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Endometrite crônica, infertilidade e abortos recorrentes: o que um novo estudo revela sobre a predisposição à doença celíaca

endometrite crônica e doença celíaca

Um estudo publicado em setembro de 2026 encontrou uma associação entre predisposição genética à doença celíaca e maior frequência de células imunes no endométrio de mulheres com perdas gestacionais recorrentes. O resultado é interessante, mas pede uma distinção essencial: as participantes não tinham diagnóstico confirmado de doença celíaca, e o estudo não demonstrou que essa predisposição cause endometrite, infertilidade ou aborto espontâneo.

Para entender o que a descoberta significa, é preciso olhar também para pesquisas anteriores. Elas sugerem uma associação entre endometrite crônica — inflamação persistente do revestimento interno do útero — e algumas dificuldades reprodutivas. Ainda existem, porém, divergências sobre os critérios de diagnóstico, quais pacientes devem ser investigadas e quanto o tratamento melhora a chance de nascimento com vida.

 

 

O que é endometrite crônica?

O endométrio é o tecido que reveste a parte interna do útero e passa por mudanças ao longo do ciclo menstrual. A endometrite crônica é uma inflamação persistente desse tecido, identificada principalmente pela presença de plasmócitos, um tipo de célula imune, em amostras obtidas por biópsia endometrial. A coloração imuno-histoquímica para CD138 ajuda o patologista a identificar essas células.

Ela pode não causar sintomas claros. Quando há manifestações, elas podem incluir sangramento uterino anormal, desconforto pélvico ou corrimento, mas nenhuma dessas queixas confirma o diagnóstico por si só. Também não se deve concluir que uma mulher com dificuldade para engravidar ou com perdas gestacionais tenha endometrite crônica sem investigação apropriada.

A condição é estudada principalmente em três situações, que não devem ser confundidas:

Situação O que significa
Infertilidade Dificuldade para obter uma gravidez após um período de tentativas, cuja investigação depende da idade e do contexto clínico
Falha recorrente de implantação Ausência de gravidez após transferências embrionárias em reprodução assistida; as definições variam entre estudos
Perda gestacional recorrente Duas ou mais perdas, segundo a definição adotada pela diretriz ESHRE; outras sociedades e pesquisas podem usar critérios distintos

A pesquisa de 2026 que motivou esta matéria estudou perda gestacional recorrente idiopática: as mulheres haviam engravidado, mas passado por perdas, sem causa identificada na investigação padrão. Portanto, seus resultados não podem ser apresentados como prova de uma causa de infertilidade.

 

 

O que o novo estudo investigou?

A pesquisa de Inversetti e colaboradores foi uma coorte retrospectiva multicêntrica com 197 mulheres que haviam tido pelo menos dois abortos espontâneos no primeiro trimestre. Todas apresentavam investigação diagnóstica padrão negativa para as perdas e para doença celíaca.

Os pesquisadores compararam participantes com maior ou menor predisposição genética relacionada aos haplótipos HLA-DQ2/DQ8. Também analisaram amostras do endométrio em busca de endometrite crônica e proporções elevadas de células natural killer uterinas, chamadas uNK.

HLA-DQ2 e HLA-DQ8 estão ligados à suscetibilidade à doença celíaca, mas ter esses marcadores não significa ser celíaca. Essa distinção é decisiva: o estudo não comparou um grupo de mulheres com doença celíaca confirmada a outro grupo sem a doença.

Resultado do estudo de 2026 O que foi observado
Participantes 197 mulheres com perda gestacional recorrente idiopática
Grupos genéticos 92 classificadas como de alto risco HLA-DQ2/DQ8 e 105 como de baixo risco
Endometrite crônica Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos
Proporção elevada de células uNK 50% no grupo de alto risco versus 29,7% no grupo de baixo risco
Análise ajustada para uNK elevadas OR 2,25; IC 95% 1,01–5,02; p = 0,049

A conclusão mais fiel é: nessa amostra selecionada de mulheres com perdas recorrentes e sem doença celíaca identificada na investigação, maior predisposição HLA-DQ2/DQ8 esteve associada a maior frequência de um marcador de células imunes uterinas; não houve associação estatisticamente significativa com endometrite crônica. O intervalo de confiança da associação com uNK é amplo e seu limite inferior está muito próximo de 1, o que também recomenda prudência.

