Home / Doença Celíaca / Ferritina baixa em atletas celíacos: pode afetar a performance? O que mostram as pesquisas.

Ferritina baixa em atletas celíacos: pode afetar a performance? O que mostram as pesquisas.

ferritina baixa em atletas celíacos

O treino ficou mais difícil, mas o hemograma não mostrou anemia. Isso descarta falta de ferro? Não necessariamente. Em atletas celíacos, as reservas de ferro podem estar reduzidas antes da queda da hemoglobina, e entender o resultado exige olhar para o desempenho, a alimentação e a saúde intestinal ao mesmo tempo.

Há dias em que um treino simplesmente não rende. O problema merece mais atenção quando a dificuldade se repete: o ritmo antes confortável exige esforço maior, a fadiga chega cedo ou já não é possível completar sessões habituais. A deficiência de ferro está entre as possíveis explicações — não é a única. Sono, ingestão insuficiente de energia, recuperação inadequada e outras condições também podem afetar a capacidade de treinar.

Para quem tem doença celíaca, a pergunta vai além de “estou consumindo ferro suficiente?”. Se a doença está ativa, o intestino pode ter dificuldade para absorvê-lo. E, se a dieta sem glúten já foi iniciada, ainda é necessário saber se as reservas estão se recuperando e se a alimentação atende às exigências do esporte.

 

 

O que as pesquisas dizem sobre performance?

O ferro participa do transporte de oxigênio e de processos de produção de energia. A ferritina é um exame que ajuda a estimar suas reservas no organismo; a hemoglobina, medida no hemograma, é uma das referências para identificar anemia. Os estoques podem diminuir antes de a hemoglobina cair. Assim, um atleta pode apresentar deficiência de ferro sem anemia.

Uma revisão sistemática publicada no Journal of Sport and Health Science reuniu 23 estudos, com 669 atletas mulheres de 16 modalidades. Em parte das pesquisas, a deficiência de ferro esteve associada a pior desempenho de resistência, e a reposição trouxe melhora em determinados testes. Os resultados não foram iguais para todos os indicadores de performance, e muitos estudos tinham grupos pequenos. Mais importante para esta matéria: a revisão não avaliou especificamente atletas celíacas.

Portanto, não seria correto prometer que elevar a ferritina fará qualquer atleta correr mais rápido, levantar mais peso ou melhorar um percentual definido no desempenho. A conclusão sustentada pelas pesquisas é mais cuidadosa: a deficiência de ferro pode limitar aspectos do exercício, sobretudo da resistência; identificar e tratar uma deficiência confirmada importa para a saúde e pode ajudar o atleta, mas o efeito individual varia.

Também há uma lacuna científica. Pesquisas sobre ferro no esporte e pesquisas sobre deficiência de ferro na doença celíaca ajudam a compreender o risco, mas ainda são limitados os estudos que medem diretamente ferritina e performance em atletas celíacos. Uma revisão de 2026 sobre doença celíaca e esporte aponta a necessidade de acompanhamento nutricional individualizado nesse grupo.

 

 

Por que o atleta celíaco merece atenção?

Atletas podem ter estoques de ferro reduzidos por diferentes motivos, como ingestão insuficiente, perdas menstruais e fatores associados ao treinamento. Na doença celíaca não tratada, há um fator adicional: a reação ao glúten causa lesão no intestino delgado e pode prejudicar a absorção de ferro. Comer alimentos que contêm ferro pode não bastar se a absorção estiver comprometida.

A situação muda após o início da dieta sem glúten, mas não se resolve necessariamente de um dia para o outro. A dieta rigorosa é essencial para a recuperação intestinal; as reservas que já estavam baixas, porém, podem precisar de tempo e, conforme o caso, de reposição. Se a ferritina permanece baixa, é preciso verificar a evolução da doença celíaca e outras explicações possíveis, como ingestão insuficiente ou perdas contínuas de ferro.

