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Exercício pode causar diarreia e outros sintomas intestinais em quem tem doença celíaca? O que o caso HYROX pode nos ensinar

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Um episódio de diarreia durante exercício intenso colocou os problemas gastrointestinais dos atletas no centro de uma discussão internacional. Durante uma prova do HYROX em Pequim, a atleta australiana Joanna Wietrzyk sofreu incontinência fecal, continuou competindo e terminou em primeiro lugar na categoria feminina Pro.

O caso provocou uma discussão sobre higiene e os protocolos da competição, mas também levanta uma pergunta importante para quem tem doença celíaca: exercícios intensos podem provocar diarreia, urgência para evacuar e outros sintomas intestinais?

A resposta é sim. Esses sintomas são conhecidos pela medicina esportiva e podem acontecer inclusive em pessoas sem qualquer doença gastrointestinal. Para quem tem doença celíaca, entretanto, há uma questão adicional: nem todo sintoma durante o exercício significa exposição ao glúten, mas também não é prudente atribuir automaticamente diarreia, cólicas ou urgência intestinal ao treino.

 

 

Exercício intenso pode provocar diarreia e outros sintomas gastrointestinais

A literatura científica mostra que exercícios intensos ou prolongados podem afetar temporariamente o funcionamento do sistema gastrointestinal. Os sintomas relatados incluem náusea, refluxo, cólica, distensão abdominal, flatulência, urgência para evacuar, fezes amolecidas, diarreia e, em situações menos frequentes, sangramento gastrointestinal e incontinência.

Uma revisão sistemática publicada no Alimentary Pharmacology & Therapeutics descreve esse conjunto de alterações como síndrome gastrointestinal induzida pelo exercício, conhecida pela sigla em inglês Ex-GIS.

Segundo os pesquisadores, conforme aumentam a intensidade e a duração do exercício, podem ocorrer alterações na integridade intestinal, aumento da permeabilidade, prejuízo do esvaziamento gástrico, mudanças no trânsito do intestino delgado e má absorção. Corrida e exposição ao calor podem intensificar algumas dessas alterações.

Isso não significa que exercício faça mal ao intestino de todas as pessoas. Atividade física moderada e exercício extenuante não são fisiologicamente a mesma coisa.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 reforça justamente essa diferença: a atividade física moderada pode trazer benefícios à saúde gastrointestinal, enquanto exercícios intensos ou prolongados podem desencadear sintomas em indivíduos suscetíveis.

 

 

O que aconteceu com Joanna Wietrzyk no HYROX?

O episódio ocorreu em 12 de setembro de 2026, durante o HYROX Beijing, na China. A australiana Joanna Wietrzyk disputava a categoria feminina Pro quando apresentou incontinência fecal durante a competição. 

Ela continuou na prova e completou o percurso em 1h01min23s, ficando em primeiro lugar. O caso ganhou repercussão internacional porque o HYROX combina corrida com estações de exercícios nas quais equipamentos e espaços são utilizados por diferentes competidores. 

A SIC Notícias informou que a organização reconheceu problemas na maneira como o episódio foi administrado e anunciou revisão dos procedimentos. Outros veículos também noticiaram a repercussão do caso e a discussão sobre higiene e segurança dos demais competidores.

Não há informação pública de que Joanna Wietrzyk tenha doença celíaca. Portanto, o episódio não deve ser atribuído à doença nem permite determinar por que a atleta apresentou o problema gastrointestinal.

O caso serve aqui como ponto de partida para discutir um fenômeno documentado pela medicina esportiva: o intestino também é submetido a estresse durante exercícios muito intensos.

 

 

Não foi a primeira vez que uma campeã teve problemas intestinais durante uma prova

O episódio ocorrido no HYROX não é o primeiro caso de uma atleta de elite enfrentar um problema intestinal durante uma competição e ainda assim vencer. Em 2005, a britânica Paula Radcliffe apresentou cólicas e necessidade urgente de evacuar durante a Maratona de Londres. Por volta da milha 21, ela parou à margem do percurso para ir ao banheiro e depois voltou a correr.