As células NK uterinas têm funções fisiológicas na reprodução. Encontrar uma proporção acima do ponto de corte escolhido pelos pesquisadores não significa, automaticamente, que elas estejam “atacando o embrião” ou que sua redução por medicamentos evitaria uma nova perda. O estudo não testou um tratamento nem demonstrou uma relação de causa e efeito.

 

 

O que mostram outros estudos?

A tabela reúne pesquisas com perguntas diferentes. É importante observar a coluna “quem foi estudado”: não seria correto apresentar estudos sobre mulheres com perda gestacional sem informação sobre seu estado celíaco como se fossem estudos realizados em mulheres celíacas.

Estudo Quem foi estudado Resultado principal Limite para a leitora celíaca
Inversetti et al., 2026 197 mulheres com perdas recorrentes idiopáticas e investigação negativa para doença celíaca; comparação por perfil HLA-DQ2/DQ8 uNK elevadas foram mais frequentes no grupo de alto risco genético; endometrite crônica não diferiu significativamente Investiga predisposição genética, não endometrite em mulheres com doença celíaca confirmada. pmc.ncbi.nlm.nih
Ticconi et al., 2024 Meta-análise de estudos sobre endometrite crônica, infertilidade e perdas recorrentes; sem análise específica de mulheres celíacas Endometrite crônica em 37,6% das mulheres com perdas recorrentes versus 16,4% dos controles; OR 3,59 Associação observacional não demonstra que endometrite causou as perdas nem permite estimar sua frequência entre celíacas. frontiersin
Ticconi et al., 2024 — análise de infertilidade Dois estudos com 185 mulheres com infertilidade e 180 controles; sem recorte celíaco Endometrite crônica em 19,46% versus 7,7%; OR 2,96 O resultado diz respeito à infertilidade em geral, não à infertilidade atribuída à doença celíaca. frontiersin
Ticconi et al., 2024 — falha de implantação Dois estudos sobre falha recorrente de implantação; sem recorte celíaco Não houve associação estatisticamente significativa: OR 1,10; IC 95% 0,26–4,61 Nem todos os desfechos reprodutivos apresentam resultados concordantes. frontiersin
Liu et al., 2022

Revisão e meta-análise de 12 estudos, com 2.154 mulheres com falhas reprodutivas; sem comparação específica por doença celíaca Antibióticos não mostraram melhora estatisticamente significativa de gravidez em andamento/nascimento com vida em comparação ao não tratamento; análises de endometrite resolvida versus persistente foram mais favoráveis Diferenças nos métodos, populações e tratamentos impedem extrapolar um benefício garantido para mulheres celíacas. pmc.ncbi.nlm.nih
Diretriz ESHRE, atualização de 2022 Síntese de evidências para investigação e cuidado de perdas gestacionais recorrentes Não recomenda rotineiramente testes de células NK ou tipagem HLA; testes sorológicos para doença celíaca não são indicados apenas por perdas recorrentes na ausência de sintomas da doença Ajuda a separar resultados de pesquisa de exames já recomendados para uso geral. eshre

Os percentuais dessa tabela não são a probabilidade de uma mulher celíaca ter endometrite. São resultados obtidos em populações, critérios diagnósticos e contextos reprodutivos distintos.

 

 

Existe relação comprovada com doença celíaca?

Até aqui, o elo direto entre doença celíaca confirmada e endometrite crônica continua pouco esclarecido. O estudo de 2026 levanta uma hipótese sobre predisposição HLA e ambiente imunológico uterino, mas não estabelece que mulheres celíacas apresentem mais endometrite, que a dieta sem glúten cure endometrite ou que células uNK expliquem as perdas gestacionais de uma paciente individual.

Isso não diminui a importância de diagnosticar e tratar a doença celíaca quando ela existe. São perguntas diferentes:

  • A mulher tem doença celíaca ativa? A resposta exige avaliação clínica e testes apropriados para doença celíaca.
  • Há uma causa identificável para as perdas? A investigação reprodutiva considera história gestacional, anatomia uterina, fatores endócrinos e síndrome antifosfolípide, entre outros pontos.
  • Há endometrite crônica? Essa hipótese depende de avaliação ginecológica específica; um teste HLA positivo ou uma sorologia celíaca não a diagnostica.

Para aprofundar o primeiro eixo sem repetir toda a discussão reprodutiva nesta matéria, veja o artigo do Eu Celíaca: Doença celíaca pode causar infertilidade?