Situação do atleta celíaco O que a ferritina baixa pode exigir Embasamento científico
Ainda consome glúten Avaliar e tratar a doença celíaca. Repor ferro sem interromper a exposição ao glúten pode deixar uma possível causa de má absorção sem solução. pmc.ncbi.nlm.nih
Começou recentemente a dieta sem glúten Acompanhar a evolução dos exames: a melhora da absorção e a recuperação dos estoques não são necessariamente imediatas. gastro
Segue a dieta e continua com reservas baixas Investigar a resposta ao tratamento, a adequação alimentar, perdas de sangue e outras causas. Ferritina baixa isolada não comprova ingestão de glúten. link.springer

No esporte, há mais uma dimensão: a dieta precisa ser não apenas segura, mas suficiente para a carga de treino. Planejar uma alimentação sem glúten que forneça energia e nutrientes adequados faz parte do cuidado com o atleta celíaco.

 

 

O que o atleta pode perceber?

A deficiência de ferro pode não produzir sintomas no início. Quando aparecem sinais, eles costumam ser inespecíficos. Em vez de perguntar somente “estou cansado?”, vale observar se houve uma mudança persistente em relação ao próprio histórico de treino.

O que o atleta pode perceber Como descrever com precisão Embasamento científico
Cansaço mais cedo “Eu completava esse treino sem dificuldade; agora preciso reduzir o ritmo ou interrompê-lo antes.” A fadiga precoce pode acompanhar a deficiência de ferro, mas tem outras causas possíveis. d-nb
Esforço maior para o mesmo exercício “O ritmo ou a carga não mudou, mas a sessão parece muito mais difícil.” Essa percepção ajuda a documentar uma mudança; não identifica sozinha sua causa d-nb
Menor resistência “Não consigo sustentar por tanto tempo uma intensidade que antes era habitual.” Estudos associam deficiência de ferro a prejuízos em determinados testes de resistência. pmc.ncbi.nlm.nih
Queda persistente de desempenho “Meu rendimento diminuiu em várias sessões, não apenas em um dia ruim.” Convém informar quando a mudança começou e se coincidiu com aumento da carga de treino ou alterações de saúde e alimentação. bjsm.bmj
Falta de ar ao esforço “Estou ofegante em uma atividade que antes tolerava bem.” Pode ocorrer na anemia ferropriva, mas também exige avaliação de outras causas; não deve ser atribuída automaticamente à ferritina. nhs
Palpitações, tontura, dor de cabeça ou palidez “Além da dificuldade no treino, passei a notar estes sintomas.” Eles podem acompanhar anemia, **não são sinais obrigatórios de ferritina baixa isolada** e merecem avaliação clínica. nhs

Essa distinção é central: ferritina baixa não é sinônimo de anemia. Se a deficiência progride e a hemoglobina cai, sintomas como falta de ar e palpitações podem ficar mais evidentes. Mas não é preciso esperar a anemia aparecer para investigar reservas de ferro reduzidas em um atleta com fatores de risco ou mudança persistente na capacidade de treinar.

 

 

Quais exames ajudam — e o que levar?

Nenhum exame isolado explica a performance. Para avaliar o estado do ferro em atletas, o Australian Institute of Sport indica, no mínimo, hemoglobina, ferritina e saturação da transferrina. O médico pode solicitar um hemograma completo, que fornece a hemoglobina e outras informações sobre as células do sangue, e ampliar a investigação conforme os resultados e a história clínica.

Exame O que ajuda a avaliar Principal cuidado Embasamento científico
Hemograma completo Mostra a hemoglobina e ajuda a identificar e caracterizar anemia. Um resultado sem anemia não exclui deficiência de ferro sem anemia. ausport.gov
Ferritina sérica Ajuda a estimar os estoques de ferro. Pode se elevar diante de inflamação e mascarar reservas reduzidas; precisa ser lida no contexto clínico.  ausport.gov
Saturação da transferrina (TSAT) Indica a proporção da proteína transportadora que está ocupada por ferro; complementa a interpretação das reservas e da disponibilidade do mineral. Sua avaliação pode envolver medidas de ferro sérico e transferrina ou capacidade de ligação do ferro. Ferro sérico isolado não substitui o conjunto de exames. ausport.gov
Proteína C reativa (PCR), quando indicada Ajuda a verificar se há um processo inflamatório que dificulte interpretar a ferritina. Não é um “exame de performance” nem obrigatório para todos os atletas. ausport.gov
Outros testes, conforme o caso Podem esclarecer resultados discordantes ou outras causas de alteração do hemograma. A seleção depende da avaliação médica, especialmente se a deficiência persiste apesar do tratamento. gssiweb

 

 

Existe uma ferritina ideal para atletas?

