mucosa intestinal está completamente recuperada.
Conclusão
A pesquisa publicada em outubro de 2026 acrescentou novos dados à compreensão dos sintomas gastrointestinais em pessoas com doença celíaca que já seguem uma dieta sem glúten.
Ao avaliar 1.001 adultos, os pesquisadores identificaram perfis de sintomas compatíveis com distúrbios da interação intestino-cérebro em 64,8% dos participantes, contra 31,3% na população de referência.
A síndrome do intestino irritável apresentou a associação mais forte, com razão de chances ajustada de 4,5.
Os resultados não surgem isoladamente. Uma investigação internacional publicada em 2024, envolvendo mais de 54 mil pessoas de 26 países, já havia identificado associações entre doença celíaca e diferentes distúrbios gastrointestinais, reforçando a possibilidade de coexistência dessas condições.
Entretanto, os novos dados não significam que quase 65% de todos os celíacos tenham síndrome do intestino irritável, nem que os participantes apresentassem doença celíaca refratária ou lesões intestinais persistentes.
A pesquisa também não conseguiu excluir completamente a ingestão involuntária de glúten e outras condições que podem provocar sintomas semelhantes.
Sua principal contribuição está em ampliar a investigação de pacientes que continuam apresentando desconfortos digestivos durante o tratamento.
A doença celíaca não impede que outros problemas gastrointestinais se desenvolvam, e a persistência dos sintomas não deve ser atribuída automaticamente ao glúten.**
Para os pacientes, isso significa que existe uma razão importante para continuar buscando esclarecimentos quando o desconforto não desaparece. Para os profissionais de saúde, reforça a necessidade de avaliar a atividade da doença celíaca, investigar condições associadas e considerar diferentes mecanismos envolvidos nos sintomas.
A dieta rigorosamente sem glúten continua sendo indispensável. Mas identificar e tratar outras condições que possam coexistir com a doença celíaca também é fundamental para melhorar a qualidade de vida.
Referências científicas e fontes
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- Rome Foundation. Rome IV criteria. Raleigh: Rome Foundation.
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