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Prebióticos podem ajudar pessoas celíacas? O que mostram os estudos — e o que ainda não está comprovado

prebióticos para celíacos

Os prebióticos podem ser uma estratégia complementar para ampliar a oferta de fibras fermentáveis e modular a microbiota intestinal em pessoas com doença celíaca. Mas as pesquisas clínicas específicas ainda são escassas, concentradas sobretudo em crianças e adolescentes, e não justificam recomendação universal de suplementos prebióticos junto à dieta sem glúten.

A mensagem central é a mesma válida para os probióticos: prebióticos não tratam a doença celíaca, não neutralizam o glúten e não substituem a dieta sem glúten rigorosa. Eles podem ser investigados como parte de uma alimentação mais rica e diversa em fibras ou, em situações individualizadas, como suplemento coadjuvante sob orientação profissional.

 

 

O que são prebióticos?

Prebióticos são substâncias utilizadas seletivamente por microrganismos do hospedeiro e que conferem benefício à saúde. A definição foi estabelecida em consenso da International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics, a ISAPP.

Em linguagem simples, são compostos que chegam ao intestino grosso sem serem totalmente digeridos e podem servir de substrato para determinadas bactérias da microbiota. Durante esse processo de fermentação, podem ser produzidos metabólitos como os ácidos graxos de cadeia curta — entre eles acetato, propionato e butirato.

Esses metabólitos participam de processos importantes para a saúde intestinal, como o fornecimento de energia para células do cólon e a comunicação entre microbiota, intestino e sistema imunológico. No entanto, encontrar mais ácidos graxos de cadeia curta nas fezes ou mudanças na microbiota não equivale, automaticamente, a melhora de sintomas ou controle da doença celíaca.

Prebióticos não são sinônimo de fibras

Muitos prebióticos são fibras ou carboidratos fermentáveis, mas os termos não são equivalentes.Para que uma substância seja classificada como prebiótico, é preciso que ela seja utilizada de forma seletiva por microrganismos do hospedeiro e que isso esteja associado a benefício à saúde. Portanto, toda fibra alimentar merece atenção na dieta, mas nem toda fibra deve ser apresentada como prebiótico.

Entre os compostos mais estudados como prebióticos estão:

  • Inulina.
  • Oligofrutose.
  • Inulina enriquecida com oligofrutose.
  • Fruto-oligossacarídeos, ou FOS.
  • Galacto-oligossacarídeos, ou GOS.

No estudo clínico mais relevante realizado especificamente em pessoas com doença celíaca, foi usada uma formulação chamada inulina enriquecida com oligofrutose, ou oligofructose-enriched inulin.

 

 

Por que o tema importa na doença celíaca?

A doença celíaca é uma condição imunomediada desencadeada pela ingestão de glúten em pessoas geneticamente predispostas. O tratamento comprovado continua sendo a exclusão rigorosa e permanente de trigo, cevada e centeio, com atenção à contaminação cruzada.

A dieta sem glúten é indispensável, mas sua qualidade nutricional varia muito. Quando ela se baseia principalmente em pães, massas, biscoitos, bolos e outros produtos industrializados sem glúten feitos com amidos refinados, pode ter baixa oferta de fibras e menor diversidade vegetal.

Esse ponto não significa que a dieta sem glúten “faça mal” à microbiota. Ela é necessária para interromper a agressão desencadeada pelo glúten na doença celíaca. Porém, algumas pesquisas sugerem que mudanças no consumo de fibras e de carboidratos complexos durante a dieta sem glúten podem influenciar a composição e o metabolismo da microbiota intestinal.

Uma revisão sistemática publicada em 2022 analisou 13 estudos sobre microbiota em pessoas com doença celíaca seguindo dieta sem glúten. Os autores observaram que a dieta não restaurou completamente a abundância de todos os microrganismos comensais e que Bifidobacterium permaneceu menos abundante no grupo com doença celíaca em comparação aos controles avaliados. Essas observações não provam causa e efeito, mas sustentam o interesse em investigar estratégias alimentares que ampliem a diversidade e a qualidade da dieta sem glúten.

 

 

O que dizem os ensaios clínicos?

A evidência mais direta sobre prebióticos em doença celíaca vem de um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo conduzido com 34 crianças e adolescentes celíacos, com média de 10 anos de idade, que já seguiam dieta sem glúten.

Durante 12 semanas, um grupo recebeu 10 g por dia de inulina enriquecida com oligofrutose — comercialmente identificada no estudo como Synergy 1 — e o grupo controle recebeu 7 g por dia de maltodextrina.

Ao final do estudo, o grupo que recebeu o prebiótico apresentou:

  • Aumento significativo na contagem de Bifidobacterium nas fezes.
  • Aumento dos níveis fecais de acetato e butirato.
  • Aumento de 31% na concentração total de ácidos graxos de cadeia curta em relação ao início da intervenção.
  • Ausência de efeitos adversos relatados durante os três meses de acompanhamento.