Não há um número único que garanta rendimento. Uma revisão de medicina esportiva descreve valores abaixo de 15 ng/mL como indicativos de reservas esgotadas e a faixa de 15 a 30 ng/mL como reservas baixas em atletas saudáveis com mais de 15 anos. Esses parâmetros ajudam a orientar a avaliação; não são uma meta universal para atletas celíacos nem uma ordem automática de suplementar. O valor deve ser interpretado com a hemoglobina, os demais exames, os sintomas e o contexto de treino.

O momento da coleta também importa. Doença recente e treinamento intenso podem dificultar a interpretação de marcadores sanguíneos. Sempre que possível, vale seguir a orientação do profissional e do laboratório para padronizar as coletas de acompanhamento e informar a carga de treino dos dias anteriores. Quem já está em tratamento deve informar qual ferro usa, por qual via e quando recebeu a última dose antes de planejar a repetição dos exames.

 

 

O que levar para a consulta

  • Exames anteriores, especialmente hemogramas, ferritina, saturação da transferrina e resultados obtidos antes ou depois de iniciar a dieta sem glúten.
  • Uma descrição da mudança no treino: quando começou, em quais sessões aparece, qual era o desempenho habitual e se a carga de treinamento mudou.
  • Histórico da doença celíaca: tempo desde o diagnóstico, acompanhamento, dificuldades com a dieta sem glúten e sintomas digestivos atuais, se houver.
  • Rotina alimentar e esportiva: volume de treino, restrições alimentares e possíveis dificuldades para comer o suficiente nos dias de exercício.
  • Possíveis perdas de ferro, incluindo menstruação intensa ou outras perdas de sangue, para que sejam avaliadas pelo profissional.
  • Tratamentos já realizados: suplemento oral ou ferro injetável, nome da apresentação, via de administração, data da última aplicação e evolução dos exames.

Se a deficiência for confirmada, a conduta depende da causa, da gravidade e da resposta ao tratamento. A Associação Americana de Gastroenterologia recomenda assegurar a adesão à dieta sem glúten em pessoas celíacas com anemia ferropriva para melhorar a absorção de ferro. A reposição oral pode ser considerada; a via intravenosa é uma opção quando o ferro oral não é tolerado, os estoques não melhoram após uma tentativa de tratamento ou a absorção provavelmente é inadequada.

Há, portanto, reposição por injeção, e essa possibilidade precisa aparecer na matéria. Mas a via não pode ser tratada como detalhe: apresentações intravenosas e intramusculares são diferentes. O Noripurum EV, por exemplo, deve ser administrado somente na veia, segundo a bula. A experiência de um atleta com ferro injetável não significa que todos os celíacos devam recebê-lo, nem que injeções sejam um recurso para aumentar a performance na ausência de deficiência diagnosticada.

Para atletas submetidos a regras antidopagem, existe ainda uma checagem específica: a Lista Proibida de 2026 da Agência Mundial Antidopagem (WADA) restringe infusões ou injeções intravenosas acima de um total de 100 mL em 12 horas, com exceções previstas para tratamentos hospitalares, procedimentos cirúrgicos ou investigações diagnósticas clínicas legítimas. Por isso, antes de um tratamento intravenoso, o atleta sujeito a essas regras deve discutir com o médico e sua equipe a via, o volume e a documentação aplicáveis ao seu caso.