Radcliffe venceu a prova em 2h17min42s, mesmo após a interrupção. Segundo a World Athletics, a parada durou cerca de 15 segundos. Após a corrida, a atleta contou que vinha sentindo o problema desde aproximadamente as milhas 15 ou 16. O The Guardian, que cobriu a prova naquele dia, relatou que Radcliffe sofria com cólicas estomacais.

A alimentação também entrou na explicação dada pela própria atleta. Segundo o The Athletic, Radcliffe disse acreditar que poderia ter comido demais na noite anterior. Sua refeição habitual antes de uma prova incluía massa sem glúten e salmão grelhado. Isso não permite concluir que a refeição tenha causado o problema gastrointestinal.

A alimentação anterior à competição também entrou na discussão sobre Joanna Wietrzyk. De acordo com o The Athletic, a australiana havia publicado nas redes sociais que comeu comida de rua em Pequim no dia anterior ao HYROX. Novamente, não há evidência que permita afirmar que essa refeição tenha provocado a incontinência.

Há ainda o caso da irlandesa Catherina McKiernan, que enfrentou problemas gastrointestinais durante a Maratona de Londres de 1998, prova que venceu. O episódio é citado na literatura sobre sintomas gastrointestinais associados ao exercício e ajuda a mostrar que essas ocorrências entre atletas de alto rendimento não começaram com o caso recente do HYROX.

Os episódios ocorreram em circunstâncias diferentes e não permitem concluir que tiveram a mesma causa. Eles mostram, porém, que urgência para evacuar, diarreia e outros problemas gastrointestinais durante exercícios de grande esforço não são fenômenos novos no esporte de alto rendimento.

Para quem tem doença celíaca, o relato de Radcliffe chama atenção para uma distinção importante: um alimento ser sem glúten não significa necessariamente que será bem tolerado antes de um exercício intenso. Segurança em relação ao glúten e tolerância gastrointestinal durante o esporte são questões diferentes.

 

 

Por que um exercício muito intenso pode mexer com o intestino?

Durante o exercício, músculos, coração e pele passam a demandar maior fluxo sanguíneo. Em esforços intensos e prolongados, isso pode reduzir temporariamente a quantidade de sangue disponível para o trato gastrointestinal.

A revisão sistemática de Costa e colaboradores mostra que duração, intensidade, calor e modalidade esportiva interferem nessas alterações.

Além da redistribuição do fluxo sanguíneo, outros fatores podem contribuir: alterações da motilidade intestinal, estresse térmico, desidratação, impacto mecânico repetido da corrida, alimentação antes e durante a atividade, quantidade e concentração dos carboidratos ingeridos e tolerância individual.

É por isso que duas pessoas realizando exatamente a mesma prova podem apresentar respostas intestinais completamente diferentes.

 

 

Problemas gastrointestinais são comuns entre atletas

Um estudo publicado no American Journal of Gastroenterology avaliou 606 atletas de endurance bem treinados, incluindo 199 corredores, 197 ciclistas e 210 triatletas. Os questionários foram respondidos por 93% dos corredores, 88% dos ciclistas e 71% dos triatletas.

Entre os corredores, 71% relataram sintomas gastrointestinais inferiores durante o exercício, contra 36% de sintomas do trato gastrointestinal superior. Nos triatletas, durante a etapa de corrida, 79% relataram sintomas inferiores e 54%, sintomas superiores. Entre os sintomas inferiores investigados estavam distensão, cólica, urgência para evacuar, evacuação e diarreia.

Os próprios pesquisadores observaram, porém, que diarreia, flatulência e distensão foram mais frequentes em repouso do que durante o exercício. Ou seja, esses percentuais não significam que 71% dos corredores tiveram diarreia. Eles representam o conjunto de sintomas gastrointestinais inferiores avaliados no estudo.

Em outro estudo observacional, 1.281 corredores de longa distância responderam a um questionário.

Quarenta e cinco por cento relataram pelo menos uma queixa gastrointestinal durante a corrida e 11% apresentaram queixas classificadas pelos pesquisadores como graves.

Esses resultados ajudam a mostrar que passar mal do intestino durante uma atividade física intensa não é um fenômeno exclusivo de quem tem uma doença gastrointestinal.

