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Goma xantana pode causar câncer? Reportagem internacional preocupa celíacos e leva ingrediente à investigação

goma xantana causa câncer

Uma reportagem publicada pelo Daily Mail relacionando a goma xantana a um possível risco de câncer de cólon provocou forte apreensão na comunidade celíaca internacional.

A preocupação não é difícil de compreender. A goma xantana está presente em grande parte dos pães, massas, bolos, biscoitos, misturas de farinhas e outros produtos sem glúten. Para muitas pessoas com doença celíaca, portanto, não se trata de um aditivo consumido ocasionalmente, mas de um ingrediente que pode aparecer várias vezes no mesmo dia.

A reportagem se baseou em uma pesquisa brasileira publicada em abril de 2026, na qual ratos receberam diferentes quantidades de goma xantana durante dez semanas. Os pesquisadores encontraram alterações na microbiota, em proteínas relacionadas à barreira intestinal e sinais de inflamação no cólon — inclusive alguns marcadores na menor dose testada. O estudo foi publicado na PLOS One.

Mas existe uma diferença decisiva entre o que a pesquisa encontrou e a maneira como o assunto chegou ao público: o experimento não investigou câncer, não identificou tumores provocados pela goma xantana e não foi realizado em seres humanos.

Isso significa que a notícia é falsa e que não existe motivo para preocupação? Também não.

Os resultados demonstram que a goma xantana não deve mais ser tratada simplesmente como uma substância inerte. Ela pode interagir com a microbiota, modificar componentes da barreira intestinal e produzir efeitos inflamatórios em um modelo animal.

Os próprios pesquisadores brasileiros ressaltaram a preocupação com o consumo diário e cumulativo e defenderam a realização de estudos em seres humanos. A Agência FAPESP detalhou as conclusões e as ressalvas dos autores.

Diante da repercussão, o Eu Celíaca foi investigar:

  • o que o estudo brasileiro realmente demonstrou;
  • quais efeitos apareceram em cada uma das doses;
  • o que as pesquisas anteriores encontraram sobre inflamação, microbiota, permeabilidade intestinal e câncer;
  • se existem estudos específicos com pessoas celíacas;
  • o que dizem FDA, Anvisa, JECFA/FAO-OMS e EFSA;
  • e se o psyllium pode substituir a goma xantana de maneira segura e tecnicamente eficiente nas receitas sem glúten.

A resposta é mais complexa do que “a goma xantana causa câncer” ou “a goma xantana é completamente segura”. E é justamente essa diferença que precisa ser esclarecida.

 

 

A goma xantana causa câncer ou inflamação intestinal?

Até o momento, não há evidência de que a goma xantana cause câncer colorretal em seres humanos. A pesquisa brasileira de 2026 encontrou inflamação no cólon e alterações em proteínas relacionadas à barreira intestinal de ratos, mas não investigou o desenvolvimento de tumores.

Os estudos em pessoas ainda são escassos. Pesquisas antigas indicaram tolerância a doses elevadas por períodos curtos, enquanto estudos observacionais recentes encontraram associações com câncer em geral e diabetes tipo 2 que não comprovam causalidade. Também já se sabe que a goma é fermentada por bactérias intestinais e pode modificar a microbiota.

Portanto, a repercussão não deve ser ignorada, mas tampouco permite afirmar que o consumo culinário de goma xantana cause inflamação, intestino permeável ou câncer em pessoas.

 

 

O que as pesquisas mais relevantes sobre goma xantana encontraram

Os estudos apresentam resultados bastante diferentes porque avaliaram células, animais, adultos saudáveis, crianças celíacas, prematuros e grandes coortes populacionais. A tabela abaixo mostra por que essas evidências não podem ser interpretadas como se tivessem o mesmo peso.