O texto complementar aborda quando investigar a doença celíaca diante de dificuldades para engravidar e perdas gestacionais; este artigo concentra-se na endometrite crônica e no significado do novo estudo.

 

 

Como é feito o diagnóstico?

Quando a hipótese de endometrite crônica é clinicamente relevante, a investigação pode incluir avaliação ginecológica e biópsia do endométrio, com exame histológico e pesquisa imuno-histoquímica de plasmócitos CD138 positivos. A histeroscopia pode mostrar alterações sugestivas, como micropólipos ou áreas de vermelhidão, mas a interpretação não deve se apoiar apenas na aparência do tecido.

Um problema ainda não resolvido é o ponto de corte: quantos plasmócitos, em qual área da amostra, são necessários para classificar o resultado como endometrite crônica? Os estudos usam critérios diferentes. A pesquisa de 2026, por exemplo, definiu o diagnóstico por mais de 5,15 plasmócitos CD138 positivos por 10 mm². Esse valor descreve o protocolo da pesquisa; não deve ser apresentado como um limiar universal aplicável a qualquer laboratório.

Exame ou avaliação O que pode esclarecer O que não faz
História clínica e reprodutiva Número e momento das perdas, tratamentos anteriores e sintomas associados Não identifica sozinha endometrite
Avaliação da anatomia uterina Alterações estruturais que podem integrar a investigação das perdas Não substitui biópsia endometrial para identificar plasmócitos
Histeroscopia Permite examinar a cavidade uterina e pode orientar coleta de material Achados visuais sugestivos não definem, isoladamente, um diagnóstico padronizado
Biópsia endometrial com CD138 Pesquisa plasmócitos no endométrio A interpretação ainda depende de critérios que variam entre serviços e estudos
Sorologia para doença celíaca Investiga doença celíaca quando houver indicação clínica Não diagnostica endometrite
HLA-DQ2/DQ8 Informa predisposição genética à doença celíaca em contextos específicos Não confirma doença celíaca, endometrite ou a causa de um aborto
Dosagem de células NK no sangue ou no endométrio Pode ser utilizada em pesquisa Não é teste recomendado rotineiramente para escolher tratamento de perdas recorrentes

A atualização da diretriz ESHRE recomenda que a investigação de perdas recorrentes seja orientada pela história e pelos achados clínicos. Ela apoia, por exemplo, avaliar a anatomia uterina, pesquisar anticorpos antifosfolípides e verificar a tireoide; não recomenda painéis imunológicos amplos por rotina. Para doença celíaca, a diretriz não indica sorologia exclusivamente por perdas recorrentes quando não há sintomas da doença. Isso não impede a investigação quando houver uma suspeita celíaca própria, a ser discutida com a equipe médica.

 

 

E o tratamento da endometrite?

Quando a endometrite crônica é diagnosticada e o especialista considera que o achado é clinicamente relevante, antibióticos podem ser considerados. A escolha deve levar em conta a história da paciente, possíveis agentes identificados, alergias e o contexto reprodutivo. Não há, porém, consenso universal sobre o melhor esquema, dose ou duração, e o uso empírico indiscriminado traz riscos e não garante melhora da fertilidade.

Na meta-análise de Liu e colaboradores, comparar mulheres que receberam antibióticos com mulheres não tratadas não mostrou melhora estatisticamente significativa na medida agrupada de gravidez em andamento/nascimento com vida: OR 1,68; IC 95% 0,93–3,03. A análise encontrou menos perdas gestacionais no grupo tratado, mas a certeza sobre o efeito reprodutivo geral permaneceu limitada.

Mulheres cuja endometrite havia desaparecido após o tratamento tiveram resultados melhores do que aquelas com endometrite persistente; essa comparação, entretanto, pode refletir outras diferenças entre os grupos e não prova que o antibiótico, sozinho, tenha causado o benefício.

Há também uma diferença importante entre cenários. Nas recomendações da ESHRE para falha recorrente de implantação em reprodução assistida, a avaliação de endometrite crônica pode ser considerada e, se o diagnóstico for feito, o tratamento antibiótico também pode ser considerado. Isso não equivale a recomendar biópsia e antibiótico para toda pessoa que teve um aborto espontâneo.

Tratamentos destinados a “baixar células NK” — como corticoides ou infusões utilizadas sem indicação bem estabelecida — não decorrem do estudo de 2026. A diretriz ESHRE considera insuficiente a evidência para recomendar testes de NK no sangue ou no endométrio como rotina em perdas recorrentes e não recomenda glicocorticoides para perdas recorrentes sem explicação ou com biomarcadores imunológicos selecionados.

