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Sociedade Americana de Hematologia atualiza diretrizes e eleva pontos de corte da ferritina

novas diretrizes de ferritina

Recomendações de 2026 ampliam os critérios para diagnosticar deficiência de ferro em crianças, adultos e gestantes e orientam uma avaliação específica quando há inflamação.

A Sociedade Americana de Hematologia — American Society of Hematology (ASH) — divulgou novas diretrizes para o diagnóstico da deficiência de ferro em setembro de 2026. A atualização recomenda pontos de corte mais altos para a ferritina em diferentes grupos e reforça que a falta de ferro deve ser investigada mesmo quando ainda não há anemia.

Para a população adulta que não menstrua e não está grávida, por exemplo, a entidade sugere ferritina de até 30 ng/mL, em vez de até 15 ng/mL, como critério diagnóstico. Para crianças de 9 meses a 4 anos, o limite recomendado passa de até 12 para até 20 ng/mL.

A mudança exige atenção à interpretação dos exames: estar dentro da faixa de referência impressa no laudo não significa, necessariamente, ter reservas adequadas de ferro pelos critérios clínicos atuais. Ao mesmo tempo, os novos limites não representam metas universais de tratamento nem autorizam suplementação sem avaliação profissional.

 

 

Antes e depois: o que muda nos pontos de corte da ferritina

A tabela compara os limites mais baixos discutidos no documento técnico da ASH com as recomendações de 2026. Não existia um único critério anterior adotado por todas as instituições: algumas diretrizes e especialidades já utilizavam valores mais altos. Por isso, a comparação não deve ser entendida como uma substituição automática de todas as orientações anteriores.

Grupo ou situação clínica Antes: referência de comparação Depois: orientação da ASH em 2026
Crianças de 9 meses a 4 anos Ferritina ≤12 ng/mL Ferritina ≤20 ng/mL.
Adultos que não menstruam e não estão grávidos Ferritina ≤15 ng/mL Ferritina ≤30 ng/mL.
Pessoas que menstruam Ferritina ≤15 ng/mL Ferritina ≤30 ng/mL; a ASH sugere não utilizar o limite de ≤15 ng/mL.
Gestantes Ferritina <15 ng/mL Ferritina ≤30 ng/mL; a ASH recomenda não utilizar o limite de <15 ng/mL.
Adultos com sintomas ou fatores de risco persistentes, incluindo sangramento menstrual intenso Sem um único limite anterior comparável para todas essas situações Ferritina ≤50 ng/mL pode ser apropriada, conforme o contexto clínico.
Gestantes com anemia e outros fatores de risco ou sintomas de deficiência de ferro Sem um único limite anterior comparável Ferritina <50 ng/mL pode ser apropriada.
Adultos com inflamação A OMS, em 2020, admitia ferritina <70 ng/mL em adultos com infecção ou inflamação Para adultos com anemia de inflamação, a ASH orienta avaliar ferritina e saturação de transferrina conjuntamente.

O comunicado resume os critérios como ferritina <100 ng/mL ou saturação <20%, com limites que podem variar conforme a doença.

Na última linha, a referência anterior é da Organização Mundial da Saúde, não de uma antiga diretriz da ASH. As duas orientações também não abrangem exatamente a mesma população: a OMS menciona adultos com infecção ou inflamação; a recomendação formal da ASH se dirige a adultos com anemia de inflamação.

Os resultados de ferritina podem aparecer em ng/mL ou µg/L, unidades numericamente equivalentes. O símbolo “≤” inclui o valor indicado, enquanto “<” significa abaixo dele.

 

 

Por que a Sociedade Americana de Hematologia recomenda limites mais altos?

A atualização busca reduzir lacunas no diagnóstico. Limites muito baixos podem deixar de identificar pessoas com deficiência de ferro que ainda não chegaram a um estágio mais avançado de redução dos estoques ou não desenvolveram anemia.

Um exemplo ajuda a entender a diferença: um adulto que não menstrua e não está grávido, com ferritina de 25 ng/mL, não se enquadraria no critério de ≤15 ng/mL. Pelo limite de ≤30 ng/mL sugerido pela ASH, esse resultado se enquadra no critério diagnóstico de deficiência de ferro.

O material de implementação da entidade também destaca a diferença entre intervalos laboratoriais de referência e limites de decisão clínica. Os primeiros descrevem uma faixa de resultados; os segundos são utilizados para orientar o reconhecimento de uma condição e as decisões assistenciais. A ASH propõe que os laboratórios considerem os limites clínicos estabelecidos pelas evidências.

 

 

Deficiência de ferro pode existir sem anemia

Um dos pontos centrais das diretrizes é reconhecer a deficiência de ferro independentemente da presença de anemia. As duas condições estão relacionadas, mas não são sinônimos: os estoques podem estar reduzidos antes de a hemoglobina cair o suficiente para caracterizar anemia. [pubmed.ncbi.nlm.nih]()

Isso significa que um hemograma sem anemia não encerra necessariamente a investigação. Conforme os sintomas, os fatores de risco e a história clínica, pode ser necessário avaliar também os estoques e a disponibilidade de ferro.

O documento técnico admite limites mais altos em situações específicas. Sangramento menstrual intenso, sintomas persistentes e fatores de risco podem justificar a utilização de ferritina de até 50 ng/mL no processo diagnóstico. Na gestação com anemia e outros fatores de risco ou sintomas, o documento menciona ferritina abaixo de 50 ng/mL. Essas observações não devem ser transformadas em um critério único para toda a população.