Ano Pesquisa e desenho Exposição ou população Resultado principal Leitura crítica e link
1987 The dietary effects of xanthan gum in man Cinco homens saudáveis consumiram aproximadamente 10 a 13 g por dia durante 23 dias Aumentou o volume fecal e houve redução de cerca de 10% no colesterol, sem alterações relevantes em exames hematológicos, bioquímicos ou urinários Estudo muito pequeno, sem grupo-controle paralelo e realizado antes das técnicas atuais de análise da microbiota e da barreira intestinal. Acessar estudo
1993 The effect of feeding xanthan gum on colonic function in man 18 homens saudáveis consumiram 15 g por dia durante dez dias Aumentaram o peso das fezes, a frequência das evacuações e a flatulência. As bactérias intestinais aumentaram sua capacidade de degradar a goma Demonstra fermentação e adaptação bacteriana, mas não avaliou inflamação, permeabilidade ou consumo prolongado. Acessar o estudo
2009 Oral administration of xanthan gum enhances antitumor activity through Toll-like receptor 4 Camundongos submetidos a modelos tumorais A administração intermitente estimulou macrófagos e aumentou a atividade antitumoral por uma via dependente do receptor TLR4 Não demonstra prevenção ou tratamento de câncer em pessoas. Mostra que a goma pode produzir respostas imunológicas que variam conforme o modelo e a forma de exposição. Acessar no PubMed
2012 Relatos de enterocolite necrosante Três casos clínicos e uma análise de 22 notificações envolvendo prematuros que receberam o espessante SimplyThick Os casos apresentaram um padrão incomum de enterocolite colônica de início tardio Trata-se de associação com um produto comercial em uma população extremamente vulnerável. Não isola a goma como causa nem permite transferir o risco para adultos. Série de três casos e análise das notificações
2018 The Addition of Xanthan Gum to Enteral Nutrition Suppresses Postprandial Glycemia in Humans Cinco adultos saudáveis receberam uma única refeição enteral com ou sem 1% de goma A glicemia 20 minutos após a refeição e a área sob a curva glicêmica foram menores com a goma Estudo agudo, não randomizado, com apenas cinco participantes. Não avaliou segurança intestinal nem consumo diário. Acessar o estudo 
2019 A diet including xanthan gum triggers a pro-inflammatory response in Wistar rats inoculated with Walker 256 cells 56 ratos receberam dieta com ou sem goma durante dez semanas; parte foi inoculada com células tumorais Houve aumento de citocinas inflamatórias em tecidos adiposos, mas a goma não aumentou o desenvolvimento dos tumores É especialmente relevante porque avaliou inflamação e câncer no mesmo experimento e não encontrou crescimento tumoral provocado pela goma. Acessar na PLOS One 
2020 Dietary Xanthan Gum Alters Antibiotic Efficacy against the Murine Gut Microbiota and Attenuates Clostridioides difficile Colonization Camundongos receberam dieta contendo 5% de goma e foram tratados com antibióticos A goma alterou a microbiota, elevou ácidos graxos de cadeia curta, reduziu o impacto do antibiótico sobre algumas bactérias e dificultou a colonização por C. difficile A dose era muito elevada. O resultado mostra que a alteração da microbiota não é necessariamente prejudicial ou benéfica em todos os contextos. Acessar na mSphere
2022 Mechanistic insights into consumption of the food additive xanthan gum by the human gut microbiota Amostras de microbiomas humanos, análises metagenômicas e camundongos colonizados com microbiota humana Foi identificada uma bactéria da família Ruminococcaceae que inicia a degradação da goma, permitindo que outras bactérias aproveitem os fragmentos produzidos Comprovou que a goma não é biologicamente inerte, mas não avaliou sintomas, inflamação ou doença nos participantes. Acessar na Nature Microbiology
2023 Children With Celiac Disease Consume Specific Food Additives More Frequently Compared to Children Without Celiac Disease 28 crianças, sendo 15 com doença celíaca e 13 controles, preencheram registros alimentares de três dias Crianças celíacas tiveram, em média, 5,3 exposições diárias à goma, contra 2,3 no grupo sem doença celíaca. Produtos sem glúten forneceram 29% das calorias da dieta celíaca Comprova maior frequência de exposição, mas não avaliou sintomas, inflamação, permeabilidade ou recuperação das vilosidades. Acessar no PubMed
2024 Food additive emulsifiers and cancer risk: results from the NutriNet-Santé cohort 92 mil adultos acompanhados, em média, por 6,7 anos No modelo principal, maior exposição à goma foi associada a 13% mais risco de câncer em geral — HR 1,13; IC 95% 1,02–1,25 A associação não permaneceu robusta em todas as análises. Nenhum dos aditivos avaliados foi associado ao câncer colorretal. Estudo observacional não comprova causalidade. Acessar na PLOS Medicine
2024 Food additive emulsifiers and the risk of type 2 diabetes 104.139 adultos acompanhados, em média, por 6,8 anos; 1.056 desenvolveram diabetes tipo 2 Cada incremento estimado de 500 mg diários de goma foi associado a aumento de 8% no risco — HR 1,08; IC 95% 1,02–1,14 Associação epidemiológica sujeita a confundimento alimentar e erros na estimativa dos aditivos. Não demonstra que a goma tenha causado diabetes. Acessar no The Lancet Diabetes & Endocrinology 
2026 Xanthan gum intake modifies the colon microbiota profile and causes mild colon inflammation in rats 32 ratos receberam três concentrações de goma durante dez semanas Foram encontrados infiltrado de linfócitos, alterações em TNF-α, IL-1β, claudina-2 e ZO-1 e mudanças bacterianas mais evidentes na maior dose Não avaliou seres humanos, doença celíaca, permeabilidade funcional ou câncer. Alguns achados apareceram na menor dose, mas os resultados não foram iguais nas três concentrações. Acessar na PLOS One