 

 

Ranking prático: em quais esportes os sintomas gastrointestinais aparecem mais?

Não existe um ranking universal capaz de prever quem terá sintomas. Estudos variam muito quanto às populações, distâncias, intensidade e definição de sintoma. A tabela abaixo, portanto, deve ser entendida como uma comparação prática baseada no conjunto da literatura, e não como uma escala clínica de risco individual.

Esporte ou situação Tendência observada Sintomas relatados O que pode contribuir
Ultramaratonas e ultraendurance Muito elevada Náusea, vômitos, dor abdominal, urgência, diarreia Duração extrema, calor, déficit energético, hidratação, alimentação durante a prova e estresse intestinal

Ironman e triatlo de longa distância
Muito elevada Náusea, refluxo, plenitude, cólica, urgência e diarreia Longa duração, ingestão de líquidos e carboidratos durante a atividade e fadiga acumulada
Maratona e corrida de longa distância Elevada Urgência, cólicas, flatulência, diarreia e náusea Impacto mecânico da corrida, intensidade, calor e alterações do fluxo sanguíneo intestinal
Corrida intensa, intervalados e provas híbridas como HYROX Potencialmente elevada Náusea, refluxo, cólica, urgência e diarreia Corrida repetida associada a exercícios intensos e alta demanda fisiológica
Ciclismo de endurance Frequente Náusea, refluxo, arroto, plenitude, distensão e sintomas intestinais inferiores Longa duração, posição corporal e ingestão de líquidos e carboidratos
Esportes coletivos intensos Variável Náusea, cólica, refluxo e urgência Sprints, calor, ansiedade, hidratação e alimentação
Musculação muito intensa Variável Refluxo, náusea e desconforto abdominal Pressão intra-abdominal, refeições próximas do treino e alguns suplementos
Natação Pode ocorrer Refluxo, náusea, arroto e desconforto abdominal Posição horizontal, ingestão de água e alimentação prévia

A maior parte da evidência científica está concentrada em corrida, triatlo e esportes de endurance.

Portanto, a posição do HYROX nessa tabela é uma extrapolação fisiologicamente plausível a partir das características da modalidade, e não resultado de estudos que tenham demonstrado uma incidência específica de sintomas gastrointestinais entre praticantes de HYROX.

 

 

E o que muda para quem tem doença celíaca?

Aqui é preciso separar o que a ciência já demonstrou daquilo que ainda precisa ser estudado.

Em 2026, pesquisadores publicaram uma revisão sistemática especificamente sobre atividade física em pessoas com doença celíaca. Foram incluídos 14 estudos, apresentados em 17 publicações.

É um conjunto de evidências relevante e que já permite estudar relações entre atividade física, qualidade de vida, sintomas gastrointestinais e diferentes indicadores de saúde em pessoas com doença celíaca.

Os estudos, entretanto, são bastante heterogêneos. A maioria era transversal, havia um estudo quase experimental e dados provenientes de duas coortes de ensaios clínicos randomizados, relatados em cinco publicações.

Entre os trabalhos está o MOVE-C, que estudou adultos inativos com doença celíaca submetidos a um programa de 12 semanas que combinava treinamento intervalado de alta intensidade, o HIIT, com uma intervenção educacional e comportamental.

Outra revisão publicada em 2026 especificamente sobre doença celíaca e esporte chama atenção para questões que podem ser especialmente importantes para atletas, como adequação da dieta sem glúten, ingestão energética, deficiências de macro e micronutrientes, saúde intestinal, recuperação e desempenho.

O que ainda não podemos afirmar é que pessoas com doença celíaca tenham maior risco de desenvolver diarreia ou incontinência durante exercício intenso do que pessoas sem a doença. Essa comparação específica ainda precisa ser mais bem estudada.

 

 

Se um celíaco tem diarreia depois do exercício, significa que ingeriu glúten?

Não necessariamente.

Diarreia, cólicas e urgência evacuatória podem ser provocadas pelo próprio exercício, inclusive em pessoas sem doença celíaca. Portanto, apresentar um desses sintomas durante ou depois de um treino não comprova uma exposição ao glúten.

Por outro lado, também seria equivocado considerar todo episódio recorrente simplesmente uma consequência do exercício.