Para a mulher com doença celíaca confirmada, há ainda um tratamento que deve continuar independentemente da investigação uterina: a dieta sem glúten estrita, com acompanhamento da doença e das possíveis deficiências nutricionais. Mas dieta sem glúten não substitui o tratamento de uma endometrite diagnosticada; da mesma forma, antibióticos para endometrite não tratam doença celíaca.

 

 

O que perguntar na consulta?

Após perdas gestacionais recorrentes, pode ser útil levar o histórico das gestações e discutir perguntas concretas com a equipe que acompanha o caso:

  • Minha investigação das perdas já incluiu as causas com maior relevância clínica para meu histórico?
  • Há algum achado que justifique investigar a cavidade uterina ou considerar biópsia endometrial?
  • Se houver plasmócitos CD138 positivos, qual critério o laboratório usou e como o resultado mudaria meu cuidado?
  • Há sintomas ou antecedentes que justifiquem investigar doença celíaca independentemente das perdas?
  • Tenho doença celíaca confirmada: como estão o controle da doença, a alimentação e eventuais deficiências nutricionais?
  • Se um tratamento for proposto, qual benefício se espera para nascimento com vida, quais são os riscos e qual é a qualidade da evidência?
  • Um teste de HLA ou de células NK mudaria alguma decisão apoiada em diretrizes?

Essas perguntas ajudam a evitar tanto a negligência de causas tratáveis quanto uma sequência de exames e intervenções sem benefício demonstrado. A diretriz ESHRE também enfatiza que o cuidado deve considerar a experiência emocional das perdas, o histórico completo e decisões compartilhadas.

 

 

Conclusão

O novo estudo abre uma pergunta importante sobre predisposição genética à doença celíaca e imunidade no endométrio, mas sua descoberta central não foi um aumento de endometrite crônica: foi a maior frequência de proporções elevadas de células NK uterinas em um grupo de mulheres com HLA-DQ2/DQ8 de alto risco e perdas recorrentes sem causa identificada. Essas mulheres não constituíam uma coorte de pacientes com doença celíaca confirmada.

Em paralelo, pesquisas em populações mais amplas encontram associação entre endometrite crônica, infertilidade e perdas gestacionais recorrentes. Associação, porém, não é diagnóstico individual nem prova de que testar e tratar todas as mulheres aumentará a chance de nascimento com vida. O caminho mais seguro é investigação reprodutiva individualizada, diagnóstico celíaco quando houver indicação própria e discussão criteriosa sobre biópsia e tratamento da endometrite.

 

 

Leia também:

 

 

Referências científicas e fontes

  1. Inversetti A, Zambella E, Serena C, Ciliberto F, Bertoli F, Morenghi E, et al. Chronic endometritis, uterine NK cell levels, and celiac disease predisposition in idiopathic recurrent spontaneous abortions. Am J Reprod Immunol. 2026;96(3):e70323. doi: 10.1111/aji.70323.
  2. Ticconi C, Inversetti A, Marraffa S, Campagnolo L, Arthur J, Zambella E, et al. Chronic endometritis and recurrent reproductive failure: a systematic review and meta-analysis. Front Immunol. 2024;15:1427454. doi: 10.3389/fimmu.2024.1427454.
  3. Liu J, Liu ZA, Liu Y, Cheng L, Yan L. Impact of antibiotic treatment for chronic endometritis on pregnancy outcomes in women with reproductive failures (RIF and RPL): a systematic review and meta-analysis. Front Med (Lausanne). 2022;9:980511. doi: 10.3389/fmed.2022.980511.
  4. European Society of Human Reproduction and Embryology. Recurrent pregnancy loss: guideline; update 2022. ESHRE; 2023 [citado 2026 set 23].
  5. European Society of Human Reproduction and Embryology. ESHRE good practice recommendations on recurrent implantation failure. Hum Reprod Open. 2023;2023(3):hoad023. doi:10.1093/hropen/hoad023.

 

Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada. Esta matéria foi elaborada com base em artigos científicos indexados no PubMed e outros artigos cientificos e dos testes, além de diretrizes internacionais e revisões de alto nível de evidência. O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Eu Celíaca©. Todos os direitos reservados. Reprodução parcial ou total permitida somente com citação da fonte e link para o conteúdo original. 

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