A tabela mostra que a goma xantana pode exercer efeitos intestinais e metabólicos, mas esses efeitos dependem da dose, do tempo de exposição, da microbiota, da idade, da condição clínica e do método empregado.

Não é cientificamente adequado classificá-la simplesmente como “inerte”. Também não é correto, com as evidências atuais, apresentá-la como um ingrediente comprovadamente cancerígeno.

 

 

O que o estudo brasileiro de 2026 realmente encontrou

A pesquisa publicada em 15 de abril de 2026 acompanhou 32 ratos Wistar machos durante dez semanas. Os animais foram divididos em quatro grupos:

Grupo Concentração adicionada à ração Cenário que os pesquisadores pretenderam representar
Controle 0 mg/kg Referência para comparação, sem adição de goma xantana
Dose baixa 462,5 mg por kg de ração Uso em dieta restritiva sem glúten somado ao consumo de industrializados
Dose intermediária 925 mg por kg Uso de espessante em parte das preparações por pessoa com disfagia leve
Dose alta 1.850 mg por kg Uso de espessante em líquidos e refeições por pessoa com disfagia moderada

A comparação com cenários humanos foi feita por conversão de doses. Isso não significa, contudo, que a concentração presente na ração corresponda diretamente à quantidade que uma pessoa consome ao usar uma colher de goma em determinada receita.

O ganho de peso, o consumo alimentar, a adiposidade, a glicemia e o perfil lipídico permaneceram semelhantes entre os grupos. As alterações apareceram principalmente nas análises do cólon.

Os pesquisadores encontraram:

  • maior presença de linfócitos na parede intestinal;
  • maior marcação de TNF-α e claudina-2 nos três grupos que receberam goma;
  • aumento do escore histológico de inflamação nas doses intermediária e alta;
  • aumento de IL-1β principalmente na dose intermediária;
  • aumento de claudina-2 e ZO-1 em uma das análises da dose baixa;
  • ausência de diferença relevante em ocludina;
  • manutenção da diversidade bacteriana geral;
  • aumento de Elusimicrobiota principalmente na maior dose.

Existe, portanto, fundamento para dizer que alguns sinais inflamatórios e relacionados à barreira apareceram inclusive na menor concentração. Não é correto afirmar que todas as doses produziram o mesmo efeito ou que houve uma progressão linear em todos os marcadores.

Outro detalhe chama a atenção: o título do artigo utiliza a expressão “inflamação leve”, enquanto a conclusão menciona processo de grau moderado. A leitura dos resultados detalhados é mais informativa do que qualquer uma dessas expressões isoladamente: o escore histológico aumentou de forma estatisticamente significativa apenas nas doses intermediária e alta, mas determinadas marcações celulares apareceram nas três doses.

 

 

A pesquisa comprovou aumento da permeabilidade intestinal?

Não diretamente.

A claudina-2 participa da formação de poros entre as células do epitélio intestinal. Em diferentes doenças inflamatórias, seu aumento é associado a uma barreira mais permeável. A ZO-1 e a ocludina também integram as junções que ajudam a manter as células unidas.