Em uma pessoa com doença celíaca, sintomas persistentes ou repetidos podem justificar investigação de diferentes possibilidades, entre elas exposição inadvertida ao glúten, atividade persistente da doença, síndrome do intestino irritável, intolerâncias alimentares, infecções, efeitos de medicamentos e outras condições gastrointestinais.

A mensagem prática é simples:

Nem toda diarreia depois do exercício significa que o celíaco ingeriu glúten. Mas sintomas frequentes também não devem ser automaticamente normalizados como consequência do treino.

 

 

 

O que costuma piorar sintomas gastrointestinais durante exercícios?

A alimentação merece atenção especial. Uma revisão sistemática de 2025 que incluiu 29 estudos avaliou estratégias nutricionais destinadas a minimizar sintomas gastrointestinais durante exercícios de endurance.

Os pesquisadores concluíram que o problema é multifatorial. Protocolos de treinamento do intestino e adequação da ingestão de carboidratos mostraram resultados promissores. Dietas temporariamente reduzidas em FODMAPs também apresentaram potencial em pessoas selecionadas, embora restrições alimentares possam trazer outras consequências e não devam ser adotadas indiscriminadamente.

Fator/alimento Exemplos Por que pode ser um problema perto do exercício
Excesso de gordura Frituras, molhos gordurosos, grandes refeições Pode retardar o esvaziamento gástrico e favorecer plenitude, refluxo e náusea
Excesso de fibra Grandes quantidades de leguminosas, farelos, sementes, saladas e preparações muito fibrosas Pode aumentar volume intestinal, gases e urgência em pessoas suscetíveis
Refeições muito volumosas Grandes porções próximas ao exercício Aumentam a carga gastrointestinal justamente quando o organismo está iniciando esforço intenso
FODMAPs em pessoas sensíveis Alguns alimentos ricos em carboidratos fermentáveis e determinados polióis Podem aumentar água no intestino, fermentação, gases, distensão e alteração das fezes
Cafeína em excesso Café, energéticos e pré-treinos Pode estimular a motilidade intestinal em pessoas suscetíveis
Bebidas ou soluções muito concentradas Grande quantidade de gel sem água ou bebidas esportivas inadequadamente concentradas Podem aumentar a carga osmótica e o desconforto gastrointestinal
Polióis Sorbitol, manitol, maltitol e xilitol presentes em alguns produtos “zero” Podem produzir efeito laxativo, especialmente em quantidades maiores
Alimentos ou produtos não habituais ou testados Comida diferente da rotina, gel, suplemento, pré-treino ou alimento novo A composição, a quantidade e a tolerância individual podem favorecer desconforto gastrointestinal; estratégias de alimentação para provas devem ser testadas previamente nos treinos
Desidratação e calor Treinos longos ou intensos em ambiente quente Podem intensificar o estresse gastrointestinal provocado pelo exercício

A tabela não significa que todo atleta deva eliminar esses alimentos. Tolerância é individual, e retirar vários grupos alimentares sem necessidade pode comprometer a ingestão energética e nutricional.

 

 

Para o celíaco, “sem glúten” não significa necessariamente “bom pré-treino”

Essa diferença é especialmente importante.

Um alimento pode ser perfeitamente sem glúten e adequado para uma pessoa com doença celíaca, mas não ser a melhor escolha imediatamente antes de uma corrida intensa para determinada pessoa.

Alguns produtos sem glúten, por exemplo, podem conter grandes quantidades de fibras adicionadas, inulina, chicória, farinhas de leguminosas ou polióis. Dependendo da composição e da tolerância individual, esses ingredientes podem aumentar gases, distensão ou urgência intestinal.

Isso não transforma o alimento em inadequado para celíacos. São questões diferentes: uma é a presença de glúten e a segurança para a doença celíaca; outra é a tolerância gastrointestinal daquele atleta naquele momento.

 

 

E os FODMAPs?

FODMAPs são determinados carboidratos fermentáveis que podem contribuir para gases, distensão, dor e alterações intestinais em pessoas suscetíveis.

Um pequeno ensaio cruzado randomizado estudou 11 corredores recreacionais competitivos, cinco homens e seis mulheres, comparando seis dias de dieta com baixo ou alto teor de FODMAPs.