Os autores concluíram que a intervenção teve efeito moderado sobre características qualitativas da microbiota fecal, mas estimulou a produção de metabólitos bacterianos. É um resultado biologicamente interessante, mas não permite concluir que o suplemento melhore sintomas, repare a mucosa intestinal, previna complicações ou trate a doença celíaca.

Estudos derivados analisaram outros marcadores

O mesmo programa de pesquisa avaliou, em crianças e adolescentes celíacos que seguiam dieta sem glúten, possíveis efeitos da inulina enriquecida com oligofrutose sobre marcadores nutricionais e metabólicos.Em uma análise publicada em 2018, participantes que receberam 10 g diários do prebiótico apresentaram aumento de 42% na concentração de 25-hidroxivitamina D, a 25(OH)D, e aumento de 19% na vitamina E.

Ao final da intervenção, 46% dos participantes no grupo prebiótico alcançaram concentração considerada ótima de vitamina D. Não foram observadas diferenças significativas entre os grupos para paratormônio, cálcio ou fósforo.

Outro artigo do grupo analisou o perfil de aminoácidos no plasma e a excreção urinária em 34 crianças e adolescentes que receberam Synergy 1 ou placebo durante três meses. O estudo é exploratório e não estabelece que prebióticos sejam tratamento para deficiências nutricionais em doença celíaca.

Ainda assim, reforça que a hipótese de efeitos sobre absorção e metabolismo de nutrientes merece novas investigações.

É importante destacar que essas publicações derivam de uma mesma linha de pesquisa e de uma amostra pequena. Portanto, elas não devem ser apresentadas como vários grandes ensaios independentes que confirmam a eficácia do prebiótico.

 

 

O que ainda não está comprovado

Hoje, não há evidência suficiente para afirmar que suplementos prebióticos:

  • Tratem a doença celíaca.
  • Neutralizem o glúten ingerido.
  • Permitam o consumo de trigo, cevada ou centeio.
  • Protejam contra contaminação cruzada.
  • Recuperem a mucosa do intestino delgado.
  • Induzam remissão da doença celíaca.
  • Evitem sintomas em todas as pessoas celíacas.
  • Corrijam deficiências de vitaminas ou minerais de forma confiável.
  • Sejam necessários para toda pessoa em dieta sem glúten.

A diretriz de prática baseada em evidências da Academy of Nutrition and Dietetics conclui que, em pessoas com doença celíaca que seguem dieta sem glúten, ainda não há evidência suficiente para sugerir suplementação de prebióticos ou probióticos como intervenção coadjuvante de rotina.

Esse é o principal cuidado da matéria: os achados sobre microbiota, acetato, butirato e vitaminas são promissores, mas ainda não equivalem a uma indicação clínica geral.

 

 

Prebióticos nos alimentos sem glúten

Para a maior parte das pessoas celíacas, o primeiro passo não é procurar um suplemento. É avaliar, com profissional de saúde, a qualidade global da alimentação sem glúten e o consumo habitual de fibras.

Muitos alimentos naturalmente isentos de glúten fornecem fibras e compostos fermentáveis que podem contribuir para uma dieta mais diversa:

Grupo alimentar Opções naturalmente sem glúten Como incluir
Leguminosas Feijão, lentilha, grão-de-bico, ervilha, soja Sopas, saladas, pastas, bolinhos assados, acompanhamentos
Hortaliças Alho, cebola, alho-poró, aspargos, alcachofra Refogados, caldos, omeletes, molhos e assados
Frutas Banana menos madura, maçã, pera, frutas cítricas Lanches, vitaminas, mingaus e receitas
Cereais e pseudocereais Aveia certificada sem glúten, quinoa, amaranto, painço, arroz integral, trigo-sarraceno Papas, saladas, risotos, pães e bolos com farinhas integrais sem glúten
Sementes e oleaginosas Linhaça, chia, gergelim, castanhas e amêndoas Iogurtes, frutas, preparações assadas e farofas
Tubérculos e raízes Batata, batata-doce, mandioca, inhame, cará Cozidos, assados, purês, sopas e saladas

Nem todos esses alimentos são prebióticos clinicamente estabelecidos, e a quantidade de compostos fermentáveis varia conforme espécie, maturação, preparo e porção. Por isso, em uma matéria jornalística, é mais preciso dizer que eles ajudam a ampliar a oferta de fibras e de carboidratos fermentáveis em uma alimentação sem glúten do que classificá-los todos como “prebióticos”.

A aveia merece atenção especial: ela deve ser certificada sem glúten, pois a contaminação por trigo, cevada ou centeio pode ocorrer em diferentes etapas da cadeia produtiva. A tolerância deve ser individualizada e discutida com a equipe de saúde.

 

 

Mais fibras pode piorar sintomas?

Pode. Prebióticos e fibras fermentáveis podem causar gases, estufamento, desconforto e alterações do hábito intestinal, especialmente quando são introduzidos de forma rápida ou em grandes quantidades.