O estudo mediu a quantidade e a marcação dessas proteínas, mas não realizou um teste funcional de permeabilidade, como a passagem de moléculas marcadoras através do intestino para a circulação.

A formulação cientificamente mais precisa é:

O consumo de goma xantana modificou proteínas relacionadas à barreira do cólon de ratos, levantando a hipótese de alteração da permeabilidade intestinal.

Ainda não seria correto afirmar:

Qualquer quantidade de goma xantana abre o intestino ou causa intestino permeável em pessoas.

Também não se pode presumir o mesmo efeito em pessoas com doença celíaca. A pesquisa avaliou o cólon de ratos sem doença celíaca, enquanto a lesão típica da doença celíaca ocorre predominantemente no intestino delgado após a exposição ao glúten.

 

 

Por que a goma xantana foi relacionada ao câncer?

A pesquisa brasileira não induziu câncer colorretal, não acompanhou o surgimento de tumores e não identificou lesões pré-cancerosas provocadas pela goma.

A associação foi construída a partir de um raciocínio indireto: inflamação crônica e alterações persistentes da barreira intestinal podem participar do desenvolvimento de diferentes doenças, inclusive alguns tipos de câncer. Isso constitui uma hipótese biológica, não uma demonstração de que a goma cause câncer.

O estudo animal de 2019 chegou a avaliar diretamente o desenvolvimento tumoral. Embora a goma tenha aumentado determinadas citocinas inflamatórias, ela não favoreceu o crescimento dos tumores Walker 256.

Também existe uma pesquisa em camundongos, publicada em 2009, na qual a administração intermitente da goma estimulou uma resposta imunológica antitumoral. Os dois resultados aparentemente contraditórios mostram que ativação imunológica, inflamação aguda, inflamação crônica e desenvolvimento de câncer não são fenômenos equivalentes.

 

 

O que a pesquisa com 92 mil adultos mostrou sobre câncer

Na coorte francesa NutriNet-Santé, 92 mil adultos foram acompanhados durante uma média de 6,7 anos. Nesse período, ocorreram 2.604 diagnósticos de câncer, incluindo 207 casos colorretais.

No modelo estatístico principal, maior consumo estimado de goma xantana foi associado a um risco 13% maior de câncer em geral. O resultado foi HR 1,13, com intervalo de confiança de 95% entre 1,02 e 1,25.

A associação, entretanto:

  • não permaneceu robusta em todas as análises de sensibilidade;
  • tornou-se menos consistente quando foram considerados todos os registros alimentares disponíveis;
  • pode sofrer influência de outros componentes dos alimentos ultraprocessados;
  • depende de estimativas da quantidade de aditivos presente nos produtos;
  • não demonstra uma relação de causa e efeito.

Mais importante para a repercussão atual: nenhum dos aditivos estudados apresentou associação estatisticamente significativa com câncer colorretal.

Assim, a coorte levanta uma hipótese sobre câncer em geral, mas não sustenta a afirmação de que goma xantana cause câncer de cólon.

 

 

O que as pesquisas em seres humanos ainda não respondem

Os estudos de 1987 e 1993 administraram entre 10 e 15 gramas diárias — quantidades elevadas — durante dez a 23 dias. Eles encontraram efeito laxativo, aumento do volume fecal, flatulência, fermentação bacteriana e algumas mudanças metabólicas, sem toxicidade clínica identificada.

Esses experimentos sugerem tolerância a doses altas durante períodos curtos. Não esclarecem, porém, se pequenas quantidades consumidas todos os dias durante anos podem modificar inflamação, microbiota ou permeabilidade intestinal.

O estudo de 2018 encontrou menor elevação da glicemia após uma refeição com goma, mas envolveu somente cinco voluntários e uma exposição única. Ele não permite concluir que o consumo prolongado previna diabetes — especialmente porque a grande coorte de 2024 encontrou uma associação em sentido oposto.

A diferença não representa necessariamente uma contradição. A viscosidade da goma pode retardar a absorção de glicose em uma refeição, enquanto o risco metabólico de longo prazo pode refletir o conjunto da alimentação, a presença de ultraprocessados, a microbiota e outros fatores ainda não esclarecidos.

 

 

A goma xantana modifica a microbiota intestinal

Durante muitos anos, a goma foi descrita como não digerível. Estudos atuais mostram que ela pode não ser digerida pelas enzimas humanas, mas é aproveitada por determinadas bactérias.