Durante o período com menos FODMAPs, houve redução de sintomas gastrointestinais diários, incluindo flatulência, urgência evacuatória, fezes amolecidas e diarreia. Entretanto, não houve diferença significativa nos sintomas apresentados durante os exercícios.

Os próprios autores classificaram os resultados como preliminares.Portanto, isso não justifica colocar todo atleta celíaco em dieta low-FODMAP. Além de serem duas restrições alimentares diferentes, uma dieta excessivamente restritiva pode dificultar a obtenção de energia e nutrientes suficientes.

 

 

“Treinar o intestino” pode ajudar?

É uma estratégia estudada principalmente nos esportes de endurance.“Treinar o intestino” significa praticar repetidamente, durante os treinos, a estratégia de alimentação e hidratação que será utilizada em uma prova, permitindo testar tolerância a carboidratos, líquidos e produtos esportivos.

A revisão sistemática de 2025 com 29 estudos classificou os protocolos de treinamento gastrointestinal entre as estratégias promissoras para reduzir sintomas ao longo do tempo.

Outra revisão sistemática, que reuniu sete estudos e 105 atletas de ultraendurance, 50 homens e 55 mulheres, também apontou tanto o treinamento gastrointestinal com carboidratos quanto estratégias com menor teor de FODMAPs entre as intervenções promissoras, ressaltando que as amostras ainda eram pequenas.

Na prática, isso reforça uma regra conhecida no esporte: dia de competição não é o melhor momento para descobrir se o organismo tolera um alimento, gel, bebida esportiva ou suplemento.

Para o celíaco existe ainda outra preocupação: além da tolerância gastrointestinal, os alimentos e produtos esportivos utilizados precisam ser compatíveis com a dieta sem glúten e avaliados quanto ao risco de contaminação cruzada.

 

 

Ferro, anemia, vitamina D e alimentação também entram nessa conversa

A discussão sobre esporte e doença celíaca não termina no intestino.A revisão de 2026 sobre doença celíaca e esporte destaca que atletas apresentam demandas energéticas elevadas e que inadequações de macro e micronutrientes podem ter consequências metabólicas e funcionais.

Isso é particularmente importante quando a pessoa foi diagnosticada recentemente, apresenta deficiência de ferro, anemia, baixa densidade mineral óssea, perda de peso ou outras deficiências nutricionais.

Para alguém que treina intensamente, portanto, não basta simplesmente retirar o glúten. A dieta sem glúten também precisa fornecer energia, carboidratos, proteínas, vitaminas e minerais suficientes para as necessidades daquela pessoa e do esporte praticado.

 

 

Atenção, celíacos

Diarreia, urgência evacuatória ou cólica durante um treino isolado não permitem concluir que houve ingestão de glúten.

Mas procure avaliação médica quando os sintomas forem recorrentes ou aparecerem também fora do exercício, especialmente diante de sangue nas fezes, fezes muito escuras, dor abdominal intensa, vômitos persistentes, febre, desmaio, perda involuntária de peso, anemia, queda persistente de desempenho ou episódios repetidos de incontinência fecal.

Quem tem doença celíaca e volta a apresentar sintomas apesar de seguir rigorosamente a dieta sem glúten também merece avaliação. A causa pode ser exposição inadvertida ao glúten, mas existem outras possibilidades que precisam ser investigadas.

 

 

O que o caso HYROX pode ensinar aos celíacos que praticam exercícios?

O episódio de Joanna Wietrzyk é extremo, mas coloca luz sobre uma parte do corpo frequentemente esquecida quando se fala em desempenho esportivo: o intestino também precisa suportar o esforço de uma competição.

A ciência já demonstra que exercícios muito intensos ou prolongados podem desencadear alterações gastrointestinais e que corrida e calor estão entre os fatores capazes de intensificá-las.

Também já existe pesquisa específica sobre atividade física e doença celíaca: a revisão sistemática mais recente encontrou 14 estudos, apresentados em 17 publicações.