Isso pode ser particularmente relevante para pessoas com doença celíaca que também tenham:

  • Síndrome do intestino irritável.
  • Constipação.
  • Sensibilidade a FODMAPs.
  • Suspeita ou diagnóstico de supercrescimento bacteriano do intestino delgado.
  • Dor ou distensão abdominal persistentes.
  • Consumo muito baixo de fibras antes da mudança alimentar.

Por isso, aumentar fibras e alimentos fermentáveis deve ser um processo gradual. Água, rotina alimentar, tolerância individual, padrão de evacuação e diversidade da dieta precisam entrar na decisão.

Uma alimentação sem glúten bem planejada não depende de excluir ainda mais grupos alimentares sem motivo; ela precisa ser segura contra o glúten e, ao mesmo tempo, nutricionalmente suficiente.

Sintomas persistentes não devem ser interpretados como “sinal de falta de prebióticos”. Antes de adicionar suplementos, é necessário revisar adesão à dieta, risco de contaminação cruzada e outras causas possíveis de desconforto gastrointestinal.

 

 

Prebióticos e probióticos: como se relacionam?

Probióticos são microrganismos vivos administrados em quantidade adequada e associados a benefício à saúde. Prebióticos são os substratos seletivamente utilizados pela microbiota que geram benefício.

Quando uma formulação combina um microrganismo vivo com um prebiótico, ela pode ser classificada como simbiótico, desde que os critérios de benefício sejam atendidos.

Para pessoas celíacas, isso não significa que seja necessário comprar produtos com os três termos no rótulo. A decisão deve partir de uma necessidade individual e de um objetivo claro, como melhorar a qualidade da dieta, elevar gradualmente a ingestão de fibras ou investigar sintomas persistentes com uma equipe de saúde.

Leia também: Probióticos podem ajudar pessoas celíacas? O que mostram os ensaios clínicos — e o que ainda não está comprovado.

 

 

Conclusão

A pesquisa sobre prebióticos em doença celíaca é promissora, mas ainda inicial. O principal ensaio clínico específico disponível avaliou 34 crianças e adolescentes em dieta sem glúten e encontrou aumento de Bifidobacterium, acetato, butirato e ácidos graxos de cadeia curta após três meses de suplementação com inulina enriquecida com oligofrutose. Estudos derivados dessa mesma amostra também sugeriram mudanças em marcadores de vitamina D e vitamina E.

Esses resultados não comprovam que prebióticos tratem a doença celíaca ou devam ser usados por todas as pessoas em dieta sem glúten. A evidência disponível é pequena, predominantemente pediátrica e ainda não foi amplamente replicada em adultos, em estudos maiores, com avaliação de sintomas, qualidade de vida, adesão à dieta e recuperação da mucosa intestinal.

Na prática, o caminho mais seguro é priorizar uma dieta sem glúten variada, baseada em alimentos naturalmente isentos de glúten e ajustada à tolerância individual. Suplementos prebióticos podem ser discutidos caso a caso, mas devem ser entendidos como possível complemento — e jamais como substitutos da dieta sem glúten, da prevenção de contaminação cruzada ou da avaliação de sintomas persistentes.

 

 

Leia mais no Eu Celíaca

 

 

Referências científicas e fontes

  1. Gibson GR, Hutkins R, Sanders ME, Prescott SL, Reimer RA, Salminen SJ, et al. Expert consensus document: the International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics consensus statement on the definition and scope of prebiotics. Nat Rev Gastroenterol Hepatol. 2017;14(8):491-502. doi:10.1038/nrgastro.2017.75.
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  3. Drabińska N, Krupa-Kozak U, Abramowicz P, Jarocka-Cyrta E. Beneficial effect of oligofructose-enriched inulin on vitamin D and E status in children with celiac disease on a long-term gluten-free diet: a preliminary randomized, placebo-controlled nutritional intervention study. Nutrients. 2018;10(11):1768. doi:10.3390/nu10111768.
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  6. Rubio-Tapia A, Hill ID, Semrad C, Kelly CP, Greer KB, Limketkai B, et al. American College of Gastroenterology guidelines update: diagnosis and management of celiac disease. Am J Gastroenterol. 2023;118(1):59-76. doi:10.14309/ajg.0000000000002075.
  7. Academy of Nutrition and Dietetics. Celiac disease: evidence-based nutrition practice guideline. Recommendation: prebiotic and probiotic supplementation in individuals following a gluten-free diet. Disponível em: Evidence Analysis Library.
  8. 8. Rybak A, et al. Prebiotics in the management of pediatric gastrointestinal disorders. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2024.

 

Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. As informações apresentadas não substituem consulta médica, diagnóstico clínico ou orientação nutricional individualizada. Esta matéria foi elaborada com base em artigos científicos indexados no PubMed e outros artigos cientificos e dos testes, além de diretrizes internacionais e revisões de alto nível de evidência. O Eu Celíaca não recebe patrocínio de laboratórios, indústria farmacêutica ou fabricantes de produtos sem glúten. Eu Celíaca©. Todos os direitos reservados. Reprodução parcial ou total permitida somente com citação da fonte e link para o conteúdo original. 

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