A ferritina não define sozinha o potencial esportivo de uma pessoa celíaca. Mas reservas baixas, uma mudança consistente no treino e uma condição que pode prejudicar a absorção de ferro formam um conjunto que não deve ser ignorado. Investigar cedo permite tratar uma deficiência quando ela existe — sem atribuir ao ferro problemas que podem ter outras causas.

 

 

Leia mais no Eu Celíaca

 

 

Conclusão

Para o atleta celíaco, a ferritina não é um placar de desempenho. É uma informação sobre as reservas de ferro que ganha significado quando analisada junto com a hemoglobina, os demais exames, os sintomas e a história dos treinos. Reservas baixas podem existir antes da anemia; por outro lado, sentir-se cansado ou render menos não prova que o ferro seja a causa.

O que torna essa investigação especialmente importante na doença celíaca é a possibilidade de fatores se sobreporem. Sem a dieta sem glúten, a lesão intestinal pode dificultar a absorção do ferro. Com a dieta já iniciada, ainda é preciso avaliar se os estoques estão se recuperando, se a alimentação atende à carga de treino e se há outras causas para a deficiência. A resposta não é perseguir um número “ideal” de ferritina, mas entender por que ele está baixo e tratar a causa identificada.

As pesquisas indicam que a deficiência de ferro pode prejudicar a resistência esportiva, mas ainda não permitem quantificar esse impacto especificamente em atletas celíacos. Por isso, a decisão sobre reposição — alimentar, oral ou, em situações selecionadas, injetável — deve ser individualizada. Investigar a tempo protege a saúde do atleta e evita tanto ignorar uma deficiência real quanto atribuir automaticamente ao ferro toda dificuldade no treinamento.

 

 

Referências e fontes

  1. Pengelly M, Pumpa K, Pyne DB, Etxebarria N. Iron deficiency, supplementation, and sports performance in female athletes: a systematic review. J Sport Health Sci. 2025;14:101009. doi:10.1016/j.jshs.2024.101009.
  2. Clénin G, Cordes M, Huber A, Schumacher YO, Noack P, Scales J, et al. Iron deficiency in sports: definition, influence on performance and therapy. Swiss Med Wkly. 2015;145:w14196. doi:10.4414/smw.2015.14196.
  3. DeLoughery TG, Jackson CS, Ko CW, Rockey DC. AGA Clinical Practice Update on Management of Iron Deficiency Anemia: Expert Review. Clin Gastroenterol Hepatol. 2024;22(8):1575-1583. doi:10.1016/j.cgh.2024.03.046.
  4. Boatta A, Messina G, Pagliaro A, Alioto A, Mingrino O, Nuzzo D, et al. Narrative review of celiac disease and sports: nutritional deficiency and strategies to optimise athlete health and performance. Curr Res Food Sci. 2026;12:101337. doi:10.1016/j.crfs.2026.101337.
  5. Australian Sports Commission, Australian Institute of Sport. Iron. Canberra: Australian Sports Commission; [citado em 1 out. 2026].
  6. Mountjoy M, Ackerman KE, Bailey DM, Burke LM, Constantini N, Hackney AC, et al. 2023 International Olympic Committee’s consensus statement on Relative Energy Deficiency in Sport (REDs). Br J Sports Med. 2023;57(17):1073-1098. doi:10.1136/bjsports-2023-106994.
  7. World Anti-Doping Agency. The Prohibited List: 2026. Montreal: WADA; 2026 [citado em 1 out. 2026].
  8. Blanver Farmoquímica e Farmacêutica. Noripurum EV: bula do paciente

 

Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada. Esta matéria foi elaborada com base em artigos científicos indexados no PubMed e outros artigos cientificos e dos testes, além de diretrizes internacionais e revisões de alto nível de evidência. O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Eu Celíaca©. Todos os direitos reservados. Reprodução parcial ou total permitida somente com citação da fonte e link para o conteúdo original. 

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Newsletter

Fique por dentro das novidades do mundo celíaco. Inscreva-se.

Social Icons

Banner E-book Creme de Abacate_Site Eu Celíaca
SELO FEITO POR MULHERES