Em 1993, após dez dias de consumo, as amostras fecais dos participantes apresentaram maior capacidade de reduzir a viscosidade da goma e produzir hidrogênio e ácidos graxos de cadeia curta. Isso indicava adaptação bacteriana.

Em 2022, a pesquisa publicada na Nature Microbiology identificou uma cadeia alimentar microbiana. Uma bactéria da família Ruminococcaceae inicia a degradação da goma. Os fragmentos liberados podem ser utilizados por outras bactérias, como Bacteroides intestinalis.

Isso demonstra que a goma:

  • funciona como substrato para bactérias específicas;
  • pode favorecer a expansão de microrganismos capazes de utilizá-la;
  • participa do metabolismo microbiano intestinal;
  • não atravessa necessariamente o cólon sem interação.

O estudo não determinou se essa adaptação é benéfica, prejudicial ou neutra para a maioria das pessoas.

Mudanças na microbiota não devem ser automaticamente interpretadas como “disbiose”, assim como aumento de ácidos graxos de cadeia curta não significa benefício clínico garantido.

 

 

Pessoas com doença celíaca parecem consumir goma xantana com mais frequência

A única pesquisa humana diretamente relacionada à doença celíaca não avaliou inflamação provocada pela goma. Ela mediu a frequência com que crianças eram expostas a nove aditivos alimentares.

Participaram 15 crianças com doença celíaca e 13 sem a doença. A partir de registros alimentares de três dias, os pesquisadores calcularam:

  • 5,3 exposições diárias à goma xantana no grupo celíaco;
  • 2,3 exposições por dia no grupo-controle;
  • diferença estatisticamente significativa, com p = 0,009;
  • 29% das calorias da dieta celíaca provenientes de produtos formulados especificamente sem glúten;
  • presença de pelo menos um dos aditivos analisados em 68% dos produtos sem glúten, contra 25% dos processados com glúten.

“Exposição” significava a presença da goma em um alimento consumido, e não a quantidade em gramas. Uma criança poderia ter diversas exposições em pequenas quantidades.

O estudo comprova que a população celíaca pode entrar em contato com o ingrediente mais vezes ao longo do dia. Não demonstra que essa exposição tenha provocado sintomas, inflamação, alterações na permeabilidade ou atraso na recuperação intestinal.

Até agosto de 2026, não foi identificado ensaio clínico que compare pessoas celíacas consumindo e evitando goma xantana e avalie:

  • recuperação das vilosidades;
  • anticorpos da doença celíaca;
  • permeabilidade intestinal;
  • citocinas inflamatórias;
  • sintomas gastrointestinais;
  • qualidade de vida;
  • risco de doença celíaca não responsiva.

Essa é uma das principais lacunas científicas do tema.

 

 

O que aconteceu com os bebês prematuros

Em 2011, a FDA recomendou que o espessante SimplyThick não fosse oferecido a bebês nascidos antes de 37 semanas. A agência havia recebido 17 notificações de enterocolite necrosante, incluindo cinco mortes, envolvendo prematuros expostos ao produto.

Uma publicação posterior analisou 22 notificações e identificou um padrão clínico incomum, com início tardio e comprometimento do cólon. Outra série descreveu três casos ocorridos em um mesmo serviço.

Esses relatos justificaram a precaução porque os prematuros apresentam intestino imaturo e são especialmente vulneráveis à enterocolite necrosante. Entretanto:

  • os casos envolveram um espessante comercial;
  • a goma não foi isolada dos demais componentes;
  • não houve randomização ou grupo-controle adequado;
  • as quantidades efetivamente administradas não eram conhecidas;
  • o resultado não pode ser extrapolado para adultos.

Também é mais preciso dizer que a FDA recomendou não oferecer o SimplyThick a prematuros, e não que a agência tenha proibido genericamente toda goma xantana para qualquer uso infantil. Consulte o alerta distribuído pelo CDC em nome da FDA.