 

 

Inflamação: por que a ferritina não deve ser interpretada sozinha?

A ferritina é utilizada para avaliar as reservas de ferro, mas também pode aumentar em resposta à inflamação. Nessas circunstâncias, um resultado aparentemente adequado pode não excluir deficiência. A diretriz da OMS de 2020 já reconhecia a necessidade de considerar esse efeito na interpretação do exame.

Para adultos com anemia de inflamação, a recomendação formal da ASH é medir ferritina e saturação de transferrina, em vez de utilizar apenas a ferritina. A saturação acrescenta informação sobre a disponibilidade de ferro no organismo.

O comunicado institucional apresenta ferritina <100 ng/mL ou saturação de transferrina <20% como critérios nesse contexto. Entretanto, o documento técnico ressalta que os limites de ferritina podem variar de acordo com a doença e que a anemia de inflamação requer investigação clínica para excluir outras causas.

Portanto, o número 100 não significa que toda pessoa com inflamação precise manter a ferritina acima desse valor. É uma referência diagnóstica contextual, não uma meta universal de reposição de ferro.

 

 

Como as novas diretrizes foram elaboradas?

O artigo “American Society of Hematology 2026 guidelines for diagnosis of iron deficiency” foi publicado antecipadamente on-line em 24 de agosto de 2026, no periódico Blood Advances. A divulgação institucional ocorreu em 16 de setembro.

A ASH reuniu um painel multidisciplinar, com participação de um representante de pacientes. A equipe realizou revisões sistemáticas sobre prevalência e critérios diagnósticos, considerando estudos disponíveis até julho de 2025. As recomendações foram elaboradas com a metodologia GRADE, que avalia a certeza das evidências e apoia a formulação de orientações clínicas. 

O painel chegou a cinco recomendações. O trabalho também identificou lacunas na literatura e prioridades para futuras pesquisas, demonstrando que a atualização não elimina todas as incertezas sobre os melhores critérios para cada situação.

 

 

As diretrizes também definem o tratamento?

A publicação de 2026 é voltada ao diagnóstico. Reconhecer a deficiência pode modificar a investigação e a conduta, mas não determina, isoladamente, a necessidade de suplementação, sua dose ou a via de administração. A ASH informa que orientações adicionais sobre tratamento estão previstas para 2027.

A principal mudança imediata é ampliar o reconhecimento da deficiência de ferro e orientar uma avaliação mais adequada nos diferentes grupos. Em situações de inflamação, o conjunto de exames e o contexto clínico ganham importância especial.

 

 

Conclusão

As novas diretrizes da Sociedade Americana de Hematologia recomendam pontos de corte mais altos de ferritina para diferentes populações e reforçam que a deficiência de ferro pode ser diagnosticada antes do aparecimento de anemia.

A atualização favorece uma leitura dos exames baseada em critérios clínicos, sem transformar um único número em regra para todos. Quando há anemia de inflamação, a avaliação conjunta de ferritina e saturação de transferrina é parte central da orientação.

Para quem tem doença celíaca, a atualização reforça a importância de não excluir deficiência de ferro apenas porque a hemoglobina está normal ou a ferritina aparece dentro da faixa de referência do laboratório.

A doença ativa pode comprometer a absorção intestinal, e mecanismos inflamatórios também podem contribuir para a menor disponibilidade do mineral. Entretanto, a ASH não estabelece uma meta específica de ferritina para celíacos: o limite de 100 ng/mL não deve ser aplicado automaticamente a todos.

A avaliação precisa considerar atividade da doença, recuperação intestinal, alimentação, possíveis perdas de sangue e, quando houver suspeita de anemia de inflamação, ferritina e saturação de transferrina em conjunto.

 

 

Leia mais:

 

 

Referências científicas e fontes

  1. Powers JM, Lim MY, Achebe MO, Akpan IJ, Auerbach M, Brown MC, et al. American Society of Hematology 2026 guidelines for diagnosis of iron deficiency. Blood Adv. 2026 Aug 24:bloodadvances.2025015950. Publicação antecipada on-line. doi:10.1182/bloodadvances.2025015950. PMID:42747316.
  2. American Society of Hematology. ASH sets new standards for diagnosing iron deficiency. Washington (DC): American Society of Hematology; 2026 Sep 16 [citado 2026 out 11].
  3. American Society of Hematology. Diagnosis of iron deficiency: quality metric assessment tool. Washington (DC): American Society of Hematology;
  4. American Society of Hematology. 2026 ASH guidelines on diagnosis of iron deficiency: implementation tool. Washington (DC): American Society of Hematology; 2026
  5. World Health Organization. WHO guideline on use of ferritin concentrations to assess iron status in individuals and populations. Geneva: World Health Organization; 2020 [citado 2026 out 11]. 82 p. ISBN:9789240000124.
  6. Dillawn P, Nagle S, Liu E, Stahl MG. Ironing out the deficiency: tracking iron in celiac disease before and after the gluten-free diet. Nutrients. 2026;18(4):590. doi:10.3390/nu18040590.

 

Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada. Esta matéria foi elaborada com base em artigos científicos indexados no PubMed e outros artigos cientificos e dos testes, além de diretrizes internacionais e revisões de alto nível de evidência.  A interpretação dos exames e a indicação de suplementação devem ser realizadas por profissionais de saúde. O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Eu Celíaca©. Todos os direitos reservados. Reprodução parcial ou total permitida somente com citação da fonte e link para o conteúdo original. 

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