O que ainda falta responder é mais específico: o intestino de uma pessoa com doença celíaca tratada reage de maneira diferente ao exercício intenso? Celíacos apresentam mais diarreia, urgência ou outros sintomas durante o esforço do que pessoas sem a doença?

Ainda não temos evidência suficiente para responder sim.Isso não torna os estudos existentes pouco importantes. Ao contrário: mostra exatamente qual é a próxima pergunta que a ciência precisa investigar.

 

 

FAQ – Perguntas frequentes

Quem tem doença celíaca pode praticar exercícios intensos?

Em princípio, a doença celíaca não impede a prática esportiva. O contexto individual importa, especialmente diante de diagnóstico recente, anemia, deficiências nutricionais, perda de peso, baixa densidade mineral óssea ou sintomas gastrointestinais persistentes. A revisão sistemática de 2026 encontrou estudos sobre diferentes aspectos da atividade física em pessoas com doença celíaca, mas não estabeleceu um protocolo esportivo único para esse grupo.

Exercício pode causar diarreia?

Sim. Exercícios intensos ou prolongados podem desencadear sintomas gastrointestinais, incluindo urgência evacuatória e diarreia. Isso é descrito inclusive em atletas sem doenças gastrointestinais.

Diarreia depois do treino significa contaminação por glúten?

Não. O sintoma isoladamente não permite identificar a causa. Se for recorrente, acontecer também fora do exercício ou vier acompanhado de outros sinais, merece investigação.

Pessoas com doença celíaca têm mais problemas intestinais durante exercícios?

Ainda não há evidência suficiente para afirmar que celíacos tratados apresentem maior risco de sintomas gastrointestinais induzidos pelo exercício do que pessoas sem doença celíaca.

É preciso evitar fibras antes de correr?

Não existe uma recomendação universal para eliminar fibras. Alguns atletas com histórico de sintomas toleram melhor reduzir temporariamente alimentos muito ricos em fibras antes de exercícios intensos ou prolongados. A estratégia deve ser individualizada.

Celíacos podem fazer dieta low-FODMAP?

Low-FODMAP e dieta sem glúten têm objetivos diferentes. A redução de FODMAPs pode ser utilizada em situações específicas, mas acrescentar uma segunda dieta restritiva sem indicação pode diminuir desnecessariamente a variedade alimentar e dificultar a adequação nutricional.

O que significa “treinar o intestino”?

É praticar durante os treinos a estratégia de alimentação e hidratação que será usada em exercícios prolongados ou competições. A ideia é testar e adaptar progressivamente a tolerância gastrointestinal, e não experimentar produtos novos no dia da prova.

Quando os sintomas gastrointestinais durante exercício precisam ser investigados?

Episódios recorrentes, sangue nas fezes, fezes escuras, dor intensa, vômitos persistentes, perda de peso, anemia, sintomas noturnos ou sintomas que também aparecem fora do exercício são motivos para procurar avaliação médica.

 

 

Conclusão

O episódio ocorrido no HYROX Beijing chama atenção justamente porque foi extremo. Mas sintomas gastrointestinais durante exercício estão longe de ser desconhecidos pela ciência.

Corrida, exercício intenso ou prolongado, calor, hidratação, alimentação e tolerância individual podem contribuir para náusea, cólicas, urgência e diarreia. Estudos com centenas e até mais de mil atletas mostram que essas queixas são relativamente frequentes.

Para quem tem doença celíaca, a mensagem mais importante é não cair em nenhum dos dois extremos: nem atribuir automaticamente todo sintoma ao glúten, nem considerar diarreia e urgência recorrentes simplesmente “normais porque faço exercício”.

A ciência já começou a estudar especificamente atividade física e doença celíaca. Agora precisamos de pesquisas que respondam uma questão ainda mais precisa: como o intestino celíaco tratado responde quando é submetido a exercícios de grande intensidade?

 

 

Leia mais no Eu Celíaca

 

 

Referências científicas e fontes

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Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada. Esta matéria foi elaborada com base em artigos científicos indexados no PubMed e outros artigos cientificos e dos testes, além de diretrizes internacionais e revisões de alto nível de evidência. O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Eu Celíaca©. Todos os direitos reservados. Reprodução parcial ou total permitida somente com citação da fonte e link para o conteúdo original. 

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