 

 

O que dizem FDA, Anvisa, FAO, OMS e EFSA

Órgão Situação regulatória O que isso significa Ressalva
FDA A goma é autorizada como aditivo alimentar nas condições previstas e segundo boas práticas de fabricação Pode ser usada como estabilizante, espessante, agente de suspensão e em outras funções autorizadas

A FDA emitiu alerta específico para o produto SimplyThick administrado a prematuros. Regulamento

Anvisa A goma xantana, INS 415, está contemplada na regulamentação consolidada de aditivos Funções, limites e condições dependem da categoria do alimento Autorização não equivale a recomendação para adicionar quantidades desnecessárias. Normas da Anvisa
JECFA — FAO/OMS Ingestão diária aceitável “não especificada”  Os dados avaliados não exigiram um limite diário numérico para os usos previstos e segundo boas práticas Não significa quantidade ilimitada nem ausência absoluta de efeitos intestinais. Base do JECFA
EFSA Em 2017, concluiu não ser necessária uma ingestão diária aceitável numérica para a população geral A exposição estimada não representava preocupação nas condições avaliadas A avaliação é anterior aos estudos epidemiológicos de 2024 e à pesquisa intestinal de 2026. Avaliação de 2017 
EFSA — fórmulas especiais Em 2023, avaliou fórmulas para menores de 16 semanas e não identificou preocupação até 1.200 mg/L nas condições específicas analisadas A conclusão se aplica a categorias regulamentadas de fórmulas para necessidades médicas especiais A própria EFSA diferenciou esse uso da adição livre de espessante ao leite materno ou à fórmula. Avaliação de 2023

Até 3 de agosto de 2026, não foi localizada nas páginas públicas consultadas uma reavaliação da FDA, da Anvisa, do JECFA ou da EFSA motivada especificamente pelo novo estudo brasileiro.

As avaliações regulatórias continuam válidas, mas foram construídas principalmente a partir de desfechos toxicológicos tradicionais, como mortalidade, alterações em órgãos, reprodução, genotoxicidade e formação de tumores. Microbiota, citocinas e testes funcionais da barreira intestinal nem sempre foram investigados com a profundidade atual.

 

 

Pessoas com doença celíaca devem parar de consumir goma xantana?

A evidência disponível não justifica recomendar que todas as pessoas celíacas retirem imediatamente o ingrediente.

Também não seria prudente ignorar a possibilidade de exposição repetitiva. Uma pessoa pode consumir goma no pão, na mistura de farinhas, no bolo, no biscoito, no molho, em suplementos e em sobremesas no mesmo dia.

Enquanto faltam estudos específicos, medidas razoáveis incluem:

  • conferir se a mistura de farinha já contém goma antes de acrescentar mais;
  • não utilizar o ingrediente automaticamente em todas as receitas;
  • empregar apenas a quantidade necessária para alcançar o resultado;
  • variar os agentes estruturantes;
  • priorizar alimentos naturalmente sem glúten;
  • evitar que a alimentação seja baseada em ultraprocessados sem glúten;
  • observar se sintomas surgem repetidamente após produtos com várias gomas e fibras;
  • investigar, com médico e nutricionista, sintomas persistentes apesar da dieta sem glúten.

Reduzir uma exposição desnecessariamente repetitiva é diferente de declarar o ingrediente perigoso ou cancerígeno.

 

 

Nem todas as receitas sem glúten precisam de goma xantana

Na panificação, a goma ajuda a reter os gases produzidos pelo fermento, reduzir o esfarelamento, manter a umidade e dar elasticidade à massa.

Ela é útil, mas não indispensável em todas as preparações. Tapioca, pão de queijo, crepioca, panquecas, biscoitos, bolos estruturados com ovos e diversas receitas naturalmente sem glúten podem ser produzidos sem o ingrediente.

Em pães e massas fermentadas, outras possibilidades incluem:

  • psyllium;
  • linhaça hidratada;
  • chia hidratada;
  • goma guar;
  • HPMC;
  • combinações de fibras e hidrocoloides.

A escolha depende do tipo de farinha, da quantidade de água, da fermentação e da textura desejada.

 

 

Psyllium pode substituir a goma xantana?

O psyllium forma um gel que retém água e ajuda a dar coesão a massas sem glúten. Estudos tecnológicos mostram que ele pode desempenhar funções semelhantes às da goma em determinadas formulações.

Uma pesquisa comparou pães elaborados com HPMC, psyllium e goma xantana. Quando a hidratação foi ajustada para cada ingrediente, psyllium e goma apresentaram comportamento semelhante em volume específico e perda de peso durante o forneamento. Acessar o estudo publicado em Foods.

Outra experiência desenvolveu pão com psyllium e obteve boa aceitação entre pessoas com e sem doença celíaca. Acessar no PubMed.

A substituição não deve ser feita automaticamente na proporção de um para um. O psyllium absorve grande quantidade de água, e o resultado depende de:

  • uso da casca inteira ou em pó;
  • granulometria;
  • tipo de farinha ou amido;
  • quantidade de ovos e gorduras;
  • tempo de hidratação;
  • método de fermentação;
  • formato do produto.

A forma mais segura de começar é utilizar uma receita originalmente desenvolvida com psyllium. Apenas retirar a goma e acrescentar a mesma quantidade de psyllium pode produzir uma massa seca, pesada ou excessivamente gomosa.

 

 

Psyllium é comprovadamente mais saudável para pessoas celíacas?

Ainda não de maneira direta.

Não foi identificado ensaio clínico comparando uma dieta com goma xantana e outra equivalente com psyllium em pessoas celíacas e avaliando inflamação, recuperação das vilosidades, permeabilidade, sintomas ou qualidade de vida.

O psyllium possui um conjunto maior de evidências clínicas como fibra solúvel. Meta-análises encontraram redução do colesterol LDL e melhora do controle glicêmico, principalmente em pessoas que já apresentavam diabetes tipo 2. Meta-análise sobre colesterol e meta-análise sobre glicemia.

Esses benefícios não comprovam que o psyllium previna uma suposta inflamação causada pela goma.

Ele também exige cuidados. A ingestão com hidratação insuficiente pode elevar o risco de engasgo ou obstrução em pessoas com dificuldade de deglutição ou estreitamentos digestivos. Pode ainda provocar gases, distensão e interferir na absorção de alguns medicamentos.

Para pessoas celíacas, o produto deve ter procedência confiável e declaração de ausência de glúten.

 

 

Qual é a decisão mais equilibrada neste momento?

O estudo brasileiro representa um sinal científico relevante. Ele identificou inflamação no cólon de ratos, alterações em proteínas da barreira e alguns efeitos inclusive na menor concentração testada.

Para determinar a importância clínica desses resultados, serão necessários:

  • estudos independentes de reprodução;
  • testes funcionais de permeabilidade;
  • períodos mais longos de acompanhamento;
  • comparação entre consumo ocasional e diário;
  • estudos controlados em seres humanos;
  • pesquisas específicas com pessoas celíacas;
  • avaliação da exposição total proveniente de diferentes produtos;
  • comparação entre goma xantana, psyllium e outros estruturantes.

A pesquisa não comprovou que a goma cause câncer de cólon, intestino permeável ou inflamação em pessoas. Também não demonstrou segurança absoluta para o consumo cotidiano e cumulativo durante anos.

A conclusão mais responsável não é condenar nem absolver definitivamente o ingrediente. É reconhecer a lacuna, evitar o uso desnecessário, reduzir a dependência de ultraprocessados e acompanhar o avanço das pesquisas.

 

FAQ – Perguntas frequentes

Goma xantana causa câncer de cólon?

Não há evidência de que cause câncer de cólon. O estudo de 2026 não investigou tumores, e a coorte francesa de 92 mil adultos não encontrou associação estatisticamente significativa com câncer colorretal.

A menor dose também alterou o intestino dos ratos?

A menor dose apresentou aumento de determinadas marcações, como TNF-α e claudina-2. Entretanto, o escore histológico de inflamação aumentou significativamente apenas nas doses intermediária e alta.

O estudo comprovou intestino permeável?

Não. Foram avaliadas proteínas relacionadas à barreira intestinal, mas não foi realizado teste funcional de permeabilidade.

Pessoas celíacas precisam retirar a goma xantana?

Não existe recomendação científica geral para a retirada completa. É razoável evitar quantidades desnecessárias, conferir a composição de misturas prontas e variar os agentes estruturantes.

Psyllium substitui a goma xantana?

Pode substituir em diversas receitas, principalmente em pães, desde que a hidratação e a formulação sejam ajustadas. Não existe uma proporção universal.

Psyllium é comprovadamente melhor para o intestino celíaco?

Não há comparação clínica direta. O psyllium possui benefícios próprios como fibra, mas ainda não foi demonstrado que a troca melhore a recuperação intestinal na doença celíaca.

 

 

Conclusão: o alerta é relevante, mas relacionar goma xantana ao câncer ainda ultrapassa as evidências

A repercussão internacional cumpriu um papel importante ao chamar atenção para um ingrediente consumido diariamente por milhões de pessoas. Entretanto, a relação direta estabelecida entre goma xantana e câncer de cólon foi além do que a pesquisa brasileira demonstrou.

O estudo de 2026 encontrou inflamação no cólon, alterações na microbiota e modificações em proteínas relacionadas à barreira intestinal de ratos submetidos ao consumo contínuo da goma durante dez semanas. Não avaliou seres humanos, não acompanhou o desenvolvimento de câncer e não encontrou tumores causados pelo ingrediente.

Isso não torna os resultados irrelevantes. A pesquisa reforça que a goma xantana não deve ser considerada uma substância completamente inerte. Ela pode ser fermentada pela microbiota, favorecer a adaptação de determinadas bactérias e produzir efeitos biológicos que variam conforme a dose, o tempo de exposição e o organismo estudado.

A preocupação se torna especialmente pertinente para pessoas com doença celíaca porque produtos sem glúten podem concentrar mais aditivos. Em uma pequena pesquisa com crianças, a goma xantana apareceu, em média, 5,3 vezes por dia na alimentação do grupo celíaco, contra 2,3 exposições entre crianças sem a doença.

O estudo não identificou consequências clínicas, mas demonstra que o consumo pode ser repetitivo e cumulativo.As pesquisas francesas sobre câncer e diabetes tipo 2 também merecem acompanhamento, mas permanecem observacionais. Elas identificaram associações estatísticas entre a exposição estimada a determinados emulsificantes e alguns desfechos de saúde, sem comprovar que a goma xantana tenha causado essas doenças.

No estudo sobre câncer, nenhum dos aditivos avaliados foi associado especificamente ao câncer colorretal.

Da mesma forma, a autorização do ingrediente por FDA, Anvisa, JECFA e EFSA não deve ser interpretada como prova de que qualquer quantidade, frequência ou forma de consumo seja indiferente à saúde. As avaliações regulatórias indicam que os usos autorizados não representaram preocupação com base nos dados disponíveis. Não significam consumo ilimitado nem encerram a necessidade de reavaliação diante de novas evidências.

Para pessoas celíacas, as evidências atuais não sustentam uma recomendação de retirada obrigatória e universal da goma xantana. Sustentam, porém, uma postura mais consciente:

  • verificar se misturas de farinha já contêm goma antes de acrescentar mais;
  • utilizar somente a quantidade necessária;
  • evitar seu uso automático em receitas que não precisam do ingrediente;
  • variar os agentes estruturantes;
  • priorizar alimentos naturalmente sem glúten;
  • reduzir a dependência de ultraprocessados sem glúten;
  • observar possíveis relações entre produtos com várias gomas, fibras e aditivos e o aparecimento de sintomas.

O psyllium pode substituir a goma em diversas formulações, especialmente em pães, desde que a hidratação seja ajustada.

Ele possui evidências clínicas próprias relacionadas ao colesterol e ao controle glicêmico,[18,19] mas ainda não foi comprovado que seja superior para o intestino de pessoas com doença celíaca.

Pessoas que dependem de espessantes por disfagia não devem interromper ou substituir o produto sem orientação profissional. Nesses casos, a capacidade de engolir líquidos e alimentos com segurança pode ser uma questão vital, e qualquer mudança precisa ser discutida com médico, nutricionista e fonoaudiólogo.

Neste momento, a pergunta cientificamente correta não é apenas “a goma xantana causa câncer?”.

A questão que permanece sem resposta é: quais são os efeitos do consumo diário e cumulativo da goma xantana, durante anos, especialmente em pessoas com intestinos mais vulneráveis ou expostas ao ingrediente várias vezes ao dia?

A ciência ainda não respondeu. Até que responda, não há motivo para pânico, mas há fundamento para evitar o uso desnecessário, diversificar a alimentação e acompanhar atentamente as próximas pesquisas.

 

 

Referências científicas e fontes

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